- Blog do Desemprego Zero - http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero -
“Lula é moderno, Chávez é primitivo” – Teodoro Petkoff.
Posted By Rodrigo Medeiros On 13 novembro, 2007 @ 2:51 pm In Internacional | No Comments
Revista Época, Edição 492 – Out/07
Este é o duelo entre as duas esquerdas existentes na América Latina, diz o ex-guerrilheiro venezuelano.
É difícil tentar desqualificar a crítica de Teodoro Petkoff ao governo Hugo Chávez, na Venezuela, como se ela partisse de um direitista furibundo. Desde a juventude, Petkoff é um ativista da causa da esquerda latino-americana. Depois de romper nos anos 70 com o Partido Comunista, virou também um militante das causas democráticas. Em 2002, foi uma das primeiras vozes na Venezuela a denunciar o golpe que tentou derrubar Chávez. Na semana passada, antes de viajar para o Brasil, para participar em Caxambu, Minas Gerais, do congresso da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), Petkoff deu esta entrevista a ÉPOCA.
QUEM É: Teodoro Petkoff, economista e político venezuelano de 75 anos, filho de imigrantes búlgaros.
O QUE FEZ: Foi dirigente do Partido Comunista da Venezuela. Na década de 60, participou de movimentos guerrilheiros. Na de 90, foi ministro do governo Rafael Caldera.
O QUE FAZ: Um dos principais nomes da oposição a Chávez, dirige hoje o jornal Tal Cual, fundado por ele.
ÉPOCA – O senhor participará de um congresso que discutirá o impacto do governo Lula na América Latina, num quadro de ascensão das esquerdas no continente. Qual é esse impacto?
Teodoro Petkoff – A chegada de Lula ao poder no Brasil significou a conformação de um governo de esquerda moderna, socialdemocrata, que conjuga a idéia de justiça na sociedade com liberdade e democracia, mas sem sacrificar uma pela outra. Há outros exemplos na América Latina, como o socialismo chileno e o governo da Frente Ampla no Uruguai. Mas, por estar à frente do país mais importante da América Latina, o governo Lula se constitui numa referência fundamental de como se pode avançar para níveis superiores de justiça e liberdade, pacífica e democraticamente, porque há duas grandes vertentes de esquerda na América Latina. A outra é a esquerda atrasada, primitiva, anacrônica, stalinista, cujos emblemas principais são Fidel Castro, em Cuba, e Hugo Chávez, na Venezuela.
ÉPOCA – Muitos analistas, inclusive no Brasil, dizem que Chávez obscureceu a liderança de Lula na América Latina. O senhor concorda com essa avaliação?
Petkoff – Se há essa apreciação no Brasil, ela é completamente equivocada. Imaginar que Chávez possa obscurecer a liderança de Lula na América Latina é uma ilusão de óptica, devido ao estilo escandaloso e vociferante de Chávez. Chávez faz muito barulho. Mas é o ruído que faz um barril vazio quando roda pelas ruas. A corrente principal das grandes forças democráticas de esquerda da América Latina não é sensível ao discurso de Chávez, que só chamo de esquerda por comodidade. No comportamento concreto de Chávez, há mais elementos fascistóides que de esquerda.
ÉPOCA – Mas governos como o de Evo Morales, na Bolívia, ou o de Rafael Correa, no Equador, parecem agir inspirados no modelo chavista.
Petkoff – Novamente, isso é um erro de superficialidade. Ver a América Latina com os olhos do Departamento de Estado americano, que costumam ser míopes, é uma maneira de não entender nada do que ocorre em nosso continente. Na América Latina estão acontecendo coisas com especificidade e perfil muito próprios. É verdade que Chávez tem uma presença na Bolívia, por causa do talão de cheques. Mas Evo Morales não é produto de Chávez. Ele é produto da história, da cultura, da política boliviana. O caso de Correa, no Equador, é muitíssimo menos. Não é por acaso que o Equador não faz parte da Alba (a Alternativa Bolivariana para as Américas, bloco formado por Venezuela, Cuba, Bolívia e Nicarágua).
ÉPOCA – Se Lula é essa referência na América Latina, ele pode exercer um papel de moderação junto a Chávez?
Petkoff – Lula pode ser útil para marcar limites para Chávez. Mas é visível que entre ambos há pouca química pessoal.
ÉPOCA – Muitos setores do PT observam o governo Chávez com admiração. Isso o surpreende?
Petkoff – Não. Toda a ultra-esquerda no continente crê que está diante de um novo messias. Mas a ultra-esquerda é igual em toda parte. Sempre está buscando um messias no qual depositar as esperanças. Mas esses são setores sempre muito minoritários, inclusive no Brasil.
ÉPOCA – Chávez vai gastar US$ 4 bilhões em armas. Isso causa temores nas Forças Armadas brasileiras. Ele pode desencadear uma corrida armamentista?
Petkoff – Qualquer governo responsável na região deve ver isso com preocupação. A Venezuela está se armando de um modo desproporcional a seu tamanho como país e ao tamanho de suas Forças Armadas. O argumento de que a Venezuela está se preparando para enfrentar uma invasão dos Estados Unidos é uma idiotice. Não porque os EUA não invadam os países que têm vontade de invadir. Mas, nas atuais circunstâncias políticas latino-americanas, só um louco ou alguém bastante mais estúpido que Bush (George W. Bush, o presidente dos EUA) para invadir um país da América do Sul.
ÉPOCA – Chávez se aproximou de Rússia, China, Irã e faz oposição estridente aos EUA. Seu projeto é criar uma aliança internacional anti-EUA?
Petkoff – Chávez acredita de verdade que pode liderar um bloco de Rússia, China, Índia e Brasil contra os EUA. Mas isso é um delírio de megalomaníaco. Não tem nada a ver com a realidade. O discurso de Chávez é de um antiimperialismo vazio. Ele continua a vender para os EUA 15% do petróleo consumido pelos americanos. Os tanques americanos no Iraque se movem com gasolina venezuelana. A oposição do Mercosul, liderada pelo Brasil, ao projeto da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) é uma coisa muito mais concreta em matéria de antiimperialismo.
ÉPOCA – A Venezuela entrará no Mercosul?
Petkoff – A entrada da Venezuela no Mercosul foi sempre um objetivo nacional, ao qual Chávez deu continuidade. Mas seu comportamento com setores políticos dos países integrantes do Mercosul tem sido tão impertinente que criou dificuldades que não sei se serão superadas. Chávez pode ser um sócio muito incômodo. Ele tirou a Venezuela da Comunidade Andina de maneira inteiramente arbitrária e descortês com os outros quatro países integrantes do bloco (Bolívia, Colômbia, Peru e Equador). E, agora, está reivindicando o retorno. Se a Venezuela ainda vier a entrar no Mercosul, os outros sócios vão ter de tomar muito cuidado com um personagem tão volúvel como Chávez.
ÉPOCA – Chávez pode se transformar em um ditador?
Petkoff – A reforma constitucional que ele propôs, com a possibilidade de uma Presidência perpétua, cria as condições institucionais e políticas para ele atuar como um ditadorzinho, como Lula disse muito bem. Mas a sociedade venezuelana, há oito anos, resiste a Chávez e não lhe permitiu ainda passar de certos limites. A Venezuela ainda não pode ser qualificada como uma ditadura à cubana.
ÉPOCA – O senhor faz algum prognóstico sobre o futuro da Venezuela?
Petkoff – Apenas que será um futuro conflituoso. Existe a pretensão de Chávez de avançar no sentido de uma ditadura, existe um país que resiste e existe um governo que foi eleito para governar até 2012. Até lá, veremos o que ocorre.
ÉPOCA – Qual é o fôlego de Chávez?
Petkoff – Do ponto de vista político e institucional, o que ele chama de socialismo do século XXI tem muitos traços de socialismo do século XX, que foram o comunismo soviético e o cubano. Do ponto de vista econômico, não há nada além de um reforço do capitalismo de Estado, tradicional na Venezuela, mas em um contexto autoritário. A vantagem de Chávez é o colossal ingresso de divisas na Venezuela oriundas do petróleo. Mas sua política econômica, a médio prazo, em 2008 ou 2009, nem com o barril de petróleo a US$200 será sustentável.
Article printed from Blog do Desemprego Zero: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero
URL to article: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/11/lula-e-moderno-chavez-e-primitivo-teodoro-petkoff/
Click here to print.
Copyright © 2008 Blog do Desemprego Zero. Todos os direitos reservados.