Carta de despedida de Ildo Sauer ‘Sem alegria e sem espanto’
Escrito por Imprensa, postado em 30 dEurope/London setembro dEurope/London 2007
‘Sem alegria e sem espanto’
Aos companheiros e amigos da Petrobrás,
1. Recebi a notícia de meu afastamento da diretoria da Petrobrás pelo
presidente da República sem alegria e sem espanto. Fiquei na Diretoria de
Gás e Energia da Petrobrás quatro anos e oito meses. Mas acompanho a área
há quase duas décadas, como militante do Partido dos Trabalhadores e em boa
parte do tempo como colaborador do Instituto Cidadania que assessorou o
presidente Lula em suas campanhas pela presidência.
2. Todos sabemos que o setor de petróleo é um campo de dramáticas disputas
econômicas e políticas. Nessa arena, o gás natural nas últimas décadas,
cresceu enormemente de importância. Os negócios do gás natural foram a
ponta de lança para a introdução das reformas liberais no setor elétrico
brasileiro. O acordo de importação do gás da Bolívia foi decidido pelo
governo Collor e implementado por Fernando Henrique Cardoso de forma a que
a Petrobrás fosse o sócio menor numa partilha dos recursos naturais da
Bolívia a ser feita pelas grandes petroleiras, empresas de gás e
fabricantes de equipamentos para geração termoelétrica, que controlam esses
negócios desde o início do século 20. O plano de Collor e Fernando Henrique
incluía o desmantelamento de um dos maiores patrimônios do País e do povo
brasileiro: o seu sistema de geração hidrelétrica nacionalmente
interligado, o que foi feito em parte.
O fracasso da reforma liberal não diminuiu a força e o empenho dos
interesses que a tinham elaborado. Foram enormes as pressões, já no final
de 2002, para que o governo novo, não desmontasse uma das peças básicas da
reforma: a que determinara a ruptura dos contratos de fornecimento de
energia elétrica de longo prazo das estatais a partir de 1º de janeiro de
2003, para que se instalasse um ‘mercado livre’ de energia. O governo
acabou cedendo às pressões. E estimo que os prejuízos para estatais e
pequenos e médios consumidores decorrentes dessa decisão estejam na casa
dos R$ 10 bilhões.
3. Na Petrobrás, na Eletrobrás, no BNDES, no governo encontrei inúmeros
companheiros. Uma das primeiras ações de que participei foi registrar, em
livro com alguns deles, minha opinião sobre a reforma do setor elétrico
levada a cabo no início de 2004 a qual, a despeito de vários méritos,
deixou margem, por exemplo, para os prejuízos impostos às estatais. Estou
convicto de que na Diretoria de Gás e Energia da Petrobrás, com vários
companheiros, formamos uma estrutura de gestão que livrou o setor de um
vício que ronda dirigentes de empresas públicas: o de serem despachantes de
interesses de minorias poderosas.
Limpamos e reestruturamos as verdadeiras cavalariças em que tinha se
convertido o plano emergencial de geração termoelétrica a gás natural
elaborado pelo governo Fernando Henrique no desespero vão de tentar, a
partir de 1999, evitar o apagão de energia. Dos 50 projetos daquela época
afinal se concretizaram apenas 22. Destes, 12 foram construídos ou
assumidos pela Petrobrás. Outros três são também estatais. Não porque a
Petrobrás se oponha ao investimento privado: mas porque a Petrobrás foi a
salvadora em última instância de vários desses projetos; e, em outros, não
podia pactuar com contratos que, não só eu, como juízes e administradores
públicos de notória responsabilidade, classificaram, com propriedade, como
‘imorais’.
Ao assumir ou adquirir esses projetos demos-lhes os nomes de: Mário Lago,
Celso Furtado, Rômulo de Almeida, Jesus Soares Pereira, Luiz Carlos
Prestes, Sepé Tiaraju, Fernando Gasparian, Leonel Brizola, Euzébio Rocha,
Barbosa Lima Sobrinho, Aureliano Chaves. Isso porque temos partido. Eu e
meus companheiros somos parte de uma história. Programamos, conseguimos a
licença ambiental, obtivemos os financiamentos e contratamos investimentos
que vão dobrar a rede de gasodutos do País até 2009, interligando Nordeste,
Sudeste, Centro-Oeste e Sul.
Depois de duas décadas, o gás de Urucu finalmente chegará a Manaus em 2008,
economizando mais de R$ 2 bilhões ao ano nas contas de energia dos
brasileiros. Nosso projeto de instalação de terminais de regaseificação e
de importação de gás natural liquefeito, ao lado das novas modalidades de
contratação – firme flexível e inflexível, interruptível e preferencial -
permitirá uma inédita otimização do setor energético nacional,
racionalizando a integração dos derivados de petróleo, do gás com o setor
hidrotérmico de geração elétrica.
E, se prosseguirem os esforços de integração latino-americana a que demos
total apoio e para a qual adiantamos idéias novas, mais poderá ser feito.
Na área de biocombustíveis nos empenhamos decididamente. Não para reforçar
os esquemas antigos de exploração e de integração subordinada da
agricultura familiar. Nem para fomentar a demagogia de que o mundo será
salvo se ampliarmos os canaviais e as plantações de oleaginosas para
produzir álcool combustível e biodiesel. Mas para unir os interesses dos
sócios controladores da Petrobrás, que somos nós, com os interesses dos
trabalhadores e dos pequenos e médios produtores. Fizemos o projeto da
Cooperbio, de produção de álcool integrada com a agricultura familiar, no
Rio Grande do Sul. Fizemos as fábricas experimentais em Guamaré e estamos
acabando de instalar as três unidades industriais no semi-árido para
produção de biodiesel a partir das oleaginosas locais, inclusive a mamona.
4. Vivi na Petrobrás os quatro anos e oito meses desde minha nomeação.
Minha filha Luisa tinha cerca de 13 anos quando praticamente deixei a casa
onde vivia com minha mulher e com ela em São Paulo para cumprir minhas
tarefas no Rio. Ao me preparar para voltar a morar em São Paulo e reassumir
meu cargo de professor universitário encontrei dois textos dela na internet
com reflexões sobre Queimada, o famoso filme do italiano Gillo Pontecorvo,
sobre uma ilha onde o sistema colonial com base na escravidão dos
portugueses é trocado pelo sistema colonial com base no trabalho
assalariado e no ‘livre mercado’, após manobras do império inglês. De
repente me dei conta de que posso não ter sido afastado da Petrobrás por
meus defeitos. Mas pelas virtudes das pessoas de cujas lutas participei e
vou continuar participando.










