Capitalismo familiar e desenvolvimento nacional: tradição x modernidade?
Escrito por Rodrigo Medeiros, postado em 4 dEurope/London dezembro dEurope/London 2007
Rodrigo Loureiro Medeiros*
Famílias controlam de 60% a 90% do total das empresas no mundo. Dois terços do Produto Nacional Bruto e dos empregos em diversos países são administrados pelas mesmas. A lista da Fortune 500 revela que um terço das quinhentas maiores empresas eram controladas por famílias ao longo da década de 1990. Seu desempenho médio foi superior ao das concorrentes não-familiares.
Estranho silêncio quanto a essa temática presencia-se no Brasil. O livro Dinastias (Rio de Janeiro: Elsevier, 2007), do renomado professor David Landes, representa uma oportunidade de se retomar o debate do desenvolvimento nacional, em alto nível, a partir de uma perspectiva considerada “fora de moda”. Pode-se seguramente dizer que os adeptos do neoliberalismo deverão reagir. Sua concepção ideológica da impessoalidade das relações nos mercados seria seriamente abalada. A mão visível das relações sociológicas, por sua vez, dificilmente poderia ser descrita por modelos abstracionistas de uma suposta economia matemática.
Modelos certamente ajudam os analistas na compreensão de fenômenos complexos. O problema se encontra em uma ideologia que busca mascarar interesses hegemônicos a partir da alegação da cientificidade positivista dos mesmos. Problemas econômicos integram o escopo de estudos das ciências sociais, um campo frequentemente capaz de desafiar os modelos matemáticos. Além do mais, sabe-se que todos os paradigmas têm suas limitações, inclusive o das ciências ditas da natureza. Insatisfações quanto à explicação dos fenômenos costumam provocar mudanças estruturais nos paradigmas científicos. Os ideólogos neoliberais, representantes da vulgarização da teoria neoclássica, são resistentes à realidade.
Talvez seja esse um momento interessante para o Brasil e a América do Sul. Após o desastre das receitas provenientes do Consenso de Washington (1989), pode-se seguramente afirmar que a onda de destruição não-criadora do neoliberalismo precisa arrumar os seus culpados. Responsabilizou-se à população pelo fracasso das políticas importadas e adaptadas às conveniências de segmentos das elites econômicas e políticas locais. A crença de que a transplantação de modelos é profícua ainda se manifesta na mentalidade hegemônica da região. Segundo a concepção hegemônica, o problema reside no povo atrasado que não se mostra cooperativo. Tudo deve mudar para que não haja efetivamente transformações estruturais e democráticas na ordem social. Promessas não cumpridas e nova socialização dos prejuízos.
O livro Dinastias do historiador econômico David Landes, professor emérito de Harvard, representa uma valiosa contribuição para se refletir sobre as relações pessoais no sistema capitalista. Nesse sentido, há uma relativa convergência com os escritos de Thorstein Bunde Veblen e John Kenneth Galbraith. As empresas familiares precisam ser mais bem avaliadas em cada contexto, pois muito do seu comportamento não se baliza pela visão impessoal das relações nos mercados. Seu grau de entrelaçamento com os interesses públicos merece um olhar mais atento. Landes analisa uma série de casos: Rothschild; Morgan; Ford; Agnelli; Toyoda; Renault; Rockefeller, entre outros. O casamento de interesses público-privados, a engenhosidade do capitalista e a roda da fortuna ajudam a explicar os distintos sucessos empresariais.
Ao crescerem e se diversificarem, as empresas familiares apelam para estruturas profissionalmente gerenciadas. O conselho de administração torna-se então o lócus do controle familiar dos negócios, liberando-a para exercer funções mais nobres. Consumo conspícuo e obras de caridade são marcas de muitas dinastias. Fundações filantrópicas, apoio financeiro a pesquisas científicas e a geração de bens públicos são exemplos de atividades que ajudam a limpar o nome das famílias manchadas com episódios traumáticos do ponto de vista social. Repressões violentas aos trabalhadores, por exemplo, são episódios muito comuns na história dos grandes empreendimentos capitalistas. Sem aderir a um ataque maniqueísta aos barões ladrões do capitalismo, Landes evidencia como o sucesso na economia de mercado requer boa dose de sagacidade dos empreendedores. Bons relacionamentos e o comportamento oportunista dos agentes econômicos integram seu quadro analítico.
Para a América ibérica, Landes recomenda algo que causaria espanto aos neoliberais locais: “esses povos precisam de capitalismo familiar” (p.xvi). Não se trata de propor uma solução organizacional econômica pela tradição em contraposição ao mecanismo de mercado, o que seria certamente causador de inércia. A perspectiva implicitamente adotada é evolucionária. Os mercados são construtos sócio-técnicos, pois os mesmos requerem a periódica co-evolução de tecnologias sociais (métodos de organização do trabalho) e físicas (bens de capital) para que o trabalho possa ser estruturado, reproduzido e o excedente econômico gerado.
Os mercados norte-americanos de massa dificilmente teriam emergido sem o gênio visionário de Henry Ford. Tecnologia de organização social do trabalho e novas máquinas-ferramentas para a produção integravam o paradigma fordista. Eram tempos em que a integração vertical dos negócios reduzia os custos de transação para as firmas. Debates no Congresso norte-americano, por sua vez, questionavam o poder de mercado exercido pelos agentes financeiros. O Federal Reserve System seria criado em dezembro de 1913. Desde então se reconhece naquele país que o excessivo poder dos agentes financeiros pode se tornar uma arma potencial contra a democracia política. Com o progressivo alargamento dos mercados nacionais e internacionais, a reestruturação da divisão do trabalho permite uma série de renovados ganhos de eficiência e produtividade. Novos empreendedores emergem.
Ao longo da segunda metade do século XX, o sistema Toyota de produção superaria gradualmente o paradigma elaborado por Ford. Um novo arranjo produtivo denominado keiretsu amarraria, pela participação acionária cruzada, interesses duradouros na indústria japonesa. Tal fato, por sua vez, facilitaria a coordenação de complexos processos entre organizações distintas. Estruturas do Estado japonês, com destaque para o Ministério de Indústria e Comércio Exterior (MITI), desempenhariam também um papel-chave. O caráter cumulativo do processo de geração das competências técnicas nacionais, incluindo sua socialização, não pode ser desprezado no desenvolvimento dos países.
Mas por que começar negócios pelas famílias? Landes sugere que a vinculação social é capaz de estruturar interesses econômicos melhor do que os mercados sob a realidade da concorrência imperfeita. Os dados expostos pelo autor saltam aos olhos de um adepto da heterodoxia econômica. Em 2003, o retorno médio das empresas familiares norte-americanas foi de 15,6%, contra 11,2% das empresas não-familiares, sendo respectivamente o crescimento anual dos rendimentos 23,4% contra 10,8%. Relacionamentos estruturados por gerações passadas tendem a ajudar o desempenho presente das dinastias. O presidente George W. Bush, oriundo da poderosa indústria do petróleo, comprova tal processo. Não há, entretanto, garantias de sucesso na continuidade dinástica. Segundo Landes, “a hereditariedade sozinha, afinal, não é garantia de competência” (p.285). A incorporação de novos associados é estratégica. Casamentos, constituição de novas firmas e financiamentos de campanhas políticas, por exemplo, estruturam novos laços de cooperação. Contatos e informações privilegiadas fazem diferenças na arena econômica. Uma rígida fronteira entre Estado e mercado é muito problematizável quando se analisa a diversidade das realidades vivenciadas pelas distintas sociedades organizadas. Negócios exitosos dificilmente se adequaram à pureza teórica da economia liberal.
As assimetrias do processo de mundialização econômica exigem uma postura menos preconceituosa quanto aos empreendimentos familiares. Em um contexto global de tantas desigualdades, as formas mais antigas de equacionamento dos graves problemas econômicos se apóiam na confiança e no afeto familiar. Novos e aprofundados estudos brasileiros poderiam contribuir para a busca de arranjos produtivos locais baseados nas empresas familiares. Programas de qualificação técnica e crédito estimulariam a emergência de empreendedores. Vantagens comparativas deveriam ser utilizadas como um dos critérios técnicos de estruturação inicial dos arranjos. Instâncias como o Sebrae, o BNDES, a FINEP, o Banco do Brasil poderiam trabalhar em consonância.
Se a intenção é acelerar o crescimento econômico brasileiro, poder-se-ia pensar no capitalismo familiar como uma plataforma de sustentação dos programas locais para que interesses fossem estruturados nas áreas deprimidas. Menos ênfase no programa bolsa família e mais crédito e qualificação profissional para a produção nacional. Uma gestão mais progressista do Banco Central do Brasil certamente ajudaria muito.
Relações de poder estão imersas em qualquer sistema econômico. Debater o processo de desenvolvimento equitativo das sociedades, o que inclui seletivas e periódicas intervenções estatais nos mercados, é uma questão política, não uma discussão meramente tecnicista. As propostas de darwinismo social dificilmente levarão o Brasil a se tornar uma sociedade mais equitativa, desenvolvida e democrática. Sem ousadia e uma visão de futuro catalisadora de ações que possa criar mobilização e convergências de interesses na sua fragmentada sociedade, dificilmente o Brasil superará o vôo de galinha estruturado pela economia política vigente.
*Pesquisador associado à Cátedra e Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável, Reggen/Unesco, e membro da rede Economists for Full Employment / The Levy Economics Institute of Bard College.
E-mail: medrodrigo@gmail.com










