De padrão asiático a latino-americano de crescimento no Brasil
Escrito por Gustavo, postado em 2 dEurope/London agosto dEurope/London 2007
Yoshiaki Nakano VALOR – 31/07/2007
Podemos, de forma caricatural, dizer que o governo Lula, no seu segundo mandato, ganhou um prêmio de loteria de pelo menos US$ 200 bilhões
Segundo o FMI, a economia brasileira deverá crescer este ano 4,4% e espera-se que taxa semelhante se repita nos próximos 3 anos. Isto significa que o segundo mandato do presidente Lula será o mais bem sucedido dos últimos 25 anos em termos de desempenho econômico. Este fato nos leva a três questões. Primeiro, o que explica esta mudança significativa no patamar de crescimento da economia brasileira? Segundo, qual a natureza deste crescimento? Terceiro, este crescimento se sustentará por longo prazo?
Em relação à primeira questão, o quadro econômico global, excepcionalmente favorável, explica em grande parte do desempenho da economia brasileira. Desde 2002, a economia mundial vem apresentando um resultado excepcional crescendo próximo a 5% a.a. e baixa inflação. Além disso, temos um quadro global de liquidez abundante, baixas taxas de juros de longo prazo e crédito. Neste quadro global, apesar da apreciação cambial, foi possível o Brasil fazer um ajuste estrutural fundamental ampliando o grau de abertura da economia, com aumento das exportações, e passando a ter superávit em transações correntes. Sem crises financeiras internacionais, a economia mudou de patamar de crescimento, o que está gerando um crescente consenso de que podemos crescer nos próximos 4 anos a taxas ligeiramente acima de 4% ao ano.
Claramente, esta mudança de patamar de crescimento foi desencadeada pelas depreciações da taxa de câmbio, a partir de 1999, e forte resposta das exportações, a partir de 2002, num processo semelhante às experiências internacionais de aceleração do crescimento. Ademais, tivemos, a partir de 2003, um forte aumento no preços das nossas exportações. Nos casos de aceleração do crescimento de forma sustentada, a ampliação das exportações foi sempre sustentada por taxa de câmbio competitiva e tem sido seguida de aumento na geração de empregos e crescimento do mercado interno, significativa elevação da taxa de investimento, a não ampliação do tamanho do governo e reformas estruturais num prazo de cinco anos.
Com exceção da ampliação das exportações, o caso brasileiro não se enquadra neste padrão típico de aceleração sustentada do crescimento, pois, a manutenção de elevadas taxas de juros, acompanhada de apreciação cambial, eliminou a fonte originária de crescimento sustentado. Em 2006, o setor externo contribuiu negativamente para o crescimento em 1,4%. Assim, cabe entender a natureza deste crescimento de mais do que 4% neste ano e nos próximos.
Claramente, o crescimento, desde o ano passado, tem suas origens na expansão da demanda doméstica e, neste ano, no consumo interno privado e público deverá crescer entre 6% a 7%, portanto acima do PIB. Esta diferença deverá ser compensada com a redução das exportações líquidas, ou seja, parte da absorção doméstica de bens e serviços em decorrência da apreciação da taxa de câmbio, vem sendo atendida com a ampliação das importações e, sem dúvida, mantida a apreciação cambial pela redução das exportações, fugindo aos padrões asiáticos de crescimento acelerado.
Entretanto, com o forte aumento nos preços das nossas exportações, foi possível o Brasil criar uma enorme folga no setor externo, permitindo, em 2006, um superávit em transações correntes de US$ 13,5 bilhões, superávit este que se transforma num significativo déficit a preços de 2003. Poderíamos dizer que a expansão chinesa e global, ao provocar aumento de preços dos produtos exportados pelo Brasil, nos deu um presente de cerca de US$ 20 bilhões por ano. Este fato, aliado ao diferencial de taxa de juros e criação de expectativa de apreciação cambial, permitiu o país acumular US$ 150 bilhões de reservas cambiais. Podemos, de forma caricatural, dizer que o governo Lula, no seu segundo mandato, ganhou um prêmio de loteria de pelo menos US$ 200 bilhões.
É preciso também observar que este fenomenal ajuste do setor externo trouxe outros ganhos. Com superávit em transações correntes seria ir contra a aritmética falar em pressão inflacionária devido ao excesso de demanda agregada. Com isso, tanto a taxa de inflação como as expectativas de inflação convergem para os níveis internacionais. Daí uma forte pressão do mercado para reduzir a taxa de juros e senão fosse a “heróica” resistência do nosso Banco Central, as taxas de juros também teriam convergido para níveis internacionais.
A partir de 2006, começamos a consumir este prêmio de loteria já que a taxa de investimento, apesar de seu aumento, permanece ridiculamente baixa, o governo continua ampliando fortemente seu gasto de consumo e com apreciação cambial e fluxo de recursos do exterior, o consumo privado também tem ampliado significativamente.
Desta forma, iniciamos a recuperação em meados de 2003 num padrão asiático de crescimento, ampliando as exportações líquidas e consequentemente a taxa de poupança, para transitar, já em 2006, para o padrão típico latino-americano, passando a consumir a folga criada no setor externo. Este padrão latino-americano de crescimento, no qual o consumo cresce mais rapidamente que a produção, poderá ser mantido nos próximos anos dado que temos um significativo superávit em transações correntes e reservas cambiais de US$ 150 bilhões para ser consumido.
É lamentável concluir que nem esta taxa de crescimento em torno de 4%, cerca de metade do que vem crescendo em média os países emergentes segundo o FMI, se sustentará no longo prazo. Estamos jogando fora uma oportunidade fantástica de crescer tanto quanto os demais emergentes. Pois o nosso padrão latino-americano de apreciar a taxa de câmbio, tentar consumir mais do que se produz e crescer é inconsistente ao longo do tempo e tem fôlego curto. O mundo não nos dará prêmios de loteria ano após ano. Consumindo mais do que se produz, o superávit em transações correntes reduzirá e as reservas cambiais desaparecerão. Sem reservas cambiais voltaremos a ficar totalmente vulneráveis a choques externos e a volatilidades do mercado financeiro global e pior, passaremos a aumentar a dívida externa. Quem se endivida tem que pagar. Para isto, será necessário crescer menos, reduzir o consumo e desvalorizar a taxa de câmbio para exportar mais e importar menos. Quando vamos apreender a lição?










