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Será que a política do desastre econômico é melhor do que a do sucesso?

Posted By Gustavo On 1 agosto, 2007 @ 5:14 pm In Bruno Galvão,Desenvolvimento,Todos (nossos autores) | 1 Comment

Bruno Galvão do Santos 

A transição das ex-repúblicas soviéticas do socialismo para o capitalismo é o maior desastre econômico já registrado em tempos de paz. Em oposição, a transição chinesa – ocorrida no mesmo período - é provavelmente o maior sucesso econômico da história.

Apesar disso, os economistas ortodoxos insistem em afirmar que a política adotada nas ex-repúblicas soviéticas (desregulamentação de mercados, superávit primário e Banco Central preocupado exclusivamente com a inflação) conduziria a maior prosperidade econômica possível, enquanto a adotada pela China (política de manutenção de câmbio desvalorizado, pesados investimentos e gastos estatais, política industrial ativa e prioridade para o crescimento econômico) só poderia resultar em caos e desastre econômico.

É evidente que a realidade foi oposta a essas crenças neoliberais. As explicações neoliberais para o fracasso da ex-repúblicas soviéticas e para o sucesso chinês são totalmente incoerentes.

Porque as indústrias estatais que seriam ineficientes na ex-União Soviética não atrapalharam o desenvolvimento chinês? Porque a educação soviética que era e é muito superior à chinesa não favoreceu seu crescimento econômico?

Os neoliberais dizem que a China estaria crescendo em decorrência da liberalização da economia. Então, porque nas ex-repúblicas soviéticas - onde a liberalização foi muito mais veloz – o PIB cresceu como nunca antes na história da humanidade? 

 O maior desastre econômico, em tempos de paz, foi o período de transição das economias socialistas das ex-repúblicas soviéticas para o capitalismo. E é provável que as reformas da China socialista para o que ela denomina de “socialismo de mercado” seja o maior sucesso econômico do capitalismo.

Segundo relatório do PNUD de 1999, o PIB da federação russa caiu 41% e o da Ucrânia caiu 58%, entre 1991 e 1997. A inflação na Rússia disparou para 1353% em 1992 e, na Geórgia, 18000% em 1994. Segundo o mesmo relatório, a pobreza na Europa do Leste e nas ex-repúblicas soviéticas de 4% em 1988 para 32% em 1994 e triplicou o número de mulheres anêmicas na fase final de gravidez entre 1989 e 1994. De modo inédito, a esperança de vida ao nascer caiu de 62 para 58 anos, dez a menos que a China.

“A transição impôs às pessoas um custo pesado não apenas em termos do aumento da doença, da mortalidade e de uma esperança de vida menor, mas também em termos da ruína social que se reflete no incremento do consumo de álcool, na subida drástica do consumo de drogas e no aumento da taxa de suicídios” (PNUD, 1999: p. 43).

A China é o quadro oposto a esse. Em 1978, a China era um dos países mais pobres do mundo, tinha uma renda per capita inferior ao da África e da Índia. Em contraste, em 2005, de acordo com a OMC, o PIB chinês em termos de paridade de poder de compra foi de US$ 8,5 trilhões, muito próximo do somatório dos 25 países da União Européia (US$ 12,1 trilhões) e dos EUA (12,5 trilhões). A continuar o atual crescimento, a China se tornará a maior economia do mundo daqui uns 4 ou cinco anos e será 20 vezes maior do que ao de 1978. A título de comparação, o PIB do Brasil nos últimos 25 anos cresceu a taxas próximas do crescimento vegetativo. Nunca tantas pessoas deixaram de ser pobres, mais de 300 milhões de chineses. Hoje ninguém mais ignora o espetacular crescimento chinês.

Contudo, o mais impressionantes nessa estória é que 11 em cada 10 economistas ortodoxos, todos os analistas de mercado, praticamente todos os jornalistas econômicos do Brasil dirão que uma política tal qual foi executada na ex-repúblicas soviéticas (privatizações generalizadas, liberalização dos preços, comercial, financeira, austeridade fiscal e banco central “responsável”) é infinitamente melhor do que a adotada na China (câmbio fixo desvalorizado, política industrial e comercial muito agressiva, controle de preços pelo Estado, pesadíssimos investimentos das estatais, crescimento como prioridade do governo como um todo, inclusive do Banco Central, obrigatoriedade das empresas estrangeiras transferirem tecnologia para as empresas nacionais, domínio de empresas estatais em grande parte do setor industrial).

Qualquer pessoa com bom senso e livre do véu ortodoxo permite-se, em meio a evidências empíricas, cogitar a possibilidade do modelo ortodoxo estar equivocado. Mas, isso não ocorre com um economista ortodoxo. Políticas ortodoxas resultaram em desastre em diversas partes do globo, em diferentes ocasiões. Existem vários exemplos, dos quais se pode destacar: a Grande Depressão dos EUA, o desastre argentino recente e o da ditadura Argentina, o desastre africano a partir da adoção das recomendações do Banco Mundial e as longas estagnações do México, do Brasil e do Uruguai. Qualquer motivo pode ser utilizado para explicar o fracasso das políticas ortodoxas, menos que o modelo econômico ortodoxo esteja errado. O domínio ortodoxo da mídia permite que não haja um mínimo de compromisso com a coerência. O que é a explicação de um fato pode ser solenemente ignorado em outro, ou mesmo, invertido o sentido. Por isso, o texto aqui faz questão de comparar as explicações para o fracasso da transição das ex-repúblicas soviéticas com a da transição chinesas. As principais explicações são:

1) O crescimento da China deve-se à educação. Contudo, na hora de explicar o desastre da transição da ex-repúblicas soviéticas, é solenemente ignorado que os níveis de educação lá era bem superiores do que a chinesa.

2) O fracasso da ex-repúblicas soviéticas deve-se ao fato das indústrias socialistas serem ineficientes. Contudo, nada indica que as indústrias soviéticas eram mais ineficientes do que a chinesa do tempo da Revolução Cultural.

3) A China cresce muito porque liberalizou a economia e diminuiu a intervenção estatal. A liberalização da China foi muito cautelosa e limitada. Depois de quase trinta anos, grande parte dos setores industriais são dominados por empresas estatais ou mistas, ainda muitos preços são controlados, o sistema bancário é na sua quase totalidade estatal, a conta de capital é fechada, os investimentos das empresas públicas são cerca de 25% do PIB, o Banco Central intervém fortemente no câmbio, o direito de propriedade foi reconhecido muito recentemente e ainda é muito limitado, praticamente não há instituições de mercado, como agências reguladoras e o Estado ainda direciona fortemente o investimento privado. As ex-repúblicas soviéticas, como já foi dito, seguiu estritamente o modelo ortodoxo.

4) A China está se desenvolvendo porque é uma sociedade milenar, de cultura elevada, confuciana e pessoas trabalhadoras. Costuma-se ignorar que antes da Revolução Comunista a China era um dos países mais pobres do mundo. A fome era endêmica. De qualquer forma, essa explicação de cunho quase racista também não explica o motivo de tamanho fracasso da transição para o capitalismo das ex-repúblicas soviéticas, afinal a sociedade desses países foi a mesma que lançou o primeiro homem ao espaço e ameaçou de forma tão contundente os EUA.

Para ser justo com os defensores das políticas ortodoxos, eles não dão muitas desculpas para o fracasso da transição das ex-repúblicas soviéticas. O fracasso foi tão retumbante que é melhor ser ignorado. A China, também tinha sido moderadamente ignorada durante um tempo. Algumas vezes, argumentou-se que o governo deles superestimava as estimativas, outras vezes, que o crescimento chinês não era sustentado. Há alguns anos dizem que a China irá desacelerar o crescimento. As notícias de desaceleração chinesas são sempre: “a produção industrial desacelera para 11% ou para 12%”, “o PIB do último trimestre cresceu apenas 9,2%”. A China está crescendo em média quase 10% ao ano há quase três décadas e não há sinais de arrefecimento do PIB. As previsões dos analistas de mercado é que continue a crescer pelo menos 8% nos próximos anos. Dessa forma, a estratégia foi admitir o espetacular crescimento chinês e inventar desculpas para falar que o crescimento chinês não contraria os preceitos ortodoxos.

Independente das explicações, ou melhor, desculpas, é óbvio para o ortodoxo que a China não cresceu por adotar as políticas heterodoxas, apontadas acima, ou a transição das ex-repúblicas soviéticas foi um desastre por ter seguido as opiniões de economistas ortodoxos renomados no mundo todo. É interessante que os modelo super bem sucedidos do Leste Asiático (Japão, Coréia do Sul, Taiwan e China) adotaram muitas políticas de desenvolvimento semelhantes umas com as outra e veementemente condenadas pelos ortodoxos (câmbio estável e muito desvalorizado, política industrial muito agressiva contrárias ao que prescreveria a teoria de vantagens comparativas, abertura voltada para a exportação e não para as importações, crédito subsidiado para setores estratégicos, política para formação de grandes players de capital nacional e banco central que tem como prioridade o crescimento). Finalizando, eu concordo com a Mirian Leitão e a imprensa ortodoxa. Eles têm mais é que falar que a adoção dessas políticas que deram tanto certo no Leste Asiático gerará o caos. Se o Brasil começar a crescer fortemente, a resolver o problema do desemprego e da pobreza, elevar os gastos sociais e melhorar fortemente a qualidade de vida da população, isso significará um desastre para os economistas ortodoxos e para toda a estrutura que os apóia.


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1 Comment To "Será que a política do desastre econômico é melhor do que a do sucesso?"

#1 Comment By Claudio Grillo On 27 outubro, 2007 @ 5:40 pm

Bruno é Claudio Grillo, vc como sempre está certo.
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[2] Arranjos Produtivos Locais - APL e Desenvolvimento: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/arranjos-produtivos-locais-apl-e-desenvolvimento/

[3] A FARRA DA TAPIOCA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/a-farra-da-tapioca/

[4] Mais comentários sobre a Tapioca: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/mais-comentarios-sobre-a-tapioca/

[5] PELA VOLTA DO "ANTIQUADO": http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/pela-volta-do-antiquado/

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