A Bolsa ou a Bolha!
Escrito por Imprensa, postado em 31 dEurope/London outubro dEurope/London 2007
escrito por José Carlos de Assis
São bem conhecidos na história econômica os investimentos que se tornam bolhas. Agora temos o caso de uma bolha que virou investimento. A Bolsa de Valores de São Paulo decidiu que vale mais de R$ 16 bilhões e, num único pregão de lançamento, recolheu mais de R$ 6 bilhões pela venda de parte de suas ações. Algo espetacular, sem precedentes, na história dos lançamentos de ações no País. Saudado como prova de vigor do “mercado” e, por extensão, da economia brasileira.
Não tenho nada contra bolsas em geral ou contra a Bovespa em particular. Trata-se de instituições típicas do capitalismo, embora não essenciais. Vende ações quem quer, e compra quem arrisca. O problema com as bolsas não é o que elas são, em si, mas sim o que representam como poder de arraste para a degringolada do sistema produtivo e do emprego quando entram em crise. Nessas ocasiões, costumam funcionar como instrumento indireto de socialização de perdas.
Vejamos a natureza do lançamento da Bovespa, não sob o aspecto financeiro, mas econômico. Em termos patrimoniais, a bolsa vale o que valem suas instalações e seu sistema de informática, assim como o intangível representado pelo fato de que somente ali são transacionados títulos de risco. Tudo isso junto, obviamente, fica muitíssimo aquém de R$ 16 bilhões. Alguém que estivesse disposto a investir R$ 1 bilhão provavelmente poderia organizar uma bolsa mais moderna que a Bovespa.
Já o valor financeiro da bolsa é o valor presente de receitas futuras. As receitas são pequena proporção das taxas que as corretoras, sócias originais da bolsa, cobram dos clientes, investidores finais, nas suas operações de compra e venda de títulos. É difícil imaginar que o valor presente das receitas futuras da Bovespa seja de R$ 16 bilhões. Na verdade, seus avaliadores, Goldman Sachs, Credit Suisse e UBS Pactual, antes de se tornarem suspeitos de passarem informações privilegiadas a investidores institucionais, teriam chegado a valor menor. O faminto “mercado” ofereceu mais.
Os mais de R$ 16 bilhões são o suposto valor de “mercado”. Vejamos, pois, o sentido econômico da operação. Os administradores da Bovespa, que receberam de saída mais de R$ bilhões por parte de suas ações, terão que fazer alguma coisa com esse dinheiro. Parte será distribuída como lucro aos sócios originais. Outra parte terá de ser aplicada. O restante será desovado aos poucos, de acordo com a pressão e contrapressão dos preços. Eles sabem, desde Aristóteles, que tudo que sobe um dia desce. Portanto, por mais otimistas que sejam, devem estar preparados para o pior.
Na hora em que o “mercado”, em algum momento do futuro, perceber que houve exagero na valorização das ações de Bovespa – ou na hora em que uma queda generalizada, uma explosão de “bolha”, arrastar junto essas ações -, os administradores, para evitar uma desmoralização total do “mercado”, terão que comprar de volta suas ações para segurar os preços. Em outras palavras, terão que liquidar seus próprios investimentos para fazer dinheiro vivo para retomar as ações.
Diante dessa probabilidade, a aplicação mais responsável do dinheiro obtido com a venda das ações da bolsa são os títulos públicos (quase moeda). Formar uma carteira de ações de outras empresas seria uma superposição de risco, o que levaria a um desastre no caso de queda do “mercado”. Assim, fecha-se o círculo: a inversão original em ações da Bovespa acaba no mercado primário ou aberto de títulos públicos, como hedge geral da especulação no mercado de renda variável.
Qual o benefício para a economia produtiva? Rigorosamente, nenhum. É mera especulação, na melhor das hipóteses, hedgeada em títulos públicos – os quais, por sua vez, na presença de superávit primário, também não financiam coisa alguma. Qual o malefício? Como, na febre especulativa anunciada, é quase certo que haverá menos hedge para muita especulação, uma eventual quebra em cascata no valor das ações acabará por pressão irresistível pelo socorro público e a socialização de perdas.
Em 1971, em plenos anos dourados do “milagre brasileiro”, uma jovem e destemida economista chamada Maria da Conceição Tavares provocou grande furor no governo militar ao prognosticar o estouro iminente das bolsas, tomadas por uma euforia especulativa a partir de fundos subsidiados. Havia muito inversão em papel para pouco investimento produtivo. Chamaram-na de Cassandra, de forma pejorativa. Esqueceram-se de que Cassandra, ao prever o fim catastrófico de Tróia, estava certa!










