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O PIB potencial não é o problema

Posted By Imprensa On 1 novembro, 2007 @ 3:45 pm In Conjuntura,Matías Vernengo | 9 Comments

Matías Vernengo

Por muito tempo, possivelmente devido à alta inflação, alguns conceitos da teoria macroeconômica tradicional eram considerados irrelevantes no Brasil.  Por exemplo, nos anos 80 economistas da PUC do Rio mostraram que a curva de Phillips não tinha relevância nos trópicos.  Um inesperado efeito negativo da estabilização é o crescente uso de conceitos da sabedoria convencional, que em geral, são perniciosos e dificultam a compreensão dos nossos problemas, em lugar de clarificar.  Esse é o caso da redescoberta do Produto Interno Bruto (PIB) potencial.

O PIB potencial mede a capacidade máxima de crescimento da economia.  Se a economia crescer além do PIB potencial pressões inflacionárias aparecerão imediatamente.  Sérgio Werlang [1], em artigo recente no Valor Econômico, argumenta que, de acordo com uma pesquisa do Banco Itaú, a tendência de expansão do PIB passou de 1,9%, entre 1996 e 2002, para 3,9%, a partir do final de 2002.  Na última Conjuntura Econômica [2] dois cenários extremos são propostos para calcular o PIB potencial.  No cenário otimista, o crescimento do PIB potencial seria de 4,6% em 2008 e chegaria a 5,4% em 2015.  No cenário pessimista, a taxa de crescimento do PIB potencial se manteria em torno de 3,5%, de 2008 a 2015.

Não cabe aqui uma discussão dos vários métodos usados para calcular essa variável (todas problemáticas uma vez que ela não é observável no mundo real).  Aqui, por simplicidade, um filtro é usado (Hodrick-Prescott), uma prática comum, por sinal.  Os resultados indicam que dos anos 80 para cá a taxa potencial teria caído, e que, de fato, ela estaria aumentando.  De 1947 até 1981 o PIB potencial era de 7,2%, enquanto de lá para cá caiu para 2,5%.  De fato, o gráfico mostra uma tendência de crescimento desde o fim da recessão do governo Collor.  Contudo, haveria que refletir com cuidado sobre qual é o significado deste tipo de resultado.

Figura 1

 

pib-potencial.jpg [3]

O que os resultados sugerem é que o PIB potencial é variável, como de resto seria sua contrapartida no mercado de trabalho, a chamada taxa natural de desemprego.  Esse é um resultado aceito no caso da economia americana (ver por exemplo o trabalho de Robert Gordon [4]).  A questão é o que determina a variação do PIB potencial.  Se acreditarmos na Conjuntura Econômica [2] teríamos que reduzir os programas sociais (o Bolsa-Família), melhorar o ambiente de negócios, aprofundar o ajuste fiscal e gastar mais em educação.  Ou seja, cortar os subsídios aos pobres, aumentar os mesmos para os ricos, com menos participação do Estado, e torcer para que a educação, panacéia geral, permita o crescimento não inflacionário.  Essas políticas aumentariam a produtividade do trabalho e permitiriam o aumento do PIB potencial.

Pelas recomendações sugeridas teríamos que acreditar que o colapso do PIB potencial se explica pelo aumento dos gastos sociais, a piora no ambiente de negócios, pelo desajuste fiscal e pela redução dos gastos com educação a partir do início dos anos 80.  Devemos concluir que a Era Vargas não teria ampliado os gastos sociais, teria um ambiente favorável aos negócios (menos burocracia do que agora!), teria sido um primor de probidade fiscal, e ainda seria caracterizada por gastos com educação elevados, senão o PIB potencial de mais de 7% não se explica!

Entretanto, há uma outra interpretação, mais razoável, para a variação do PIB potencial.  James Galbraith [5] argumenta que se o PIB potencial é variável logo devemos concluir que este é endógeno.  Ou seja, uma política recessiva que reduza a taxa de crescimento corrente reduz a taxa de crescimento potencial.  Em termos da taxa natural de desemprego a idéia é que uma redução do desemprego corrente tende a reduzir a taxa natural de desemprego.  As razões estariam associadas ao fato, reconhecido desde Adam Smith, de que a produtividade aumenta com a expansão da demanda (a divisão do trabalho é limitada pelo tamanho do mercado).  Na abordagem alternativa, o que limita a expansão do PIB potencial é a ampliação da demanda.  É importante notar que as quedas do PIB potencial estão associadas às recessões dos anos 60 e 80, sendo que no segundo período a queda é maior e a recuperação bem menor.  Ou seja, o PIB potencial caiu a partir dos anos 80 porque entre a crise da dívida e o plano Real criou-se um consenso (a ortodoxia convencional do Bresser [6]), ainda vigente e dominante, em relação à necessidade de políticas macroeconômicas contracionistas.

No nosso caso, o grande entrave a expansão do PIB potencial são a política monetária (os juros e o câmbio) e a falta de uma política fiscal mais agressiva.  Por isso Werlang está certo ao aconselhar que o COPOM deveria continuar (com a agora interrompida) política de redução dos juros, mas não porque o PIB potencial tenha aumentado.  De fato, o PIB potencial é resultado da expansão, não causa.  O conceito do PIB potencial, bem como o da taxa natural de desemprego, deve ser jogado na lata de lixo da história!  Livrar-se de conceitos inúteis que dificultam o entendimento é o primeiro passo para desenvolver políticas macroeconômicas mais racionais.


9 Comments (Open | Close)

9 Comments To "O PIB potencial não é o problema"

#1 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 1 novembro, 2007 @ 6:33 pm

Oi Matías,
Muito bom seu texto!
o PIB potencial é endógeno à própria renda.
A conclusão é perfeita, esse é um conceito inútil.
abraços,
Gustavo

#2 Comment By Fabiane On 10 março, 2008 @ 10:07 pm

Por favor! Gostaria de saber o que determina o PIB de um país?

#3 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 10 março, 2008 @ 10:39 pm

Fabiane,
agradeço pela oportunidade de responder uma pergunta tão importante.
o PIB é a medida de toda a produção vendida no país durante um ano. Produção vendida é renda para quem vende. Por isso, o PIB é a renda de todo o país durante um ano. Que renda? todos os salários pagos + dos os lucros recebidos – (menos) a renda enviada para o exterior + o déficit público (que é tudo o que o governo paga ao setor privado menos o que ele recebe)
Como é calculado?
simples. soma-se todas essas rendas. O IBGE faz a conta. O conceito é simples, mas fazer essa conta dá trabalho.
O que determina o PIB?
as vendas de produtos, quando mais coisas são vendidas, mas trabalhadores são contratados e mais lucros são obtidos, portanto, mais renda tem o país.
O artigo que coloquei abaixo explica como funciona o processo de crescimento econômico:
[12]
abraços,
Gustavo

#4 Comment By Rodrigo On 15 março, 2008 @ 1:38 pm

Uma das lacunas que percebo no trabalho com PIB potencial é o problema em se trabalhar com variáveis que computem a inovação tecnológica e a influência no potencial ao longo do tempo; somado a isto, advém o próprio problema no âmbito temporal, ou seja, a interpolação de cálculos baseados em comportamentos passados. Ou seja, o instrumental do “ceteris paribus” é muito limitado.

#5 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 16 março, 2008 @ 4:40 pm

Rodrigo,
os problemas do PIB potencial são todos.
É CONCEITO ERRADO DO INÍCIO AO FIM.
tem o problema a agregação (que é um absurdo), tem o problema de que a maioria dos setores pode ampliar a capacidade em menos de 6 meses, tem o problema de que a maioria dos setores possui grande capacidade ociosa planejada (comumente acima de 20%), tem o problema de que boa parte dos setores podem ser a demanda suprida por importações, etc.
Pib potencial jamais deveria ser um conceito teórico e muito mesmo de utilização prática como faz o Banco Central Brasileiro. ele é uma mentira, o conceito e sua suposta utilização.
abraços

#6 Comment By Gustavo (chará) On 17 março, 2008 @ 4:08 am

E olha o que saiu esses dias… [13]

#7 Comment By Heldo Siqueira On 17 março, 2008 @ 10:54 am

Gustavo e Rodrigo,

lembro-me de um texto do Mário Possas em que ele fala do equilibrismo teórico. Na verdade, os novos-clássicos são muito eficientes em mostrar que existe um ponto de equilíbrio de pleno emprego na economia. Entretanto, ninguém pode afirmar que a economia tende a esse ponto e muito menos que ele é estável.

Ou seja, ninguém questiona que exista um PIB potencial para cada ponto no tempo. A questão é que esse ponto não é estável em um horizonte calculável (muito menos estável para preços e quantidades). Teoricamente, os economistas precisam atribuir uma variável exógena ao sistema, para que tenha solução. E fazem isso com a oferta de moeda. Mas se olharmos a prática econômica, não existe nenhum motivo para acreditar que a oferta monetária é exógena!

Aliás, é o que o BC diz todos os dias, que os juros precisam baixar de maneira consistente. Mas isso significa que os bancos precisam se sentir à vontade para emprestar dinheiro ao governo cobrando menos. Em outras palavras, está dizendo que a oferta monetária é definida pelos bancos através do grau de alavancagem que querem trabalhar.

Mas aí temos uma contradição teórica monumental. Pq afinal de contas, se não existe oferta monetária exógena, não existe solução para o sistema. A principal consequência disso é que existe um PIB potencial para cada nível de taxa de juros. Ou seja, o cálculo de como a economia vai responder caso se aumente ou diminua a taxa de juros é inútil. (a não ser que se assuma a perfeita ergodicidade do sistema, que é outra bobagem)

No fim das contas, a oferta monetária é exógena quando o BC quer tratá-la como exógena e endógena quando o BC quer justificar que é. Na verdade o que o BC está justificando é o fato de não querer fazer política econômica ativa. Afinal, se calcula a oferta monetária baseada no fato de ela ser exógena (e definida pelo próprio BC) é pq tem a incumbência de fazer a política monetária. Se ela vai ser contracionista ou expansionista depende da fazenda e do planejamento.

Pq afinal de contas, essa luta epopéica que o BC trava todos os dias contra a inflação seria muito mais fácil se tivesse outras pastas ao seu lado (fazenda e planejamento).

Abraços

#8 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 17 março, 2008 @ 11:06 am

Heldo,
Vc desenvolveu um raciocínio muito interessante! Valeria um artigo para mostrar a incoerência planejada do Banco Central para defesa dos juros altos e do baixo crescimento, que são os verdadeiros objetivos do Meirelles, e não a inflação (mera desculpa).
Só discordo do ponto em que diz que ninguém discorda que exista um ponto de PIB potencial. Eu e muita gente discordam disso. Não existe tal ponto por vários motivos, primeiro porque se supõe que o capital é fixo ou estável a curto prazo e a maior parte dele é e. Segundo porque todo depende da composição do consumo dependendo da composição do consumo e das importações, para um mesmo nível de renda, é possível uma lista imensa de pontos diferentes de PIB potencial, mesmo se o capital fosse fixo…

Rodrigo,
vc levantou 2 pontos que eu considero importantes:
1) O MEIRELLES CONDICIONA A POLÍTICA FISCAL DA UNIÃO E DE TODOS OS MEMBROS DA FEDERAÇÃO (estados e municípios).
2) A esquerda brasileira (e mundial também) a partir da segunda dos anos 70 “resolveu” que não queria mais estudar, tratar e, portanto, compreender política econômica. No Brasil, a esquerda que entendia de política econômica se chamava “desenvolvimentista” e no resto do mundo eram “social-democratas-keynesianos”.
No caso internacional a nova esquerda emergente de maio de 68 era crítica aos “social-democratas-keynesianos”. Essa nova esquerda gerou o pós-modernismo, os movimentos de causas específicas (ecologistas, etc) e uma volta ao radicalismo comunista (que durou poucos anos). Todas profundamente anti social-democratas.
Esse movimento (coincidência???) foi combinado com a ascensão do neoliberalismo que era também anti social-democratas.
Consequência nos anos 80 foi se extinguindo os “social-democratas-keynesianos” para glória do neoliberalismo. A nova esquerda ao rejeitar os “social-democratas-keynesianos” rejeitou a própria compreensão da política econômica.
No Brasil esse movimento também aconteceu, mas foi combinado com o anti-desenvolvimentismo genético da sociologia da USP, inspirada na teoria da dependência de FHC.
O PT é o resultado desses 2 movimentos e nunca entendeu NADA DE POLÍTICA ECONÔMICA, até os economistas do partido tem grandes falhas… Agora, no governo, é obrigado a estudar política econômica para sobreviver…
Enquanto estudam, entregaram o ouro ao bandido: Meirelles, aquele que Lula quer oferecer com “independência” todo o poder da política monetária e cambial (e quase todo o poder da política fiscal)…

#9 Comment By Heldo Siqueira On 17 março, 2008 @ 11:28 am

Gustavo,

vc está certo. Onde eu escrevi um ponto, leia-se PELO MENOS um ponto. O que na verdade faz pouquíssima diferença, afinal de contas, esses pontos se modificam frequentemente.


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URLs in this post:

[1]  Sérgio Werlang: http://www.linearclipping.com.br/previ/detalhe_noticia.asp?cd_sistema=33&codnot=228122

[2] Conjuntura Econômica: http://www.fgv1.br/libre/cecon/CIBRE_CE200710.pdf

[3] Image: http://desempregozero.org/wp-content/uploads/2007/11/pib-potencial.jpg

[4] Robert Gordon: http://ideas.repec.org/p/nbr/nberwo/5735.html

[5] James Galbraith: http://ideas.repec.org/a/aea/jecper/v11y1997i1p93-108.html

[6] Bresser: http://www.bresserpereira.org.br/ver_file.asp?id=1746

[7] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[8] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[9] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[10] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[11] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

[12] : http://desempregozero.org/2008/03/10/tres-caminhos-para-o-pleno-emprego/

[13] : http://oglobo.globo.com/economia/mat/2008/03/12/mantega_afirma_que_foi_derrubado_mito_do_pib_potencial-426192724.asp

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