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” o lixo tóxico que os trouxas chamam “investimento estrangeiro”
Posted By Imprensa On 11 outubro, 2007 @ 3:39 pm In Conjuntura | No Comments
Folha de São Paulo
Setembro/2007
RUBENS RICUPERO
Vinte e sete anos atrás
Estaríamos voltando à conjuntura inflacionária mundial como terapêutica para a economia americana?
O OURO vem de atingir a mais alta cotação em 27 anos. Isso nos retroage a 1980, final do governo Carter,quando a inflação americana chegou ao topo de 11%.
Não tardou para que Paul Volcker, presidente do Federal Reserve, aumentasse os juros a dois dígitos, precipitando a América Latina na crise da dívida, na qual deixou anéis e vários dedos.
Estaríamos voltando à conjuntura mundial inflacionária, não por acidente, mas como terapêutica para a economia americana? É o que ouço de amigos suíços dos meios financeiros.
Não foi surpresa para eles a redução de meio ponto nos juros dos Estados Unidos. Inflacionar a economia sempre foi tentação quase irresistível para um país se livrar da montanha de dívidas domésticas e externas. O gostinho é mais delicioso quando a conta do ajuste é paga por estrangeiros, credores e concorrentes, sob a forma de moedas valorizadas, de créditos e reservas rebaixados.
Impensável devido à irresponsabilidade? Só para quem esqueceu da frase sobre o dólar de Connally, secretário do Tesouro de Nixon: “Our currency but your problem” (“A moeda é nossa, mas o problema é vosso”).
Eu vivia em Washington e lembro bem da época, de como, por exemplo, a Guerra do Vietnã parecia que nunca ia acabar. Como esta, do Afeganistão-Iraque, tinha já durado mais que a Primeira Guerra Mundial. Como agora, os gastos militares agravavam o duplo déficit orçamentário e externo. Também havia bolha imobiliária, da qual provei pessoalmente os efeitos.
Da mesma forma, o preço do petróleo explodia. No dia do recente corte dos juros, o barril do cru superou US$ 82 e o novo patamar “natural” passou a ser US$ 80. Não será com o bombardeio israelense da Síria e as ameaças de Bush-Sarkozy ao Irã que ele vai baixar.
Os metais continuam nas nuvens, o trigo nem naquele tempo esteve tão caro, o milho e a soja sobem por efeito do álcool. A China acaba de decretar congelamento para segurar a inflação. O engenhoso expurgo de alimentos e energia -afinal, o que conta no bolso do consumidor- faz os preços parecerem moderados, mas os ativos não enganam. O excesso de liquidez produz bolhas nos imóveis, nas ações, nas commodities e no índice Ibovespa, da Bolsa de Valores de São Paulo.
Deixei um país abalado e, ao voltar em 1991, como embaixador, reencontrei nação vitoriosa na Guerra do Golfo, autoconfiante e afirmativa. A estratégia do ajuste funcionara. O desabamento dos preços de 1986 aniquilou os países petrolíferos. Um ano antes, o acordo do Plaza obrigara europeus e japoneses a engolirem a desvalorização do dólar. A explosão da Bolsa nipônica em 1990 liquidou a ameaça do Japão “number one”.
Quem vai ficar com a fatura desta vez? Os europeus já começaram a pagar mediante a valorização do euro e a perda de exportações. A China foi surda aos apelos sobre a moeda, mas ela que se cuide. A queda drástica do dólar pulveriza boa parte de suas reservas e encolhe o mercado ianque.
Se acabar a inflação baixa com liquidez farta, vai sobrar para todos. O Brasil inclusive, que, graças ao mais generoso dos bancos centrais, contribui para a inflação de ativos ao deixar especuladores ganharem fortunas à custa de nossos juros. No segundo trimestre, as especulações em real foram recorde mundial, com aumento de 32% (dados do Banco de Basiléia). É esse lixo tóxico que os trouxas chamam “investimento estrangeiro”.
RUBENS RICUPERO , 70, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.
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[1] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[2] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[3] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[4] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[5] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
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