? O crédito na economia brasileira
Escrito por Gustavo, postado em 31 dEurope/London julho dEurope/London 2007
Luiz Guilherme Piva – Economista e doutor em Ciência Política, diretor da Stratus Investimentos. (Gazeta Mercantil; 31/07/2007)
Apesar da baixa inadimplência no sistema, os spreads continuam no Olimpo. Com as reduções da taxa Selic, que caíram de 19,75% ao ano em agosto de 2005 para 11,5% ao ano neste mês, tem havido expansão do crédito na economia brasileira. Em dezembro de 2005, o total de créditos no sistema financeiro correspondia a 28,5% do PIB. Em maio último, chegou a 32% do PIB. Governantes e analistas almejam atingir o percentual de 50% do PIB em médio prazo.
……..Há duas questões importantes a considerar. A primeira é que os juros reais continuam muito altos. De cerca de 11% ao ano em janeiro de 2006, reduziram-se para cerca de 8% anuais agora. Além disso, porém, há os spreads, que diminuíram muito menos nesse mesmo período. Eram de 29,5% e agora são de 26,2% no total geral. Mas com diferença expressiva entre as pessoas físicas e jurídicas. Para aquelas, o spread era de 43,5% e agora está em 37,7%. Para estas, os percentuais caíram de 14,3% para 12,8.
……..Medalha de ouro para o Brasil: o crédito é o mais caro até onde a vista alcança, mesmo com a mão na testa, em continência. Daí seu baixo volume e sua baixa expansão no período. E daí imaginar que, para que o crédito chegue a 50% do PIB, seu custo (juros mais spread) terá que descer do pódio. A Selic pode e deve contribuir para isso, mas o spread tem outros componentes. .
……..O sistema de oferta de crédito é oligopolizado. Põe no seu produto – dinheiro – o preço que lhe assegure ganhos marginais maiores do que seu custo marginal. E o custo de oportunidade é alto: afinal, comprar títulos do governo tem sido mais rentável do que emprestar dinheiro. Mas os ofertantes de crédito discordam desta análise. Dizem que os principais problemas são a insegurança jurídica (execução do devedor) e a inadimplência. Em outras palavras: o spread seria o preço da sua angústia. .
……..Antes de desperdiçar lágrimas, vejamos. A inadimplência no sistema (vencimentos com mais de noventa dias) mantém-se em 3,7% desde pelo menos o final de 2005 – longe de ser um recorde mundial -, e o crédito de melhor qualidade passou de 90% para 91% do total nestes quase dois anos. O sistema passou a dispor de instrumentos de execução rápida, como a Cédula de Crédito Bancário (CCR) e as inovações da Lei de Falências nos últimos anos. E os spreads, a despeito disso, permanecem no Olimpo. .
……..A segunda questão a considerar é a finalidade do crédito. As modalidades que mais têm crescido desde o final de 2005 são para habitação (36%) e pessoas físicas (40%). Juntas, representam cerca de 38% do total de créditos, sendo 33% para pessoas físicas. O crédito para a indústria e para o comércio cresceu 25% no período. Juntos, representam 32% do PIB, sendo 22% para a indústria. .
……..Num país em que a maioria tem renda precária, o crédito para pessoas físicas é essencial e deve ser ampliado e comemorado. Mas releiam acima: o spread para elas é de 37,7%! Ou seja, o sistema tem financiado bens de consumo, mas o que ele vende mesmo, e muito caro, é dinheiro para suprir o orçamento do tomador. A hipótese que surge é que, se tivéssemos níveis de renda mais altos, a procura por crédito pessoal cairia, e talvez os spreads baixassem. .
……..Quanto ao crédito para as pessoas jurídicas, há muito tempo o sistema deixou de ser um parceiro importante para investimentos. Em geral, financia capital de giro para remendar os fluxos de caixa. Estudo do Ipea (Texto para Discussão 653, junho de 1999) já identificou que mais de 63% do financiamento das empresas no Brasil tem sido feito com recursos internos, ou retenção de resultados. Os recursos externos têm sido pouco utilizados: cerca de 30% vêm de dívidas e apenas 6,5% provêm de ações. Nos últimos anos esses percentuais devem ter se alterado, sobretudo com a onda de emissão acionária. Mas o padrão permanece. Quanto ao endividamento, as inibições são de duas ordens. Uma, a dificuldade de fornecer garantias e informações para aprovação de crédito. Outra, o alto custo do crédito. Nenhuma empresa em condições de optar e que quer preservar seu custo de capital em nível solvente aceita tomar recursos bancários aos custos atuais. Não falo das grandes, que têm acesso aos exóticos juros internacionais. .
……..Quanto às ações e equities em geral, a dificuldade empresarial advém de seus temores ou de suas poucas condições de publicar dados e aceitar sócios que compartilharão a governança. Mas a entrada de sócios – e hoje em dia os fundos de investimento são o veículo dessa possibilidade – representa, para as empresas, não só a melhoria de governança. Também dá a elas melhores cadastros, créditos e poder frente aos bancos e financiadores. No final das contas, melhoram muito os resultados, que podem seguir, mais folgadamente, sendo fonte de financiamento com recursos próprios. .
……..Empresas mais capitalizadas, assim como pessoas com mais renda, têm menor necessidade de tomar crédito. Portanto, podem fazê-lo obtendo juros e spreads menores. Cairá muito a angústia dos vendedores de dinheiro. Mas atenção: é dela que muitos deles têm vivido.










