INTEGRAÇÃO SUL-AMERICANA E OUTRAS QUESTÕES ESTRATÉGICAS
Escrito por Rodrigo Medeiros, postado em 5 dEurope/London novembro dEurope/London 2007
por Rodrigo Loureiro Medeiros
Muitos fatores tumultuam a agenda de construção e consolidação institucional do Mercosul. Seria possível o Brasil aceitar um projeto de integração sul-americana sob a confusa liderança ideológica do senhor Hugo Chávez? Alguns ainda acreditam que sim e buscam acelerar o Banco do Sul, uma espécie de BNDES do subcontinente, cuja sede está prevista para Caracas.
Numa sociedade democrática e pluralista, algumas questões deveriam ser objetos de maiores discussões. Quem são os principais articuladores e como a respectiva rede de grandes interesses desdobra-se nos diversos espaços nacionais envolvidos? Estariam esses agentes reproduzindo, conscientemente ou não, a histórica concentração dos benefícios e a socialização dos prejuízos a partir da utilização de recursos públicos? O processo em curso mostra-se hermético e, portanto, suscetível ao tráfico de influências? Quais são as efetivas regras do jogo desse processo? Estariam elas ao sabor dos personalismos?
Houve momentos recentes da história política brasileira em que se disse oficialmente que a América do Sul não seria a natural extensão do projeto nacional brasileiro, mas sim representaria sua integralidade. Compreende-se o jogo de palavras no campo diplomático, entretanto, sabe-se que qualquer projeto nacional opera a partir de variáveis endógenas e sua correlação com fatores exógenos. O peso da tradição e da história não pode ser negligenciado.
Quando o projeto de Simon Bolívar foi derrotado, em 1826, ele haveria então dito que seria mais fácil arar no mar do que se construir um projeto integrador na América hispânica. A histórica fratura política em Espanha reproduzira-se no Novo Mundo. O ressurgimento recente das idéias de Bolívar, incluindo os ajustamentos às especificidades brasileiras, não pode ser encarado fora do quadro de crescente descrença quanto aos limites dos sistemas democráticos expressos no âmbito da tradição cartorial dos respectivos países. Certamente tratou-se de um sopro de esperança para que mudanças estruturais fossem impulsionadas na região. Não foi exatamente isso que se sucedeu.
O personalismo ressurgiu na América do Sul e o mesmo buscou imprimir um rumo de políticas outrora integrantes do portfólio das oligarquias vinculadas ao complexo primário-exportador. Esquemas patrimonialistas não foram superados. Para muitos atores que visitam periodicamente os fatos históricos, os fins acabariam justificando os meios empregados. Maquiavelismo débil?
Se a Europa, que vivenciara tantas guerras e traumas, conseguira organizar um complexo processo de construção política, por que não se poderia fazer algo similar na América do Sul? A análise desse processo começa a ser realisticamente reavaliada no presente. O papel dos EUA foi crucial no pós-II Guerra. A bipolaridade e o contexto de destruição no pós-guerra não poderiam ser negligenciados pelos estrategistas norte-americanos. Varrer qualquer tentativa de deslocamento de bloco exigiu a inteligência e a engenharia política de Washington. Acordos de cooperação deveriam integrar a nova ordem na Europa social-democrática. Na esteira desse processo, os acordos do Carvão e do Aço e a Comunidade Econômica Européia emergiam como instâncias pacíficas para a resolução de conflitos e a mediação de interesses.
Destaca-se o papel de estadista do chanceler Konrad-Adenauer, sempre intransigente na defesa dos interesses alemães. O Plano Marshall ajudaria a estancar a fuga de capitais da região beneficiada e forneceria, portanto, a oportunidade de mobilização social para a reconstrução européia. Não se deve olvidar que o respectivo plano causou o fenômeno da evasão de divisas na América do Sul. Balanços de pagamentos abalados e a administração de câmbio foram conseqüências. A partir de 1948, descreveu magistralmente o professor Carlos Lessa, o Brasil vivenciaria quinze anos de políticas econômicas democráticas de corte desenvolvimentista.
Os estrategistas brasileiros de então aproveitavam as margens de manobra sistêmicas para impulsionar o país. Eles reconheciam no realismo das relações internacionais, a Realpolitik, a tensão entre fortuna e virtude. Reconheciam também que o Brasil era bem diferente da América hispânica e que qualquer projeto conjunto haveria de exigir a gradual construção de acordos temáticos. Grandes projetos binacionais, como é o caso de Itaipu, emergiram na esteira dessa concepção.
O ambiente sul-americano atual vive um momento de elevada tensão. Consagram-se nas urnas das eleições presidenciais representantes populares que enxergam no Brasil um país subimperialista. A Bolívia, o Equador e provavelmente o Paraguai devem formar esse eixo. A Venezuela, ativa patrocinadora de lideranças emergentes, já não acredita tanto numa aliança estratégica com o Brasil. Em síntese, a República Federativa do Brasil passa a representar o status quo da miséria desses povos. Não é esse o caso da Argentina.
Essas nuanças perpassam as cabeças dos aprendizes de feiticeiros da geopolítica no Brasil. Mas então o que se pode fazer no atual contexto? Haveria um “novo paradigma geopolítico” a ser perseguido? A veiculação na grande imprensa internacional de que US$3 trilhões são administrados por fundos soberanos de investimentos deveria provocar alguma reflexão. Parte dos recursos provenientes das divisas acumuladas por países se reverte em fundos de investimentos dos respectivos Estados nacionais. Figuram na listagem os seguintes países: Emirados Árabes, Cingapura, Noruega, Arábia Saudita, China, Kuait e Rússia. Nenhum deles da América ibérica.
Ao invés da tradicional compra de títulos públicos do Tesouro norte-americano, alguns países decidiram partir para a ofensiva. Eles estão comprando ativos nos países desenvolvidos e, portanto, estão buscando inverter a lógica de economias retardatárias de enclave. As reações já se fizeram sentir no mundo desenvolvido. A chanceler alemã Angela Merkel se pronunciou adepta do “patriotismo econômico”. Friedrich List e seu sistema nacional de economia política estão sempre vivos na Alemanha.
Como mostram os recentes debates protecionistas no Congresso norte-americano, novas regras do jogo devem surgir. Em sociedades complexas e democráticas, não se pode esperar que a racionalidade econômica das vantagens comparativas de custos decida o que deve ou não prevalecer em termos de arranjos organizacionais econômicos. Como o Brasil pretende se posicionar nesse contexto?
Rodrigo Loureiro Medeiros é pesquisador associado à REGGEN/UNESCO











26 dEurope/London novembro, 2007 as 4:52 pm
Rodrigo,
parabéns pela publicação do artigo na folha!
abraços,
Gustavo
26 dEurope/London novembro, 2007 as 7:49 pm
Caro amigo
Sinal de que nosso trabalho tem qualidade e que o nosso site merece destaque no grande debate nacional pelo desenvolvimento.
Um abraço,
Rodrigo Loureiro Medeiros, D.Sc.