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A privatização do setor elétrico está de volta?
Posted By Imprensa On 22 setembro, 2007 @ 11:07 am In Conjuntura | No Comments
CORREIO DA CIDADANIA – 17-Set-2007
Frei Betto
Não há dúvida de que, no governo Lula, a malha de transmissão de energia
elétrica cresceu muito mais do que em qualquer outro. “Nunca na história
deste país” se investiu tanto no setor. Isso é positivo e garante o
fornecimento de energia elétrica às diversas regiões do país. O
consumidor, hoje, ganha. Ganhará sempre?
O governo federal promove, via ANEEL, leilões para expandir o sistema de
transmissão elétrica do país. Nos cinco leilões entre 2000 e 2002 (era
FHC), o deságio baixíssimo assegurou altos rendimentos às empresas
privadas. Em média, lucravam 20% sobre o valor do investimento. E não se
permitia que empresas estatais, como Furnas, participassem dos leilões. O
governo impediu Furnas de participar dos leilões das linhas de
transmissão Ouro Preto-Vitória, Norte-Sul2, Itumbiara-Marimbondo etc.
Quando Furnas obteve permissão de participar foi porque não houve
interesse do capital privado. E a estatal saiu no lucro.
Agora, no governo Lula, os ágios dos seis leilões subiram de 30 a 50%,
esfriando a farra dos elevados ganhos do setor privado. As empresas
arremataram linhas a serem construídas por preços bem menores do que se
fazia no passado, e muito abaixo do preço de referência da ANEEL.
Bom para o consumidor brasileiro que, todo mês, paga na conta os custos
de geração, transmissão e distribuição de energia, e mais os impostos
embutidos. O que também favorece a competição entre as empresas do setor.
Entretanto, o filé mignon fica com as grandes empresas espanholas
(Abengoa, Isolux, Elecnor, Cobra e Cymi), e a colombiana Isa.
No setor de transmissão, os riscos do investidor são pequenos. Em média,
as grandes linhas de transmissão leiloadas são construídas em cerca de 20
meses. É rápido o retorno do capital investido. Já as hidrelétricas
exigem anos de estudos, questões complexas de compensação ambiental, e
tempo de construção de 3 anos, para as pequenas, e 5 para as médias; ou
mais, para as gigantes, como a do Rio Madeira.
Este retorno financeiro, calculado, está embutido no lance do leilão. O
ganhador, a curtíssimo prazo, já começa a receber seu capital de volta,
em prestações mensais garantidas por 30 anos (antes corrigidas pelo IGPM
e, agora, pelo IPCA). Daí a entrada maciça de empresas estrangeiras.
Essas empresas podem ser financiadas diretamente pelo BNDES (desde 2003
já captaram cerca de R$ 5,5 bilhões); contratar a si mesmas na execução
das obras e negociar preços; refinanciar o capital próprio (equity)
investido no empreendimento (o BNDES financia cerca de 70%; a empresa
entra com 30% - podendo obter financiamento fora do Brasil); atuar em
bloco (quem vai controlá-las?) e, se desejarem, não operar as linhas
ganhas, negociando-as.
Já as empresas do setor elétrico estatal não têm liberdade para negociar
com seus fornecedores de serviços e equipamentos, pois se regem pela lei
de licitações, a Lei 8666. Tudo que fazem deve ser público e
transparente. E Furnas, Eletronorte, Eletrosul e Chesf estão proibidas,
pelo governo, de serem financiadas diretamente pelo BNDES. Se quiserem
obter financiamento do BNDES, devem se associar a empresas privadas na
proporção de 49% para as estatais e 51% para as privadas!
É a desestatização anunciada, a prazo, mas certa, do setor de
transmissão, a espinha dorsal do setor elétrico brasileiro. As linhas
ficarão em mãos de empresas privadas ou mistas (sob controle do capital
privado).
Já as pequenas linhas estão ao alcance das estatais, que podem
adquiri-las com capital próprio. Um fenômeno curioso: uma estatal federal
pode se associar a uma estatal estadual – desde que esta detenha 51%. A
Cemig, majoritária, e Furnas, minoritária, ganharam juntas a pequena
linha de transmissão (75 km) entre a usina de Furnas e a cidade de
Pimenta (MG). É o que resta às estatais. Com capital próprio, Furnas
controla apenas linhas de transmissão pequenas, como a de Campos-Macaé
(92 km) e a Tijuco Preto-Itapeti-Nordeste (50 km).
A privatização soma-se à desnacionalização
O que o consumidor gostaria de entender é por que as estatais federais
são minoritárias nas grandes linhas? A resposta, simples, é de fazer
corar quem esperava do PT um governo minimamente nacionalista: não se
permite que sejam financiadas pelo BNDES. E não podem captar dinheiro
fora do país, como fazem as transnacionais. Assim, sobra às empresas
federais apenas a possibilidade de, nos leilões, fazerem lances, com
capital próprio, em linhas pequenas.
Entre 2000 e 2002, foram realizados investimentos no setor de transmissão
da ordem de R$ 3,8 bilhões, com deságios mínimos. À época, empresas
estrangeiras obtiveram 49% das linhas leiloadas; as empresas privadas
brasileiras, 36%; as parcerias estatais/privadas, 15%. As estatais,
sozinhas, abocanharam apenas 13,5% dos trechos leiloados.
Já entre 2003 e 2006, quando os investimentos totalizaram cerca de R$ 9,5
bilhões, as empresas estrangeiras avançaram para 65% dos trechos
leiloados. As associações de empresas estatais e privadas (estas sempre
majoritárias) alcançaram 25% das linhas. As estatais recuaram e as
empresas nacionais não agüentaram a concorrência.
Uma análise dos leilões de 2006, onde os investimentos foram de R$ 1,8
bilhão, mostra que as empresas estrangeiras conseguiram vencer em 84% dos
trechos de linhas de transmissão leiloados.
Ora, graças às estatais, o Brasil construiu, com absoluto sucesso, um dos
maiores sistemas de produção, transmissão e distribuição de energia
elétrica do mundo. A concorrência, como está agora, é desigual. As
estatais concorrem com as empresas privadas sem igualdade de condições.
Estão perdendo terreno. Tudo indica que, a prazo, as estrangeiras
dominarão o setor. O reflexo disso aparecerá no bolso do consumidor e na
soberania do país: energia mais cara, e mais riqueza produzida aqui
levada para o exterior pelas transnacionais.
Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre
outros livros.
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[1] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[2] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[3] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[4] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[5] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
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