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Integração sul-americana e a Petrobras global
Posted By Imprensa On 2 outubro, 2007 @ 12:15 pm In Conjuntura | 1 Comment
VALOR – 26/09/2007
Carlos Lessa é professor titular de Economia Brasileira da UFRJ. Escreve
mensalmente às quartas-feiras. E-mail: carlos-lessa@uol.com.br [1]
Em 2005 a Petrobras fechou acordo com a Pedevesa, compreendendo um elenco
de projetos conjuntos. Haveria a troca de participações entre as duas
estatais petroleiras sul-americanas, sendo que a Pedevesa participaria na
refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e a Petrobras no campo petrolífero
Carabobo I (Venezuela). No mesmo bloco, haveria participação da Petrobras
na exploração do extremamente importante e promissor depósito de gás na
província de Mariscal Sucre. Há dois anos, está lançada a idéia de um
gasoduto que remeteria gás natural das imensas jazidas venezuelanas para
complementar o consumo industrial brasileiro e suprir Buenos Aires. Seria
a coluna vertebral do início de uma integração pela energia na América do
Sul.
Consistiria em um eixo que possibilitaria articular Uruguai, Paraguai e
talvez Chile na equação energética continental com um combustível que, a
cada dia, vê aumentada sua importância ante o débil crescimento das
reservas internacionais de petróleo, frente à evolução do consumo
internacional do combustível.
Nos últimos 20 anos, não foram descobertas novas bacias petrolíferas; o
crescimento das reservas tem sido, basicamente, à base de reavaliações
técnicas das jazidas conhecidas. A expansão do consumo mundial de
petróleo vem elevando o preço relativo dessa energia, o que abre um
horizonte extremamente promissor para a exploração de areias
petrolíferas, petróleos ultra-pesados e, principalmente, de gás, quer
como combustível, quer como matéria-prima. O gasoduto é vital para o
balanço energético da Argentina, que necessita de combustível para seu
desenvolvimento industrial, além do aquecimento doméstico durante os
meses do inverno. Por outro lado, os dutos limitam a contribuição de gás
boliviano ao Brasil. O futuro suprimento venezuelano é estratégico para a
retomada da industrialização brasileira e complemento para a
termoeletricidade nacional. Nosso país tem, ainda, disponível imenso
potencial hidrelétrico, bem como pode ser o celeiro bioenergético do
continente, porém não pode prescindir de gás. O gás é um ativo
estratégico da Venezuela em seu futuro exportador de energia. O governo
venezuelano é o que menos depende do gasoduto, do ponto de vista
econômico trivial. Sabe que este combustível liquefeito será um
energético com demanda explosiva nos próximos anos, e que deslocará a
nafta como matéria-prima, ponto de partida da cadeia petroquímica.
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O Brasil deveria pensar no petróleo como uma salvaguarda nacional,
ao invés de exportar excedentes nascidos de seu raquítico crescimento
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Creio que com grande sabedoria estratégica e inspirado pela visão da
integração sonhada por Simon Bolívar o governo venezuelano prioriza a
construção do gasoduto. Desnecessário dizer que os laços da Venezuela com
a Argentina, hoje importantes para o refinanciamento do passivo externo
platino, estarão hiperconsolidados pelo gasoduto, que afastará Buenos
Aires dos riscos de desabastecimento domiciliar no período invernal.
Para meu espanto, a Petrobras vem criando dificuldades no projeto de
exploração de gás de Mariscal Sucre, autodefinindo-se como uma petroleira
em competição com as demais irmãs, no nível do mercado global. A
Petrobras vira as costas para a integração sul-americana e se encontra
com ”medo” do gasoduto, pois não quis rever de maneira fraterna o acordo
com a Bolívia, firmado pelos presidentes neoliberais (FHC e o seu
parceiro boliviano). No ano passado assisti um alto executivo da
Petrobras definir que a missão da companhia era servir a seus acionistas.
Claro que esta mesquinharia está reduzindo o Estado brasileiro a alguém
que tem ações da companhia. Obviamente, com esse discurso banal a direção
da Petrobras quer que os acionistas estrangeiros – mais de 40% do capital
da companhia está em ADRs no exterior – se sintam priorizados. Coloca em
risco a visão de futuro sul-americano em nome de uma prosaica
autodefinição e um alinhamento ridículo com outras petroleiras. Afirmo
que a missão histórica da Petrobras não se reduz a servir a seus
acionistas, nem apenas a permitir as carreiras de seus funcionários.
A Petrobras nasceu da campanha “O Petróleo é Nosso”. Foi construída com
imenso esforço pelos brasileiros, que lhe garantiram o mercado interno, e
viabilizaram uma robusta lucratividade em nome da soberania energética
nacional. É uma empresa estatal estratégica para o futuro energético
brasileiro. Deveria se definir como empresa de energia. É uma instituição
pública com forma empresarial, que depende e deve estar a serviço do
desenvolvimento nacional. Não é uma empresa “solta”, cuja referência
administrativa e teleológica seja a cotação de suas ações na bolsa de
Nova Iorque. Se o governo brasileiro se definiu por uma estratégia de
integração sul-americana, a Petrobras está obrigada, a exemplo da
Pedevesa, a servir ao fortalecimento dessas relações. As petroleiras
mundiais são contra os gasodutos; esta infra-estrutura as desloca, pois
exige, tecnicamente, acordos geopolíticos fundamentais entre o produtor e
o utilizador do gás. O gás liquefeito pode ser tratado como commodity, o
que preservará o papel das petroleiras mundiais, agora ameaçadas pelo
cenário futuro de um petróleo se esgotando. O consumo mundial projeta um
progressivo encarecimento do petróleo. Países que esgotaram seu petróleo,
exportando-o a US$ 3 o barril, são hoje importadores de óleo a mais de
US$ 70. A Indonésia é um exemplo trágico de país que banalizou suas
reservas. A China, com inteligência geopolítica, perfura poços e os
mantém como estoque.
Ao invés de exportar excedentes nascidos de seu raquítico crescimento
econômico nos últimos 25 anos, o Brasil deveria pensar no petróleo
brasileiro como uma salvaguarda nacional e uma boa aplicação financeira
para o futuro.
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[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
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1 Comment To "Integração sul-americana e a Petrobras global"
#1 Comment By M.A.P On 11 novembro, 2007 @ 5:20 pm
Penso que seria altamente desejável a busca de sinergias no setor de petróleo, esse modêlo concentrador esta em alta, é só olharmos as fusões na siderurgia, no setor bancário, fármaco e por aí vaí.
Provavelmente as duas companhias ganhariam com sociedade,a Petrobrás contribuiria com o Conhecimento e a Tecnologia e A PDVSA com “money” e patriotismo, que estão em falta por aqui.
Os administradores da Petrobras deveriam lembrar-se de quem é na verdade o maior acionista da Estatal: é o povo brasileiro que durante anos pagou a gasolina mais cara do mundo para manter uma Empresa cuja gestão muitas vezes foi chamada de gravosa.
È o minimo que se espera, que o interesse do Brasileiro seja levado na sua devida conta.