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LOTERIA GENÉTICA: Feliz Natal para quem?

Posted By NOSSOS AUTORES On 23 dezembro, 2007 @ 9:36 am In Paulo Metri,Política Brasileira,Política Social | No Comments

Paulo Metri* 

Caros amigos e amigas

Meu presente de Natal para vocês é o texto “Loteria genética” que está a seguir. Mas, antes da leitura, são necessárias algumas poucas explicações. A expressão “loteria genética” foi utilizada, pela primeira vez, que eu saiba, pelo Frei Betto.

Esta amostra hipotética da sociedade brasileira teria se constituído de mais de 2.000 pessoas pesquisadas, aqui chamadas de “experimentos”. São mostradas, a seguir, somente as sínteses das entrevistas com os 20 primeiros “experimentos”, porque a miséria se repete, sistematicamente.

No entanto, os “experimentos” de números 182 e 478 são exceções, como pode ser observado nas sínteses das suas entrevistas, mostradas também a seguir.

Felicidades,

Paulo Metri *

Loteria Genética

Experimento no 1, natimorto, sexo masculino, branco, ao nascer tinha o cordão umbilical enrolado no pescoço, sua mãe não tinha feito pré-natal, a maternidade pública não tinha médico na hora.

Experimento no 2, 5 anos, garoto, preto, mora na favela do Dendê, sua mãe é diarista, fica na casa da vizinha, que não o trata bem, enquanto sua mãe trabalha, sente muita dor de cabeça pois tem fome, não sabe ainda se expressar.

Experimento no 3, 52 anos, homem, mulato, mora em Natividade, analfabeto, foi bóia fria, hoje, mendiga pela cidade, que não tem muitos “dadantes”, como costuma dizer, tem fome.

Experimento no 4, 20 anos, mulher, branca, nordestina, casada com um porteiro em Copacabana, tem dois filhos, mora em um cômodo com banheiro e cozinha, é feliz porque não tem que fazer roça, mas sonha em voltar para o Nordeste.

Experimento no 5, 14 anos, adolescente, preta, mora na cidade de Deus, acabou de ser violentada por um traficante, não conta para ninguém pois não adianta, parou de estudar por medo, o estuprador disse que ela ia ser uma de suas mulheres.

Experimento no 6, 48 anos, homem, preto, mora no São Carlos, analfabeto, faz biscates como bombeiro, o dono de uma loja de ferragem no Andaraí o indica, tem dia que ganha até R$ 60, bebe muito, não sabe onde estão os filhos.

Experimento no 7, 39 anos, mulher, branca, separada do marido, três filhos, funcionária publica, quer vender comida congelada para aumentar a renda, mas o fogão é pequeno e não tem freezer, adora novelas.

Experimento no 8, 32 anos, mulher, preta, prostituta, faz ponto na avenida das Américas, “Deus me ajudou”, segundo fala, “esse meu corpo atrai muito cliente”, vive numa favela ao lado da lagoa de Marapendi.

Experimento no 9, 25 anos, homem, mulato, mora no Salgueiro, sua mãe é doente e precisa de muitos remédios, não conhece o pai, é motoboy, seu dinheiro não dá, foi chamado para participar de um assalto, que resolverá o problema de dinheiro.

Experimento no 10, 19 anos, homem, branco, mora no Borel, semi-analfabeto, controlador do tráfico, gosta de andar com seu AR 15 e o tênis Nike, a vida se resume em lutar pela continuação da existência e fazer sexo. Sabe que morrerá cedo.

Experimento no 11, 20 anos, homem, branco, nordestino, trabalha e mora em uma obra no Recreio, aos sábados vai para o forró do lado de fora da feira de São Cristovão, onde chegou a arrumar uma quenga, quer voltar para o Nordeste.

Experimento no 12, 17 anos, mulher, mulata, mora no Pavão-Pavãozinho, dança nos bailes funks do morro, gosta de causar ciúmes no seu namorado, um dos bandidos do morro, que manda olheiros a fiscalizar, transa com qualquer um.

Experimento no 13, 25 anos, homem, preto, mora de favor em Brás de Pina, semi-analfabeto, desempregado, trabalhou um mês e ganhou R$ 480, bebe cachaça, o dinheiro foi embora rápido, diz que tem uma coroa que quer lhe dar vida boa.

Experimento no 14, 34 anos, mas aparenta ter 60 anos, mulher, branca, separada do marido, dois filhos, mora em Japeri, diarista, adora assistir novela enquanto faz os serviços de casa de noite, vive cansada.

Experimento no 15, 69 anos, mulher, branca, viúva, vive com um filho, tem artrite nas mãos que são todas deformadas, o marido morreu cedo na cadeia, criou esse filho com muito esforço, que é seu orgulho.

Experimento no 16, 32 anos, homem, branco, gay, ocupa cargo de nível médio, recentemente assumiu sua opção sexual e tem sentido certa “perda de confiança”, estudou pouco, acha que os gays só são respeitados se ligados à arte ou têm estudo.

Experimento no 17, 29 anos, homem, mulato, dorme, às vezes, no barraco de uma companheira no Catumbi, desempregado, pouca instrução, já esteve preso, não quer mais assaltar, mas o dono do armazém não quer vender mais fiado.

Experimento no 18, 37 anos, homem, branco, mora em Vilar dos Teles, analfabeto funcional, desempregado, lê o caderno de empregos do jornal, vai para a fila dos desempregados da Secretaria de Governo, mas não consegue, sente muita fome.

Experimento no 19, 22 anos, homem, branco, drogado, rouba carros para traficante que lhe paga com droga, é soro positivo, não quer se internar porque acha que não sairá nunca mais de lá, tem inveja de quem tem vida.

Experimento no 20, 10 anos, garota, morena, vive nas ruas, junto com outros garotos, assaltam turistas e velhos, deixam parte do roubo com o adulto que lhes extorque, uma vez, um cara parou o carro e lhe prometeu brinquedos para ela entrar.

(…)

Experimento no 182, 54 anos, homem, branco, não faltou leite na idade crítica, quando criança, estudou em bons colégios, economista, extremamente capaz na sua área, bem remunerado na estatal onde é funcionário, por seus méritos, acha que, se as pessoas se esforçarem, há oportunidade para todos, acha que os solidários são, na verdade, incompetentes, a questão da justiça social é reclamação dos preguiçosos.

(…)

Experimento no 478, 42 anos, homem, branco, tem um atestado que chorou logo depois que nasceu, teve boa educação, sobressaiu-se nas escolas que freqüentou, fez um mestrado na COPPEAD e pretende seguir para o doutoramento, acredita no empreendedorismo e no capitalismo como a forma de organização econômica que melhor satisfaz a sociedade, porque os homens são naturalmente competitivos, classifica os seres humanos em: os vitoriosos e os perdedores, acha estupendo o programa de privatizações do governo FHC, todo e qualquer sindicalista é um preguiçoso, segundo ele, quando não é mau caráter, Sarkosy é seu ídolo, hoje.

* Paulo Metri: Engenheiro mecânico, mestre em engenharia industrial, há mais de trinta anos trabalha na área de energia, conselheiro do Clube de Engenharia e da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros, um dos autores de ‘Brasil à luz do apagão’ e de ‘Nem todo o petróleo é nosso’, diretor-geral do Instituto Solidariedade Brasil.” Meus Artigos [1]


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[1] Meus Artigos: http://desempregozero.org/category/todos-nossos-autores/paulo-metri/

[2] Réquiem para o petróleo nacional: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/08/requiem-para-o-petroleo-nacional/

[3] Agências reguladoras: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/08/agencias-reguladoras/

[4] Tirando a máscara: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tirando-a-mascara/

[5] Pensar e debater para mudar: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/10/pensar-e-debater-para-mudar/

[6] Casa de mãe Joana: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/10/330/

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