O CINEGRAFISTA, A CPI E O CAOS OBSCURO
Por Rennan Martins
Ontem no fim de tarde em torno de mil pessoas reuniram-se na Candelária, centro do Rio de Janeiro para protestar contra o aumento de 9,09% na tarifa dos ônibus, esta passará a R$ 3,00 a partir de amanhã. O aumento foi decretado a despeito do relatório técnico do Tribunal de Contas do Município (TCM) apontar a possibilidade de redução do preço para R$ 2,50.
Como de praxe, o ato iniciou pacificamente contando com estudantes, militantes de partidos políticos e black blocks. A violência iniciou-se quando ocorreu o encontro dos manifestantes com a polícia militar que atuou sem identificação, na altura da Central do Brasil. 28 manifestantes foram detidos e levados a 19º Delegacia de Polícia.
O correspondente Philipp Barth, da agência alemã Deutsche Welle assim reportou: “O protesto começou de forma pacífica. Mas logo explodiram atrás de mim as primeiras bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. O pânico era generalizado, e tentei junto com a multidão ir para a estação e passar pela polícia, que batia sem controle. Tentei sair e, com um golpe, um policial bateu na câmera que estava em minhas mãos. Tentei juntar as peças e tomei um golpe na barriga e outro nas costas. A polícia reagiu de maneira absolutamente exagerada.”
A notícia mais triste pra muitos e útil pra alguns é a do cinegrafista da rede bandeirantes Santiago Ilídio Andrade que foi atingido por um artefato explosivo na cabeça, teve afundamento craniano e se encontra no hospital Souza Aguiar em estado grave onde já foi submetido a cirurgia.
O delegado Maurício Luciano declarou hoje em entrevista coletiva que tem convicção que o artefato que atingiu Santiago foi lançado por manifestantes. Já o técnico do Esquadrão Anti bombas Elington Cacella esclareceu que o explosivo é denominado rojão de vara, e que é vendido livremente em casas de fogos de artifício.
As investigações iniciadas estão colhendo depoimentos das testemunhas e possuem duas linhas de perícia, esclareceu Fernando Veloso, chefe de Polícia Civil.
Enquanto isto a agência senado noticia novamente que o senador Requião (PMDB-PR) solicitará aos partidos a indicação de representantes para a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o transporte público.
No caminho inverso está o governo federal, que pressiona a mesa do senado no sentido de inviabilizar a realização das investigações. A leitura do documento de requerimento que formaliza o início dos trabalhos já foi postergada várias vezes, e agora trabalham para declarar o inquérito inconstitucional.
Diante da falta de interesse da prefeitura carioca em cumprir a sugestão técnica do TCM de baixar a tarifa, do desastre lamentável ocorrido com o cinegrafista Santiago, das manobras de encobrimento governistas e diversas outras irregularidades já noticiadas no transporte público brasileiro fica a pergunta. A quem interessa o silêncio sobre este assunto?

