Tem São Paulo demais
Escrito por Imprensa, postado em 11 dEurope/London setembro dEurope/London 2007
Paulo Henrique Amorim
*Máximas e Mínimas 625*
. Permito-me discordar de meu bom amigo Luiz Felipe de Alencastro.
. Neste domingo, 9 de setembro, Felipe deu uma entrevista ao Estadão.
. Professor de História do Brasil na Sorbonne, Felipe é autor de um
clássico: “O Trato dos Viventes: a Formação do Brasil no Atlântico Sul”.
. “O Trato dos Viventes”, na minha modesta opinião, já entrou para a lista
dos livros que explicam o Brasil.
. Ele já tem mais relevância do que toda a obra de um autor que ele,
Felipe,
cita muito: Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo.
. Além disso, Felipe tem um blog ? “Seqüências Parisienses” – muito
divertido e inteligente. (É uma pena que não esteja aqui, no iG.)
. A certa altura da entrevista, diz Felipe: “…estou de acordo com o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que salientou recentemente a
necessidade de implantar o voto distrital para reduzir escândalos
eleitorais
brasileiros. Como está não pode ficar. Os eleitores paulistas, por exemplo,
estão sub-representados na Câmara Federal. O federalismo brasileiro
precisa
ser re-pactuado.”
. Divergência número 1: voto distrital não reduz escândalo.
. Felipe pode estar sob a influência da lisura do processo eleitoral da
França.
. Prefiro invocar a experiência do voto distrital americano, que tem três
perversidades.
. Primeiro, é conservador. O distrito enrijece os processos democráticos e
a
renovação na Câmara dos Representantes é baixíssima.
. O distrito induz à representação conservadora e é por isso que FHC gosta
tanto dele.
. Segundo, a roubalheira começa na distribuição geográfica dos distritos.
Imaginem o que aconteceria no Brasil: ser garçom da lanchonete do IBGE se
tornaria o cargo mais disputado da República …
. (Sugiro ao Felipe dar uma olhada no que o governador George W. Bush fez
com a redistribuição dos distritos, enquanto era governador do Texas …)
. Terceiro, eleição em distrito também tem roubalheira, ou “escândalo”,
como diz o Felipe, educadamente.
. Divergência número 2: São Paulo não está sub-representado em nada.
. São Paulo está sobre-representado na Federação.
. E é por isso que deveria haver uma re-pactuação da Federação brasileira.
. Os presidentes da República saem de São Paulo.
. Os Ministros da Fazenda saem de São Paulo.
. Os Ministros da Indústria saem de São Paulo.
. Os tributos são feitos de forma a aprofundar a hegemonia de São Paulo.
. Os Ministros da Agricultura saem de São Paulo.
. O Ministro da Educação é de São Paulo.
. O Ministro da Defesa é gaúcho, mas seus parceiros políticos estratégicos
?
José Serra e Fernando Henrique Cardoso ? são de São Paulo.
. Dos três únicos jornais brasileiros, dois são de São Paulo.
. Em São Paulo estão todas as revistas semanais de informação.
. O Ibope é medido só em São Paulo e as redes de televisão trabalham para
São Paulo.
. Os dois principais partidos do país ? PSDB e PT ? são de São Paulo.
. As lutas internas do PT e do PSDB conduzem a política brasileira.
. O candidato do PSDB à presidência da República é de São Paulo: José
Serra,
na verdade, já eleito de ante-mão, como se sabe.
. A elite branca do grande governador Cláudio Lembo é de São Paulo.
. A elite branca de São Paulo, se pudesse, faria como os amigos do
Berlusconi do Norte da Itália e mandava o resto do Brasil, do Rio
(inclusive) para cima, para a África.
. Em São Paulo fica o templo da elite branca, a Daslu.
. O movimento Cansei é uma obra-prima da criatividade paulista.
. O jornalismo esportivo brasileiro só trata do Corinthians.
. Sobre o assunto, meu caro Felipe, sugiro a leitura da entrevista, no
mesmo
Estadão, na pág. A11, com este jovem e promissor líder petista, o
Governador
de Sergipe, Marcelo Deda.
. Pergunta o repórter: “Para o senhor, o futuro do PT é menos paulista ?”
. Resposta de Deda: “Eu espero, milito e trabalho para isso… O que eu
combato é o paulistismo ou a paulistização, que é ? sei que isso vai
irritar
os paulistas, vindo de um nordestino ? uma abordagem provinciana da
política… A desigualdade regional é um dilema brasileiro que não pode ser
incorporado à prática partidária.”
. É isso Felipe, se você levar o Fernando Henrique Cardoso muito a sério
vai
pensar que o problema do Brasil é o voto distrital ? e não a desigualdade
…










