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Blog do Desemprego Zero

Dica de leitura / Clarice Lispector : uma iniciada sem seita

Escrito por Imprensa, postado em 29 dEurope/London outubro dEurope/London 2007 Imprimir Enviar para Amigo

Introdução: Vestígios de uma identidade

Sou uma iniciada sem seita.

Água Viva (1973)

     O surgimento de Clarice Lispector (1920-77) no cenário literário brasileiro dos anos 40 representou um verdadeiro choque para críticos e leitores da época. E continua sendo até hoje uma experiência, no limite, indecifrável,seja para seu público cativo, seja para os que dela se aproximam pela primeira vez. Daí, talvez, as centenas de artigos, ensaios e teses que rondam sua obra, tentando decifrar o que, afinal, provocaria tanto fascínio para alguns e tanto mal-estar e perplexidade para outros. Mitificada ou rejeitada ao longo de mais de 30 anos de produção literária – passando por romances, contos, crônicas e livros infantis -, a mulher e escritora Clarice Lispector resiste a todas as tentativas de enquadramentos,classificações ou definições. O que ela pensava da vida talvez pudesse estender-se a sua própria pessoa: “O mundo me parece uma coisa vasta demais e sem síntese possível”.

     Em vários depoimentos, entrevistas e cartas, ela insistia em preservar-se,mas frustrava as expectativas de que fosse uma personalidade misteriosa ou exótica: “Levo uma vida muito corriqueira. Crio meus filhos. Cuido da casa. Gosto de ver meus amigos. O resto é mito”.

     A amiga e confidente Olga Borelli, que partilhou do cotidiano de Clarice Lispector nos últimos anos de vida da autora, confirma: “Ela era uma dona-de-casa que escrevia romances e contos”.3 Com a máquina de escrever no colo, produzia seus livros com os filhos ao redor, atendendo ao telefone,chamando a empregada e recebendo os amigos.

    Mesmo tendo evitado expor sua intimidade ao público, Clarice Lispector fez de seus textos um vasto itinerário de uma identidade inquieta e turbulenta,inadaptável às expectativas sociais, obsessiva na captura de si mesma e do outro, desmascarando, sob o verniz do cotidiano, um mundo de desejos e fantasias inconfessáveis. É possível conhecê-la através de inúmeros vestígios, indícios e revelações, dispersos sob as falas de tantas personagens, narradores implícitos ou interpostos, ou ainda nos vários fragmentos — espécies de epigrama e aforismo — que aparecem infiltrados num corpo textual incomum. A literatura de uma das mais importantes escritoras brasileiras está, portanto, muito além da simplicidade doméstica que seu cotidiano faz crer.

        Se é verdade que sua vida não primou por aventuras espetaculares, seus textos fizeram dessa contingência a maior marca. Diz a autora: “Meus livros, infelizmente para mim, não são superlotados de fatos e sim da repercussão dos fatos nos indivíduos”.4 Serão também as ressonâncias de seus escritos que nos levarão a um possível perfil da própria escritor e,sobretudo, às complexas relações entre realidade e linguagem presentes em sua obra, inéditas na época em que a autora surgiu.

Desejo de pertencer

      Clarice Lispector nasceu em Tchechelnik, uma aldeia da Ucrânia, quando a família emigrava da Rússia para a América, fugindo da perseguição aos judeus após a Revolução Bolchevique de 1917. Os pais hesitaram entre os EUA e o Brasil e acabaram aportando em Maceió, capital de Alagoas, em 1921.

     Clarice Lispector tinha então dois meses de idade, sendo a menor de três irmãs. Em 1924, a família muda-se para Recife, onde reside por nove anos. É nesse período, recém-alfabetizada, que Clarice Lispector descobre a literatura: “quando eu aprendi a ler e escrever, eu devorava os livros!

[...] Eu pensava que livro é como árvore, como bicho: coisa que nasce!

 Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um

 autor. Aí disse: ‘Eu também quero’”.

     A pequena escritora, então com sete anos, começa a mandar contos para a seção infantil do Diário de Pernambuco, que nunca os publicará. “As outras crianças eram publicadas e eu não”, relembra Clarice. “Logo compreendi por quê: elas contavam histórias, uma anedota, acontecimentos. Ao passo que eu relatava sensações? coisas vagas .”

     Esse mesmo episódio, o primeiro de uma série de desencontros entre o universo ficcional da autora e o mundo das convenções literárias, será matéria da crônica “Era uma Vez”, que foi publicada em 1964 no volume A Legião Estrangeira(e que reaparecerá no Jornal do Brasil, em 1972, com o título “Ainda Impossível”). Nessa crônica, a autora, já adulta, pensa “estar pronta para o verdadeiro ‘era uma vez’” e tenta apenas relatar um acontecimento: “No entanto, ao ter escrito a primeira frase, vi imediatamente que ainda me era impossível. Eu havia escrito: ‘Era uma vez um pássaro, meu Deus’”.

     É desse assombro constante do ato de narrar diante da realidade, sempre impossível e inatingível pela palavra, que a obra clariciana irá tratar,convulsiva e reiteradamente. Ao leitor, restará deixar-se conduzir por uma escritura errante, que alude ao inexprimível, à zona obscura do que a palavra não pode expressar, como se lê nesta passagem do romance Água Viva:

“Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão”.

    Não só sua escrita se faz pelo avesso – sendo a escuta do que se cala ou a visão do que se oculta -, mas a própria versão que a autora traz de seu nascimento revela uma “falha” de origem, um desvio fundante que a acompanhará vida afora e que ela chama de uma “espécie de solidão de

não pertencer”. A palavra é de Clarice, numa de suas crônicas: “fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente,e,por superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo”.

     A mãe de Clarice, Marieta, sofria de uma paralisia progressiva que a tornou inválida, até morrer, em 1930. O pai, Pedro, era mascate e teve um vida marcada pela pobreza. Uma das frases iniciais da mesma crônica – “Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer” -torna-se um veio importante na compreensão da vida e da obra de Clarice Lispector. Imigrante russa, nunca se sentiu russa, e nem sequer falava a língua iídiche dos pais. Os “erres” de sua língua presa confundiam os ouvintes, que pensavam tratar-se de uma francesa. O judaísmo, por sua vez,era vivido de forma crítica, como declarou a um jornalista um ano antes de morrer: “Eu sou judia, você sabe. Mas não acredito nessa besteira de judeu ser o povo eleito por Deus. Não é coisa nenhuma. Os alemães é que devem ser porque fizeram o que fizeram. Que grande eleição foi essa para os judeus?” Sentia-se, sobretudo, brasileira, tendo o português como língua materna. Mas a identidade de si mesma permanecia-lhe obscura, fugidia,e sua escrita parece ter sido sempre uma tentativa de encontrar-se. E perder-se novamente.

    Nascida européia, criada nordestina, residente carioca a partir dos 13 anos e, na condição de esposa de diplomata, habitante de vários países (Itália,Suíça, Inglaterra e EUA, entre outros), Clarice Lispector não passaria incólume por tal nomadismo. “Tudo é terra dos outros, onde os outros estão contentes”, diria em carta de Berna para a irmã Tânia, em 1946.

   Sua diáspora pessoal – exterior e interior – inspirou as falas mais diversas de alguns amigos próximos. Para o escritor Antonio Callado, “Clarice era uma estrangeira na terra”. Para o cronista Otto Lara Resende,”era o seu tanto adivinha”. Já o amigo e psiquiatra Hélio Pellegrino a via como “vidente e visionária”, uma “personalidade lisérgica”. O jornalista Paulo Francis, por fim, acabou sendo o mais contundente: “Clarice era uma mulher insolúvel”.

    Seja como for, o diálogo possível com a obra dessa escritora terá de fazer-se aos poucos, de forma tateante e fragmentária, de um modo mais alusivo do que afirmativo – como são, na verdade, os seus escritos. Aliás,mesmo querendo desmistificar-se, Clarice estava convicta de que só

poderia ser entendida telepaticamente… Para ser fiel a uma escrita que busca não esmagar com palavras as entrelinhas, é preciso ler distraidamente,desarmar-se para reconhecer o que ela denomina “o invisível núcleo da realidade” e experimentar o “assustador contato com a tessitura de viver”. Mas a referência maior do presente estudo é explicitado pela própria autora: “Se eu tivesse que dar um título à minha vida seria: à procura da própria coisa”.

       Como se vê, este pequeno livro introdutório deverá partir de uma desistência — desistir de “explicar” Clarice. O que se pretende, então, é astrear algumas linhas de força que marcam sua obra, pouco esquematizável num percurso progressivo ou evolutivo historicamente. Donde a opção por um tratamento mais temático — estilístico, dentro dos vários gêneros cultivados pela autora. Mesmo essa divisão dos capítulos – sendo dois sobre os romances e dois sobre os contos, precedidos pelo capítulo inicial “Clarice e Seu Tempo”, atravessados por alguns trechos de suas crônicas e finalizados por “Relances de Clarice” — atende apenas à necessidade didática de apresentá-la ao leitor, já que suas preocupações fundamentais,entremeadas a seu estilo inconfundível, não se diferenciam por gêneros nem por épocas. São sempre a mesma personalidade literária e os mesmos motivos recorrentes que estão em jogo, compondo uma espécie de “samba de uma nota só”, que ressurge sob disfarces, dissimulações, fingimentos e outras estratégias a serem vistas. Nosso caminho terá a figura da espiral, que convida a revisitar aspectos já abordados para reinscrevê-los numa nova e, ao mesmo tempo, familiar configuração.

“Clarice Lispector”

Autor: Yudith Rosenbaum

Editora: Publifolha

Páginas: 112

Quanto: R$ 17,90



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