- Blog do Desemprego Zero - http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero -
Força dos rentistas inibe investimento produtivo
Posted By NOSSOS AUTORES On 23 novembro, 2007 @ 7:27 am In O que deu na Imprensa,Rogério Lessa | 7 Comments
“A financeirização implica que o poder político dos rentistas passe para o primeiro plano.” A afirmação é do economista da Uerj e da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE (Ence/IBGE), Miguel Bruno. Em sua tese de doutorado, ele identifica os diferentes padrões de crescimento do Brasil no longo prazo e constata que a perda de dinamismo da economia do país, a partir de 1980, está ligada ao processo de financeirização da economia.
Segundo Bruno, o poder político do rentismo se deve ao fato de que, ao contrário do senso comum, não são os bancos os únicos nem os maiores beneficiários da financeirização. “Como proporção da renda bruta disponível, a renda de juros equivalia, em 2005, a 29,4%. Embora ela fosse recebida pelo sistema financeiro, 22,2 pontos percentuais eram repassados a famílias e empresas não-financeiras, ficando os bancos com 7,1 pontos percentuais”.
O economista da Ence afirma que antes da liberalização financeira já havia um padrão de financeirização, através dos ganhos com a inflação. “Com a abertura financeira, a correção monetária foi substituída pelos ganhos com juros, mas o padrão não foi mudado”. Ele não culpa a globalização pela decadência econômica do país, mas a forma como nos inserimos nela, bastante diferente da opção desenvolvimentista dos países asiáticos.
“A teoria tradicional diz que o modelo de substituição de importações gerou contradições, concentrou a renda, que havia pontos de ineficiência. Dizia-se que, com a abertura, isso seria superado e o país entraria em nova trajetória de crescimento sustentado. Mas a abertura se deu rapidamente e sem uma estratégia de longo prazo. Se entre 1950 e 1980, crescíamos a uma média de 7% ao ano, atualmente essa média baixou para 2,4%.”
Além da alta liquidez e rentabilidade (com baixíssimo risco), os títulos públicos têm outra vantagem em relação ao investimento produtivo: os ganhos não demandam trabalho algum da parte dos investidores. “Isto nos remete ao conceito de rentismo”, comenta Bruno, alertando para o fato de que a financeirização trouxe, por outro lado, o desemprego estrutural. “Esse padrão, que levou à perda de dinamismo da economia, aliado ao amadurecimento da população brasileira, resultou na divergência entre o crescimento da População em Idade Ativa (PIA) e o nível geral de emprego.”
O rentismo no Brasil encontrou um campo fértil para se instalar, devido ao antagonismo histórico entre os trabalhadores da senzala e os proprietários de terra da Casa Grande. “A violência urbana é resultado dessa estrutura social que vivemos, na qual a maior parte dos empregos gerados estão concentrados na faixa de baixa remuneração”, comenta o sociólogo Inácio Cano, também da Uerj.
Por sua vez, o economista Dércio Garcia Munhoz, da Universidade de Brasília (UnB), lembra que o processo de financeirização começou com o programa de ajuste externo de 1981, “quando fazemos, extra-oficialmente, tudo o que o FMI queria”. Segundo Munhoz, naquele ano houve a primeira disparada nas taxas de juros. “Apesar das tentativas durante o governo Sarney (planos Cruzado e Bresser), não se conseguiu superar o processo de financeirização. Os juros voltaram a explodir após o Plano Verão, em fevereiro de 1989, pois o governo quis conter os preços com juros altos. Fevereiro e março se pagou mais de 30% de juros reais em dois meses.” Para o economista, os sucessivos governos nomeiam economistas ortodoxos que não praticam a ortodoxia (restringir a emissão de moeda para controlar a inflação”. “Preferem usar as taxas de juros, porque isso beneficia os rentistas”, conclui.
Pierre Salama, da Université de Paris I, vê não apenas no Brasil, mas em toda a América do Sul, um processo de bi-polarização da renda, onde os ricos ficam cada vez mais ricos com os ganhos financeiros e os pobres cada vez mais pobres, devido a queda na renda, inclusive no setor formal e do desemprego estrutural identificado por Miguel Bruno. “Para reverter esse processo, que leva à estagnação, é preciso voltar aos trabalhos de Celso Furtado nos anos 60. O Chile também está vivendo isso no momento. Alguns setores da classe média se aproximam dos ricos, enquanto outros empobrecem. Quem tem empresa se torna rentista.” Para Salama, no caso do Brasil, “a pobreza crescente é conseqüência do modelo econômico.”
Em sua tese de doutorado, Miguel Bruno mostra a contradição dos que se dizem contra o protecionismo, mas não contestam o padrão de financeirização. “Esquecem que juros altos são um protecionismo para o sistema financeiro”, pondera, acrescentando que, na atual conjuntura, a taxa de juros vem caindo porque o mercado financeiro permite. “O BC não é independente do mercado financeiro privado. Esse é um problema político estrutural”.
O economista da Ince/IBGE observa que a financeirização não é uma tendência apenas do Brasil ou da América Latina, mas que, assim como a inserção no mundo globalizado, há diferentes padrões de financeirização. “Ela pode estar baseada no mercado de capitais, como nos EUA, ou em títulos públicos, como aqui.”
Apesar de ações e juros terem implicações macroeconômicas diferentes”, Bruno reconhece que as bolsas de valores podem não ter conexão direta com a atividade produtiva. “A valorização da ação pode se dar por um processo especulativo e por diferenciais de preço. Nem sempre a alta de uma ação representa um aumento de lucro ou expansão daquela empresa no setor real. Tanto isso acontece que o comportamento é muito volátil. No caso brasileiro é mais grave porque não temos um mercado de capitais desenvolvido, pois com o que se paga de juros é impossível desenvolvê-lo.”
Mudar o regime de crescimento do Brasil exigiria, para o economista, uma mudança estrutural, que não foi encarada pelo presidente Lula. “As políticas monetária e fisca têm o papel de validar e reproduzir a lógica desse modelo de economia financeirizada. Se houvesse alguma regulação do câmbio e algum custo à movimentação financeira não estaríamos a mercê de ataques especulativos, que nos obrigarão a elevar os juros novamente se a conjuntura externa mudar. Para mudar isso é preciso um pacto em torno de uma nova estratégia de desenvolvimento, como os asiáticos fizeram. Caso contrário, continuaremos com crescimento pífio e volátil.”
Miguel Bruno vê, ainda, um outro lado perverso no padrão brasileiro de financeirização. “Ele não proíbe totalmente o crescimento, mas este deve ser pífio, de forma a garantir uma rentabilidade para pessoas que não têm motivação necessária para ir para a esfera produtiva. Isso explica porque grandes empresas têm hoje seus próprios bancos, até por uma questão de sobrevivência.”
Esse lucro auferido com juros subtrai investimento produtivo do país. “No período de alto crescimento, a taxa de investimento produtivo (exclui a construção de imóveis residenciais, por exemplo) vinha crescendo praticamente no ritmo do PIB (entre 7% e 9% ao ano). Hoje a taxa de acumulação de capital produtivo cresce a 1,5%, 1,8% ao ano. É muito pouco.” (clique na figura para melhor visualização)
[1]
* Rogério Lessa Benemond:Jornalista do Monitor Mercantil, colaborador
da revista Rumos do Desenvolvimento. Prêmio Corecon- RJ de jornalismo
econômico 2006.
Article printed from Blog do Desemprego Zero: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero
URL to article: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/11/forca-dos-rentistas-inibe-investimento-produtivo/
URLs in this post:
[1] Image: http://plenoemprego.files.wordpress.com/2007/11/reparticao-dos-juros-na-renda.jpg
[2]
: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/1999/03/1168/
[3] ? A questão dos impostos e juros: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/a-questao-dos-impostos-e-juros/
[4] ? Manifesto Grupo Crítica Econômica: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/manifesto-grupo-critica-economica/
[5] ? O que é política de pleno emprego?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/o-que-e-politica-de-pleno-emprego/
Click here to print.
Copyright © 2008 Blog do Desemprego Zero. Todos os direitos reservados.
7 Comments To "Força dos rentistas inibe investimento produtivo"
#1 Comment By M.A.P On 26 novembro, 2007 @ 7:45 pm
Prezado jornalista, essa financeiração desbragada criou no Brasil uma Nomenklatura, que nunca perde, taí a SELIC para provar isso.
A indexação terminou para a maioria, menos para esse segmento.
#2 Comment By Rodrigo Medeiros On 26 novembro, 2007 @ 8:08 pm
Essa é uma discussão importante. Debater o que está indexado e o que não se encontra. Reconhecer que uma medida depende do instrumento de aferição não é nenhuma novidade teórica (Cf. Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas). Veja o exemplo das tarifas exercidas pelas concessionárias de serviços públicos. Certamente essas empresas públicas foram utilizadas para fins eminentemente políticos no passado recente, para o bem e para o mal. Lula herdou uma situação em que as tarifas dos concessionários estavam sendo indexadas acima do índice oficial de inflação, medido pelo IBGE.
Quanto à SELIC, penso que é importante se analisar o poder de mercado exercido pelos agentes financeiros. O poder de veto silencioso que o mercado financeiro exerce nas nomeações para o Banco Central do Brasil. Há pressões para que a taxa se mantenha elevada e o mercado do crédito é do tipo oligopólio.
Desejamos a democratização do acesso ao crédito e a expansão dos investimento. Certamente o Estado tem um papel importante a jogar.
Cordialmente,
Rodrigo Loureiro Medeiros, D.Sc.
#3 Pingback By A farra da tapeação « Blog do Desemprego Zero On 2 fevereiro, 2008 @ 8:44 am
[...] Rogério Lessa Benemond: Jornalista do Monitor Mercantil, colaborador da revista Rumos do Desenvolvimento. Prêmio Corecon- RJ de jornalismo econômico 2006. Meus Artigos [...]
#4 Pingback By Circulo do Desenvolvimento » Blog Archive » Alencar: juros altos são a maior barreira a geração de empregos On 13 agosto, 2008 @ 2:51 pm
[...] *Rogério Lessa Benemond: Jornalista do Monitor Mercantil, colaborador da revista Rumos do Desenvolvimento. Prêmio Corecon- RJ de jornalismo econômico 2006. Meus Artigos [...]
#5 Pingback By Blog do Desemprego Zero » Blog Archive » Economista vê fim do Acordo de Basiléia On 5 novembro, 2008 @ 1:57 pm
[...] *Rogério Lessa Benemond: Jornalista do Monitor Mercantil, colaborador da revista Rumos do Desenvolvimento. Prêmio Corecon- RJ de jornalismo econômico 2006. Meus Artigos [...]
#6 Pingback By Blog do Desemprego Zero » Blog Archive » Tão vulnerável quanto com FH On 6 novembro, 2008 @ 9:10 am
[...] do Desemprego Zero » Blog Archive » Economista vê fim do Acordo de Basiléia em Força dos rentistas inibe investimento produtivoAna paula de souza silva em Oportunidades e ofertas de emprego e concursos públicosBlog do [...]
#7 Pingback By Blog do Desemprego Zero » Blog Archive » Na mão do agiota On 26 novembro, 2008 @ 7:18 pm
[...] quanto com FHBlog do Desemprego Zero » Blog Archive » Tão vulnerável quanto com FH em Força dos rentistas inibe investimento produtivoEmerenciana em Os professores agora têm piso salarialBlog do Desemprego Zero » Blog Archive [...]