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País perde cada vez mais “cérebros” para o exterior
Posted By Rodrigo Medeiros On 7 dezembro, 2007 @ 8:18 pm In Conjuntura | No Comments
Folha de São Paulo (02/12/2007)
Número dos que receberam visto dos EUA dado a profissionais qualificados cresceu 185%. Em dez anos, quase dobrou a proporção de brasileiros com nível superior vivendo nos países da OCDE, que reúne nações ricas.
Atraídos pela escassez de mão-de-obra qualificada, brasileiros com alto nível de instrução estão, cada vez mais, migrando para Europa e América do Norte. O fenômeno, chamado de fuga de cérebros, fica claro na análise de dois dados:
1) De 1996 a 2006, o número de brasileiros que receberam visto dos Estados Unidos dado somente a profissionais de alta qualificação aumentou 185%. 2) De 1990 a 2000, quase dobrou -de 1,7% para 3,3%- a proporção de brasileiros com nível superior vivendo nos 30 países da OCDE, que reúne, na maioria, nações ricas de Europa, Ásia e América do Norte.
O Brasil não é o único afetado pela tendência. É a Índia o país com maior número de vistos dos EUA para trabalhadores qualificados, mas são nações de pequeno porte -como Guiana, Jamaica ou Haiti- que têm proporção de população com nível superior vivendo em outros países superior a 80%.
Mesmo assim, o aumento da fuga de cérebros do Brasil preocupa e muda o perfil do emigrante. Franklin Goza, professor da Universidade Estadual de Bowling Green (Ohio) que estuda a imigração brasileira para os EUA, afirma que ela está em transição.
“Nos anos 80, a vasta maioria de brasileiros que vinha para cá entrava ilegalmente, tinha baixa qualificação ou eram profissionais que chegavam como turistas, mas acabavam estendendo a estadia e trabalhando sem permissão em empregos não condizentes com sua formação, como professores lavando prato em restaurantes.”
Hoje, no entanto, ele define a migração brasileira para lá como bi-modal. O fluxo de ilegais ainda é grande -no ano passado, os brasileiros perderam apenas para os mexicanos entre os que foram apreendidos na fronteira-, mas cresceu significativamente o número de profissionais em situação legal.
No Brasil, os efeitos também já são identificáveis. Para o demógrafo Eduardo Rios-Neto, presidente da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento, o principal problema é a escassez de recursos humanos de alta qualidade no Brasil e no mundo. “O Brasil fornece talentos para esse mercado global. O ponto é saber se é benéfico ou deletério. Se o trabalhador tiver estudado numa universidade pública, é deletério, pois foi o Estado que subsidiou sua educação. Mas, se a tendência é inexorável, há que se desenhar arranjos institucionais, como retornos periódicos e transferências de tecnologia, para minimizar as perdas.”
O demógrafo, no entanto, enxerga oportunidades: “Há risco de longo prazo de que a classe média seja insuficiente para prover toda a demanda por qualificação do país. Com isso, pela primeira vez a elite empresarial terá de investir na educação popular como prioridade e devido a interesse econômico, e não por altruísmo.”
Europeus e asiáticos acirram disputa com faculdades dos EUA
Brasil é um dos alvos dos estrangeiros na América Latina na busca de novos talentos; bolsa tenta segurar melhores
França e Canadá mantêm agências de informação no país para tentar atrair estudantes e fechar parcerias com universidades
As universidades americanas sempre lideraram com folga a atração de estrangeiros confiando quase que exclusivamente na tradição. Isso, no entanto, está mudando por causa do esforço de países europeus e asiáticos, que também tentam aumentar o número de estrangeiros em seus campi.
Por isso, as instituições de ensino superior dos EUA começam a lançar mão de estratégias que vão desde a elaboração de sites em várias línguas até viagens a outras regiões para conversar diretamente com o seu público-alvo. Em 2006, o governo americano lançou a primeira campanha sobre o seu sistema educacional na televisão chinesa.
“O MIT [Massachusetts Institute of Technology] deseja ter realmente um impacto positivo no mundo e, para isso, precisa dos melhores estudantes de todas as nações. Os estrangeiros já são 40% dos nossos alunos de graduação, admitidos da mesma forma que os cidadãos americanos”, diz Stuart Schmill, diretor de admissão do MIT.
Para quem não pode pagar, o instituto fornece bolsas com recursos da instituição, da doação de empresas, de ex-alunos ou de benfeitores.
A Universidade Princeton também adota uma estratégia pró-ativa. “Organizamos viagens para [procurar talentos em] outros países. No ano passado, participamos de um tour do Conselho de Escolhas Internacionais pela América Latina, visitando as principais universidades de oito nações. No Brasil, estivemos em feiras educacionais de São Paulo, do Rio e de Salvador conversando com os alunos a respeito da universidade e do estudo nos EUA”, comenta Janet Rapelye, pró-reitora de admissão.
Os americanos não são os únicos a mirarem no Brasil. A França, por exemplo, mantém desde 1997 uma agência de informações sobre estudos superiores, o CampusFrance. Com freqüência, são organizados encontros para atrair alunos e universidades dispostas a fazer parcerias com instituições francesas.
O Canadá é outro a manter estrutura semelhante. O Centro de Educação Canadense aposta em feiras de educação como forma de recrutar brasileiros. Um dos argumentos usados para convencer é o fato de estudantes internacionais de nível superior terem permissão para trabalhar até 20 horas por semana por até dois anos após o término do curso.
Numa tentativa de segurar seus melhores quadros, os países que são alvo desse interesse também tentam criar condições para repatriar seus quadros de alta qualificação. Coréia do Sul e Taiwan, por exemplo, criaram programas para recrutar e oferecer a seus melhores quadros salários competitivos, melhores condições de trabalho e ajuda com habitação e educação dos filhos.
No Brasil, uma das estratégias do governo para segurar os melhores quadros foi a criação, neste ano, do Programa Nacional de Pós-Doutorado, que oferece bolsas de R$ 3.300 e recursos de R$ 12.000 anuais para doutores formados nos últimos cinco anos que participem de projetos de pesquisas apresentados ao governo por instituições de ensino superior, centros de pesquisas ou empresas.
Fuga de talentos é fenômeno em países em desenvolvimento
O aumento da migração de trabalhadores mais qualificados vem acontecendo em ritmo superior aos de baixa qualificação em praticamente todos os países em desenvolvimento.
Segundo trabalho dos pesquisadores Devesh Kapur e John McHale para o Centro para o Desenvolvimento Global, dos EUA, o percentual de trabalhadores que emigram é maior e tem aumentado mais na população de nível superior.
No Brasil, por exemplo, a taxa de emigração da população com ensino fundamental ficou estável em 0,1% -de 1990 a 2000. Entre os com nível superior, subiu de 1,7% para 3,3%.
Apesar de efeitos negativos, a fuga de cérebros é lembrada por possíveis benefícios.
O Relatório de Desenvolvimento Humano de 2001 das Nações Unidas estimou em US$ 2 bilhões anuais o prejuízo da Índia com a saída de egressos de seus institutos. Diz, por outro lado, que eles serviram para melhorar a imagem da Índia no mercado internacional.
Profissional “exilado” fala em dificuldades para voltar
Há 14 anos em Nova York, socióloga diz não ver condições para viver no Brasil agora
“Preciso viajar bastante para fazer trabalhos de campo, e, no Brasil, não conseguiria reunir recursos para isso”, afirma
A socióloga Adriana Abdenur, 32, pensa muito em retornar ao Rio de Janeiro, onde vive sua família, mas não vê condições profissionais para isso. “Eu teria que alterar a minha linha de pesquisa”, explica. Ela não tem idéia de quando será possível realizar o desejo de voltar ao país.
Já faz 14 anos que Adriana mora nos EUA, onde conseguiu uma bolsa da prestigiosa Universidade Harvard para a graduação na área de ciência política. Depois, a socióloga fez mestrado em Columbia.
Atualmente, ela é professora da Universidade New School, em Nova York, e dedica-se no pós-doutorado a uma pesquisa sobre cidades do Brasil, África do Sul, Índia e China.
“Preciso viajar bastante para fazer trabalhos de campo, e, no Brasil, não conseguiria reunir recursos para isso. Não há no país financiamento suficiente para pesquisa, sobretudo na minha área.”
Ironia
Outro problema é a organização e disponibilidade de materiais e documentos. “Concluí um livro sobre políticas urbanas em várias regiões do país. Ironicamente, aqui nos EUA consegui fazer uma investigação muito melhor sobre o Brasil do que teria sido possível lá [no Brasil].”
O físico Diego Vaz Bevilaqua, 31, também foi parar em Harvard, onde fez pós-doutorado, mas acabou voltando ao país. Ele conta que, desde o início, seu objetivo era voltar, mas acabou estendendo sua estadia nos Estados Unidos por mais dois anos -ia ficar originalmente apenas um- graças a uma ajuda da universidade.
Na avaliação de Bevilaqua, a decisão de brasileiros de permanecerem no exterior é muito mais uma conseqüência das melhores condições de trabalho e pesquisa do que fruto de uma possível estratégia dos países em não deixar que os estudantes voltem para seus países de origem.
No Brasil
Já o administrador Matheus Schmidt, 25, foi procurar na França uma oportunidade que lhe abrisse as portas do mercado de trabalho europeu e brasileiro ao mesmo tempo. Graças a um convênio da USP com a Escola de Administração Euromed Marseille, ele ficou um ano fora e voltou ao Brasil para concluir o curso que lhe permitiu ter um diploma válido na Europa e aqui.
“Meu planejamento de curto prazo é ficar no Brasil, mas fico sempre de olho em oportunidades por lá também. A qualidade de vida que se tem na França é muito boa e é grande a demanda por profissionais recém-formados em algumas áreas. Se pintar uma chance, meu diploma duplo me permite”, diz Schmidt.
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[1] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[2] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[3] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[4] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[5] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
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