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Passou do ponto

Posted By Imprensa On 16 outubro, 2007 @ 9:24 am In Conjuntura | No Comments

 EXAME  | 04.10.2007

O índice Big Mac, uma forma de comparar o poder de compra no mundo todo, sinaliza que, após anos desvalorizado, agora o real está sobrevalorizado frente ao dólar

Por Eduardo Pegurier

Nas últimas semanas, os exportadores brasileiros ganharam um argumento improvável em sua luta por uma taxa de câmbio mais competitiva — o preço do Big Mac, carro-chefe da rede de lanchonetes McDonald’s. O sanduíche é usado para compor uma estranha, e surpreendentemente bem-sucedida, fórmula para tentar aferir qual deveria ser o verdadeiro valor do câmbio em vários países, independentemente dos humores de curto prazo do mercado.

No início apenas uma brincadeira dos editores da revista britânica The Economist, o índice Big Mac, inventado há mais de 20 anos, acabou se firmando como um bom indicador de longo prazo para as diferentes moedas. A idéia é que, ao comparar o preço do sanduíche mais popular do mundo, produzido exatamente da mesma maneira e com os mesmos ingredientes em 120 países, é possível captar o valor correto de cada moeda. Desde o início de 1999, quando o câmbio brasileiro passou a flutuar livremente, o índice Big Mac vinha mostrando um dólar excessivamente caro, especialmente durante os períodos de maior instabilidade no Brasil.

Do início de 2007 para cá, no entanto, o Big Mac começou a avisar o oposto: que o real é que está valorizado. A mensagem ganhou força com os recordes de valorização atingidos nas últimas semanas. Segundo o índice mais recente, o correto seria o dólar custar 2,02 reais — e não 1,83, como chegou a valer no dia 28 de setembro, quando foi fechada esta edição. A diferença significa que o real, naquela data, estava 10% mais valorizado que o ideal apontado pelo Big Mac.

O fortalecimento do real resulta da combinação de dois fenômenos, um externo, outro interno. O primeiro diz respeito ao comportamento da economia americana, ainda a maior potência mundial. Com a crise das hipotecas por lá, várias moedas se valorizaram nos últimos meses frente ao dólar, não apenas o real. Esse movimento ganhou força em meados de setembro, quando o banco central americano reduziu as taxas de juro para aplacar as turbulências do mercado financeiro, fazendo com que os investidores migrassem de títulos em dólar para aplicações em outras moedas, como euro e iene. A perda de valor da moeda americana, no entanto, já vem ocorrendo há anos. O déficit em conta corrente dos Estados Unidos, que deve fechar 2007 em 730 bilhões de dólares, é visto como sinal de desequilíbrio — o que se traduz em desvalorização da moeda.

Entenda o índice

O índice Big Mac parte do princípio de que, por ser feito da mesma forma em 120 países, o sanduíche deveria ter em cada país o mesmo preço em dólares cobrado nos Estados Unidos. A diferença de preço indica se há valorização ou desvalorização do câmbio
O Big Mac custa:
Nos Estados Unidos
US$ 3,41
No Brasil
R$ 6,90
No dia 28 de setembro, o dólar estava cotado em… R$ 1,83
…por essa cotação, o sanduíche feito no Brasil valia… US$ 3,77
…ou seja, 10% mais do que os 3,41 dólares cobrados nas lanchonetes nos Estados Unidos. Portanto, o valor do dólar, segundo o índice, deveria ser 10% maior, ou R$ 2,02

Por outro lado, o desempenho mais robusto da economia brasileira acaba reforçando a tendência de valorização do real. Como o Brasil tem recebido um crescente fluxo de recursos internacionais, a relação fica ainda mais favorável para a moeda local. De acordo com a Bovespa, até o dia 20 de setembro, os investidores externos haviam injetado 30 bilhões de reais no mercado acionário brasileiro desde o começo de 2007. “Esse câmbio é resultado da crescente inserção do Brasil na economia mundial. O status de grau de investimento, que está próximo, deve trazer mais uma enxurrada de capital estrangeiro, mantendo o real valorizado”, diz Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da administradora de recursos Rio Bravo.

O tão esperado grau de investimento é uma espécie de chancela da solidez da economia brasileira, o que na prática se traduz em volumes maiores de recursos em busca de boas oportunidades. Nesse sentido, o descolamento da cotação do real do índice Big Mac pode se acentuar ainda mais, para desespero dos exportadores brasileiros. “O Big Mac está na direção certa, mas o dólar deveria estar ainda mais caro do que ele aponta, em algo como 2,20 reais. Com o dólar a menos de 2 reais, o saldo comercial vai despencar”, diz Roberto Giannetti da Fonseca, presidente da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior.

Desde sua criação, em 1986, o índice Big Mac acumula erros e acertos. Há exemplos eloqüentes da capacidade do Big Mac de prever o futuro das moedas. O mais célebre é o euro. Quando a moeda da União Européia foi lançada, em 1999, a maioria dos analistas, incluindo o experimentado banqueiro George Soros, esperava uma valorização frente ao dólar. Do contra, o Big Mac indicava que o euro deveria cair 13%. Em dezembro do mesmo ano, as previsões do índice do hambúrguer se confirmaram. “O erro talvez tenha sido brindar o nascimento da nova moeda com champanhe e canapés de salmão. Deveriam ter comido um Big Mac”, tripudiou a The Economist. Mas nem sempre os prognósticos do Big Mac são comemorados. Nos Estados Unidos, o índice serviu para alimentar a polêmica recorrente que envolve o déficit comercial dos Estados Unidos com a China e o valor da moeda chinesa, o yuan. O Big Mac vem mostrando o yuan, cujo câmbio é controlado pelo governo chinês, sempre acima de 50% mais barato do que seu real valor em dólar.

“A capacidade de previsão do Big Mac é tão boa quanto a de qualquer método mais rigoroso”, diz o economista David Parsley, da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, que estudou a composição do Big Mac e comparou seus resultados a índices mais complexos, como o da Organização das Nações Unidas, em 34 países num período de 13 anos. Em defesa do próprio índice, a The Economist avisa que, embora seja um bom indicador de tendências, nem sempre o Big Mac acerta na magnitude dos ajustes a ser feitos na moeda. No caso do Brasil, a mensagem pode se traduzir assim: independentemente do que diz o índice, é melhor não contar tão cedo com uma recuperação do dólar.

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[1] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[2] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[3] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[4] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[5] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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