Frei Cappio, VAMOS TER UMA CONVERSA SOBRE A TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO ?
Escrito por Gustavo, postado em 17 dEurope/London dezembro dEurope/London 2007
* Gustavo Antônio Galvão dos Santos
Paulo Metri muito lucidamente nos alertou no artigo: O QUE FAZER EM RELAÇÃO AO FREI CAPPIO ?? sobre a urgência imposta pela ação do Frei. Paulo está certíssimo, o momento agora é de parar tudo e chamar o Frei para uma conversa para terminar a greve de fome. A prioridade agora deve ser a vida do Frei. O Frei quer debater mais sobre a obra? Que se debata mais. Mas é necessário lembrar um fato. Nunca uma obra foi tão debatida em toda nossa história. Há mais de 100 anos que ela é debatida. Nos últimos anos o Ministério da Integração abriu debates públicos em todos os estados envolvidos. A obra é discutida na imprensa e na academia com bastante polêmica desde o governo FHC.O Frei já fez uma outra greve de fome contra a obra. Aí a obra parou, o presidente o convidou para conversar, toda a imprensa se abriu para ouvi-lo. Agora novamente acontece o mesmo. Os artigos e as notas que o Frei e a CNBB escreveram contra a obra foram publicados nos maiores jornais. Quer mais espaço para debate do que esse?
Há questões muito mais importantes que a imprensa praticamente não toca. Um bom exemplo é a lei do Petróleo instituída pelo governo FHC. Essa lei ficou totalmente inapropriada com o barril se aproximando de 100 dólares e ainda mais com o Brasil se tornando um grande dono de reservas. (clique aqui para ler sobre isso). Por que a imprensa não discute assuntos como esse com a importância devida?
Por que o tratamento privilegiado ao São Francisco e ao Frei?
Porque os Donos do Poder são CONTRA a transposição do São Francisco. Assim como a maioria dos brasileiros, talvez até por influência da imprensa e pelo pouco acesso aos argumentos favoráveis à obra.
Tenho certeza que no mínimo 80% dos brasileiros é contra essa obra. A esquerda é contra a obra. A direita é contra a obra (DEM e PSDB sempre se declaram contra). Os banqueiros são contra a obra porque “gasta” superávit primário. Os ecologistas são contra a obra. A igreja é contra a obra. Os governadores dos estados que fornecem a água do São Francisco são contra a obra. A imprensa é contra essa obra. Os coronéis do Nordeste são na grande maioria contra essa obra.
Quando uma unidade entre grupos tão diversos se forma, é recomendável seguir os “conselhos” de Nelson Rodrigues. Abrir o olho para as unanimidades.
Agora, se a obra for realmente debatida, o que é super louvável e de interesse do governo, veremos que ela é uma obra necessária.
Não é apenas necessária. Ela é barata e ecologicamente positiva. É uma obra cujo impacto ambiental é mínimo ou mesmo favorável. E ela em si não afeta de fato as populações ribeirinhas.
A quantidade de água que será retirada do rio entre 1,5% e 3% está dentro do sustentável. Mas uma coisa ninguém diz. Com ou sem transposição essa água acabará sendo retirada do Rio São Francisco de qualquer jeito. Porque existe uma grande fila de projetos de irrigação em Minas, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas só esperando que o a transposição não vá para frente para poderem captar mais água do São Francisco e de seu afluentes. Como é sustentável retirar de 1,5% a 3% da água, esses projetos acabarão captando a água de um jeito ou de outro. Como são projetos esparsos e não tão vistosos, o Frei Cappio não conseguirá e nem mesmo se disporá a detê-los.
Mas aí é que está a grande questão! Se a água acabará sendo retirada do mesmo jeito, onde é o melhor local para empregá-la? Os estudos indicam que o melhor local é no Nordeste Setentrional, onde existe uma enorme rede de açudes que, se interligada às represas do São Francisco, poderá multiplicar por quase 3 vezes o potencial de irrigação do Rio São Francisco. Além disso, a população atendida no Nordeste Setentrional poderá ser muito maior do que aquela potencialmente atendida no próprio Vale do São Francisco. O mesmo acontece com a capacidade de alimentar atividades econômicas com maior capacidade de gerar valor agregado e empregos.
A questão não é se a água será retirada, mas para onde ela irá! Por isso os estados doadores de água são contrários à obra. Não é por causa das “populações ribeirinhas” ou do meio ambiente. Esses estão seguros e sofrerão o (pequeno) impacto de um jeito ou de outro.
Como no Nordeste Setentrional (1) a água poderá ser multiplicada em decorrência da rede de açudes e como lá (2) pode-se gerar mais empregos por volume de água lá é o local mais adequado para se levar a água.
Lá se gera muito mais empregos. Portanto, lá se poderá obter o melhor resultado sobre o meio ambiente. Porque são os nordestinos expulsos pela seca e pela pobreza o principal “insumo barato” das motoserras que ceifam a Amazônia. Porque os projetos de irrigação à beira do Rio São Francisco são prejudiciais ao frágil, pequeno e maravilhoso ecossistema de matas ciliares e áreas pantanosas do entorno do Rio. No entorno do Rio São Francisco existem muitas regiões pantanosas ainda intocáveis que preservam uma vegetação e uma fauna muito rica. Esse ecossistema será destruído sempre que se trouxer projetos de irrigação para sua proximidade. Porque esses projetos desmatam a região, trazem pesticidades, poluem o lençol freático e geram um imenso e descontrolado crescimento da área urbana e da área cultivada.
Sabemos que o sertanejo é um migrante por natureza. Onde houver oportunidades de emprego ele buscará. E os projetos de irrigação atraem milhares de pessoas. Podemos comprovar isso pelo crescimento explosivo e descontrolado de Petrolina e Juazeiro nos últimos 30 anos em decorrência dos projetos de irrigação feitos por lá. Isso sim é muito nocivo ao meio ambiente! O projeto de Transposição é diferente, é muito mais racional e menos prejudicial ao ambiente. Ao invés de trazer migração descontrolada para a beira de áreas naturais ou mesmo virgens do Rio, leva a água para onde já estão as pessoas e onde o ambiente já foi transformado pelo homem. É muito mais racional, barato e ecológico transportar água do que pessoas, infra-estrutura urbana, infra-estrutura de transporte, casas e desmatamento.
No artigo cujo link segue abaixo selecionei alguns argumentos favoráveis à obra exatamente para iniciar um debate e que se veja o outro lado da questão, que a imprensa esconde:
A mais IMPORTANTE obra da nossa HISTÓRIA: TRANSPOSIÇÃO do Rio SÃO FRANCISCO: prós e contras
Se houver de fato um debate, acredito que as pessoas entenderão que a obra é necessária técnica, social, política e economicamente.
Mas se as obras recomeçarem e se o Frei Cappio voltar a fazer greve de fome? O que fazer? Ele tem o direito de barrar unilateralmente uma decisão correta de um Governo eleito por vias democráticas e que está agindo conforme o Estado de Direito?
O Governo Lula acumulou incontáveis erros, principalmente no primeiro mandato. Juros estratosféricos, nenhum gasto em infra-estrutura, conivência com medidas favoráveis ao setor financeiro, baixo crescimento, baixa geração de empregos, etc. Mas não erra em tudo. Houve também acertos. Um deles é a Transposição do São Francisco. Outro era a prorrogação da CPMF.
É preciso ter claro que a imprensa, desde 2005, se esforça para infligir uma derrota ao governo. Em 2006, ela viu que não poderia mais decidir as eleições. E ficou preocupada com a perda de poder. Nos últimos meses, a imprensa apoiou majoritariamente o fim da CPMF. Apesar desse ser um dos impostos mais justos e racionais do país. O ataque não se deu a partir do interesse público. Porque esse seria melhor atendido pela manutenção do imposto.
Mas de tanto bater consegui. Derrubou o governo. As manchetes no outro dia foram: “Governo Sofre sua Maior Derrota”. Para eles era isso que estava em jogo. Mas para o povo?
Acabaram com a CPMF. Um imposto que era fundamental para o povo, por gerar dezenas de bilhões de reais para a saúde pública e para a educação e que era uma das principais armas de combate à sonegação aos crimes financeiros. A imprensa conseguiu deixar a maioria da opinião pública contra o imposto, porque colocou a questão da seguinte forma:
Você, cidadão, quer que continue existindo esse imposto que lhe “rouba” alguns reais por mês para alimentar a corrupção e o desperdício de recursos públicos?
A resposta negativa já estava embutida na pergunta.
A pergunta que a imprensa faz agora é:
Você, cidadão, é favorável à utilização de recursos públicos para DESTRUIR o Rio São Francisco?
Querem assim vetar a obra da Transposição, visando apenas reforçar a idéia de que têm poder suficiente para ditar os caminhos do país. Mas não tiram os olhos também das eleições de 2010. E Frei Cappio é o álibi perfeito para o crime de tolher o debate e manipular opiniões. Um homem de Deus sem interesses econômicos e políticos…
Que se debata a Transposição, mas NÃO APENAS via shows pirotécnicos e greves de fome televisionadas.
Que se debata a Transposição PRINCIPALMENTE nos ambientes democráticos e técnicos adequados. No congresso nacional, nas assembléias, em debates públicos agendados e na academia.
Frei Cappio quer debater o melhor para o povo nordestino ou quer ser o obstáculo a impedir a obra? Não é nada mal ser o Mártir do São Francisco…
Não é o momento para mártires. É o momento para uma conversa democrática e racional.
E, se depois de mais essa rodada de debate, o país achar que é melhor fazer a obra? Frei Cappio vai voltar a fazer greve de fome?
O que fazer nesse caso?
* Doutor em economia UFRJ











17 dEurope/London dezembro, 2007 as 5:15 pm
Imagina se o presidente da República tiver que parar de governar cada vez que um doido cismar de parar de comer.
O problema é que o sistema já achou que está de bom tamanho o Lula ganhar (duas vezes) a eleição. Mas, daí a também querer governar, para eles já é demais.
Toda vez que algum grupo é contra uma obra, uliliza-se desse argumento cretino de que “não houve discussão suficiente”.
FHC discutiu com a sociedade sobre as privatizações? Claro que não! Ele ganhou a eleição e o Congresso votou a favor. Se algum sindicalista tivesse feito greve de fome não teria um décimo da atenção que esse padre está tendo.
17 dEurope/London dezembro, 2007 as 9:04 pm
José Márcio,
concordo com você. Há dois pesos e duas medidas nessa história com relação à imprensa. E greve de fome é uma medida extrema que deve ser usada em ditaduras ou ao menos em casos de vida ou morte ou situações extremas como o salvamento de um ecossistema ou de uma cultura milenar. Mas o projeto de Transposição praticamente não tem impacto líquido sobre o meio ambiente, pois a água será retirada do mesmo jeito, como expliquei no artigo. e não tem nenhum impacto sobre as população ribeirinhas ou indígenas, pois praticamente não vai reduzir a vazão do Rio e não tem alagamento de terras.
Gustavo
18 dEurope/London dezembro, 2007 as 7:44 am
Tem razão Gustavo.
Maioria da sociedade desconhece completamente o tema. Aliás , é pior ! è contra sem conhecer. eu mesmo não conhecia detalhes deste projeto. Achava que seria ruim para o meio ambiente.
abraços e parabéns pelo texto.
Yuri
19 dEurope/London dezembro, 2007 as 3:31 pm
Yuri, muito obrigado pela força!!
de fato as pessoas desconhecem o projeto e a imprensa não faz nenhuma questão de esclarecer…
neste link temos um resumo técnico muito interessante:
http://desempregozero.org/2007/12/18/resumo-sobre-o-projeto-de-transposicao/
abraços
Gustavo
20 dEurope/London dezembro, 2007 as 12:27 pm
Gustavo
Certamente trata-se de uma obra polêmica. Se não estou enganado, desde os tempos de D. Pedro II já se fala nisso. Não somos contra o progresso sócio-econômico da região. O problema é que há questões ambientais envolvidas. Claro que grandes interesses também. Não sei, por exemplo, se o São Francisco “suporta” a obra em questão.
Parece-me que o mesmo foi muito castigado historicamente. Creio que até o presidente Lula falou nisso quando estava em campanha. Gostaria de saber se o projeto leva em consideração a regulação da vazão do rio e como a obra impacta nessa questão.
Norte e Nordeste precisam se desenvolver. A sustentabilidade sócio-ambiental não pode ser negligenciada. Sei que existem soluções tecnológicas menos onerosas do que a transposição. No entanto, reconheço que se trata de uma obra estruturante para a região.
Um abraço,
Rodrigo Loureiro Medeiros, D.Sc.
20 dEurope/London dezembro, 2007 as 3:43 pm
Rodrido, meu amigo,
como eu disse no artigo, a obra não tem impacto negativo sobre o meio ambiente. o impacto é positivo, ela é boa para o meio ambiente. primeiro porque esse volume de água será tirada de qualquer jeito, pois existe uma grande fila de projetos de irrigação esperando a transposição ser cancelada para darem continuidade. segundo porque é mais nocivo ao meio ambiente levar a água para regiões já ocupadas do que desmatar novas áreas na beira do rio (onde o ecosistema é proporcionalmente mais destroído e mais rico). Terceiro porque a transposição gera mais empregos do que os projetos na beira do rio, pois ela permite otimizar e reduzir os desperdícios nos açudes do nordeste sententrional. portanto, significa menos emigração de nordestinos para ocupar outros lugares (não ocupados) e para desmatar a amazônia.
abraços,
Gustavo
20 dEurope/London dezembro, 2007 as 5:33 pm
Gustavo
Só busquei saber se de fato os devidos cuidados estão sendo tomados quanto à questão que levantei. Vi que você tocou nesta questão no artigo. Creio que ela é de extrema relevância para a sustentabilidade sócio-ambiental do projeto.
O presidente Lula, que já foi radicalmente contra a CPMF em outros tempos, disse na campanha de 2002 que a transposição do São Francisco demandaria cuidados ambientais adicionais. Sou favorável ao desenvolvimento das regiões Nordeste e Norte. Apenas penso que o paradigma de desenvolvimento deve estar adequado ao momento que vivemos no século XXI. Não devemos perseguir o mero processamento dos clássicos fatores de produção, sem levar em conta as conseqüências sócio-ambientais. Até mesmo a China está revendo seu modelo de desenvolvimento.
Não tenho nada contra o projeto da transposição, caso o mesmo contemple essas questões que levantei. Se a Transnordestina decolar, ou seja, caso o governo federal consiga executar a totalidade da obra, haverá certamente possibilidades de transformação estrutural naquelas duas regiões.
O amigo pode ficar tranqüilo, pois estamos juntos na luta democrática por um Brasil melhor. Debates construtivos são sempre bem-vindos porque nos ajudam a compreender a complexidade dos fenômenos que vivemos.
Um abraço,
Rodrigo Loureiro Medeiros, D.Sc.
21 dEurope/London dezembro, 2007 as 10:22 am
Prezado Rodrigo,
Apenas para ajudar no debate: Alguém que falou aí sobre a regulação da vazão do rio…
A vazão já é regulada após Sobradinho em 1850m3/s! Faça chuva ou faça sol para fins de geração elétrica nas usinas rio abaixo.
Se for a respeito de uma adução na vazão do Velho Chico, pré Sobradinho, há um estudo de um geólogo Alagoano da UFAL que mostra que é possível se aduzir adicionais 260m3/s fazendo-se uma espécie de interligação de bacias entre o Tocantins e o Velho Chico lá na Lagoa do Varedão(Formosa do RioPreto-BA), que trazendo água através dos rios Sono, Sapão e Grande vão desaguar diretinho na cidade de Barra-BA ( a terra do bispo).
Interessante né? ( busquem na Web).
Nem precisa mais estar chovendo nas nascentes da Serra da Canastra para que um volume 10 vezes maior do que o que será aduzido para os canais de integração do nordeste setentrional (26m3/s ) seja adicionado no leito do Velho Chico.
Que beleza né?! E ainda tira a bandeira deste bando de urubús do progresso do nordeste!