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    Celso Evaristo Silva

    IV - O Pensamento da Mudança - Filosofia e História

    Introdução.. 2

    A filosofia chinesa.. 2

    Os pré-socráticos.. 2

    Os eleatas.. 3

    Os sofistas.. 3

    Sócrates.. 4

    Platão e o mundo das idéias.. 4

    O que é essencial e o que é perecível nas coisas existentes ?. 4

    Platão utilizou uma alegoria para explicar sua filosofia. O chamado Mito da caverna. 4

    Aristóteles.. 5

    O cristianismo e a sociedade feudal.. 6

    O Renascer de uma civilização.. 7

    Maquiavel e o Estado.. 8

    Os Enciclopedistas – pré-revolucionários.. 8

    “Posso não concordar com nenhuma das palavras que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-las.” 9

    Revolução Francesa – a grande mudança.. 9

    A dialética hegeliana.. 10

    O Marxismo e a práxis.. 12

    Qual o ponto de partida de Marx?. 13

    E a ciência ? Qual seria seu papel na história ?. 14

    Trotski e a Revolução Permanente.. 16

    A esquerda anarquista.. 18

    Positivismo – a ciência transformada em religião.. 19

    Weber, um capítulo à parte.. 21

    Os revisionistas de Marx.. 23

    O socialismo real.. 24

    A “revolução keynesiana”. 28

    Freud explica a mudança.. 30

    Foucault – arqueologia do saber – disciplina e controle.. 32

    E o que é o poder pan-óptico ?. 33

    E nada será como antes . . . amanhã.. 34

    Introdução

    Por que nos preocuparmos com mudanças; com o futuro reservado a nós enquanto indivíduos e coletividade ? Em que medida podemos influir no rumo das inevitáveis mudanças ?

    A idéia de mudança não é nova. Podemos encontrá-la em vários sistemas religiosos do oriente, como o hinduísmo. O pensamento dos hindus é altamente elaborado. Em linhas gerais não se volta para o conhecimento objetivo e o mundo físico, mas para o mundo interior dos indivíduos na busca do verdadeiro eu. Essa busca interior do hinduísmo, no entanto, articula-se com sua visão cosmogônica da criação e ordenação do universo pela trindade divina (Trimurti): Brahma – a força criadora; Shiva – a força transformadora e destruidora e Vishnu, a força conservadora.

    A filosofia chinesa

    Não pode ser separada das duas principais religiões: taoísmo e confucionismo - tem postulados eminentemente pragmáticos, focados mais nos aspectos ético-sociais da vida do que nas grandes questões metafísicas; preocupa-se com a conduta do indivíduo na sociedade, privilegiando o desprendimento, a observância da hierarquia, o culto aos ancestrais e o amor ao próximo. A tradição e os rituais reforçam o respeito à hierarquia social na forma de uma pirâmide, tendo no ápice o senhor dos senhores, o imperador; depois os senhores de província e os chefes de família. Sob este prisma tanto o taoísmo como o confucionismo podem ser consideradas religiões altamente conservadoras e refratárias a qualquer tipo de mudança.

    Todavia é na Grécia Antiga, com o aparecimento da filosofia, que ela ganha a importância e o sentido que empregamos em nossa civilização ocidental.

    Os filósofos sempre estiveram preocupados com questões abrangentes, abstratas. Como, por exemplo: De onde viemos nós e o mundo que nos cerca? Para onde iremos? Qual o sentido de nossa vida? O que é o belo? E o bom; o justo?

    Dessa forma, a filosofia distinguisse das religiões por não ter suas teses oriundas de revelações divinas, mas de serem fruto da especulação e do discernimento do homem, na sua busca pela compreensão de si e do mundo que o cerca.

    Os pré-socráticos

    Nos primórdios da filosofia, a preocupação maior era com o mundo físico, a natureza(physis) e os quatro elementos por eles considerados fundamentais: a terra, o fogo, a água e o ar. Tales de Mileto(624 a.C), Anaximandro (611 a.C), Anaximenes e Pitágoras (582 a.C – 502 a.C) foram filósofos deste período.

    Pitágoras, amante da matemática, via nos números o princípio místico explicativo do universo e do seu funcionamento. Entendia também ser a alma imortal e distinta do corpo, ao qual estava aprisionada redimindo-se de culpas da existência anterior.

    Anaximandro opôs aos quatro elementos fundamentais um outro: o aperyon, tido por ele como inefável, indefinido, mas presente em tudo o que existe: início, meio e fim. Dele, tudo provém; para ele, tudo converge.

    O filósofo grego pré-socrático Heráclito de Éfeso(540 a.C – 470 a.C) foi quem mais importância deu à questão da mudança, sendo famosa sua expressão: Panta rhei – tudo flui, muda; tudo se move, exceto o próprio movimento. Ele cria a conhecida afirmação de que “. . . um homem não pode tomar banho duas vezes no mesmo rio . . .”, porque, ao fazê-lo pela segunda vez, as águas, em constante fluxo, serão outras e o próprio homem terá mudado em algum pequeníssimo detalhe (hoje já sabemos da morte e nascimento constante de nossas células: realidade confirmadora da tese heraclitiana).

    As idéias de que no mundo uma coisa vai se transformando em outra e de luta de contrários(“. . .o conflito é pai e senhor de todos os seres. . .”) , serão de fundamental importância na tradição filosófica muitos séculos mais tarde, em especial, na filosofia alemã.

    Os eleatas

    A chamada Escola de Eléia, originária da cidade grega situada na Itália meridional (Magna Grécia), opunha-se à filosofia de Heráclito da mudança e movimento constantes, defendendo a unidade e a imobilidade do Ser (tudo o que existe).

    Xenófanes de Colfon (570 a.C – 460 a.C) viajou muito pela Ásia Menor, sempre criticando a tendência antropomorfizadora dos homens ao criarem deuses e religiões à sua imagem e semelhança. Ele chegava a dizer que se os animais soubessem esculpir, fariam esculturas de seu deuses nas formas de bois, cavalos, leões etc. É considerado o precursor da visão imobilista dos eleatas.

    Além dele, dois outros filósofos opunham-se às idéias de movimento e de transformação constante de uma coisa em outra( o vir-a-ser): Parmênides (530 a.C – 460 a.C) e Zelão (495 a.C – 430 a.C) , ambos de Eléa. Para eles, só existiria o ser; o não-ser não é. Algo transformar-se em outra coisa seria contraditório. O ser é uno e imutável; movimento e mudança seriam ilusões dos sentidos.

    Zenão ilustrava sua não concordância com as teses mudancistas contando histórias interessantes. Em uma delas Aquiles, o herói da Guerra de Tróia, não conseguiria alcançar uma tartaruga, se esta estivesse à sua frente, uma vez que, para chegar até ela, teria que percorrer metade da distância que os separa, e, para chegar até esta metade, teria que percorrer a metade da metade, assim indefinidamente.

    A intenção dos eleatas era mostrar a necessidade da compreensão profunda da essência do ser. Tarefa impossível, segundo eles, caso aceitássemos a mobilidade e a transformação da realidade. O Ser dos eleatas é não criado, imperecível, completo, imóvel e eterno. Movimento e mudança seriam, assim, meras ilusões dos sentidos. Tese que será desenvolvida mais tarde por Platão e seus seguidores.

    Os sofistas

    Os sofistas, como Protágoras de Abdera e Górgias de Leontinos, são educadores que cobram seus ensinamentos dos próprios alunos. São filósofos eruditos mais preocupados em formar cidadãos para a nova democracia ateniense do que meditar sobre a origem do universo ou a natureza das coisas. Havia necessidade de cada cidadão saber argumentar nas assembléias e tribunais na defesa de seus interesses por meio do raciocínio lógico, convincente e perspicaz. Os sofistas eram céticos, estimulando sempre o raciocínio crítico.

    Sócrates

    Sócrates (469–399 a.C.) não deixou nada escrito. O que sabemos de suas idéias chegou até nós foi o legado de Platão e Xenofonte, sobre o pensamento socrático. Sócrates combatia os sofistas, enxergando neles oportunistas mais preocupados com benefícios pecuniários, enquanto, ele, Sócrates, ensinava gratuitamente a seus discípulos, através do diálogo e da maiêutica (método de extrair-se a verdade oculta no interior de cada um), a essência das coisas. Sócrates põem também o homem no centro de suas preocupações, aproximando-se neste ponto do sofista Protágoras.

    Platão e o mundo das idéias

    O encontro com Sócrates é fundamental na formação do pensamento de Platão (428-348 a.C.). Platão sofreu alguns reveses existenciais o que o levou a criar um mundo fechado para as idéias puras e imperecíveis. Seu pensamento tenta unir problemas levantados por outros filósofos como Parmênides e Heráclito. Como entender a mobilidade e a imobilidade do ser, das coisas?

    O que é essencial e o que é perecível nas coisas existentes ?

    Ele entendia que o objeto da epistémé(conhecimento racional e científico) são as suas essências, aquilo que é imutável em cada coisa e que a faz distinta de todas as outras. Porém não acreditava que a essência das coisas se encontrava na realidade sensível, particular e contingente, mas em um outro mundo; um mundo supra-sensível, metafísico. O mundo das idéias. Ele entendia que as almas antes de ingressarem em um corpo físico vislumbravam as verdades eternas, os modelos perfeitos de cada coisa existente. Porém, ao se unirem a um determinado corpo, “esqueciam-se” dos modelos perfeitos. Por isso, aprender não é outra coisa senão re-conhecer, reavivar na mente, as idéias perfeitas já vistas em outra vida passada. É a teoria da reminiscência: lembrar-se daquilo que está adormecido na alma.

    Platão utilizou uma alegoria para explicar sua filosofia. O chamado Mito da caverna.

    Acorrentados no fundo de uma caverna escura, e de costas para a entrada, os prisioneiros só podem contemplar as sombras de homens, animais e objetos projetadas na parede da caverna. Quando um dos prisioneiros se liberta e foge para o mundo exterior, a luz o ofusca e o sol o deslumbra, custando a adaptar-se à nova realidade. Isso faz com que perceba o quão falso era o mundo que habitava na caverna, onde podia-se ter apenas uma vaga noção da realidade cá fora. O prisioneiro liberto correria, no entanto, grave risco se tentasse retornar à caverna para contar aos seus companheiros a verdade sobre as coisas (embora seja essa a missão do filósofo). Eles provavelmente iriam rir dele, e talvez o matassem se tentasse tirá-los da situação alienante em que se encontravam.

    A caverna simboliza o mundo sensível, a prisão a que todos estamos condenados nesta vida, senão buscarmos a luz existente no mundo exterior. O mundo exterior é o verdadeiro, localizado num plano superior; iluminado pelo símbolo do bem supremo: o Sol.

    O mundo sensível é o das formas imperfeitas, da opinião (dóksa), da falsidade, enquanto o mundo supra-sensível, o mundo das idéias, é o lugar do conhecimento racional e científico (epistémé), das verdades imutáveis.

    Platão tenta a resolver a contradição entre os princípios de Heráclito e Parmênides: para o primeiro, o ser é mudança, tudo está em constante movimento e mudando - imobilidade e permanência são criações da razão; para o segundo, o movimento é que é uma ilusão dos sentidos, pois algo que é não pode deixar de ser e algo que não é não pode ser, assim, não há mudança.

    Platão entende que um determinado cavalo, por exemplo, diferencia-se de todos os demais cavalos existentes; é um ser único, porém, o que faz nós vermos em todos os cavalos um cavalo e não um tigre ou um bola é a “idéia” cavalo; o modelo perfeito que existe somente no mundo das idéias. Foi lá, nesse mundo das verdades, que nossa alma, antes de entrar em nosso corpo, observou a “idéia- cavalo” na sua plenitude e perfeição.

    O governo deveria ficar a cargo dos filósofos, após 50 anos de estudos, pois são sábios e sabem utilizar bem a razão; o poder militar com os soldados, uma vez que a sua principal virtude é a coragem; cabendo aos trabalhadores realizar as tarefas rotineiras e trabalhosas da sociedade com temperança e resignação. As duas classes superiores – filósofos e guerreiros – não teriam propriedades privadas para voltarem-se exclusivamente para os interesses coletivos. Eis uma estrutura social rígida.

    A conseqüência desse tipo de pensamento é desconfiar de qualquer mudança, entendendo-a como enganosa. Por isso, as correntes de pensamento baseadas no platonismo ou no neo-platonismo tendem inexoravelmente ao conservadorismo.

    Aristóteles

    Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.) nasceu em Estágira, Macedônia. Com 17 anos foi para Atenas onde trabalhou durante 20 anos na academia de Platão. Foi também preceptor de Alexandre o Grande. Dedicou-se a quase todo o conhecimento disponível em sua época. Escreveu sobre a Teoria do Conhecimento, Ética, Filosofia, Biologia, Política etc.

    Discordou de Platão quanto à tese da existência de dois mundos antagônicos: o real (o mundo das idéias) e o mundo falso (o mundo em que vivemos). Aristóteles preconizava a coincidência entre forma e conteúdo; essência e aparência. A essência dos seres seria imanente às suas existências, ou seja, estaria dentro deles. Um ser desenvolve-se, aperfeiçoa-se, passando da potência ao ato; esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade, de uma potencialidade anterior. A semente possui em seu conteúdo uma árvore em estado de potência, que poderá ou não vir a se desenvolver, dependendo de determinadas condições como: solo adequado, água, sol etc. A árvore, por sua vez, é a potência de uma semente em ato, de celulose, de papel etc.

    Um ser em potência só pode tornar-se um ser em ato mediante algum movimento. O movimento vai sempre da potência ao ato, da privação à posse.

    Aristóteles defendia Parmênides quanto à existência de algo imutável nas coisas, mas discordava quanto à impossibilidade de mudança defendida pelos eleatas. Algo permanece durante o processo de mudança, mas as coisas efetivamente mudam a partir de suas potencialidades. Concorda com Heráclito quando este fala sobre a mudança e o movimento, ressaltando que, apesar disso, algo permanece no processo e é transmitido de uma etapa à outra.

    Aristóteles funda as bases da ciência ao criar e aprimorar a Lógica, método das leis formais do pensamento. Séculos mais tarde, seu pensamento será incorporado à ética cristã por teólogos como São Tomás de Aquino, servindo de base à “filosofia cristã” ou tomismo.

    O cristianismo e a sociedade feudal

    O Cristianismo foi, em seus primórdios, uma doutrina libertária de afirmação da dignidade humana e de amor entre os homens. Não teve grande importância nos primeiros séculos de nossa era. Pouco a pouco, no entanto, cresceu, se espalhando pelo Império Romano; e, à medida que conquistava corações e mentes, fazia desaparecer os últimos vestígios da tradição filosófica clássica, identificada pelos cristãos como formas de pensar ligadas à idolatria pagã. O povo, de um modo geral, estava mais preocupado com cumprimento das práticas religiosas do que com idéias filosóficas. Exceções foram, por exemplo, o pensador latino convertido ao cristianismo, Tertuliano (155-222) e Santo Agostinho de Hipona (354- 430), este um dos teólogos mais brilhantes de toda cristandade.

    Com o desmantelamento do Império Romano do Ocidente e a criação dos diversos reinos bárbaros, houve retrocesso em vários aspectos da vida social, principalmente na tradição cultural. O ocidente fragmentou-se em várias unidades política e economicamente auto-suficientes chamadas feudos (foedus). Foi o período conhecido por Idade Média. Na sociedade feudal as cidades entraram em franca decadência, não possuindo mais o sentido cosmopolita da antiguidade. O que restara do conhecimento estava restrito aos muros dos mosteiros, onde monges e teólogos dedicados copilavam e mantinham guardadas em suas bibliotecas fragmentos de poucas obras dos autores clássicos.

    A cultura popular e a cultura dos eruditos se mantinham apartadas uma da outra. A própria língua não era a mesma: os intelectuais (doutos, em geral ligados à Igreja) falavam e escreviam em latim, enquanto a plebe analfabeta falava um dos idiomas vulgares formados a partir do latim (como o francês, o italiano, o português, o romeno e outros).

    As instituições eclesiásticas encarregadas de formar altos funcionários para o serviço da Igreja (bispos e magistrados) adotavam uma postura claramente elitista: educavam principalmente os filhos e protegidos dos senhores feudais. Havia o costume do filho mais velho herdar o título de nobreza do pai e o segundo seguir a carreira eclesiástica. Num ambiente destes era natural o ritmo lento das mudanças sociais. Também não havia estímulo à formação de grandes pensadores.

    Cabe ressaltar a obra de São Tomás de Aquino (1225 - 1274), elaborador da síntese da revelação cristã com a visão aristotélica do mundo, formando sólida base filosófica para a teologia e retificando o materialismo de Aristóteles. Em suas duas “Summa”, sistematizou o conhecimento teológico e filosófico de sua época : são elas a “Summa Theologiae”, a “Summa Contra Gentiles”.

    Com o tomismo, a Igreja consubstancia uma teologia (fundada na revelação) e uma filosofia (baseada no exercício da razão humana), que se fundem numa síntese não contraditória definitiva: e razão, unidas em sua orientação comum rumo a Deus.

    São Tomás sustentava que a filosofia não pode ser substituída pela teologia e que ambas não se opunham.

    O Renascer de uma civilização

    Em torno e no interior dos castelos dos senhores feudais formaram-se povoados para os quais afluíam, em busca de segurança, os camponeses, artesãos, pequenos comerciantes etc. O castelo era o Burg, os que passaram a viver sob sua proteção ou nas suas proximidades viriam a ser os burgueses. A rígida estrutura do feudalismo e o isolamento de cada feudo não ajudavam na mobilidade social nem no crescimento da atividade comercial. Com o lento mas progressivo crescimento do comércio, muitos burgueses enriqueceram e passaram a ter aspirações maiores quanto a status social e ao poder daí decorrente, aumentando, também, a demanda por obras de arte.

    Renascimento (ou Renascença) foi um movimento cultural e simultaneamente um período da história européia, entre a Idade Média e o início da Idade Moderna, a transição do Feudalismo para o Capitalismo. Começou no século XIV na Itália e difundiu-se pela pela Europa no decorrer dos séculos XV e XVI.

    Além de atingir a filosofia, as artes e as ciências, o Renascimento representa ampla gama de transformações culturais, sociais, econômicas, políticas e religiosas que caracterizam uma nova maneira de se pensar, viver e olhar o mundo. Aparentemente, o Renascimento pode ser entendido como um elemento de ruptura com tudo o que representava o período medieval, mas não é bem assim.

    A denominação “Renascença”, que passou a ser usada a partir do início do século XIX, é, na verdade, impropriamente empregada, pois a arte não esteve totalmente morta para renascer, nem as idéias dos pensadores clássicos estevam sepultadas para ressuscitar, pois desde o século XIII surgiram precursores notáveis do Renascentismo: Dante Aligheri (1265-1321), que escreveu a “Divina Comédia” e elaborou a estrutura do moderno idioma italiano a partir do dialeto toscano; o humanista Francesco Petrarca(1304-1374), Giovanni Boccacio(1313-1375), autor de “Decameron”; Giotto di Bondone(1266-1337), pintor e arquiteto italiano introdutor da perspectiva na pintura, cuja característica principal é a identificação da figura dos santos pintados em seus quadro com seres humanos de aparência comum. A pintura de Giotto faz parte da visão humanista do mundo, que antecede e desemboca no Renascimento.

    De qualquer forma, a Renascença produziu gênios como Leonardo da Vinci(1452-1519), Michelangelo Buonarroti(1475-1564), Rafael Sanzio(1483-1520), Torquato Tasso(1544-1545) e Nicolau Maquiavel(1469-1527).

    Maquiavel e o Estado

    Maquiavel cria a ciência política propriamente dita. Em sua época a península itálica estava repartida em vários pequenos estados e cidades independentes, muitos deles antagônicos. A força aglutinadora e poderosa era o Papa à frente dos Estados Pontifícios. Maquiavel entende a situação e percebe a importância de que cada governante para levar adiante seus projetos precisa saber distinguir com perfeição as “razões de estado”, bem como, as estratégias para alcançá-las. Sua obra máxima, “O Príncipe”, é a sistematização dos interesses políticos, tendo por perspectiva os interesses dos poderosos de seu tempo.

    Maquiavel entendia que o objetivo último da política era a conquista e a manutenção do poder. Para tal, o governante precisaria conhecer o modus operandi do poder. E, para conhecê-lo, torna-se necessário sistematizá-lo; criar base de sustentação teórica e método para sua aplicação prática. Essa foi a principal tarefa enfrentada por Maquiavel.

    Suas categorias mais importantes são: a fortuna (força dos acontecimentos que arrasta os seres humanos para situações imprevistas ora positivas ora danosas); e a virtu (capacidade do indivíduo de lidar com as vicissitudes da vida e, no caso do governante, adaptar-se às mudanças trazidas pela fortuna).

    Os Enciclopedistas – pré-revolucionários

    A Enciclopédia, publicada na França entre 1751 e 1780, com 35 volumes, foi a reunião de conhecimentos científicos, artísticos e literários, tornados acessíveis ao grande público, foi uma obra realizada pelos maiores pensadores e filósofos do Iluminismo: Diderot (1713-1784), D’Alembert (1717-1783), Voltaire (1694-1778), Montesquieu (1659-1755), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778); o economista Turgot (1727-1781), o barão de Holbach (1723-1789), Helvetius (1715-1771); o naturalista e matemático, conde de Buffon (1707-1788) e muitos outros.

    Rousseau foi um dos precursores das idéias anti-capitalistas e considerado um antecessor do socialismo e comunismo. Foi um dos primeiros autores modernos a atacar a propriedade privada. Rousseau questionou a suposição de que a maioria está sempre correta e argumentou que o objetivo do governo deveria ser assegurar a liberdade, igualdade e justiça para todos(volonté générale), independentemente da vontade da maioria.

    Apesar da oposição da Igreja Católica (a coleção foi incluída no Index Librorum Prohibitorum – Índice dos Livros Proibidos pela Igreja Católica) e dos poderes constituídos, a Encyclopédie foi bem vendida, para os padrões da época.

    Mais do que um dicionário, foi o principal veículo de divulgação das idéias iluministas e elemento fundamental na preparação ideológica para o advento da Revolução Francesa e da ascensão de sua protagonista principal: a burguesia.

    Os grandes temas da razão e liberdade, da autonomia do indivíduo, da prevalência da razão sobre a superstição, da importância da organização da sociedade como fruto da vontade do homem foram sistematizados por esses pensadores como uma espécie de Constituição em defesa do saber, contra o dogmatismo religioso, e as instituições herdadas do feudalismo, materializados no Ancien Régime, destruído pela Revolução Francesa.

    Uma frase de Voltaire espelha bem o sentimento dos enciclopedistas:

    “Posso não concordar com nenhuma das palavras que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-las.”

    Nas ciências físico-matemáticas, Copérnico, Galileu, Leibniz, Kepler e Newton estabeleceram as bases da cientificidade moderna, abrindo novas possibilidades para o que, mais tarde, viria ser a idéia de progresso, combinação das inovações científicas com as potencialidades econômicas postas em ação pelo capitalismo emergente.

    Revolução Francesa – a grande mudança

    O século XVIII é uma época relativamente feliz na Europa: menos guerras, menos crises e mais alimentos para a população em geral. O crescimento demográfico dá um salto, mas a falta de uma decisiva transformação na produtividade do trabalho, anula os benefícios do progresso. Na verdade, o progresso experimentado durante esse período, em particular na França, deve-se mais aos empreendimentos efetivados pelo estado absolutista do que às inovações tecnológicas introduzidas na produção. Este foi o caso particular da Inglaterra com a Revolução Industrial.

    É um erro recorrente imaginar-se a sociedade tradicional do ancien régime como uma sociedade decadente. A sociedade francesa do século 18 era sofisticada e pungente. Nunca o progresso científico foi tão afirmado; os negócios e investimentos da burguesia nascente garantiam a ela um poder econômico sem precedentes; a cultura florescia. Porém, essa França que nascia para a modernidade estava assentada por sobre uma estrutura baseada em privilégios de nascimento; em responsabilidades totalmente díspares entre as classes. Havia toda uma nobreza detentora do poder político, usufruindo as benesses proporcionadas pela sua situação, mas sem uma base econômica e uma argamassa ideológica que justificassem sua própria existência. A sociedade francesa era moderna demais pelo que tinha de arcaica, e arcaica pelo que tinha de moderna; era feudal na sua construção política, frente às crescentes exigências de um corpo social cujo nível de complexidade e tamanho se ampliavam com o passar dos anos. A equação não fechava.

    Essa é a crise do fim do séc.18, na França. Uma burguesia ascendente sem representatividade política no Estado, e uma nobreza sem representatividade social. Uma pequena parte dessa nobreza faz parte da entourage da realeza; o restante que ficava de fora, sem um papel social a cumprir. Não por acaso, a onda revolucionária veio trazida por essa nobreza apartada do Estado absolutista, quando há a convocação da assembléia dos “notáveis” do reino, pelo controlador geral das finanças, Calonne, numa tentativa de buscar soluções para a enorme crise financeira do Estado. A partir deste instante, a maré revolucionária não pára de subir, até que o ancien régime esteja soterrado e sobre ele erguida a nova sociedade com suas novas idiossincrasias e uma nova visão de mundo.

    Raras são as idéias que, ao irem de encontro dos anseios do povo, desencadeiam uma vontade arrebatadora de mudança, introduzem uma ruptura com o passado e imprimem uma aceleração no curso da história. Mais raras ainda entre essas idéias são aquelas que conseguem superar as fronteiras do lugar e do momento que as viram nascer, para germinar em outras latitudes e em tempos ulteriores.

    Uma dessas idéias foi sem embargo a do homem-cidadão. Ela nasceu na cultura européia, no século 18, o século das Luzes, e transformou-se desde aquela época em uma evidência universal. Isso, porém, demorou a acontecer. Essa idéia foi sucessivamente discutida e rechaçada, ignorada e recuperada, odiada por uns, reivindicada por outros.

    Em 1793, em pleno período revolucionário, a Convenção Nacional, estabelecida em Paris, em nome do povo francês, decretou os Direitos do Homem e do Cidadão, marco histórico do direito universal, onde 35 artigos consubstanciavam a idéia do homem-cidadão.

    Finalmente, em 1948, a comunidade internacional adotou uma Declaração dos Direitos do Homem, baseada na declaração de 1793.

    Mas se essa idéia vingou foi tão somente porque ela estava amparada em um processo histórico de mudanças sociais profundas na sociedade francesa e, de um modo geral, no mundo; melhor, essa idéia central era, no plano da superestrutura social, a representação simbólica do período de transição da sociedade feudal para a sociedade burguesa nascente; do ancién régime absolutista, despótico e baseado em privilégios de nascença, para a república da liberdade e da igualdade entre seus cidadãos. Esse período transitório é o que chamamos de Revolução Francesa.

    A nação revolucionária cortava as raízes dos indivíduos e passava a defini-los por sua humanidade e não por seu nascimento. Dessa maneira o conceito de nação irrompeu na história opondo-se ao mesmo tempo aos privilégios nobiliárquicos, aos direitos do clero e ao absolutismo real. A hierarquia social estava baseada no nascimento e a monarquia no direito divino.

    Uma vez libertos de seus liames e de sua ascendência, os indivíduos estavam também livres da autoridade transcendente que até então reinava sobre eles. É bem verdade que esse movimento libertário já havia começado com a própria Reforma Protestante e a Revolução Americana, mas é na França revolucionária onde ocorre sua consolidação.

    A Revolução Francesa funda o Estado Moderno e elementos de mediação entre ele e a sociedade civil. A Revolução marca de forma indelével o pensamento dos grandes filósofos do idealismo alemão: Kant (1704-1804), Fichte (1762-1814), Schelling (1775-1854) e, principalmente, Hegel, para quem a história seria, no fundo, a manifestação do absoluto através da liberdade e da consciência de sua importância através do fluir do tempo.

    A dialética hegeliana

    Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu em Stuttgart – 1770, e morreu em 1831. Hegel foi o criador do último grande sistema filosófico dos tempos modernos. Sua filosofia é o ápice do idealismo alemão, iniciado por Kant e Fichte, lançando as bases da maior parte das tendências filosóficas e ideologias posteriores, como o marxismo, o existencialismo e a fenomenologia. Até mesmo as correntes de pensamento não alinhadas com a tradição hegeliana, em algum momento, se depararam com desafios e questões por ela abordadas. Algumas chegaram a fazer do combate ao hegelianismo a razão da sua própria existência.

    Hegel recebeu tradicional educação cristã, ingressando, em 1788, na Universidade de Tübingen, pronto para seguir carreira eclesiástica. No entanto, seus pendores filosóficos superavam em muito sua motivação para estudos teológicos. Ao terminar o curso, optou por dedicar-se ao estudo da literatura e da filosofia gregas. Amigo do poeta Friedrich Hölderlin e do filósofo Friedrich Schelling, compartilhou com eles a admiração pela tragédia grega e pelos ideais da revolução francesa.

    Para termos uma certa noção do pensamento e da dialética de Hegel(Ele é considerado um quebra-cucas pelos estudiosos de filosofia), convém remeter à filosofia clássica com seus três princípios básicos: Deus ou o Ser, que é por si mesmo; a alma ou o espírito; e a matéria ou o mundo.

    Nesse momento faz-se necessária a compreensão da lógica dialética, realizada em três fases: Na primeira, toda realidade “se apresenta”(tese-afirmação), para depois negar a si própria(antítese-negação), e, num terceiro momento, superar-se e eliminar tal contradição(síntese-negação da negação).

    O processo, porém, não cessa, pois, a síntese alcançada será a próxima tese a ser contraditada e reconciliada mais adiante.

    A conciliação dos contrários nas coisas como no espírito constitui aquilo que Hegel chama de dialética: O ser é –afirmação, porém indeterminado, equivalente ao nada; o ser não é é a negação; finalmente ele é vir a ser, conceito que Hegel busca em Heráclito.

    Hegel é teísta. Deus, para ele, é o “absoluto” – o “ Ser absoluto”, no qual a essência e a existência coincidem; uma implica na outra. Se o Ser é tudo o que existe, afirmar sua inexistência seria uma contradição em termos, pois, o Não-Ser não é; por conseguinte, o teísmo de Hegel é um monismo, um panteísmo.

    Esse Deus hegeliano é concebido como a Idéia absoluta, como princípio universal e lógico. Essa Idéia, esse Lógos, ainda pura indeterminação, só se determina exteriorizando-se na natureza. Assim a Idéia passa a algo de determinado graças ao mundo.

    Voltemos, pois, à Idéia exteriorizada no mundo – a natureza. A evolução do mundo leva à aparição do homem e do pensamento, graças ao qual a Idéia absoluta toma progressivamente consciência de si mesma, a princípio sob a forma de espírito subjetivo ou individual, depois sob a forma de espírito objetivo ou coletivo: a família, as diversas sociedades e o Estado, de onde provêm o direito e a moral. Entendido o espírito objetivo ou coletivo como sendo a manifestação da Idéia na história, cuja expressão máxima seria o Estado.

    A síntese final é quando a razão universal humana consubstancia-se em Espírito Absoluto – o máximo de conhecimento de si mesmo, através da arte, da religião e da filosofia. Há, nesse sentido, a compreensão total do Espírito por si mesmo através do homem, já que existe unidade e identidade da natureza divina e da natureza humana.

    Cabe lembrar que essa odisséia do Espírito se faz e se dá enquanto razão, pois, para Hegel, “O que é real é racional, o que é racional é real.” Em tudo o que existe há uma lógica interna a ser desvendada.

    Este jogo incessante de teses, antíteses e sínteses não se passa unicamente no espírito, mas, também, nas coisas que não pensam. E mais, a dialética do pensamento não é mais que a reprodução pura e simples do movimento das coisas: o pensamento não é dialético senão no sentido em que descreve uma dialética da realidade. Se uma idéia suscita a idéia oposta, é porque a realidade que esta idéia representa exige a realidade contrária.

    De forma muitíssimo resumida, essa é a intuição de Hegel: a marcha para frente de tudo o que existe, em direção a um futuro que vai suplantar o presente, desvelando o caráter provisório e passageiro de todas as coisas; o fluxo implacável do vir a ser; a certeza de que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia . . .

    O Marxismo e a práxis

    Caberia, no entanto, a Karl Marx junto com seu fiel escudeiro, Friedrich Engels (1820-1895), a junção da economia clássica inglesa, do materialismo filosófico francês e da dialética hegeliana, num mesmo sistema denominado materialismo histórico e dialético. O pensamento da mudança ganha com o marxismo um salto de qualidade jamais experimentado antes na história.

    O economista, filósofo e socialista alemão Karl Marx nasceu em Trier em 1818 e morreu em Londres, em 1883. Estudou na Universidade de Berlim e formou-se em Iena, em 1841, com a tese sobre as diferenças da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro. E 1843 mudou-se para Paris, onde conheceu Engels , colaborador e amigo até o fim de seus dias.

    Expulso da França devido às suas atividades políticas, radicou-se em Bruxelas, participando de organizações clandestinas de operários e exilados. Marx e Engels publicaram em 1848 o Manifesto Comunista, gênese do que mais tarde ficaria conhecido como Teoria da práxis, ou marxismo. Marx foi co-fundador e fez parte da diretoria da Associação Internacional dos Operários, chamada também de I Internacional.

    Mudou-se definitivamente para Londres, local de intensos estudos na biblioteca local e de criação de sua obra maior, Das Kapital – O Capital, começada por ele e terminada por Engels, após a sua morte.

    O marxismo é, antes de mais nada, uma filosofia da mudança. É a teoria política que entende a história como a história do conflito, da luta entre classes – materialismo histórico. É aceita a dialética de Hegel, mas interpretada de modo diferente: ao invés das idéias criarem o real, as relações sociais concretamente determinadas produzem as idéias, daí a materialidade do pensamento de Marx.

    Qual o ponto de partida de Marx?

    Ele entende ser o trabalho o elemento constitutivo da essência do homem. É pelo trabalho como atividade de sobrevivência que o homem se humaniza. Ao atuar sobre a natureza o homem não só a transforma, caçando, produzindo objetos, fecundando a terra, mas, transforma a si mesmo; altera sua fisiologia, sua psiquê e, fundamentalmente cria o universo da cultura, chave para o surgimento da história.

    Mas os homens não produzem sozinhos. Desde os primórdios eles se unem para coletivamente garantir o seu sustento, estabelecendo um conjunto de relações sociais, concreta e historicamente determinado. As sociedades humanas seriam estruturas dinâmicas assentadas sobre uma base de relações sociais de produção ligadas às forças produtivas de uma época (infra-estrutura econômica), sobre qual se elevaria uma superestrutura jurídica, política, ideológica e cultural, e à qual correspondem formas de consciência social determinada.

    “as relações sociais são inteiramente ligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial”

    Marx, A Miséria da Filosofia - 1847

    Não é, pois, a consciência dos homens que determina seu modo de ser, a sua essência, mas, ao contrário, é sua existência social que determina sua consciência; aquilo que ele pensa, o que valoriza, o que teme e o que adora. E essa existência social depende do estágio de desenvolvimento tecnológico e econômico de uma sociedade. Para Marx não são as idéias que governam o mundo; pelo contrário, são elas que dependem das condições econômicas materialmente estabelecidas, as quais explicam a história. Nesse sentido, Marx põe a filosofia de Hegel de cabeça para baixo: Não é a idéia que determina o mundo material, mas o contrário é verdadeiro. A economia, que engloba o conjunto dos esforços do homem no sentido de se apropriar da matéria e explorá-la, constitui a estrutura essencial das relações humanas e as ideologias a representação em nível da superestrutura dessas relações sociais.

    Sem dúvida, a política, a religião, a arte, a filosofia exercem influência umas sobre as outras e todas também atuam sobre a base econômica da qual derivam. Assim, ao contrário do que entende o marxismo vulgar, a infra-estrutura econômica não é a única determinante e ativa: ambas – super e infra-estrutura mantêm entre si uma relação dialética de múltiplas determinações, embora, em última instância, a base econômica seja o elemento condicionante fundamental.

    E a ciência ? Qual seria seu papel na história ?

    Para o marxismo a ciência não é pura compreensão ou investigação guiada pela visão neutra do cientista, como quer a visão positivista. A técnica e o conhecimento são sempre adaptações dos fins almejados pelo pesquisador, esteja ele consciente disso ou não. Os valores do cientista estão presentes na investigação; estão aí arraigados representando os interesses da classe a qual pertence e para a qual trabalha. Nesse sentido, ideologia e verdade objetiva estão tão entrelaçados como a energia e a matéria nos corpos: podemos até identificá-las, mas nunca separá-las totalmente.

    Muitos de seus opositores vêem nessas idéias de Marx e Engels puro determinismo econômico. Ao que os dois contra-argumentavam dizendo existir uma interação dialética permanente entre os dois níveis que compõem a estrutura social: da mesma maneira que a infra-estrutura econômica atua sobre a superestrutura, sofre os reflexos desta, embora, em última instância, sejam os fatores econômicos os determinantes finais.

    Marx e Engels entendem a filosofia, a religião e outras manifestações do pensamento como ideologias a serviço das classes socialmente dominantes, limitando-se a interpretar o mundo, no caso da filosofia, e dar-lhe razões de existência, em se tratando da religião e da moral, sem propor a sua transformação.

    A crítica da filosofia e de todos os sistemas ideológicos envolve, pois, a crítica do mundo concreto do qual a filosofia e os referidos sistemas são apenas a expressão ideal. E a crítica do mundo concreto não consiste apenas na crítica das idéias que o representam, mas em sua efetiva transformação. No seu livro “A ideologia alemã”, Marx afirma: “a classe que exerce o poder material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder espiritual dominante”

    O marxismo é uma filosofia da ação, da práxis – “Os filósofos limitaram-se, até hoje, a interpretar o mundo, cumpre transformá-lo”(Marx, Teses sobre Feuerbach XI-1845). Ao inverter as bases do sistema idealista dialético hegeliano, Marx leva a dialética à realidade social e econômica, às relações que aí se estabelecem, ao homem real, mantenedor de sua existência a partir do que produz para si e para outros.

    Se, no entender de Marx, o trabalho é a fonte e o teor da essência humana, ao vender sua força de trabalho ao capitalista, o homem estaria vendendo sua própria essência, ou melhor, estaria alienando-a a outrem. Ele seria, assim despojado de sua humanidade. Este conceito de alienação é fundamental para o entendimento do pensamento de Marx e das diversas correntes marxistas posteriores a ele.

    A partir do conceito de alienação, Marx elabora uma crítica moral do capitalismo por ser um modo de produção que converte a força de trabalho em mercadoria e, desse modo, aliena o trabalhador como ser humano, transformando-o numa coisa, num fator de produção (“coisificação” do homem).

    O economista faz uma separação entre o capitalismo técnico e o jurídico, apontando suas armas contra este último por se basear na compra do trabalho humano. Ao ver-se despojado da sua essência, o homem transforma-se em objeto do capital, o que, no seu entender, eliminaria qualquer base ética para o sistema. Ou seja, o trabalhador se alienaria ao capitalista como o fiel aos seus deuses ou ídolos.

    Marx concordou com os economistas clássicos britânicos, para quem o trabalho é a medida de todas as coisas. A força de trabalho do operário (força física, mental, destreza), como qualquer outra mercadoria, é vendida ao capitalista, e, ao ser posta em prática no processo produtivo durante a jornada de trabalho, incorpora, agrega valor a um produto que será vendido no mercado por um valor superior a seu custo de produção. A diferença entre o valor final do produto e o custo de produção constitui a mais-valia, o excedente ou valor acrescentado pelo trabalho.

    O custo de produção é a soma do valor dos meios de produção (maquinaria, matérias-primas e materiais auxiliares) e do valor da força de trabalho, este, expresso no trabalho necessário para produzir abrigo, alimentação, vestuário e outros bens indispensáveis à subsistência do operário e seus dependentes (essa relação está condicionada por fatores sociais e históricos, pois as necessidades de um trabalhador moderno diferem substancialmente das de um trabalhador do início da revolução industrial), sem o que o trabalhador não poderia continuar produzindo. Se a parcela de cada um desses elementos consumidos pelo operário e seus dependentes durante um dia de trabalho equivale a 6 horas de trabalho de pedreiros, lavradores, tecelões etc, a força de trabalho desse operário vale exatamente 6, o que ele recebe de seu patrão na forma de salário. O operário não poderia receber menos do que este valor, sob pena de não poder continuar vendendo sua força de trabalho. Mais o patrão não lhe pagaria para não ter o lucro diminuído.

    A “mágica” ocorre quando a força de trabalho vendida pelo trabalhador ao capitalista não vai ser utilizada durante 6 horas apenas, mas durante jornadas de 8, 10, 12 ou mais horas de trabalho. A mais-valia é resultado da diferença entre o preço pago pelo capitalista aos trabalhadores na compra de sua força de trabalho pelo período de 6 horas e o preço pelo qual ele, empresário, vende o resultado – as mercadoria produzidas em 10 ou 12 horas de trabalho. Assim, quanto menor o salário pago ao empregado e quanto maior a jornada de trabalho, maior a mais-valia e o lucro empresarial.

    Marx distingue dois tipos de mais-valia: a absoluta e a relativa. A mais-valia absoluta aumenta proporcionalmente ao aumento da jornada de trabalho, ou seja, do número de horas trabalhadas, mantendo-se o mesmo salário pago. Quanto mais horas o operário trabalhar, maior o lucro e a acumulação de capital.

    A mais-valia relativa aumenta com o aumento da produtividade, com a racionalização do processo produtivo e com o aperfeiçoamento tecnológico. No capitalismo moderno, com a redução das jornadas de trabalho, o lucro é obtido por meio da mais-valia relativa. O trabalhador passa a produzir mais no mesmo tempo de trabalho, e isso aumenta relativamente a mais-valia, o que eleva, em níveis exponenciais, a taxa de acumulação de capital.

    O incremento tecnológico e o uso de máquinas cada vez mais produtivas eliminam periodicamente parte da força de trabalho, a qual passa a integrar o que Marx chamou de “exército industrial de reserva” – massa de trabalhadores desempregados que, de acordo com a lei da oferta e da procura, puxa para baixo o salário médio pago pelos empresários, trazendo como conseqüência a pauperização contínua da classe trabalhadora.

    A crescente acumulação/concentração de capital levaria à formação de cartéis e monopólios, eliminando pequenos e médios produtores, e, com eles, um importante elemento de renovação do sistema: a concorrência.

    Na busca de lucro máximo, o capitalista adota novos instrumentos de trabalho que geram produção maior do que o mercado é capaz de absorver. As crises periódicas fazem aumentar o desemprego, proletarizam as classes intermediárias e empobrecem a classe operária.

    O sistema capitalista, na análise de Marx, desaparecerá em conseqüência das próprias contradições e da oposição entre o caráter coletivo da produção e o caráter privado da apropriação. A ação revolucionária dos oprimidos (práxis), liderados pela classe operária, deverá incidir sobre o sistema capitalista. A tomada do poder por essa classe implicaria a instauração de um estado socialista transitório, a ditadura do proletariado, que se dissolveria após cumprir sua missão de organizar o sistema coletivista e liquidar as antigas classes sociais.

    Depois dessa fase se chegaria finalmente ao comunismo, sociedade auto-regulada, sem classes, sem Estado (que nada mais é, para Marx, do que a representação máxima das classes dominantes) e sem a exploração do homem pelo homem.

    Mesmo discordando dele em muitos pontos, pensadores como o sociólogo Max Weber(1864–1920), o economista John Maynards Keynes (1883–946) e Karl Kautsky (1854-1938) reconheceram em Marx um profundo pesquisador e conhecedor das contradições internas do sistema capitalista, assim como das conseqüências de sua forma de funcionamento: a necessidade de constante expansão e acumulação permeadas por crises cíclicas, onde a polarização entre a riqueza nas mãos de uns poucos e a pobreza disseminada é sua regra pétrea; a subutilização do capital investido em máquinas e equipamentos devido ao ritmo frenético de sua expansão; à sua natureza anárquica, geradora, por razões várias, de crises econômicas cíclicas.

    O pensamento da mudança teve na dialética marxista uma ferramenta de inestimável valor. É dialético um pensamento que se esforça constantemente por superar a si próprio, tanto indo até o extremo das implicações lógicas do que descobriu com suas inferências como atingindo pontos de vista novos que parecem contradizer as suas primeiras afirmações. O homem é um ser social em transformação. Sua essência(se é que podemos admitir existir algo assim) se faz no devir constante. Para o pensar dialético não há porto seguro; navegar é sempre preciso.

    Trotski e a Revolução Permanente

    O pensamento da mudança tem em Trotski um dos seus representantes mais emblemáticos. Trotski foi em sua época, e continua sendo nos dias de hoje, uma personalidade marcante, polêmica e incontornável.

    Revolucionário e escritor político soviético, Lev Trotski nasceu no dia 7 de novembro de 1879, na Ucrânia. Estudou matemática em Odessa. Com 16 anos começou sua carreira política como um social democrata. Ativista contra o governo czarista russo, o jovem Trotski foi preso e exilado na Sibéria quando tinha 18 anos. Conseguiu fugir da Rússia em 1902 e unir-se a Lênin e Plekhanov, em Londres.

    Juntos, eles lideraram a Revolução Russa de 1917 e organizaram a formação do primeiro Estado socialista do mundo. Nos primeiros anos da União Soviética, Trotski exerceu o cargo de Comissário do Povo para Guerra, comandando o Exército Vermelho, por ele criado.

    Àquela época, o movimento comunista, também chamado de social-democrata(não confundir com a social-democracia ocidental de tendência reformista) dividia-se entre duas tendências: bolchevistas e menchevistas, Trotski aliou-se aos últimos em 1903.

    Retornou à Rússia em 1905 e ingressou no movimento revolucionário, sendo eleito presidente do soviet (conselho) dos operários de São Petersburgo. Preso e banido para a Sibéria, conseguiu fugir para a Finlândia. Foi para Viena onde fundou o jornal Pravda (A verdade).

    Após breve passagem por Paris, fixou-se em Nova Iorque com a família, em janeiro de 1917, de lá saindo para juntar-se aos bolchevistas na Rússia. Teve participação decisiva na Revolução de 1917.

    Vitoriosa a revolução, foi nomeado comissário dos Negócios Estrangeiros do regime recém instalado, tendo participação decisiva na assinatura do tratado de paz com a Alemanha ( Tratado de Brest\Litovsk ).

    Trotski também foi o responsável pala organização do Exército Vermelho, que consolidou a revolução ao vencer os contra revolucionários conhecidos como russos brancos.

    Em 1923, as divergências entre ele e Joseph Stalin, Kamenev e Zinoviev começaram a crescer. Havia discordância na questão da autodeterminação da Geórgia, do sistema altamente burocrático, defendido por Stálin e sobre a política de difusão do socialismo.

    Trotski defendia a tese da revolução permanente, ou seja, para que o socialismo vingasse efetivamente na Rússia ou em qualquer outro lugar do mundo, ele teria que ser estendido às principais potências industriais da Europa, onde a classe operária era significativamente poderosa em quantidade e organização, ao contrário da Rússia e outros países basicamente agrários e atrasados economicamente. Stalin liderava o grupo que defendia a consolidação do socialismo na Rússia – socialismo num país só – para, no futuro, estendê-lo a outras nações. Para Trotski, somente o proletariado urbano poderia servir de base a uma revolução verdadeiramente socialista. Não acreditava numa aliança com o campesinato por considerá-lo tendente ao reacionarismo(tese conflitante com as visões de Lênin e Stalin sobre a necessidade tática de tal aliança).

    Um ano mais tarde, Lênin morreu. Sem seu maior aliado no Partido Comunista, Trotski começou a ser perseguido na Rússia. Primeiro, foi proibido a discursar em público e depois foi expulso da União Soviética, pelo então líder do comunismo russo, Josef Stalin, que formara um grupo hegemônico no partido.


    Seu primeiro destino foi a Turquia, onde permaneceu até 1933. Depois de viver na França e na Noruega, o revolucionário russo foi pedir asilo no México. Mesmo vivendo na América Central, Trotski foi alvo de duas tentativas de assassinato. Na primeira, um homem atirou várias vezes na sua casa, mas não conseguiu matar o líder socialista. Na segundo vez, o comunista espanhol Ramón Mercader entrou na casa de Trotski e o matou com uma machadada na cabeça, no dia 21 de agosto de 1940. Ambos atentados foram atribuídos a pessoas ligadas a Stalin, mas o governo soviético negou envolvimento. O assassino foi preso e sentenciado com 20 anos de reclusão.

    Trotski continua como uma das mais polêmicas figuras da Revolução Russa. Lutou contra a falta de democracia na estrutura do partido comunista, no entanto, reprimiu com violência greves promovidas por líderes anarco-sindicalistas, já na Rússia Soviética. Ao mesmo tempo em que lutava contra a burocratização do sistema soviético, propunha a militarização dos sindicatos e das unidades de trabalho no campo e na cidade. Libertário ou autoritário? Visionário ou impulsivo? Revolucionário ou contra-revolucionário? Não há respostas fáceis nem definitivas para personagens da história do porte de Trotski.

    A esquerda anarquista

    “Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo.

    Quem duvida disso não conhece a natureza humana.” Bakunin

    Anarquismo significa literalmente “ausência de governo”. Como ideologia e movimento político ele deita raízes no século XVIII, durante a fase mais aguda da Revolução Francesa. Caracteriza-se pela total oposição a toda forma de autoridade e governo. Os anarquistas sempre tiveram grande má vontade diante de qualquer tipo de organização para fins políticos; só admitindo-a em caráter provisório.

    Mesmo durante a guerra civil espanhola, quando foi grande a influência dos anarquistas, eles só aceitaram a participação no governo republicano para impedir a hegemonia, no âmbito das forças de esquerda, das correntes socialistas e comunistas, que, segundo eles tendiam à excessiva organização e autoritarismo.

    O anarquismo tem raízes revolucionárias; mas seu postulado básico é que uma verdadeira revolução não pode desembocar em outro Estado, pois estaria ocorrendo a troca de uma tirania por outra. Além de tudo, o maior legado do anarquismo é sua preocupação com o perigo representado pelas diversas formas de estruturas, sejam elas políticas, econômicas, culturais, sociais. Todas tenderiam a reprimir o indivíduo naquilo que ele tem de mais humano: sua criatividade. Por isso, entendem os anarquistas ser a liberdade superior à igualdade em importância.

    Positivismo – a ciência transformada em religião

    O positivismo reflete no plano ideológico a ascensão da burguesia européia pós Revolução Francesa. Essa corrente filosófica tem raízes em diversos movimentos que tiveram lugar no século XVIII, como o empirismo inglês de David Hume, que concedia primazia absoluta à experiência no processo do conhecimento, e o Iluminismo, com sua crença no progresso da humanidade por meio da razão. O positivismo é produto direto de sua época: a confiança inabalável na ciência e a fé no progresso da técnica e da indústria.

    O sistema filosófico positivista foi elaborado a partir do pensamento do pensador francês Auguste Comte(1798-1957).

    Para Comte, a humanidade passou por três estágios em seu desenvolvimento: o teológico, com predominância do sentimento religioso e mítico; o metafísico, onde não se interpreta a realidade sensível em função de deuses ou “mundos mágicos”, mas faz-se uso de conceitos imanentes e abstratos - idéias, princípios, categorias; e, finalmente, o positivo, etapa do conhecimento objetivo, factual e racional.

    A lei dos três estágios ou estados é a doutrina básica explicativa da dinâmica social e histórica usada pelo positivismo.

    Com a revolução industrial já plenamente realizada, em pleno florescimento das ciências experimentais, que conquistavam progressivamente mais e mais espaço, em detrimento da especulação racionalista, Comte tentou a síntese dos conhecimentos positivos de seu tempo. Era recente e estrondoso o triunfo da física, da química e de algumas idéias biológicas.

    Com intenção de reformar a sociedade, o pensamento de Comte buscava reunir num sistema aglutinador e totalizante os últimos resultados do progresso científico do capitalismo triunfante.

    Ao contrário do que afirmaram alguns divulgadores, Comte nunca se inclinou a favor de um empirismo radical. Pelo contrário, situava o positivismo entre o empirismo — a pura experiência direta do fato — e o racionalismo, que ele chamava também de misticismo. O saber científico depende tanto de dados empíricos como de elaboração racional.

    A realidade não é compreendida diretamente pela simples observação direta dos fatos ou pela simples sensação. A observação é complementada pela ação do intelecto. A subjetividade do cientista reelabora os dados colhidos e os organiza segundo um método de trabalho, criando uma hipótese composta por elementos empíricos e racionais.

    Comte se propôs a dois objetivos básicos: a elaboração de uma sociologia — disciplina criada por ele e à qual pensou dar o nome de “física social” — sobre a base exclusiva do estudo científico dos dados da experiência, e a reorganização das ciências de acordo com o mesmo critério.

    O objetivo básico da filosofia positiva é, pois, a ordenação e a classificação das ciências. Comte estabeleceu uma pirâmide de seis ciências puras, na base da qual se encontrava a matemática — única ciência que não pressupõe as demais — seguida da astronomia, física, química, biologia e sociologia.

    Todas seriam regidas pelo mesmo método descritivo, e cada uma delas utilizaria os dados proporcionados pelas precedentes. Comte estabelecia o princípio da unidade da ciência.

    O objetivo da ciência positiva é não só alcançar o conhecimento da realidade, mas transformar essa mesma realidade a partir da reorganização da vida social, fazendo a humanidade evoluir das fazes teológica e metafísica para o predomínio da ciência e da razão, com a unidade completa do poder temporal e do espiritual. Para isso, ele cria a Religião da Humanidade, numa tentativa de transformar a ciência em culto religioso.

    O positivismo, no fundo, preocupa-se com o “como” as coisas acontecem, e não no “por quê” e “pra quê” dos acontecimentos. Ao observador cabe analisar objetivamente os dados, sem qualquer veleidade de ordem metafísica.

    Várias correntes positivistas surgiram depois de Comte. A principal delas foi a neopositivista ou Círculo de Viena, caracterizada pela utilização da análise lógica para demonstrar a relevância de dados empiricamente levantados. Empirismo e racionalismo são levados às últimas conseqüências.

    Embora muito criticadas porque excluíam elementos próprios da investigação científica, como o método hipotético-dedutivo, as teorias de Comte tiveram grande número de seguidores. Assim, por exemplo, o utilitarismo britânico, cujo principal representante foi John Stuart Mill, e o pragmatismo americano sofreram decisiva influência da doutrina positivista. Foi, entretanto, o chamado positivismo crítico, centrado na teoria da ciência, que inspirou o desenvolvimento posterior da doutrina.

    O repúdio radical a qualquer espécie de metafísica constitui a característica deste empirismo lógico neopositivista. Guerras, crises econômicas e ambientais corroeram indelevelmente a fé cega na ciência e no progresso contínuo. Esta fé mostrou-se uma ideologia a mais como tantas outras que a precederam.

    O positivismo lógico recebeu críticas de vários pensadores como o austríaco Karl Popper, que considerou que o critério positivo de verificação impedia a elaboração de hipóteses, fundamentais para a ciência. Muitas das idéias dos positivistas lógicos, entretanto, continuaram em discussão. Suas análises sobre o significado das proposições e as relações entre as ciências formais e as empíricas foram, de qualquer forma, fundamentais para a evolução posterior da filosofia analítica.

    Longe de perder sua validade, o método científico - seja empírico, positivista ou individualista, à la Popper - é um importante aliado da humanidade, desde que estejamos conscientes de suas limitações e falibilidade.

    Os positivistas tiveram influência na tradição empirista inglesa que remonta a Francis Bacon(1561-1626) e encontrou expressão em David Hume(1711-1776), nos utilitaristas do século XIX. Nessa tradição metodológica de abordagem dos fatos sociais encontramos Augusto Comte(1798-1857) e Émile Durkheim(1858-1917), por muitos tido como o fundador da sociologia como disciplina científica.

    Os antipositivistas, adeptos da distinção entre ciências humanas e ciências naturais, foram sobretudo os alemães, vinculados ao idealismo dos filósofos da época do Romantismo, principalmente Hegel e Schleiermacher (1768-1834). Os principais representantes dessa orientação foram os neokantianos Wilhelm Dilthey (1833-1911), Wilhelm Windelband (1848-1915) e Heinrich Rickert (1863-1936).

    O modo explicativo seria característico das ciências naturais, que procuram a relação de causa e efeito entre os fenômenos. A compreensão seria o modo típico de proceder das ciências humanas, que não estudam fatos que possam ser explicados propriamente, mas visam aos processos permanentemente vivos da experiência humana e procuram extrair deles seu significado histórico.

    Weber, um capítulo à parte

    Max Weber(1850-1920) nasceu e teve sua formação intelectual no período em que as primeiras disputas sobre a metodologia das ciências sociais começavam a surgir na Europa, sobretudo em seu país, a Alemanha. Filho de uma família burguesa da alta classe média, Weber recebeu esmerada educação em línguas, história e literatura clássica. Em 1882, começou os estudos superiores em Heidelberg; continuando-os em Göttingen e Berlim, em cujas universidades dedicou-se simultaneamente à economia, à história, à filosofia e ao direito. Concluído o curso, trabalhou na Universidade de Berlim, na qual idade de livre-docente, ao mesmo tempo em que servia como assessor do governo. Em 1893, casou-se e; no ano seguinte, tornou-se professor de economia na Universidade de Freiburg, da qual se transferiu para a de Heidelberg, em 1896. Dois anos depois, sofreu sérias perturbações nervosas que o levaram a deixar os trabalhos docentes, só voltando à atividade em 1903, na qualidade de co-editor do Arquivo de Ciências Sociais (Archiv tür Sozialwissenschatt), publicação extremamente importante no desenvolvimento dos estudos sociológicas na Alemanha.

    Dentro das coordenadas metodológicas que se opunham à assimilação das ciências sociais aos quadros teóricos das ciências naturais, Weber concebe o objeto da sociologia como, fundamentalmente, “a captação da relação de sentido” da ação humana. Em outras palavras, conhecer um fenômeno social seria extrair o conteúdo simbólico da ação ou ações que o configuram. Por ação, Weber entende aquele comportamento cujo sentido é referência para o sujeito e para os outros. Tal colocação do problema de como se abordar o fato significa que não é possível propriamente explicá-lo como resultado de um relacionamento de causas e efeitos à maneira dos positivistas(procedimento das ciências naturais), mas compreendê-lo como fato carregado de sentido, isto é, como algo que aponta para outros fatos e somente em função dos quais poderia ser conhecido em toda a sua amplitude.

    A sociologia weberiana consiste em entender o sentido que as ações de um indivíduo contêm e não apenas o aspecto exterior dessas mesmas ações. Se, por exemplo, uma pessoa dá a outra um pedaço de papel, esse fato, em si mesmo, é irrelevante para o cientista social. Somente quando se sabe que a primeira pessoa deu o papel para a outra como forma de quitar uma dívida(o pedaço de papel é um cheque) é que se está diante de um fato propriamente humano com significado social, ou seja, de uma ação carregada de sentido. O fato em questão não se esgota em si mesmo e aponta para todo um complexo de significações sociais, na medida em que as duas pessoas envolvidas atribuem ao pedaço de papel a função de servir como meio de troca ou pagamento; além do que tal função é reconhecida por uma comunidade maior de pessoas, ampliando sua dimensão social. Embora Weber não adote os procedimentos metodológicos das ciências naturais, ele defende a rigorosa observação dos fatos como fator imprescindível para o cientista social.

    Embora seu método não seja o mesmo das ciências naturais, seu sistema lógico de análise dos fenômenos é o mesmo de prova, tanto nas ciências naturais quanto nas humanas. Entretanto, se a lógica da explicação causal é idêntica, o mesmo não se poderia dizer dos tipos de leis gerais a serem formulados para cada um dos dois grupos de disciplinas. As leis sociais, para Weber, estabelecem relações causais em termos de regras de probabilidades, segundo as quais a determinados processos devem seguir-se, ou ocorrer simultaneamente., outros. Essas leis referem-se a construções de “comportamento com sentido” e servem para explicar processos particulares. Para que isso seja possível; Weber defende a utilização dos chamados “tipos ideais”, que representam o primeiro nível de generalização de conceitos abstratos e, correspondendo às exigências lógicas da prova, estão intimamente ligados à realidade concreta particular.

    O conceito de “tipo ideal” corresponde, no pensamento weberiano, a um processo de conceituação que abstrai de fenômenos concretos o que existe de particular, constituindo assim um conceito individualizante ou, nas palavras do próprio Weber, um “conceito histórico concreto”. A ênfase na caracterização sistemática dos padrões individuais concretos (característica das ciências humanas) opõe a conceituação típico-ideal à conceituação generalizadora, tal como esta é conhecida nas ciências naturais.

    A conceituação generalizadora, como revela a própria expressão, retira do fenômeno concreto aquilo que ele tem de geral, isto é, as uniformidades e regularidades observadas em diferentes fenômenos constitutivos de uma mesma classe. A relação entre o conceito genérico e o fenômeno concreto é de natureza tal que permite classificar cada fenômeno particular de acordo com os traços gerais apresentados pelo mesmo, considerando como acidental tudo o que não se enquadre dentro da generalidade. Além disso, a conceituação generalizadora considera o fenômeno particular como um caso cujas características gerais podem ser deduzidas de uma lei.

    A conceituação típico-ideal chega a resultados diferentes da conceituação generalizadora. O tipo ideal, segundo Weber, expõe como se desenvolveria uma forma particular de ação social se o fizesse racionalmente em direção a um fim e se fosse orientada de forma a atingir um e somente um fim. Assim, o tipo ideal não descreveria um curso concreto de ação, mas um desenvolvimento normativamente ideal, isto é, um curso de ação “objetivamente possível”. O tipo ideal é um conceito vazio de conteúdo real: ele depura as propriedades dos fenômenos reais desencarnando-os pela análise, para depois reconstruí-los. Quando se trata de tipos complexos (formados por várias propriedades), essa reconstrução assume a forma de síntese, que não recupera os fenômenos em sua real concreção, mas que os idealiza em uma articulação significativa de abstrações. Desse modo, se constitui uma “pauta de contrastação”, que permite situar os fenômenos reais em sua relatividade. Por conseguinte, o tipo ideal não constitui nem uma hipótese nem uma proposição e, assim, não pode ser falso nem verdadeiro, mas válido ou não-válido, de acordo com sua utilidade para a compreensão significativa dos acontecimentos estudados pelo investigador.

    No que se refere à aplicação do tipo ideal no tratamento da realidade, ela se dá de dois modos. O primeiro é um processo de contrastação conceitual que permite simplesmente apreender os fatos segundo sua maior ou menor aproximação ao tipo ideal. O segundo consiste na formulação de hipóteses explicativas. Por exemplo: para a explicação de um pânico na bolsa de valores, seria possível, em primeiro lugar, supor como se desenvolveria o fenômeno na ausência de quaisquer sentimentos irracionais; somente depois se poderia introduzir tais sentimentos como fatores de perturbação. Da mesma forma se poderia proceder para a explicação de uma ação militar ou política. Primeiro se fixaria, hipoteticamente, como se teria desenvolvido a ação se todas as intenções dos participantes fossem conhecidas e se a escolha dos meios por parte dos mesmos tivesse sido orientada de maneira rigorosamente racional em relação a certo fim. Somente assim se poderia atribuir os desvios aos fatores irracionais.

    Nos exemplos acima é patente a dicotomia estabelecida por Weber entre o racional e o irracional, ambos conceitos fundamentais de sua metodologia. Para Weber, uma ação é racional quando cumpre duas condições. Em primeiro lugar, uma ação é racional na medida em que é orientada para um objetivo claramente formulado, ou para um conjunto de valores, também claramente formulados e logicamente consistentes. Em segundo lugar, uma ação é racional quando os meios escolhidos para se atingir o objetivo são os mais adequados.

    Weber encara a religião como principal fator desencadeador da mudança social. Sua tese central era a correlação entre a ética protestante e o espírito do capitalismo. São, assim, as idéias ético-religiosas as principais causas da mudança social. Sua teoria acerca do fenômeno parte do princípio da existência de um estado de conflito entre o tradicionalismo, racionalismo e carisma. A evolução das sociedades dar-se-ia no âmbito e por causa desse conflito.

    Com o objetivo de relacionar as idéias religiosas fundamentais do protestantismo com as máximas da vida econômica capitalista, Weber analisa alguns pontos fundamentais da ética calvinista, como a afirmação de que “o trabalho constitui, antes de mais nada, a própria finalidade da vida”. Outra idéia no mesmo sentido estaria contida na máxima dos puritanos, segundo a qual “a vida profissional do homem é que lhe dá uma prova de seu estado de graça para sua consciência, que se expressa no zelo e no método, fazendo com que ele consiga cumprir sua vocação”. Por meio desses exemplos, Weber mostra que o ascetismo secular do protestantismo “libertava psicologicamente a aquisição de bens da ética tradicional, rompendo os grilhões da ânsia de lucro, com o que não apenas a legalizou, como também a considerou como diretamente desejada por Deus”. E m síntese, a tese de Weber afirma que a consideração dó trabalho (entendido como vocação constante e sistemática) como o mais alto instrumento de ascese e o mais seguro meio de preservação da redenção da fé e do homem deve ter sido a mais poderosa alavanca da expressão dessa concepção de vida constituída pelo espírito do capitalismo.

    Os revisionistas de Marx

    Depois da morte de Marx e de Engels, a rápida industrialização da Alemanha e o crescimento do partido social-democrata e do maior peso político dos sindicatos melhoraram a situação da classe operária alemã, atenuando bastante as contradições do capitalismo e colocando em dúvida a inevitável crise geral do sistema. Isso fez com que muitas correntes de esquerda adotassem uma postura menos radical nos embates políticos e ideológicos, chegando, às vezes, a propor alianças estratégicas com setores da burguesia mais progressistas. Essa política, entendida pelos ortodoxos como capitulação frente aos interesses de classe burgueses, foi taxada de revisionismo.

    Os dois principais ortodoxos que combateram o revisionismo foram: Rosa Luxemburgo(1870-1919), que em sua obra “A acumulação do Capital” adaptou as teorias de Marx às novas condições do imperialismo econômico e político do século XX; e Vladimir Ilitch Lênin(1870-1924) em suas principais obras – “O Imperialismo nova etapa do capitalismo” e “O Estado e a Revolução”.

    O socialismo real

    A principal contribuição teórica e prática do líder russo foi a criação do marxismo-leninismo, que via no partido comunista o papel de núcleo teórico reflexivo e liderança prática do proletariado, com o que chegou-se à conquista do poder na Rússia pelos bolcheviques conduzidos por Lenin, Lev Trotski, Kamanev, Zinoviev, Bukharin, Stalin e outros revolucionários e a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Após o desaparecimento de Lênin, Stalin esmagou qualquer forma de dissidência e instaurou o centralismo e a ortodoxia fundamentada no determinismo econômico.

    Sua forte crença na possibilidade de construção do socialismo num só país enquanto a maior parte do mundo permanecia sob a égide do capitalismo mostrou-se tão irrealista no estado soviético quanto refreadora de muitos movimentos libertários e revolucionários de várias regiões do globo.

    Não cabe, porém, atribuir-se à estratégia stalinista todo o crédito pelo isolamento da URSS. Era profundamente conveniente às potências capitalistas que tal fato ocorresse, pois, nesse caso, ficava mais fácil combater o inimigo comum desses países: a experiência socialista. Tal fato pode ser ilustrado por quanto da anexação da Renânia, Áustria e Thecoslováquia pela Alemanha nazista.

    Por mais que fossem advertidos pelos soviéticos, ingleses e franceses consentiam em fazer concessões a Hitler. É patética a cena do primeiro-ministro inglês, Lorde Chamberlain, chegando em Londres sacudindo um papel assinado por Adolf Hitler (1889-1945), onde este se comprometia a garantir a integridade da Thecoslováquia, Polônia, Suíça e outros países. Tal acordo levou os russos, para manterem o equilíbrio de forças na Europa, a assinarem o pacto Molotov-Rinbentrop. O resto da história é por demais sabido.

    Enquanto os EUA mantinham-se fechados em si mesmos, Inglaterra e França assistiam de braços cruzados às loucuras de Hitler na Europa. Definitivamente, coube à URRS – às custas de mais de 20 milhões de mortos e um país destroçado – enfrentar e desmantelar a máquina de guerra nazista. Hoje, existe quase unanimidade entre os historiadores de que, sem a URSS, o Ocidente teria sido inapelavelmente derrotado pela barbárie nazista.

    A URSS saiu vitoriosa da 2ª Guerra Mundial. Seu poderio militar se ampliou e o socialismo real foi implantado nos países libertos por ela. No entanto, o modelo centralizado/autocrático do stalinismo- fortemente marcado pelo culto à personalidade - possuía contradições insuperáveis no longo prazo. Forças entrópicas minaram lentamente o sistema, transformando o Estado Revolucionário de 1918 na mega-estrutura pesada e burocrática, cujo epílogo foi tão surpreendente quanto patético.

    Um texto do filósofo marxista húngaro György Lukács (1885–1971) ajuda-nos a compreender melhor os problemas criados pelo modelo de Stalin:

    “Nunca duvidei e também sempre o disse que o stalinismo é um tipo de destruição da razão. Somente não considero correto criticar Stalin apontando, onde pudesse ser descoberto, digamos, um eventual paralelo com Nietzsche, porque por esta via nunca chegaríamos à verdadeira essência do stalinismo. A verdadeira essência do stalinismo, no meu entender, consiste no fato de que, conservando teoricamente o caráter prático do movimento operário e do marxismo, na práxis a atuação não é regulada pela mais profunda inteligência das coisas, ao contrário, essa mais profunda inteligência é construída em função da tática do agir. Em Marx e Lênin a linha de fundo do desenvolvimento social, que procede numa determinada direção, era assumida como dada. No interior desta linha de fundo se produzem continuamente certos problemas estratégicos. No interior destes últimos emergem em seguida toda vez os problemas táticos. Stalin inverteu esta sequência. Ele considera primordial o problema tático, e dele faz derivar as generalizações teóricas.”

    Georg Lukács. Diálogo sobre o “Pensamento Vivido”

    (Última Entrevista de Lukács) - extratos –

    Revista Ensaio de 1986, n.15/16. p. 62/63.

    Gramsci e a luta pela hegemonia

    Fora da União Soviética, vários pensadores dissidentes seguiram outros caminhos na busca de embasamento teórico que pudesse dar conta das profundas transformações ocorridas nas sociedades ocidentais, onde um modelo de revolução à la Rússia parecia cada vez menos provável.

    Dois desses pensadores marxistas não ortodoxos foram o italiano Antonio Gramsci (1891–1937) e o já citado Lukács.

    Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (1921), foi o pensador da práxis - unidade entre teoria e prática, objetivando a construção do socialismo – ao mesmo tempo em que combatia a dogmática do determinismo econômico e o elitismo de alguns intelectuais.

    Nascido na Sardenha, entrou para a Universidade de Turim, onde travou contato com a Federação Juvenil Socialista e filiou-se em 1914 ao Partido Socialista. Em 1919 fundou, com Palmiro Togliatti (1893–1964), o jornal “L’Ordine nuovo”, defensor da participação política da classe operária. Depois de dois anos na União Soviética, como membro executivo da Terceira Internacional Socialista, voltou à Itália, assumindo a direção do PC italiano e elegendo-se deputado.

    Por seu combate ao fascismo, foi preso em 1926 e condenado a mais de vinte anos de prisão. Na prisão escreve as “Cartas do Cárcere”, onde analisa o papel do marxismo no mundo moderno. Morreu tuberculoso, poucos dias depois de ser liberado para se tratar numa clínica.

    Gramsci introduz um conceito fundamental para a compreensão das novas maneiras pelas quais o sistema capitalista impõe e amplia seu poder: o conceito de hegemonia. A hegemonia exerceria a função de argamassa ideológica na justificação, sustentação e funcionamento do sistema, embora ela também se utilize dos poderes econômico, militar, financeiro etc.

    Para Gramsci, o marxismo contém as bases para uma concepção global do mundo, a partir da transformação da sociedade. A principal tarefa dos intelectuais revolucionários seria a de opor o marxismo às concepções ideológicas da burguesia e levá-lo às camadas mais amplas da sociedade, através do que ele denominou de “Revolução Cultural”.

    Os intelectuais assumem o protagonismo na articulação do partido revolucionário que empreenderá a reforma intelectual e moral. Gramsci entende que todos os membros de uma agremiação devem ser considerados intelectuais, não pelo seu nível de erudição, mas pelas funções que exercem. Para ele, existem dois tipos de intelectual: o “intelectual orgânico”, que, em sintonia com a emergência de uma classe social determinante no modo de produção econômico, procura dar coesão e consciência a essa classe, também nos planos político e social; e o “intelectual tradicional”, que se conserva relativamente autônomo e independente, mesmo tendo desaparecido a classe à que pertencia no passado.

    Ambos cumprem funções análogas às do partido organizado: buscam dar forma homogênea à consciência da classe a que estão ligados ou, no caso dos intelectuais tradicionais, às classes a que emprestam sua adesão, e desse modo preparam a hegemonia sobre o conjunto de seus aliados. São, em suma, instrumentos da consolidação de uma vontade coletiva, de um bloco histórico

    E para superar-se a hegemonia imposta pelo capital (sem o que, qualquer tentativa de se implantar o socialismo, redundaria em fracasso) o principal campo de batalha seria o da cultura, no sentido mais amplo do termo, a começar pela cultura superior e terminando até na cultura no sentido puramente antropológico, isto é, de usos e costumes.

    A “Revolução Cultural”, etapa preparatória para a implantação do socialismo, seria caracterizada pelo embate em todos os planos - econômico, político, social, ideológico e, principalmente, no âmbito da cultura – entre as forças hegemônicas do capital e as contra-hegemônicas (capitaneadas pelo “partido” politicamente organizado), oriundas das classes subalternas, na conquista de vitórias pontuais - em sua “guerra de posições”.

    A conquista do poder não seria só uma tarefa política do partido revolucionário organizado nos moldes do bolchevismo, mas também, e principalmente, uma luta organizada para criação de um movimento contra-hegemônico, abrangendo toda a sociedade civil, indispensável à consolidação do novo projeto de sociedade.

    Trata-se de um processo naturalmente lento pelo qual Gramsci inverteu a fórmula leninista. Na estratégia de Lênin, um grupo pequeno e organizado, voluntarioso, aproveitando-se das contradições inerentes ao sistema capitalista, tomava o poder, impunha a ditadura do proletariado e daí procedia as reformas política, cultural e econômica sob a ótica do socialismo. É o que Gramsci chamou de “guerra de movimentos”.

    Ele atribuía o sucesso da estratégia leninista, em grande parte, à fragilidade da sociedade civil russa. O poder czarista era centralizado no Estado e na Igreja Ortodoxa, ambas, estruturas pesadas e medievais, onde os métodos predominantes de controle baseavam-se na coerção e manipulação. Esse tipo de estrutura é mais opressora e visível porém muito mais instável em momentos de crise, se comparada às complexas sociedades industrializadas onde a sociedade civil já teceu uma série de redes protetoras que impedem rupturas e mudanças bruscas. Gramsci chamou as primeiras de sociedades orientais e as segundas de ocidentais, sem qualquer significado geográfico, mas tendo como elemento distintivo as formações históricas de cada uma. (*)

    Gramsci atribuía muito importância à reforma do pensamento e só depois a tomada do poder. Então, este processo faz com que, pelo menos idealmente, o partido revolucionário assuma o controle de todos os canais de comunicação cultural, um por um. É o que ele chamava de “guerra de posições”; a qual, segundo ele, seria estrategicamente mais adequada às complexas sociedades ocidentais altamente industrializadas.

    Hoje, não somente as relações de produção capitalistas se generalizaram, como também as formas burguesas são uma realidade em todos os planos da sociedade. São hegemônicas, ou seja, produzem e difundem com êxito a sua autolegitimação, criando uma cultura para si. Ao mesmo tempo, o poder não está mais concentrado no aparato estatal, mas “distribuído” e diluído em uma rede institucional e midiática complexa e intricada. Daí se depreende que o processo de mudança social assumiu contornos sutis não facilmente identificáveis numa primeira análise.

    Gramsci estudou a dinâmica do poder nas sociedades capitalistas avançadas, observando de que modo o sistema mantinha e ampliava seu funcionamento ao mesmo tempo em que desenvolvia a necessária consistência interna para levar a cabo seus objetivos de auto-perpetuação.

    À idéia vulgar de entender-se o poder dominante nessas sociedades como decorrência da pura e simples simbiose entre a economia e a política, com suas representações ideológicas apartadas da realidade objetiva, ele, Gramsci, opôs a interpretação segundo a qual existe na sociedade contemporânea uma delicada orquestração de influências mútuas entre as esferas produtivas, o mercado, a política e estruturas ideológicas sutis, subliminares, e muito eficaz, a longo prazo, para a estabilidade do sistema.

    Dentro da perspectiva gramsciniana, qualquer tentativa de elaboração de um projeto de longo prazo de transformação social comprometido com o desenvolvimento sustentável, a distribuição de renda e a preservação ambiental requer um perfeita compreensão dessa realidade multifacetada e complexa da sociedade moderna.

    O próprio Estado ao invés de ser o monstro jurássico pintado pelos neoliberais pode e deve ser um campo destinado ao travamento de importantes batalhas pela hegemonia entre as forças burguesas e as esquerdas. A noção de sociedade civil amplia-se, incorporando elementos do aparelho de Estado na arena onde se dá o embate pela busca da hegemonia.

    Embora em sua época a sociedade de massas não tivesse desenvolvido plenamente suas potencialidades, o pensamento de Gramsci continua atual e instigante. Mais do que nunca o espaço na mídia destinado a opiniões e análises socioeconômicas divergentes da matriz hegemônica é escasso, e, com freqüência, inexiste. Formadores de opinião organicamente a ela ligados são chamados a se pronunciar a respeito dos mais diversos temas econômicos que estejam em evidência. Jornais, revistas, telejornais possuem seus experts de plantão com a missão de “interpretar” para o público qualquer fato de algum impacto ou importância imediata, dando a este público a ilusória sensação de ter chegado, por seus próprios méritos, a formar uma opinião autêntica sobre os assuntos levantados. A repetição pavloviana deste processo leva a reflexos condicionados na maneira de pensar tão característicos de nossa sociedade de massas.

    Numa época de prevalência do efêmero, da substituição da autenticidade individual pela “novidade” standartizada; quando tudo parece naufragar na banalidade compressiva da sociedade de massas, onde cada gesto, cada opinião, cada objeto, cada emoção encontra-se devidamente precificado, é quase impossível pensar e agir fora dos limites fixados pelos poderes hegemônicos. E essa realidade é tanto mais verdadeira quanto imperceptível em suas sutilezas manipulatórias.

    Gramsci foi um inovador, e seu pensamento ganhou força num contexto onde o marxismo tendia a perder vitalidade devido ao dogmatismo oficial adotado pela U.R.S.S., à cooptação sofrida pelo movimento operário por parte da social-democracia e ao acirramento dos ataques provenientes do campo liberal-conservador.

    Seu pensamento é historicista, ou seja, respalda-se na convicção de que sem entender-se o fluxo da história e de como cada fato, acontecimento e tendência nele se encaixam, torna-se impossível atuar-se de forma consistente na busca das transformações sociais comprometidas com a perspectiva da práxis, da criação da sociedade socialista.

    A história pressupõe, dentro dessa perspectiva, não só a ação dos líderes e a atuação dos bem-nascidos, mas também a participação crítica das massas na elaboração de um programa que resultasse em aumento da liberdade e na diminuição da opressão na sociedade.

    (*) o entendimento da dicotomia “ocidente e oriente”, para Gramsci, não se resume a uma divisão geográfica, mas, principalmente, a diferenças e condicionantes históricos, culturais, econômicos e políticos que diferenciam países como a Rússia e nações em processo avançado de industrialização e de maior complexidade da sociedade civil.

    A “revolução keynesiana”

    O economista britânico John Maynard Keynes é considerado por muitos historiadores econômicos como o genial autor de uma revolução copernicana na economia e o “salvador” do sistema capitalista. Não fora a prevalência da visão egoísta e dos interesses imperialistas dos americanos sobre as proposições do economista inglês no acordo de Bretton Woods, talvez o comércio internacional não apresentasse tantas assimetrias entre as nações ricas e as economias periféricas.

    John Maynard Keynes nasceu em Cambridge, Reino Unido, em 1883 e morreu em Sussex, em 1946.

    Depois dos economistas clássicos Adam Smith, David Ricardo e Thomas Malthus, e de Karl Marx, nenhum outro teórico da economia foi tão importante quanto Keynes. Ele renovou a teoria clássica e na reformulação da política econômica de livre mercado.

    Filho de um renomado economista, educado em Eton e no King’s College, tornou-se professor de economia da Universidade de Cambridge e colaborou em diversas missões do governo britânico, incluindo a delegação encarregada de participar da Conferência de Paz de Versalhes, logo após o final da 1ª Grande Guerra. Durante as negociações Keynes discordou sobre a questão das pesadas reparações de guerra impostas aos países vencidos, principalmente a Alemanha. Na ocasião renunciou à função, não sem antes alertar para o perigo de futuras instabilidades políticas na Europa decorrentes das decisões de Versalhes. Para expressar esse desacordo, escreveu o livro As conseqüências econômicas da paz - 1919(suas preocupações mostraram-se corretas tempos depois com o surgimento do nazismo e a 2ª Grande Guerra).

    A Revolução inglesa criou o liberalismo político no séc. XVII , abrindo espaço para outra revolução: a industrial, possibilitando o florescimento do capitalismo e da moderna economia de mercado. A Revolução Industrial mudou a face do mundo no plano comercial, tecnológico, industrial, financeiro, político e intelectual.

    Porém, a partir de certo momento esse dinamismo principiou a arrefecer. A trajetória intelectual de John Stuart Mill, o pensador mais eminente de sua época, revela os contornos desse processo. De um ponto de partida liberal, Mill gradualmente e sutilmente inclinou-se para posições simpáticas ao socialismo. Essa transmutação do liberalismo em socialismo se completou com a Sociedade Fabiana (1883), nome inspirado no general Fabius Maximus, que salvou Roma evitando travar batalha em campo aberto com o grande comandante cartaginês Aníbal, recorrendo, ao invés, a métodos indiretos de guerra.

    A Sociedade Fabiana era um grupo formado por intelectuais ativistas do high society liderados pelos milionários Sidney e Beatrice Webb (Lord e Lady Passfield), adeptos de uma estratégia política gradualista, que se dedicava a doutrinar o estamento superior da sociedade britânica, apossar-se dos canais de difusão de idéias, do aparato estatal, da Igreja, das artes, dos sindicatos e tudo o mais que fosse útil à implementação de um governo socialista. O dramaturgo George Bernard Shaw, por exemplo, foi uma das estrelas do movimento fabiano, que mais tarde deu origem ao Labour Party.

    A enorme influência do socialismo fabiano marcou profundamente a formação intelectual e moral de Keynes. O que possibilitou a ele enxergar muito além da visão imediatista dos liberais e conservadores de sua época.

    Keynes critica severamente a economia clássica liberal, centrando sua análise na tese da existência de infalíveis mecanismos de auto-regulação do mercado, que permitiriam ao sistema capitalista recuperar o equilíbrio em todas as circunstâncias.

    Seu livro Tratado sobre a moeda – 1930 – já deixa antever os principais pontos da teoria econômica que Keynes desenvolveria em sua obra principal, Teoria geral do emprego, do juro e da moeda.

    O desmoronamento do mundo burguês da Belle Epoque e a grande crise de 1929, colocaram as idéias de Keynes no centro dos debates sobre os rumos da economia mundial e o papel do Estado nessa empreitada.

    Os economistas ortodoxos atribuíam o desemprego às crescentes conquistas salariais dos trabalhadores; do que Keynes discordava, pois, para ele, salários baixos e desemprego provocam insuficiência de poder aquisitivo, o que leva à contração da demanda e, via de regra, à queda dos preços, superprodução e mais desemprego.

    A tese central deste livro é desvelar os processos que induzem ao “pleno emprego”. Keynes aponta para o que ele chama de “multiplicador de demanda”: aumentos de gastos do governo resultam na elevação da demanda agregada, devido ao efeito multiplicador de prosperidade desses gastos. Havendo, ainda, um aumento na arrecadação futura e o estabelecimento do equilíbrio orçamentário em outro patamar.

    Desta forma, a solução para o desemprego e para as crises cíclicas do sistema capitalista só pode advir da intervenção do Estado. Keynes apontava o entesouramento, ou seja, a riqueza mantida ociosa na forma de dinheiro ou depósitos bancários, como um fator não estimulante para o emprego em nível da demanda efetiva.

    Segundo Keynes, o Estado deveria: reduzir a taxa de juro corrente com objetivo de estimular o investimento produtivo; incrementar os investimentos públicos; estimular o consumo por meio da redistribuição de renda em benefício das classes menos favorecidas, e encorajar a exportação.

    Tal política, frontalmente oposta às teses deflacionistas dos ortodoxos, permite a intervenção do Estado sem abolir a propriedade privada. É a chamada “revolução keynesiana”, adotada por vários governos, inclusive pelo presidente americano Franklin D. Roosevelt, na recuperação econômica daquele país.

    Keynes obteve o reconhecimento de sua obra nos últimos anos de vida. Em 1944 chefiou a delegação do Reino Unido à Conferência de Bretton Woods, nos Estados Unidos, onde apresenta plano prevendo o abandono do padrão-ouro, a estabilização internacional da moeda e a criação do Fundo Monetário Internacional-FMI. Divergências com os americanos levaram-no ao ceticismo quanto ao futuro daquela instituição.

    Keynes foi um dos que melhor soube lidar tanto no plano teórico como no prático com as incertezas do sistema capitalista. Deixado à própria sorte, como queriam – e querem, ainda – os liberais, o capitalismo poderia afundar junto e por causa de sua tendência a crises cíclicas com geração de grandes massas de desempregados.

    À crítica de que suas idéias não teriam sustentabilidade no longo prazo, ele respondia: “No longo prazo, estaremos todos mortos”. Foi sua maneira de lembrar a necessidade de usarmos sempre a criatividade para lidarmos com os desafios do porvir.

    Freud explica a mudança

    Qualquer tentativa de entendimento do processo de transformação, tanto no plano individual como no social, acaba, de um jeito ou de outro, esbarrando em alguma questão trabalhada pelo fundador da psicanálise: o médico austríaco judeu Sigmund Freud(1857-1939).

    se disse que o homem sofreu, nesses últimos séculos, três grandes golpes no seu narcisismo. O primeiro foi com Nicolau Copérnico (1473-1543), que comprovou que a Terra não era o centro do sistema solar. O segundo golpe foi devido à teoria evolucionista de Charles Darwin (1809-1882) sobre a origem das espécies, dentre elas, o homem. Fomos colocados no nosso devido lugar na escala do desenvolvimento biológico. Somos parentes próximos dos macacos e distantes das amebas, gostemos disso ou não. O terceiro golpe foi com o surgimento da psicanálise, quando Freud nos apresentou a nós mesmos como seres dotados de capacidades racionais, com uma consciência, mas, também, dotados de um inconsciente, regido por leis próprias, diferentes da lógica racional. Podemos pensar que numa época em que predominava o cientificismo, em que a ciência era tida como uma deusa a ser adorada, como aceitar que o homem não é o ser racional por excelência, mas tem um inconsciente, cheio de fantasias, desejos e pulsões…? inconsciente este, que, além de ser inatingível pela consciência, é, também, responsável pela maior parte de nossas atitudes e comportamentos.

    Médico austríaco de origem judaica especializado em doenças mentais, Freud desenvolveu a psicanálise, uma teoria do funcionamento da mente humana e um método exploratório de sua estrutura, destinado a tratar os comportamentos compulsivos e muitas doenças de natureza psicológica supostamente sem motivação orgânica.

    Aos nove anos Freud entrou para a escola, obtendo aproveitamento acima da média. Para sua formação superior, matriculou-se na Universidade de Viena em 1873, onde foi aluno do filósofo Franz Brentano. Ao escolher sua futura carreira, estudou primeiro filosofia, mas decidiu-se depois pela medicina, e se especializou em fisiologia nervosa, uma área onde a prática diária atenderia mais de perto à sua preocupação em conhecer a natureza humana.

    Freud com certeza deve muito aos seus estudos de filosofia a inspiração para sua doutrina sobre a mente humana. Mas também deve profundamente à sua atividade clínica e às observações empíricas que colhia a partir da aplicação de seu método psicanalítico as construções teóricas por ele elaboradas.

    Preocupava-se com coisas que a maioria dos médicos, em geral, não observavam nem davam muita importância. Avaliava os sonhos de seus pacientes, prestava a atenção nas piadas que eles contavam, ficava atento aos lapsos involuntários e atos falhos que apareciam na fala das pessoas. Começou a dar-se conta de que por trás dos discursos racionais, dos raciocínios aparentemente lógicos e da fala usual havia um mundo subterrâneo; um mundo de desejos reprimidos, sonhos eróticos, recalques, complexos, impulsos agressivos e outras coisas, às vezes, muito pouco aceitáveis pela moral vigente à época.

    Convenceu-se de que o papel da consciência na psique humana vinha sendo superdimensionado. Elabora então no seu livro “A interpretação dos Sonhos” o conceito de inconsciente, o qual é tido como o mais importante da psicanálise.

    A psicanálise foi o método criado por Freud, através da associação de idéias, para acessar o material inconsciente da estrutura psíquica de seus pacientes. Com o passar dos anos, a psicanálise de método de trabalho alcançou o status de campo do saber, possuindo abrangência e hermenêutica próprias.

    Com o conceito de inconsciente, foi preciso rever todo conhecimento acumulado e as verdades incontestes, construídas pelos seres humanos, esses seres, agora, sabidamente, governados por forças psíquicas poderosíssimas, porém, em grande parte, incontroláveis.

    Por trás de uma razão pretensamente universal poderia estar sempre um desejo pessoal, um interesse particular que a consciência de cada indivíduo poderia não estar se dando conta. Decisões políticas, opções estéticas, avaliações e escolhas éticas poderiam, no fundo, ter condicionantes irracionais alheios ao entendimento e julgamento da consciência e da razão.

    Foucault – arqueologia do saber – disciplina e controle

    O francês Michel Foucault (1926-1984) foi filósofo e professor da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France, de 1970 a 1984.

    As obras, desde a “História da Loucura” até a “História da sexualidade” (a qual não pôde completar devido a sua morte) situam-se dentro de uma filosofia do conhecimento.

    É um pensador da esquerda não marxista. Sua proposta é de uma “insurreição” nos saberes – entendidos, por ele, como instrumentos de dominação política. Caberia então aos que lutam pela liberdade executar a “arqueologia do saber”, destinada ao estudo da “genealogia do poder”, ou seja, entender de onde vieram os diversos saberes e de que forma se articularam junto às estruturas de dominação.

    A complexidade de nossa sociedade atual engendrou novas formas de dominação e influência, caracterizadas pela existência do que Michel Foucault chamou de uma ‘microfísica do poder’, ou seja, a assimetria das relações de poder na sociedade não pode mais ser entendida tão somente pela análise do embate e do jogo de interesses entre as grandes forças políticas e econômicas – a ‘macrofísica do poder’.

    A existência de uma rede de microestruturas de poder dentro das organizações públicas e privadas, das instituições e grupos laicos e religiosos, enfim, dentro de toda a sociedade civil, no seu sentido mais amplo, exige nova maneira de se enxergar como se dá a dominação em nossa sociedade, havendo necessidade de um grau de capilaridade e atuação direta que a democracia herdada do liberalismo ou do próprio movimento da práxis não tem como atingir nem como lidar.

    Os mecanismos dessas microestruturas têm certas características de democracia participativa, só que o controle social se faz, agora, de forma sutil e permanente, sem, muitas vezes, ser percebido por aqueles que sofrem sua ação. O poder tem olhos; ele está em toda parte e não está em lugar nenhum. Foucault chamou-o de poder “panapnótico”.

    E o que é o poder pan-óptico ?

    O pan-óptico é uma composição arquitetônica de cunho coercitivo e disciplinatório idealizada pelo moralista inglês Jeremias Betham (1748-1832), em formato de anel, composta por uma torre central com um vigia no seu interior. Ao redor desta torre ficam as celas dos condenados, operários (no caso de uma unidade produtiva) ou aluno em se tratando de uma instituição de ensino. Através do jogo de luzes, torna-se impossível ao controlado saber se naquele ponto central está ou não alguém à espreita. Isolados, são, hora após hora, dia após dia, expostos à observação dos mestres do pan-óptico, mas sem saber se a vigilância é ininterrupta ou não, quem os vê ou o que vêem. A incerteza da vigilância intermitente adestra o comportamento daqueles a quem se pretende disciplinar. A primeira prisão pan-óptica foi construída nos Estados Unidos, no início do século XIX.

    No final do século XVII a instituição carcerária vivia sua fase embrionária: em outras épocas, a privação da liberdade não constava na lista de penas; o condenado deveria pagar suas penas através do pagamento de multas, do banimento (degredo) ou da pena de morte (forca, garrote vil, decapitação etc).

    Com o processo de refinamento das prisões, o delinqüente começa a ser apartado do convívio social, isolado numa referência clara ao tratamento reservado aos leprosos até então. Estado – e, por conseguinte a sociedade – passam a assumir a responsabilidade da criação do “mal indivíduo” e toma para si o papel de rediscipliná-lo ou retirá-lo completamente do convívio social.

    Cadeias foram construídas em lugares distantes, ermos, e logo se tornaram os depósitos humanos, ao que Foucault chamou de “massas compactas, fervilhantes”.
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    O pan-optismo então emerge como sistema de organização, implantação da ordem, da classificação, divisão, vigilância e identificação, tornando possível o controle coletivo e individual em proporções jamais imaginadas na história.

    Gradativamente, mais do que uma ferramenta jurídica, ele passa a servir às nascentes instituições psiquiátricas, escolas, fábricas, agremiações religiosas e onde mais pudesse ser aplicado.

    Foucault, em seu livro “Vigiar de Punir” (1975), usou o modelo panóptico para conceituar o controle social exercido em nossa sociedade contemporânea – a sociedade do controle.

    Foucault observa este sistema, originalmente concebido para instituições prisionais, como produtor nos detentos da sensação de serem permanentemente vigiados, mesmo quando não o são. O efeito conseguido, portanto, seria o de um comportamento sempre orientado pelas normas ditadas pelo controlador invisível.

    Graças ao comportamento pan-óptico, o poder é internalizado e transformado pelo indivíduo em comportamento natural, automatizado, reproduzido inconscientemente. Com o tempo, sob a vigilância constante, o indivíduo acaba por vigiar a si próprio.

    Esse autocontrole é menos custoso; gera menos resistência, devido a sua invisibilidade e contribui para tornar os indivíduos mais dóceis e úteis ao sistema. Assim, o processo de mudança pode ser conduzido no sentido em que melhor atender aos interesses dos detentores do poder; com seus aspectos aleatórios e imponderáveis mantidos dentro de margens de segurança aceitas.

    Na mesma linha de Foucault, os filósofos franceses Giles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992) destacam a despersonalização do poder. O poder está impessoalizado. Pouco importa quem o exerce. Para ele, as tecnologias e informação e comunicação seriam as bases dessa nova forma de controle, com o poder mais diluído, fluido, horizontal, dissolvido entre os indivíduos, sem forma e sem cara, disseminado no tecido social. Somos (ou poderíamos estar sendo) vigiados no trabalho, na praça, nos estádios esportivos, nos condomínios. Sistemas de navegabilidade na Internet controlam por onde andamos no mundo cibernético. Só o poder é oculto, tudo mais é passível de ser visto/verificado.

    Cada vez mais o controle busca reduzir as zonas de incertezas no interior do sistema, atuando sobre toda gama de aspectos que possam aumentar o grau de certeza sobre o rumo dos acontecimentos. A previsibilidade entrou pra valer na ordem do dia, e, com a globalização, tempo e espaço foram “reduzidos”, redefinindo as relações do sujeito com seu trabalho e das organizações com seus empregados. A subjetividade e o tempo social do homem subordinam-se à lógica do trabalho e do mercado; em suma: à acumulação de capital.

    E nada será como antes . . . amanhã

    Em 1989, o cientista político nipo-americano Francis Fukuyama, entusiasmado com a queda do Muro de Berlim, escreveu um artigo com o título “The end of history”, na revista norte-americana The national interest; e, em 1992, lançou o livro “The end of history and the last man”.

    A tese central de ambos os trabalhos é a idéia de que o capitalismo e a democracia burguesa constituem a última etapa da história da humanidade, ou seja, de que a humanidade teria atingido, no final do século XX, o ponto culminante de sua evolução com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias concorrentes.

    Para ele, após a derrota do fascismo, caiu por terra a última grande utopia: o socialismo, que fora o grande adversário do capitalismo e do liberalismo no pós-guerra. O mundo teria assistido ao fim e ao descrédito dessas duas alternativas globais, restando apenas, atualmente, em oposição à proposta capitalista liberal, os nacionalismos e o fundamentalismo islâmico, confinado ao Oriente e a países periféricos, ambos sem possibilidade de significarem um projeto viável para a humanidade.

    A conclusão é que a democracia liberal ocidental firmou-se como a solução final do governo humano, significando, nesse sentido, o “fim da história” da humanidade.

    Em suma, ao longo do século XX, a democracia liberal teria superado os “totalitarismos” de direita e esquerda, e também quaisquer outras variantes autoritárias, triunfando como o regime mais adequado ao progresso e à liberdade humana.

    O que essa corrente neoliberal desconsidera é o fato evidente de que o fascismo somente se explica se ligado intimamente ao capitalismo monopolista e às suas crises, da mesma maneira que o surgimento de um conjunto de regimes ditatoriais e fascistas na América Latina, no decorrer dos anos 70, foi a expressão política da forma de desenvolvimento capitalista ocorrida nesses países

    A chamada modernização conservadora garantiu a acumulação capitalista num modelo de desenvolvimento associado ao capital financeiro internacional que, por seu lado, garantiu a esses países o apoio político/econômico necessário.

    No complexo processo de desenvolvimento capitalista, a concorrência se transforma no seu contrário, o monopólio, da mesma forma que a democracia burguesa se transforma na ditadura fascista, num regime policial de terror, onde o capital monopolista finalmente consegue implementar as mudanças a ferro e a fogo para romper a crise e reiniciar um outro ciclo de expansão.

    Dois terços da humanidade estão fora do tsunami globalizante que tomou conta do cenário econômico mundial logo após a queda do Muro de Berlim. Algumas questões do presente são desafios que exigem de nós, ao invés de uma postura arrogante, muito acuro na avaliação dos problemas de hoje. O capitalismo tem acelerado sua tendência à concentração num ritmo exponencial.

    Não por acaso, um sem número de consultores e estudiosos da teoria da administração tentam, entre um modismo e outro, compatibilizar o trabalhador forjado na sua psiqué de individuo competitivo, pragmático e ambicioso (características pessoais bastante valorizadas pelas empresas), porém comprometido com as necessidades organizacionais de trabalhar em equipe, tomar decisões e atuar em grupos multifuncionais, onde, através da interatividade e da sinergia, possa dar conta dos desafios e complexidades inerentes ao mundo do trabalho nos dias de hoje.

    Tal contradição mostra-se insolúvel dentro dos modelos de gestão caracterizados por manutenção de estruturas de poder hierarquizadas e centralizadas autocraticamente (embora enxutas, em alguns casos), restando aos magos da administração propor a adoção fórmulas que objetivam, antes, o aumento de produtividade via adoção de programas indutores da motivação das pessoas no seu ambiente de trabalho (fórmulas, no fundo, de manipulação), mas que passam longe da questão do poder efetivo de decisão – condição fundamental para a expansão da democracia nas organizações.

    Não existe um fim para a História. A História é um fluxo contínuo; um vir-a-ser constante que vem do passado, chega ao tempo presente e não pára, passa por nós e segue seu rumo, abrindo caminhos pelos quais podemos avançar e influir sobre o futuro.

    E a mudança segue seu ritmo, ora com saltos bruscos de qualidade, atingindo profundamente a maneira de viver dos povos, ora através de acúmulos quantitativos nem sempre perceptíveis pelos contemporâneos, mas sempre ocorrendo, inexorável. Sujeito e objeto da história, o homem, enquanto indivíduo ou coletividade, tem duas opções: alienar-se e ser levado à revelia pelo vento das mudanças ou, de forma tímida que seja, exercer conscientemente alguma influência nesse desenrolar da sua própria história. Essa é uma decisão que só ele pode tomar.