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Blog do Desemprego Zero

Água com gás

Escrito por Imprensa, postado em 7 dEurope/London novembro dEurope/London 2007 Imprimir Enviar para Amigo

Roberto Pereira d’Araujo *4/11/07

Todo supermercado tem alguém que cuida do estoque. Responsável por uma reserva de produtos na prateleira, tem obrigatoriamente que olhar para o futuro, pois precisa de uma estimativa das vendas esperadas para encomendar os produtos com antecedência. Apesar de vantagem financeira, não pode arriscar a ter um estoque muito baixo, pois poderia deixar de vender. Também não pode manter um estoque alto, pois, além de empatar dinheiro em mercadorias que podem custar a ser vendidas, seu armazém tem limitações de espaço.

Para entender o burburinho sobre o gás, é preciso primeiro entender o drama do estoquista. Mas, não o do estoquista do gás, mas sim o da água armazenada nos imensos reservatórios das usinas elétricas. Esse gerente de estoque, o Operador Nacional do Sistema, lida com uma variável aleatória na saída, o consumo de energia e outra variável aleatória na entrada, as afluências dos rios. Seu “armazém” é o maior entre os sistemas similares no mundo. Os reservatórios brasileiros, quando cheios, são capazes de guardar mais ou menos a metade de todos os kWhs que são consumidos em um ano em todo o sistema interligado. A grosso modo, se os rios secassem, e fossemos irresponsáveis, ainda poderíamos ter luz por seis meses. É uma imensa vantagem brasileira.

Apesar de vir de graça, se a água pode ser guardada, passa a valer alguma coisa. Ela vale o quanto pode economizar ou até evitar déficits no futuro e há um método para dar um valor à água estocada. A lógica funciona assim: Se o ONS usa a água hoje e no futuro chove muito, ele tomou a decisão correta, pois o estoque foi reposto. Se não chover, se deu mal, pois, com certeza, vai ter que gerar a partir de outra fonte, por exemplo, o gás. Se o operador guarda a água e não chove no futuro, tomou a decisão correta, pois terá estoque para suprir as turbinas na estiagem. Mas, se guarda água e chove muito no futuro, fez bobagem, pois pode ultrapassar seu limite de estocagem e jogar água fora.

É um jogo complicado e, principalmente, as decisões só podem ser tomadas por quem tem uma visão do todo e do futuro. É assim que o ONS decide quando ligar as térmicas. Apesar disso, consultores ingleses (Coopers&Lybrand) contratados a peso de ouro pelo governo Fernando Henrique chegaram a propor competição total entre usinas. Felizmente foram barrados pelos engenheiros brasileiros. Se essa gestão inteligente da reserva fosse substituída pelo “mercado” teríamos 22% menos energia para ofertar.

Por isso, no Brasil, nenhum dono de usina vende a sua própria energia. Como a lógica é fazer com que todas as usinas trabalhem para preservar a reserva, todas as usinas, inclusive as térmicas, vendem uma parcela do total que o sistema interligado pode produzir gerido por essas regras. A ANEEL emite um certificado de energia assegurada que é obtido por um complicadíssimo sistema que avalia quanto cada usina contribui para o todo. Esse estudo é feito numa simulação hipotética da operação com vários cenários de hidrologia.

Foram esses certificados que as usinas a gás ganharam. Isso permite que elas vendam energia sem gerar todo o tempo e é uma espécie de “lei” do setor elétrico brasileiro. A pedra fundamental é a total separação da operação da questão comercial, pois os proprietários das usinas negociam no mercado com um certificado de papel. Quem opera mesmo é o ONS, que, devido à sua função de estoquista e das características brasileiras, age como se fosse o verdadeiro dono das usinas.

Bem, agora vamos para o mundo real. O nível dos reservatórios chegou a 50%. Com base nos mesmos estudos que definiram o certificado das usinas, o operador, olha para o futuro, estima os cenários de afluência, vê qual o mercado a ser atendido e decide. Liguem-se as térmicas! Mas, como se sabe, o planejamento se tornou inimigo número um dos adoradores do mercado e, como eles dominaram e, em certa medida, ainda dominam as mentes dos comandantes do nosso sistema energético, foi cassado, torturado e condenado. Sem planejamento, só agora descobriram que não tem gás para as térmicas, para a indústria e também para os táxis e para os carrões dos pit-boys. Bem, nesse caso, uma das seguintes opções costuma acontecer no Brasil:

1. Desobedece-se a “lei” e não se despacham as térmicas. Resultado: Mais uma vez uma “lei” que não pegou, aumento de risco e bagunça nos certificados.

2. Corta-se o gás da indústria, que foi incentivada a migrar para ele. Resultado: Interrompe-se a produção causando prejuízos significativos.

3. Dá-se a notícia: Senhores taxistas, lamentamos muito! Resultado: Paga o pequeno, sem resultado palpável, pois uma térmica consome em um dia o mesmo que toda frota de táxi.

Mas, alguém protesta: Espera um pouco! Ano passado a reserva chegou a 46% e não houve esse problema. Ora, mau sinal! O operador está cada vez mais convencido de que a água de 2007 pode ser muito útil em 2008, 2009, etc. Há alguma incerteza à frente que faz com que a água valha mais, quem sabe substituir um déficit no futuro. A razão pode ser crescimento da demanda, atraso de obras ou ambos.

Além do medo de outro racionamento, essa situação revela os problemas gerados pela instável adaptação feita para implantar um sistema mercantil ao maior sistema cooperativo do mundo. Num sistema de base térmica, como, por exemplo, o Inglês, a competição não se dá com certificados. Lá, se uma usina oferece energia acima do preço de mercado, ela fica desligada e, consequentemente, não vende. Aqui, sem gerar, uma térmica pode vender a parte que lhe cabe na “sociedade por cotas” da qual faz parte. Mas, se, no momento em que for necessária, não gera, a “sociedade” está ameaçada e todos os certificados estão sob suspeita.

Desde 1995, quando se começou a se implantar esse sistema no Brasil, as regras são inconstantes. O bizarro é que os empresários reclamam muito da falta de estabilidade, mas esquecem que a culpa é do modelo. O preço para implantar “mercado” é conviver com regras altamente complexas que tentam fazer o impossível, transformar um monopólio natural em um sistema competitivo. O episódio do gás é um bom exemplo. Hoje, 12 anos depois das reformas liberalizantes, não se sabe como compatibilizar o gás e a água. Tão fácil na água mineral!

Vai ser tragicômico se alguma indústria cortada do suprimento de gás voltar a usar eletricidade para gerar calor. Nesse caso, por ser um disparate em eficiência energética, vamos precisar de mais gás ainda. Vamos esperar os próximos capítulos.

*Roberto Pereira d’ Araujo: Engenheiro Eletricista e Mestre em Sistemas e Controle pela PUC-RJ. Pós-Graduação em Operation Planning pela Waterloo University. Foi Chefe de Departamento de Mercado em Furnas Centrais Elétricas. Ex-membro do Conselho Administrativo de Furnas. Consultor na área de energia elétrica.



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6 Respostas para “Água com gás”

  1. Gustavo dos Santos (meus artigos clique) falou:

    Roberto,
    seu artigo está excelente!
    é muito esclarecedor sobre o que está acontecendo e mostra as questões técnicas que estão por detrás de forma que qualquer um possa compreender.
    mas uma coisa me surpreendeu realmente:
    ligaram as térmicas com os reservatórios ainda a 50%, enquanto no ano passado chegou a 46% e ninguém se incomodou! o pessoal está mesmo tendo pesadelo com apagões.
    Uma dúvida:
    gás é fluxo, não é como petróleo.
    Faz sentido usar o gás natural como combustível complementar de um sistema de base hidroelétrica como o brasileiro?
    vale à pena ter uma imensa capacidade para se produzir gás em águas profundas e importar a milhares de quilometros por gasodutos para utilizar só em alguns momentos do inverno e em anos de maior seca?
    Não faz mais sentido que as térmicas que complementem o sistema hidroelétrico usem combustível líquido (óleo) ou sólido (carvão)?
    Tenho a imprensão de que a dependência de gás como combustível complementar para produção de eletricidade uma idéia meio sem sentido.
    estou certo?
    abraços,
    Gustavo

  2. Roberto Araujo falou:

    Você tem toda razão. O gás é combustível nobre e exige “take or pay” que é totalmente incompatível com um sistema de base hidráulica. Só que o raciocínio do governo anterior (não desmontado pelo atual) foi perverso.
    Quem devia “pagar” pelo desenvolvimento de uma rede de transporte de gá seriam as térmicas, pois são grandes consumidores. E agora que já temos várias térmicas a gás? O que fazer?
    Você veja que o problema não está no gás, pois, caso não houvesse essa maluquice de sair construindo térmica quando nem temos gás suficiente, não teríamos essa confusão. O problema está no setor elétrico, que, sem novas hidráulicas já está mostrando a luz amarela.

  3. Rodrigo Medeiros falou:

    Gostei do artigo. Penso que os gargalos na infra-estrutura devem ser mais debatidos no site. Lula deu um nó cego no tucanato com as recentes concessões de rodovias. Pelo menos o contribuinte espera pagar menos por km rodados do que na privataria tucana. O problema é que se tratam de nontradeables, o que certamente impacta no nosso balanço de pagamentos. Nada contra o capital estrangeiros que vem para produzir bens e serviços. A questão é saber o que trazer e em que condições…

  4. Gustavo dos Santos (meus artigos clique) falou:

    Rodrigo,
    isso é verdade. Colocar os espanhóis para tapar buracos trás problemas para nosso balanço de pagamentos. Mas não é só isso, é uma maneira muito cara para tapar buracos! Pagamos duplamente!
    primeiro pagamenos o pedágio depois o governo também paga. Quando o capital espanhol entra aqui troca Euros por Reais. esses Reais a mais aumentam a dívida pública em um processo que os ortodoxos chamam de “esterilização”. Depois os espanhois ainda pegam 70% do valor do financiamento no BNDES para financiar os investimentos. Esses reais a mais no sistema também precisarão ser “esterizados” o que aumenta ainda mais a dívida pública. Como a taxa de juros da dívida pública é muito alta e particularmente muito mais alta do que a taxa de juros do BNDES. O investimento feito pelos espanhois aumenta a dívida pública no mesmo montante (ou mais se considerarmos que eles terão que ter um imenso sistema administrativo) do que ser fosse feito pelo governo. A diferença é que além do aumento da dívida pública, ainda pagamos o pedágio. Non sense completo.

  5. Rodrigo Loureiro Medeiros falou:

    Concordo com tudo isso. Só procurei enfatizar os problemas no balanço de pagamentos (apreciação de câmbio, remessas de lucros e royalties, importação de conteúdos tecnológicos das redes das transnacionais, o que inclui o pagamento de assistência técnica, etc.). Maria da Conceição Tavares cansou de falar em estangulamento externo, certamente um velho fantasma para o desenvolvimentismo. O doutor Raúl Prebisch já havia captado as nuances do fenômeno quando esteve à frente do BC argentina na década de 1930. Na Cepal, ele iria se reunir ao grande Celso Furtado.

    Um abraço,

    Rodrigo

  6. Gustavo dos Santos (meus artigos clique) falou:

    Você está certo!
    o balanço de pagamentos é a questão fundamental!
    abraços

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