- Blog do Desemprego Zero - http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero -
Casa de mãe Joana
Posted By Gustavo On 23 outubro, 2007 @ 11:01 am In Conjuntura,Energia,Paulo Metri,Sergio Ferolla | No Comments
(Publicado no Jornal do Commercio de 17/10/07)
Sergio Ferolla, brigadeiro, membro da Academia Nacional de Engenharia
Paulo Metri, conselheiro do Clube de Engenharia
Nos últimos tempos, tem sido repetitivo, na mídia, um monólogo de articulistas e personalidades brasileiras, com afirmações do tipo: “a nona rodada de leilões da ANP deve ocorrer, mesmo que o petróleo descoberto seja exportado, pois o Brasil lucra com a exportação” e “se o monopólio do urânio continuar existindo, o Brasil deixará uma riqueza intocada na terra até ela perder seu valor econômico”, sempre em detrimento dos interesses da nossa sociedade e em benefício de interesses particularistas.
Na política mineral, é importante saber que tipo de agente econômico deve explorar cada minério e em que ritmo, identificando as parcelas da jazida destinadas aos consumos próximos e futuros e para exportação. Adicionalmente, deve ser fixada uma taxação justa para a atividade, que remunere o agente e beneficie a sociedade, alem de se objetivar, com a ação dos agentes, a maximização das compras locais dos bens e serviços, da obtenção no país das tecnologias necessárias, da geração de empregos e do impacto no desenvolvimento regional e nacional. Quanto mais importante sob o ponto de vista estratégico for o mineral, maior cuidado deve-se ter no planejamento da sua exploração.
Assim, antes de qualquer decisão ser tomada, torna-se imprescindível saber se o bem mineral é escasso no mundo e no país, o valor do produto mineral no mercado, seus custos de extração e beneficiamento, o grau de dificuldade das tecnologias de exploração, produção e beneficiamento etc. Se um mineral é escasso, é necessário que razoável parcela do elevado lucro gerado em sua comercialização seja retirada do agente econômico e fique para a sociedade. Infelizmente, em nosso país, o lucro advindo da produção de petróleo é pouco taxado, quando comparado com as taxações da Noruega, Venezuela, Bolívia, Equador e outros países.
O petróleo deve ser examinado, também, pela sua importância estratégica para o desenvolvimento do país, outro ponto não considerado na política brasileira para o setor, pois as reservas do nosso país não ultrapassam 25 bilhões de barris, incluindo as já descobertas e as a descobrir. Assim, a nona rodada de licitações para concessão de novas áreas a serem exploradas, já em andamento, não deveria ocorrer, pois as correspondentes descobertas serão todas exportadas, e o modelo do setor, implantado há dez anos, deveria ser reformulado, pois já entregou cerca de dois bilhões de barris, nas sete rodadas já realizadas, a empresas estrangeiras, autorizadas a exportá-los, à medida que forem produzidos.
No caso do urânio, querer exportar o yellow cake, que representa o minério com beneficiamento primário, abrindo mão da exportação de urânio enriquecido, com acréscimo de valor agregado de 200%, alem dos demais reflexos na engenharia, na indústria e na economia, é ignorar, por completo, o interesse nacional. Como a unidade de enriquecimento de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), atualmente com limitada capacidade de operação, ainda precisa ser completada, assim como precisa ser construída a unidade de conversão, o mais inteligente será exportar urânio das jazidas da INB, apenas na quantidade exata para gerar recursos que permitam a conclusão dessas duas unidades.
Alem disso, em um cenário de escassez de petróleo e de alarmantes níveis de deterioração do meio ambiente, motivo das seguidas reuniões de autoridades e especialistas em busca de caminhos que permitam, a longo prazo, a própria sobrevivência da humanidade, deve ser considerado que serão necessários 30 anos, no mínimo, para tecnologias alternativas de geração elétrica, serem capazes de competir com a nuclear no preço e no fato de não lançar gases do efeito estufa.
Se essas e outras importantes questões não forem corrigidas, então, que se deixe a casa de mãe Joana continuar funcionando e beneficiando poderosos grupos, em detrimento dos interesses legítimos da sociedade brasileira.
Article printed from Blog do Desemprego Zero: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero
URL to article: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/10/330/
URLs in this post:
[1] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[2] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[3] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[4] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[5] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
Click here to print.
Copyright © 2008 Blog do Desemprego Zero. Todos os direitos reservados.