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  • O tempo, o Brasil e a crise mundial

    Postado em 4 dAmerica/Los_Angeles Junho dAmerica/Los_Angeles 2009

    Fonte: Carta Capital

    Por André Siqueira e Daniel Pinheiro 

    CartaCapital celebrou, na sexta-feira 22, o aniversário de 15 anos da publicação em evento que somou algumas características sempre presentes nestas páginas: o espírito crítico e o espaço para a pluralidade de pensamentos. O seminário “O Brasil e a Crise” reuniu, em polos quase opostos, o pessimismo visionário do professor da Universidade de Nova York e colunista de CartaCapital Nouriel Roubini, mundialmente reconhecido como o economista que previu a extensão devastadora da crise financeira internacional, e o otimismo oficial do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Com as preciosas contribuições do professor da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo, do ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto, respectivamente consultor editorial e colunista da revista, e do senador Aloizio Mercadante (PT-SP). 

    Diante de uma plateia de mais de 500 convidados, Roubini abriu o encontro com suas previsões, em geral aterradoras e realistas, sobre os rumos da crise internacional. Para o economista, também conhecido pelo epíteto Dr. Doom (Doutor Apocalipse, em tradução livre), o atual ensaio de retomada no mercado de capitais e de alta nas cotações das commodities não deve ser encarado como indício de recuperação consistente da economia mundial. “Os otimistas veem a crise em formato de V, com retomada em cerca de oito meses, ainda no segundo semestre. Mas isso está fora de questão. O formato é de U, com duração de não menos do que 24 meses”, afirmou. “A crise será três vezes mais extensa e profunda do que o esperado. Levará anos para recuperar os mecanismos de securitização e os empréstimos, não há nada a ser resolvido em seis meses”, previu. 

    Apesar dessa convicção, Roubini se disse otimista no médio prazo em relação aos países emergentes, em especial o Brasil, por ter realizado reformas importantes e apresentar bons fundamentos econômicos. “No curto prazo, todos serão atingidos pelo tsunami financeiro. Será preciso confiar menos nas exportações e mais no mercado interno”, recomendou. 

    Belluzzo concordou com a expectativa de uma retomada internacional lenta e ressaltou um ponto da apresentação de Roubini: o papel do consumidor americano, responsável por movimentar 70% do PIB do país que responde por 30% da demanda mundial. “A despeito da ação dos governos, a recuperação ficará abaixo do potencial das economias”, disse.

    As nuvens negras começaram a ser afastadas por Delfim Netto, que, embora tenha apontado atraso nas ações anticrise empreendidas pelo governo, criticou os economistas que preveem a queda do PIB brasileiro com base no efeito da redução das exportações. “O grosso do crescimento brasileiro foi feito pela expansão do mercado interno. Temos uma população equivalente à dos EUA em 1975, com a renda dos americanos na década de 1930. Minha recomendação é que, não importando o que vai acontecer lá fora, mobilizemos o Brasil por um crescimento maior”, afirmou. 

    O tom mais positivo prosseguiu com Mercadante, que procurou listar fatores capazes de manter a economia nacional na trilha do desenvolvimento. O senador citou o início da recuperação do nível de emprego, no front interno, e, no exterior, os baixos estoques de alimentos a estimular a demanda pelas exportações brasileiras. “Este País está condenado a dar certo a partir deste cenário”, concluiu. 

    Mantega encerrou o seminário. Em sua apresentação, citou os dados positivos da economia brasileira e destacou tendências de melhora no mercado internacional. Ele ainda arriscou algumas previsões, como a de uma trajetória descendente para a relação entre a dívida e o PIB, hoje em 39%, e a evolução das reservas internacionais para além de 200 bilhões de dólares, a partir das recentes compras de divisas estrangeiras pelo Banco Central, para evitar uma sobrevalorização do real, prejudicial aos exportadores. “O déficit externo negativo nos deixa em uma posição muito confortável”, destacou. 

    O ministro disse esperar uma recuperação da economia brasileira no fim do ano, com alta de 3% ou 4% do PIB no último trimestre, suficiente para garantir um resultado positivo em 2009. Só o tempo vai mostrar quais previsões se aproximam mais da realidade, mas o público reunido por CartaCapital, após colher as impressões de privilegiados observadores dos cenários externo e interno, teve a chance de fazer as próprias apostas.

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