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Blog do Desemprego Zero

A crise e a atual política monetária

Escrito por Imprensa, postado em 6 dEurope/London setembro dEurope/London 2007 Imprimir Enviar para Amigo

Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 3

Aloizio Mercadante – Economista e professor licenciado da PUC-SP e da Unicamp, é senador da República pelo PT-SP   

 3 de Setembro de 2007 – Pareceria prematuro o Copom modificar agora o padrão de redução de juros. Os relatórios sobre a atual conjuntura econômica são unânimes em destacar o bom comportamento dos indicadores de inflação, apesar da pressão recentemente exercida pelo grupo alimentos e bebidas, particularmente os itens leite e derivados – embalados pela alta dos preços internacionais – e carne bovina, cujos preços refletem a chegada do período de entresafra. Com exclusão destes itens, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho passado mostraria uma deflação de 0,06%, em vez do aumento de 0,24% efetivamente registrado.  

No ano, até julho, o IPCA acumula uma alta de 2,32% e, nos últimos 12 meses, de 3,74%, taxa quase similar à mediana, registrada naquele mês, das expectativas do mercado com relação à inflação em 2007 (3,75%).

Em agosto, a permanência de pressões sobre preços livres, derivadas de nova aceleração dos preços dos alimentos, provocou um aumento progressivo daquele indicador, que atingiu 3,86% no último relatório do mercado. Afetou também o IGP-M, cuja evolução é fortemente afetada pelos preços ao atacado e embute as variações na taxa de câmbio. No entanto, as medidas do núcleo de inflação indicam que os demais preços não foram, até agora, contaminados pela alta dos alimentos, embora o risco de que isso possa ocorrer aumentou. A média dessas medidas continua a mostrar tendência à desaceleração, configurando um ambiente benigno do ponto de vista da provável evolução dos preços.  

A instabilidade dos mercados financeiros gerada pela atual crise internacional, pouco afetou esse quadro ou as previsões sobre o crescimento da economia. Pelo contrário, a mediana das expectativas do mercado em relação ao PIB de 2007, depois de três semanas de crise, continua em trajetória de alta. Possivelmente, isso se deve à convicção de que a situação das contas externas, com a redução da exposição cambial da economia, diminui muito, embora não exclua, o risco de contágio das turbulências associadas ao ajuste da “bolha imobiliária” norte-americana.

Salvo na hipótese, ainda não claramente perfilada, de que esse processo desemboque em uma crise de grandes proporções, que afete a dinâmica da economia global, parece pouco provável que a eventual desvalorização do real – que em realidade representaria uma correção da sua excessiva apreciação – assuma dimensões e continuidade capazes de produzir impactos inflacionários de significação no médio prazo.  

Na esfera real da economia tampouco se observam ameaças à sustentação dos avanços já obtidos no controle da inflação. Por exemplo, a produção industrial vem se expandindo vigorosamente, especialmente em alguns segmentos estratégicos, como o de bens de capital (18,5% de crescimento no 2º trimestre de 2007 em relação a igual período do ano passado). A formação bruta de capital fixo está em franca expansão há quatro semestres, prevendo-se que, no ano, sua taxa de crescimento poderá atingir cerca de 10%, bastante acima do crescimento esperado do PIB e da produção industrial. O nível de utilização da capacidade instalada na indústria tem se mantido estável, em torno a 82,4%. Isso torna improvável a geração, no curto prazo, de gargalos generalizados na oferta, mesmo diante do crescimento da demanda interna, em torno de 7%. Por outro lado, a recuperação, no 1 semestre, do volume físico de exportações tende a confirmar a expectativa de geração, ao longo do ano, de um fluxo de divisas da ordem de US$ 160 bilhões, mais do que suficiente para garantir o abastecimento dos insumos e bens importados necessários à expansão da produção e ao atendimento do consumo interno (o saldo comercial estimado para este ano é de cerca de US$ 43 bilhões).  

Dentro desse contexto, ainda que o atual quadro de volatilidade e instabilidade dos mercados financeiros internacionais sugira cautela nas decisões de política econômica, não se vislumbra a necessidade de ajustes imediatos na atual trajetória de redução dos juros. O que pode, sim, requerer ajuste é a tática do Banco Central (BC) de acelerar “extra-oficialmente” o processo de desinflação, buscando uma meta oculta, inferior à estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).  

Com a meta oficial de 4,5%, a economia dispõe, dadas suas tendências atuais, de uma espécie de “colchão” que permite absorver eventuais pressões sobre os preços, derivadas de desequilíbrios setoriais entre a oferta e a demanda e/ou originados de choques externos. O encurtamento artificial dessa margem de manobra pode levar a política monetária a exacerbar, desnecessariamente, sua rigidez e frustrar, como em 2004, as perspectivas de expansão da economia e as decisões de investimento dos agentes privados.  

Portanto, excetuando a hipótese de que os desdobramentos da atual crise conduzam a uma retração acentuada da economia mundial, as condições de sustentação do atual ciclo de crescimento da economia brasileira continuam favoráveis. Nesse contexto, embora a volatilidade dos mercados financeiros reduza o horizonte de previsibilidade da política monetária, pareceria prematuro modificar, agora, o padrão de redução dos juros adotado nas últimas reuniões do Copom.  



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