? Interesses, idéias e instituições
Escrito por Gustavo, postado em 25 dEurope/London julho dEurope/London 2007
“O que querem os “cientistas da moeda”? Que os diretores do Banco Central, portadores da “ciência”, determinem a própria “meta” inflacionária? Que o poder político, legitimamente eleito, se demita de cuidar da política econômica que determina o crescimento do PIB e o nível de emprego? E por que o governo, simétrica e honestamente, não pode desconfiar que a discussão envolve menos uma questão “científica“ e mais interesses materiais dos agentes financeiros? Quem duvida que o Brasil é, ainda, o grande peru disponível (fora do Dia de Ação de Graças) para o repasto dos inteligentes e bem-vindos especuladores no diferencial das taxas de juros interna e externa, que tem ajudado o Banco Central a reduzir a taxa de inflação?”
Antonio Delfim Netto VALOR – 24/07/2007 Todos sabemos que, na explicação dos fenômenos econômicos, dois fatos devem ser considerados: 1) que eles não se deixam entender adequadamente, a não ser quando se incorporam na análise três componentes: a) o interesse material dos agentes envolvidos; b) as idéias, ou melhor, a ideologia que, freqüentemente dissimuladas no “bem geral”, escondem o interesse particular dos agentes; c) as instituições que tornam possível materializá-los; 2) que o destino das instituições destinadas a controlar os agentes é o de serem controladas por eles. Até agora, não há resposta à velhíssima pergunta do grande poeta Juvenal (meio século depois de Cristo): “Quis custodiet ipsos custodes?” A “grande” literatura econômica nacional, nas colunas dos jornais e nos artigos e relatórios do sistema financeiro, dedicou-se, nas últimas semanas, a criticar a decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) em manter, para 2008/09, a meta de inflação de 4,5%. Isso teria sido um pecado capital, uma manifestação da deterioração da qualidade da política econômica, “qualidade”, ela mesma, medida por uma suposta teoria econômica “científica”. Esta explicaria fenômenos reproduzíveis com a mesma precisão da física quântica, com a vantagem de entendê-los, o que não acontece com os pobres físicos quânticos… Mas, como e por quem foi estabelecida aquela decisão? Ela foi tomada numa instituição, o Conselho Monetário Nacional, a “trindade divina” definida no governo FHC: o ministro da Fazenda, o ministro do Planejamento e o ministro-presidente do Banco Central, todos não-eleitos. Por hipótese, eles dispõem da onisciência e onipotência que emanam das cadeiras em que se sentam por obra e mágica do presidente eleito. No “teatro” da comunicação ao público, ela foi tomada por unanimidade numa instituição (o CMN) e comunicada a outra instituição (o Banco Central) que deverá implementá-la. Afinal, por que a fuzarca do mercado financeiro? Por que o mal estar dos que se pensam portadores da verdadeira “ciência” monetária? Por que deveriam estar os diretores do BC contrariados, como se afirma, se sua “missão” é cumprir a “meta” que lhes é imposta pelo poder político derivado dos ministros? Dizem as más línguas que o incômodo se deve a que a unanimidade foi conseguida à custa da “lógica impecável e irrefutável” do presidente eleito por 2/3 dos brasileiros, o que, na opinião dos críticos, é irrelevante. Os eleitores votam, dizem eles, mas ignoram a sofisticação da “ciência monetária” e o papel das “expectativas” na determinação da taxa de inflação, o que talvez seja verdade. Mas o que querem os “cientistas”? Que os diretores do Banco Central, portadores da “ciência”, determinem a própria “meta” inflacionária? Que o poder político, legitimamente eleito, se demita de cuidar da política econômica que determina o crescimento do PIB e o nível de emprego? E por que o governo, simétrica e honestamente, não pode desconfiar que a discussão envolve menos uma questão “científica” e mais interesses materiais dos agentes financeiros? Quem duvida que o Brasil é, ainda, o grande peru disponível (fora do Dia de Ação de Graças) para o repasto dos inteligentes e bem-vindos especuladores no diferencial das taxas de juros interna e externa, que tem ajudado o Banco Central a reduzir a taxa de inflação? Os cálculos da “pequena” contribuição da taxa de câmbio para a redução da taxa de inflação que têm sido divulgados são modestos e mais do que duvidosos… A hipótese de interferência na “meta” não implica interferência na autonomia operacional do Banco Central. Uma coisa é evidente: o fato de a “meta” não ser a que queriam alguns diretores do BC ou alguns analistas financeiros, deixa aos primeiros um único caminho, que é o de não guerrear contra ela e, aos segundos, melhorarem o nível de sua persuasão, escondendo melhor seus objetivos (mesmo os honestos). É claro que a discussão interna não ajudou em nada a formação das expectativas, mas é claro que também não promoveu nenhuma alteração significativa no mercado, como se observa pelo comportamento da curva de juros reais da NTN-B, que está ligeiramente abaixo de 6% para os papéis de 2045 e é, ainda, muito alta, talvez o dobro do que deveria ser. Esta é a discussão que interessa e sobre a qual os economistas têm coisas mais sérias a dizer. Os estudos empíricos vão se acumulando na direção de mostrar que o déficit nominal/PIB e a relação dívida/PIB (e o efeito de uma sobre a outra) têm muita importância na determinação da taxa de juro real de longo prazo. Os estudos mais recentes apontam que essa relação não é de pura proporcionalidade. Ela tem descontinuidades e toma formas não lineares a partir de certos níveis das duas variáveis. Não pode haver a menor dúvida, portanto, que a curva de juros real de longo prazo será muito beneficiada pela redução simultânea do déficit nominal/PIB e da dívida/PIB. É isso que é importante para o futuro. Esta é a hora. Nosso barquinho estava no mar. O mar subiu e temos vento de popa. Vamos crescer 5% e a taxa de juro real vai cair por gravidade. A receita pública vai crescer e a despesa de custeio (outra variável que influi negativamente na taxa de juro real) precisa ser controlada para que, simultaneamente, reduzamos o déficit nominal/PIB e a relação dívida/PIB. Vamos insistir no que é fundamental para o crescimento sustentado. Chega de “teorias e picuinhas”, como sugeriu a competente jornalista Claudia Safatle nesta mesma coluna.











26 dEurope/London julho, 2007 as 2:18 pm
Nossa, o Delfim tá batendo tão pesado no Banco central e nesses economistas financistas, que parece até um velho militando de esquerda. o que está acontecendo?