Consumo interno ainda não começou, diz economista
Escrito por Imprensa, postado em 31 dEurope/London outubro dEurope/London 2007
Leonardo Trevisan
Pequim, Outubro de 2007 – Não existe talão de cheque nem crédito direto, e os cartões são muito pouco usados no país. Sem alterar o tom de voz, o economista chinês avisou: “aqui o consumo ainda não começou”. E antes que a lembrança sobre o óbvio apogeu da economia chinesa fosse feita, o professor da Universidade de Pequim advertiu: “Você sabe que na China ninguém tem talão de cheque?” Também, apenas não existe crédito direto ao consumidor. Entrar na loja e comprar uma geladeira, só à vista. Qualquer consumo de bem durável, de qualquer valor, é feito com dinheiro vivo. Financiamento para pessoa física só para comprar casa. Em condições bem específicas e envolvendo duras exigências de renda familiar. A menção de que os chineses têm um índice de poupança de 42% da renda nacional foi recebida com um sorriso irônico pelo professor de Macroeconomia. Motivo: metade dessa poupança é realizada por empresas estatais, como registra a contabilidade oficial. O resto fica por conta dos esforços dos cidadãos. Aliás, nesse ponto, o papel financeiro das empresas estatais, está a grande surpresa da economia chinesa.
Em 2005, segundo os dados do Banco Popular da China (o nome do banco central), foram emprestados US$ 2,5 trilhões para as empresas estatais, o que correspondeu a 112% do PIB do país naquele ano. Vale notar que os quatro maiores bancos chineses, Industrial Commerce Bank, Bank of China, Construction Commercial Bank e Agricultural Bank of China foram responsáveis por 65% desses créditos. Portanto, não é difícil entender porque não há crédito direto ao consumo.
Esse quadro já foi bem pior e o banco central chinês aos poucos coloca ordem na casa. Dos recursos emprestados em 2005, 8% já foram declarados como “créditos duvidosos” em dezembro do ano passado. Em 2001, no entanto, esses créditos podres representavam 32% do que foi emprestado. Em 2002 o governo criou o Asset Management Companies (AMC), com o objetivo de sanear os ativos duvidosos do sistema bancário via injeção de recursos públicos. A medida chegou acompanhada de novas normas que o BC chinês chamou de “governança corporativa do crédito”. A idéia era não só limpar o crédito podre, mas, principalmente, não deixar sujar mais. O professor garantiu que essa operação de salvamento dos bancos está dando certo.
Nesse caminho, portanto, o BC chinês não tem mecanismos de crédito para pessoa física porque usa os 42% de poupança para manter o alto crescimento econômico, emprestando dinheiro novo para as estatais fazerem investimentos, inclusive honrando as contrapartidas nas joint ventures que assinam.
Por outro lado, a cultura de crédito para consumo é muito baixa na China. O maior incentivo para a poupança e para o bloqueio do consumo vem da fragilidade absoluta do sistema de previdência social e da má qualidade da saúde pública. São poucos os chineses que têm alguma cobertura previdenciária. No começo deste mês, o Ministério do Trabalho e da Segurança Social apresentou dados mostrando que apenas 194,5 milhões de pessoas tinham algum tipo de cobertura previdenciária e só 188,7 milhões tinham algum tipo de seguro médico, em um país com mais de 1,3 bilhão de pessoas.
O único mecanismo de incentivo ao consumo é o cartão de crédito. O BC não divulga o número total desses cartões, mas o China Consortium Bank comemorou, em setembro, que alcançara onze milhões de plásticos, um número alto, mas modesto em relação à população chinesa. O cartão de crédito funciona como cartão de débito nos caixas eletrônicos e em algumas lojas. A tecnologia é recente e os bancos fizeram campanhas publicitárias para desenvolver hábitos de uso desses cartões. Mas reconhecem que não podem acelerar a oferta desses instrumentos.










