Exportação menor seria culpa da China?
Escrito por Gustavo, postado em 5 dEurope/London novembro dEurope/London 2007
Antônio Delfim Netto DCI – 05/11/07
Os jornais publicaram com algum estardalhaço e os sítios de notícias repercutiram na Internet como uma grande novidade que “a China tomou um bilhão de dólares de exportações brasileiras no mercado americano no ano passado”.
O problema com o nosso pessoal é que poucas pessoas fazem as contas direito e por isso não chegam a perceber a irrelevância dessa informação, de tão atrasada que é.
A China vem ocupando os mercados de onde os exportadores brasileiros de produtos industriais foram expulsos não por alguma ação externa ou retaliação comercial dos grandes importadores, mas por conta dos congelamentos do câmbio que repetimos desde 1986 até os dias de hoje.
Nesses vinte e um anos, o Brasil praticou políticas cambiais devastadoras contra os setores industriais que exportavam para os Estados Unidos e demais países desenvolvidos.
Nossos governos não entenderam a evolução do mundo e retiraram o suporte ao sofisticadíssimo parque industrial que estava se desenvolvendo no Brasil.
Já o governo chinês entendeu que o mercado norte-americano era de produtos industrializados e investiu nessa direção das manufaturas para exportação, aprendendo a usar mecanismos que o Brasil utilizou até os anos de 1984 e 1985.
A China não foi atrás de regimes de preferências junto às potências comerciais para ampliar suas exportações; ela simplesmente fez uma política cambial inteligente, foi buscando os caminhos que nós brasileiros deixamos abertos e rejeita tranqüilamente as pressões para valorizar o iuane.
Enquanto ela caminhava, nós estávamos adormecidos: no ano de 1984, China e Brasil eram países responsáveis por uma parcela idêntica das exportações mundiais, cerca de 1,1% para cada um, algo como 22 bilhões de dólares anuais e a Coréia tinha um pouquinho mais, exportava 23 bilhões de dólares.
O Brasil tinha naquela época uma política de câmbio flexível e também um programa exportador industrial obsoleto que se mantinha o mesmo havia cerca de 15 anos.
No ano de 1986, o Plano Cruzado congelou o câmbio e o Brasil fez uma grande asneira, declarando a “moratória soberana”, e a partir daí só fizemos besteira em cima de besteira em matéria de câmbio: veio o presidente Collor e congelou o câmbio duas vezes e, na seqüência do Plano Real, o Governo Fernando Henrique Cardoso congelou o câmbio por mais quatro anos até a chegada de 1999.
Nesse período abandonamos toda política de estímulo às exportações industriais, deixando morrer inclusive a Comissão Benefícios Fiscais e Programas Especiais de Exportação (Befiex).
Enquanto o País acumulava um déficit de 186 bilhões de dólares em conta corrente, a indústria brasileira deixou de faturar outro tanto com a perda dos mercados de exportação.
Ninguém obrigou o Brasil a deixar o caminho livre para as exportações industriais de que se aproveitaram novos competidores, chineses principalmente.
Nós mesmos abandonamos o campo, demonstrando uma enorme imprevidência. A China fez lá o seu Befiex, multiplicou as zonas de livre-comércio direcionadas para a produção e exportação de bens industriais e foi à luta, visando preferencialmente o grande mercado norte-americano.
Atualmente a China exporta 10 vezes mais do que nós àquele mercado, e suas exportações anuais representam 9% das exportações globais; a Coréia tem 3% e o Brasil, depois de todo o esforço dos últimos cinco anos, basicamente centrado nos produtos da agricultura e mineração, voltou ao ponto de partida de 20 anos atrás: temos o mesmo 1,1% das exportações mundiais.
Parece que estamos sendo despertados somente agora dessa triste realidade, como sugere o desafio do Ministério do Desenvolvimento Industrial de remontar uma política de exportações industriais para ampliar em 10% pelo menos, a médio prazo, nossa participação no comércio mundial.
O país oriental vem ocupando os mercados brasileiros apenas por conta da série de congelamentos do câmbio.










