Em Goiânia, prisões políticas dão o tom da atuação da polícia na Copa
Por Rennan Martins
No último dia 23, sexta-feira, foi deflagrada a Operação 2,80 em Goiânia. Esta consistiu em mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão contra estudantes envolvidos nas manifestações por melhorias no transporte público. Realizada há 20 dias do início da Copa do Mundo, a operação foi emblemática no sentido de dar amostra do que será a atuação policial durante o evento.
Quanto aos mandatos, os de prisão preventiva foram emitidos contra os estudantes: Heitor Aquino Vilela, Ian Caetano de Oliveira, Tiago Madureira de Araújo e João Marcos Aguiar Almeida. Dos citados, todos estão presos com exceção de Tiago Madureira Araújo, que se encontra foragido. Todos possuem entre 18 e 20 anos de idade.
Os mandados de busca e apreensão realizaram-se contra os mesmos e também contra Marllos Souza Duarte. Foram apreendidos objetos de alta periculosidade, tais como panfletos, cartazes e um estilingue.

Objetos apreendidos na operação. Estamos salvos, ufa! (Foto: John William/ TV Anhanguera)
Os delegados que comandam a operação, Alexandre Lourenço e Thiago Torres, pretendem finalizar a investigação até o dia 2, quando finda os 10 dias de prisão preventiva, e processar os detidos por dano ao patrimônio público, associação criminosa e incitação à violência.
A página do facebook do movimento Frente De Luta GO disponibilizou a decisão da 7ª Vara Criminal da Comarca de Goiânia que decretou a prisão preventiva e o que se lê nele não passam de acusações sem embasamento material.
A advogada dos acusados, Natália Oliveira, declarou ao portal A Redação que “Temos três pessoas presas e cumprindo pena diante de uma investigação sem provas concretas”, e que o inquérito possui somente imagens colhidas nos perfis dos usuários, definindo o caso como “uma questão política”. Além disso, ainda segundo ela, um carro com duas pessoas no seu interior ficou parado por duas horas na frente de sua casa, o que pode ter sido uma tentativa de intimidação.
O Movimento Contra a Criminalização da Luta Popular publicou no mesmo dia um documento assinado por diversos coletivos, movimentos, entidades, ativistas e professores acadêmicos no qual condenam de forma veemente esta atuação, alegando que “O Estado não cobra as leis que os donos de empresas deveriam seguir, mas, a serviço deles, atua ilegalmente, inventando falsas acusações, criminalizando pessoas que lutam por uma sociedade mais justa”.
Analisando num contexto amplo, notamos que as empresas de transporte coletivo usurpam de longa data o poder público, utilizando-o em benefício próprio, seja por meio de sonegações, contratos irregulares ou conluios com prefeituras que as dão respaldo, de olho no financiamento de campanha.
Soma-se a isso a instrumentalização do Estado brasileiro que a FIFA promove com a Copa do Mundo. As exigências desta entidade materializam-se numa verdadeira exceção que suspende e viola direitos.
Há, por conseguinte, uma condenável sinergia neste momento, na qual criminaliza-se os movimentos sociais visando tanto defender a posição oligárquica das empresas de ônibus quanto impôr a ordem de forma autocrática para que a Copa do Mundo corra da maneira que a FIFA deseja.
