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Entrevista com Muniz Sodré

Posted By Gustavo On 19 outubro, 2007 @ 11:36 am In Conjuntura | No Comments

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PET-ECO: A PARTIR DOS AUTORES CITADOS NO LIVRO “CLAROS E ESCUROS”, COMO VOCÊ TRABALHA ESSE CONCEITO DO IMPÉRIO?

Muniz Sodré: Eu trabalhei isso brevemente no livro. Na verdade, eu quis mostrar como é que uma forma pode persistir na História. Eu estava preocupado com o patrimonialismo brasileiro. O Estado brasileiro é transplante do estado patrimonial português, que é o estado da Segunda Dinastia de Avis, a dinastia responsável pelo descobrimento. Continuamos no estado patrimonialista, isto é, um Estado que é regido como se fosse a “casa da mãe Joana”, com as mesmas elites que descendem dos capitães donatários, os antigos donos do poder. Usei a categoria de Raymundo Faoro (Os donos do poder, 1975). Como é que isso persiste? Em 500 anos, nós podemos dizer que o Estado continua patrimonialista.

Eu procurei mostrar como as classes dominantes reinterpretam as formas passadas, administrando a nova realidade econômica, tecnológica. É uma forma que persiste na História. No caso, é o patrimonialismo, que é reger a coisa pública como se fosse negócio de família. Ainda tento mostrar que o patrimonialismo cultural é uma forma de cooptação. E o que interessa é que a forma continue. Para explicar a persistência dessa forma, trouxe como exemplo o fato de a Europa estar sempre reinterpretando a forma “Império” para se adequar ao poder deles: o poder colonial, depois o poder econômico, depois passa para os EUA.

PET-ECO: ENTÃO ESSE PATRIMONIALISMO SERIA UMA FORMA DE O IMPÉRIO ESTAR PRESENTE NO CONTEXTO HISTÓRICO BRASILIEIRO…

Muniz Sodré: Não, esse patrimonialismo não tem a ver com o “Império”. O imperialismo existe hoje como uma reinterpretação da antiga forma “Império”. E o patrimonialismo que existe hoje é uma reinterpretação das classes dirigentes da forma patrimonial. Eu fiz uma analogia entre um e outro, mas não vinculei.

PET-ECO: MAS ENTÃO COMO O IMPÉRIO ESTARIA PRESENTE NO CONTEXTO HISTÓRICO BRASILEIRO?

Muniz Sodré: Neste caso, é dominação militar e econômica pura e simplesmente. Aí, o patrimonialismo tem que “dobrar a espinha” ideologicamente. A dominação econômica e militar se faz só num primeiro momento. Por exemplo, entra na sua casa o Mike Tyson e diz: “Olha, eu vou te bater”, e você com esse físico, diz, “Bom, pode bater”. Você não vai ganhar daquele cara, então, você se submete. Ele entra na sua casa, come sua comida, mas tem uma hora que ele vai ter que dormir, e dormindo, não tem Mike Tyson. Com isso, você o liquida fácil. Nenhum poder se sustenta o tempo inteiro pela força. Mas suponha que o Mike Tyson convença você de que essa é a coisa justa a fazer, afinal ele é campeão do mundo e vai te ensinar boxe… Então você começa: “Mas que cara simpático! Me ensinou a bater em gente e, além do mais, ele merece. Eu sou amigo do campeão do mundo!”. Daqui a pouco, você está servindo-o de bom grado, aí ele pode dormir em paz. Você continua trabalhando por ele. Ele passou do poder pura e simplesmente, para um outro tipo de poder que é a hegemonia, a dominação do consenso, a servidão voluntária. Você quer servir o Mike Tyson, você quer ser dominado por ele e isso é ideológico. E a maior parte do poder é ideológico. São os efeitos do poder.

Convenceram historicamente as mulheres que elas são fisicamente frágeis. Mentira, porque a mulher não é fisicamente mais frágil que o homem. Exatamente por isso ela não desenvolve músculos no interior da coxa e nos braços. Então, ela perde na queda de braço para qualquer garoto, mas não perde na porrada porque não tem medo de se ferir. Quem ganha na briga é quem é mal, só ganha quem é mal. Porque assim sai do mito, sai da ideologia, da fragilidade física. O que eu quero dizer com isso? É que o poder é da ordem do convencimento, da ordem da ideologia. Há um momento em que o poder é força, e o seu último recurso é a força, mas a força não pode ser exercida o tempo inteiro. Então, o império americano são os efeitos do “Império” e esses efeitos são impostos pela mídia: são o consumo. O “Império” hoje é imaterial. Não tem mais o soldado romano, americano, aqui dentro, com as armas. O poder é imaterial, o “Império” é imaterial


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[1] http://www.culturareligare.worldpress.com/: http://www.culturareligare.worldpress.com/

[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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