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A Ausência de Celso Furtado

Posted By Rodrigo Medeiros On 18 novembro, 2007 @ 7:30 pm In Desenvolvimento,Rodrigo Medeiros | No Comments

Por Rodrigo Loureiro Medeiros

Há três anos atrás, mais especificamente no dia 20/11, falecia Celso Furtado.   Tratou-se de um dos fundadores da economia política no Brasil e um dos maiores pensadores do desenvolvimento periférico, o subdesenvolvimento. Furtado nasceu em Pombal, em 1920, interior da Paraíba, e cresceu no meio das iniqüidades brasileiras e das grandes transformações globais provocadas pela crise de 1929.

Mudou-se para o Rio de Janeiro no final da década de 1930 para cursar Direito na Universidade do Brasil. Posteriormente, esteve nos campos de batalha da Itália durante a Segunda Guerra com a Força Expedicionária Brasileira ao lado dos Aliados, contra o nazi-fascismo. Ao longo de seu doutoramento em Economia na Universidade de Paris, vivenciou a grande concertação política da reconstrução européia. Sob a influência de pensadores dos quilates de Mannheim e Marx, percebe claramente a relação entre economia e política.

Ao regressar ao Brasil, trabalhou na Fundação Getúlio Vargas para, logo depois, em 1948, viajar para Santiago do Chile e integrar o grupo fundador da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). A relação com Raúl Prebisch, engendraria a escola de pensamente mais importante do denominado Terceiro Mundo.

Esteve no Brasil para dirigir os trabalhos da comissão mista CEPAL – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, uma das bases para o Programa de Metas (1956-61), durante o segundo governo Vargas (1951-54). Posteriormente foi membro do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste durante a administração JK, chefiando os trabalhos da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) de 1959 até março de 1964.

Sua obra seminal, Formação econômica do Brasil (1959), influenciou uma geração de intelectuais. O impressionante é verificar que o seu clássico texto continua influenciando jovens pelo vigor analítico expresso e a demonstração cabal do potencial brasileiro, que existe apesar da incompetência histórica de sua classe dirigente. Desde então já se reconhecia que a pior opção para um país é a permanência no subdesenvolvimento, uma estrutura sociológica que combina dependência econômico-financeira com a macaqueação ideológico-cultural. Os recorrentes estrangulamentos no balanço de pagamentos e o processo de endividamento externo explicam-se sociologicamente. 

Ao longo da década de 1990 muitos buscaram atacar as teses furtadianas. O desastre socioeconômico provocado pela aplicação ortodoxa e incompetente, quando não corrupta, do Consenso de Washington (desnacionalização da economia e liberalização da conta de capitais) negou esse direito aos seus críticos.

No final de sua vida, Furtado, apesar da saúde debilitada, ainda se mostrava confiante na superação dos graves desafios brasileiros – disparidades regionais e sociais, riscos permanentes de estrangulamento no balanço de pagamentos. Entretanto, ele advertia:

“Forçar um país que ainda não atendeu às necessidades mínimas de grande parte de sua população a paralisar os setores mais modernos de sua economia, a congelar os investimentos em áreas básicas como saúde e educação, para que se cumpram metas de ajustamento da balança de pagamentos impostas pelos beneficiários de altas taxas de juros, é algo que escapa a qualquer racionalidade. Compreende-se que esses beneficiários defendam seus interesses. O que não se compreende é que nós mesmos não defendamos, com idêntico empenho, o direito de desenvolver nosso país”.

Os desafios são enormes. A taxa básica de juros nominal brasileira continua entre as mais elevadas do planeta, sua infra-estrutura logística é precária, a carga tributária sufoca o setor produtivo da economia e transfere renda do mesmo para o sistema financeiro rentista. Em síntese, o Brasil tem crescido abaixo da média global e acumula problemas sociais.

Revisitar Celso Furtado mostra-se sempre uma boa forma de se repensar as utopias de uma geração de intelectuais progressistas e engajados com os processos de transformação nacional. Ainda que os tempos sejam difíceis, Furtado nos deixa um campo fértil de reflexão e de ricas sugestões.

Rodrigo Loureiro Medeiros é pesquisador associado à REGGEN/UNESCO.


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