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Aquecimento – Embrapa

Posted By Imprensa On 30 novembro, 2007 @ 10:55 am In Desenvolvimento,O que deu na Imprensa | No Comments

GAZETA MERCANTIL

Eduardo Delgado Assad – Pesquisador da Embrapa

Entrevista concedida à repórter Ciça Ferraz

São Paulo, 26 de novembro de 2007 – Parece pouco, mas nos últimos anos a Terra ficou 0,7ºC mais quente. O aquecimento global virou assunto no mundo, afinal, ele vem alterando o clima em todo o planeta, causando derretimento de geleiras, elevação do nível do mar, furacões mais intensos, enchentes e secas cada vez mais fortes. Caso medidas drásticas não sejam tomadas para controlar esse fenômeno, o planeta enfrentará tempos muito difíceis. A temperatura irá aumentar mais de 2ºC e pode provocar riscos de extinção em massa, colapso dos ecossistemas, falta de alimentos, escassez de água e grandes prejuízos econômicos.

O assunto definitivamente é preocupante, como afirma Eduardo Delgado Assad, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária, em Campinas (SP) e engenheiro agrícola com mestrado e doutorado em climatologia na França e pós-doutorado, na mesma área, pela Unicamp (Universidade de Campinas). O pesquisador é autor do estudo ‘Impacto das variações do ciclo hidrológico no zoneamento agroclimático brasileiro em função do aquecimento global’. Nesta entrevista exclusiva à agência Investnews, Assad fala dos principais problemas que o aquecimento global vem causando no Brasil, principalmente nas regiões Nordeste e Sul, e expõe técnicas e alternativas que os agricultores podem ter acesso para ajudar a reverter esse quadro.

Investnews – Acredita mesmo que o planeta está passando por grandes alterações climáticas?

Eduardo Assad - Não é questão de acreditar porque não se trata de religião. É uma questão de medida. Temos observado um aumento significativo em torno de 1oC a 1,5oC na temperatura mínima. No Brasil, as regiões que mais sofrem com esse aumento são o Nordeste e o Sul. Em contrapartida, a temperatura máxima sequer demonstra sinais de alteração. Com o aumento da temperatura mínima, culturas como milho, soja, café e algodão sofrem alterações em seus ciclos, além disso, provoca os chamados veranicos (período de estiagem, com calor intenso – entre 25°C e 35°C -, forte insolação, e baixa umidade relativa em plena estação fria, o quené altamente prejudicial à agricultura). Nos últimos 15 anos, tais veranicos têm perdurado por até 15 dias. Anteriormente, não passavam de sete a dez dias.

Investnews – Há alguma possibilidade de as atividades agrícolas minimizarem este quadro? Como por exemplo, trabalhar a retirada de carbono da atmosfera ou investir na geração de energia renovável (aproveitando lenha, álcool, biodisel)?

Eduardo Assad - Sim, precisamos urgentemente mudar nossa matriz energética e adotar a bionergia. O Brasil tem condição de trabalhar com uma boa agricultura: a agricultura seqüestradora de carbono, ou seja, a não emissora de CO2. Uma das alternativas é o sistema de plantio direto na palha, cujo princípio básico é não cavar a terra antes do plantio, apenas abrir sulcos para a distribuição de sementes, mantendo a terra protegida e mais úmida, levando o agricultor a não agridir o meio ambiente. Por meio desta técnica, cientistas calculam que é possível seqüestrar 500 quilos de carbono por ha/ano. Uma média de mais de 10 milhões de toneladas de carbono retirados da natureza. Esta é uma medida inteligente e que faz a diferença. É preciso ainda trabalhar a recuperação dos pastos degradados. São cerca de 200 milhões de hectares de pasto. O Brasil é muito rico em áreas de cultivo e necessita apenas utilizar técnicas como essas, disseminá-las e incentivá-las, sem esquecer que uma boa política nacional de mudanças climáticas se faz necessária.

(O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou no último dia 21 um decreto que cria uma comissão que elaborará a Política Nacional e o Plano Nacional sobre Mudança no Clima -o Comitê Interministerial sobre Mudança no Clima, que será formado por 16 ministérios e pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. O comitê terá até 30 de abril de 2008 para apresentar a versão preliminar do plano nacional que atuará em quatro frentes. A principal será definir metas concretas para diminuir a emissão de gás carbônico na atmosfera. O segundo eixo pretende preparar o Brasil para enfrentar o aquecimento global e o impacto das mudanças no clima. Também está previsto o incentivo à pesquisa científica para identificar fontes de emissão de gás carbônico).

Investnews – Um grupo de estudiosos divulgou recentemente que o café pode desaparecer do cenário agrícola nos próximos 30 a 40 anos, assim como espécies ameaçadas de extinção até o ano de 2050 se nada for feito para conter esse aquecimento global. O que dizer dessa possibilidade?

Eduardo Assad - Realmente, essa possibilidade existe, uma vez que esse fenômeno vem se mostrando mais intenso. O café é bastante sensível a altas temperaturas e com um calor intenso, em torno de 34ºC, pode perder força e não dar frutos suficientes para uma boa colheita.

Investnews – Qual a alternativa que o produtor tem para tentar salvar sua plantação de café?

Eduardo Assad - Uma das técnicas que vem dando resultado, e já é realidade no Sul de Minas, em Arceburgo, é a do sombreamento. Em meio à plantação de café, planta-se pés de manga e banana. Outra alternativa é investir no processo de melhoramento genético de plantas resistentes a altas temperaturas. Há inclusive estudiosos que acreditam que daqui a 10 anos essas sementes já estarão disponíveis no mercado.

Investnews – Em meio a todas essas mudanças climáticas, é possível que novas culturas tolerantes às altas temperaturas possam surgir?

Eduardo Assad - Esta possibilidade está sendo bastante discutida. Em Santa Catarina, por exemplo, pesquisadores da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural) percebeu que, caso as temperaturas subam até 2ºC, como se prevê, este cenário será totalmente prejudicial ao cultivo da maçã, mas novas técnicas estão sendo estudadas. Já a cana-de-açúcar é uma cultura mais resistente a altas temperaturas, assim como a banana e o milho. Em contrapartida, o café, a laranja, o feijão e a soja são bastante sensíveis.

Investnews – Um grupo de cientistas alega que o Planeta entrou numa fase de resfriamento que deve durar 20 anos. Eles afirmam que o aquecimento global atingiu seu pico em 1998 e que desde então há uma tendência de queda e não de aumento na temperatura. E, mais, que tudo não passa de uma estratégia para eleger o ex-vice presidente dos EUA, Al Gore, para a presidência do país. Al Gore lançou o documentário “Uma Verdade Inconveniente”, no qual alerta para as graves conseqüências do aquecimento global para o planeta. Pode comentar o assunto?

Eduardo Assad - Se olharmos bem para trás, o Planeta já foi muito mais quente do que é hoje e entrou numa fase de resfriamento por volta dos anos de 1950. Mas estes céticos não vêem que o homem entrou no sistema. Hoje temos a era do petróleo e do carvão. Estamos jogando gases altamente poluentes na atmosfera e não o estamos retirando do ar. Para se ter uma idéia, a China inaugura, praticamente, uma usina termoelétrica por semana, o que neutraliza a questão do resfriamento que os céticos disseminam. Quanto à questão do Al Gore, isto não passa de um monumental movimento ambientalista mundial. Será que os cientistas não vêem o que o mundo está passando? Vejam a questão de Bangladesh, onde mais de três mil pessoas foram dizimadas em razão do furacão Sidr. E no Brasil? O Rio Grande Sul encarou o Catarina, em 2004. (O Catarina foi o primeiro furação já registrado no Altântico Sul, deixando um rastro de destruição – 11 mortos, 32 mil casas destruídas e os prejuízos ultrapassaram R$ 1 bilhão. Entre 1996 e 2006 ocorreram mais de 40 episódios de tornados somente em Santa Catarina. No final de agosto de 2005, um tornado destruiu cerca de 70% da cidade de Muitos Capões, no nordeste do Rio Grande do Sul). Não devemos esquecer que somos nós quem estamos provocando isto.

Investnews – E o protocolo de Kyoto, que estabeleceu metas de redução de emissões de gás carbono na atmosfera? Parece não se falar mais dele.

Eduardo Assad - Não! O grande entrave é quanto à assinatura dos Estados Unidos. Tem muita gente batalhando por esta causa e tentando mudar o consciente das pessoas para tentar estancar a destruição da Amazônia, os desmatamentos e as queimadas que fazem do País o quarto emissor de gases do efeito estufa do planeta. O problema é que temos cerca de 400 milhões de americanos e europeus que consomem energia e disseminam a questão do quanto ‘mais melhor’. Mais o maior problema ainda são os outros cinco milhões que querem copiar este modelo que durante 100 anos nos ‘ensinou’ a ter mais carros que o necessário, por exemplo. Alguma coisa tem de ser feita com urgência. Caso contrário, até 2020, a temperatura mínima pode chegar a ter um aumento em torno de 1º C e 1,5º C. O sinal laranja começa a se acender. É preciso investir em ações simples como as arborizações das ruas e melhoria no transporte urbano. A indústria automobilística precisa investir em novas alternativas. O carro flex, por exemplo, é um bom exemplo.



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