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A necessária expansão das idéias

Posted By Imprensa On 28 outubro, 2007 @ 10:22 am In Conjuntura,RESUMOS DO DIA | No Comments

(Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 3)(Ozires Silva – Diretor-presidente da mantenedora da Universidade de Santo Amaro. Ex-presidente da Embraer. Próximo artigo do autor em 12 de novembro)

O Brasil e a América Latina necessitarão de um mercado de idéias mais ativo para reagir aos desafios do desenvolvimento futuro

Outubro de 2007 – São ainda poucos os estudos de reconhecida qualidade nos países periféricos. É surpreendente constatar que certos segmentos industriais, e mesmo nossa população no Brasil, mostram pouca curiosidade pelas oportunidades abertas nos nossos dias pela globalização da economia e pela busca do novo consumidor mundial. Parece que uma boa parcela do nosso sistema produtivo esteja pouco consciente do valor das novidades e da incrível capacidade de inovar que invade o mundo mais avançado. Na mesma direção, muitos parecem não constatar a conexão entre essa tendência e a ascensão econômica estonteante, beneficiando algumas das nações, em particular as sociedades emergentes, entre outras.

Apesar desse movimento crescente por parte dos consumidores, também é curioso constatar que, em que pese a crescente presença das economias emergentes nos mercados mundiais, boa parte das pesquisas, sejam em economia, negócios, política social ou relações internacionais, ainda se originam nas nações tradicionais do Ocidente.

A Ásia tem uma forte tradição presente no pensamento mundial e certamente não tem nenhuma escassez de capacidade mental ou individual nos seus centros de estudos. No entanto, o resultado da sua massa de pensamento produz trabalhos prosaicos, que na maioria das vezes não consegue chegar a termo com perguntas, e muito menos respondê-las. Poderíamos dizer que, nas nações periféricas, há muitos centros de pensamento, mas poucos são os estudos de qualidade, realmente inovadores. Basta constatar na grande maioria dos trabalhos publicados o número de citações provindas das nações desenvolvidas.

Embora centros de excelência possam ser lembrados, fora da Europa ou dos EUA, poucos são aqueles que se empenham em coletar fatos, produzindo argumentos ou filtros rigorosos, questionando políticas estabelecidas e procurando mapear novas direções. Por mais impressionante que seja o crescimento da China, na atualidade ressaltado como algo diferente, sobretudo por partir de uma nação multifacetada e com uma fraca base nacional, chama a atenção como uma grande execução, mas não ressalta como mentalidade de desenvolvimento original.

Os produtos chineses, distribuídos intensamente e ocupando fortes posições no mercado mundial, falham em mostrar algum tipo de tendência especial. Satisfazem às demandas mercadológicas, mas dentro dos estereótipos que todos do Ocidente conhecem e reconhecem.

Idéias originais partem de civilizações livres e onde a liberdade se impõe. Não é acidente que elas tendam a fluir amplamente em países como os EUA e e da Europa, com predominância da Grã-Bretanha e da Escandinávia, que não só toleram como também estimulam essas atividades como sendo socialmente benéficas. Em outras regiões, dominadas sob o peso da autocracia governamental, sob o jugo do poder central, os questionamentos à ordem estabelecida são desaprovados, mesmo nos lugares em que os regimes não os reprimem. A deferência instintiva à autoridade, o paternalismo e a aversão a desacreditar outros inibem a crítica.

A América Latina acostumou-se a lidar com o mundo tal qual ele é, e não tenta mudá-lo radicalmente: os bloqueios encontrados são para ser aceitos, não alterados por novas e revolucionarias idéias. Embora seja uma regra que as empresas devam procurar transformar obstáculos em oportunidades, isto não é visto com confiança ou como instrumento para aumentar o dinamismo econômico da região. O peso da opinião dos governos da região tem dificultado e mesmo impedido o avanço da região na economia mundial, salvo pequenas e isoladas exceções. As forças de mercado têm cedido a essas culturas de pressão oficial no lugar de tentar promover a integração por meio do livre pensamento ou da livre iniciativa.

O resultado é claro. Não se vê um vigoroso espírito de inquirição necessário para gerar a centelha da inovação que muitas economias emergentes poderiam pretender ou estimular. A disposição do latino-americano de contemporizar com o poder político mantém a região a reboque de idéias e pensamentos importados de regiões mais influentes, numa possível posição confortável que, no final, constrói um muro limitante do crescimento e do progresso.

A conseqüente elaboração de políticas também sofre. As leis e os regulamentos seguem linhas tradicionais e se preocupam mais em prestações de contas, no sentido da burocracia regular instalada há anos, sem a menor brisa de mudanças ou de inovações sensíveis. Problemas iminentes podem passar despercebidos até ficar tarde demais. O Brasil e a América Latina necessitarão de um mercado de idéias mais ativo se quiserem reagir aos enormes desafios gerados pela incoercível necessidade de desenvolvimento futuro. Cada vez mais, esses desafios se estendem através das fronteiras, em áreas tão distintas como educação, saúde, infra-estrutura, transporte e meio-ambiente. A carência de fóruns e instituições comuns na região, nos quais se possam desenvolver soluções combinadas, aumenta a necessidade de idéias engenhosas.

O maior obstáculo à satisfação dessa reprimida demanda não é a insuficiência de bons centros de estudos. É o contexto fraco no qual permanecem que preocupa. Parece que estamos presos a padrões que limitam críticas às políticas, elaboradas nos balcões da burocracia oficial, o que é facilitado pela população em geral, acostumada ao conforto de receber idéias fechadas e elaboradas pelas autoridades, desconfiando de tudo que não tenha chancela oficial.

Em resumo, embora estejamos num mundo novo que se renova com intensa rapidez, vemos ainda que idéias avançadas são pouco comuns nas nações periféricas. É importante insistir que pensamentos inovadores devem ser preparados e discutidos, constituindo-se em oportunidades, e as vozes críticas que advogam mudanças construtivas precisam encontrar apoio para abrir debates e serem ouvidas.


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[1] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[2] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[3] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[4] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[5] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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