Sobre Paes, a perimetral e a CCR

26 de fevereiro de 2014 at 12:51

Por Rennan Martins

Ontem, durante chegada ao Rio de Janeiro, assisti uma aula de como não gerenciar o transporte público de uma cidade. Aterrissamos no aeroporto Santos Dumont por volta das 16:45 e normalmente me dirigiria ao ponto mais próximo a fim de tomar o ônibus que me deixaria em Niterói, não foi possível. A derrubada da perimetral, em nome da especulação imobiliária feita pelo prefeito Eduardo Paes (PMDB) mudou todo o itinerário do transporte.

Conversei com um guarda de trânsito da prefeitura que me informou que os coletivos que se dirigem a Niterói, que passavam na Avenida General Justo foram transferidos, se eu quisesse pegar o mesmo transporte deveria me dirigir a 1º de março, altura da Candelária. Disso temos que, alguém que trabalhe nas redondezas e more em Niterói, deve passar a andar mais de 2 km para tomar o mesmo ônibus se não quiser gastar ainda mais.

Decidi me encaminhar as barcas, e então assisti mais desrespeito com o cidadão. O sistema Riocard estava fora do ar, e os usuários que precisassem recarregar naturalmente não poderiam fazê-lo, só que além disso, não tinham direito a pagar o valor de R$ 3,10 previsto, deveriam pagar a integral de R$ 4,50, ou seja, uma falha da CCR é coberta não pela empresa e sim pelo usuário. Conversei com os funcionários do guichê que “não souberam” me informar quanto tempo o sistema já se encontrava inoperante. Mas posso assegurar que na chegada a Niterói ainda não havia sido restaurado, abaixo o registro:
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Considerando que em 2012 as barcas tiveram uma média de 104 mil passageiros diários segundo o governo do estado, podemos fazer conjecturas. Se 1% dos passageiros tiveram de pagar 45% a mais que o previsto, temos que R$ 14.560,00 a mais foram para os cofres da CCR porque eles não mantiveram o sistema.

Só numa cidade que é pensada para favorecer um seleto grupo empresarial podemos conceber que a má gestão é lucrativa.

O CINEGRAFISTA, A CPI E O CAOS OBSCURO

8 de fevereiro de 2014 at 00:00

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Por Rennan Martins

Ontem no fim de tarde em torno de mil pessoas reuniram-se na Candelária, centro do Rio de Janeiro para protestar contra o aumento de 9,09% na tarifa dos ônibus, esta passará a R$ 3,00 a partir de amanhã. O aumento foi decretado a despeito do relatório técnico do Tribunal de Contas do Município (TCM) apontar a possibilidade de redução do preço para R$ 2,50.

Como de praxe, o ato iniciou pacificamente contando com estudantes, militantes de partidos políticos e black blocks. A violência iniciou-se quando ocorreu o encontro dos manifestantes com a polícia militar que atuou sem identificação, na altura da Central do Brasil. 28 manifestantes foram detidos e levados a 19º Delegacia de Polícia.

O correspondente Philipp Barth, da agência alemã Deutsche Welle assim reportou: “O protesto começou de forma pacífica. Mas logo explodiram atrás de mim as primeiras bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. O pânico era generalizado, e tentei junto com a multidão ir para a estação e passar pela polícia, que batia sem controle. Tentei sair e, com um golpe, um policial bateu na câmera que estava em minhas mãos. Tentei juntar as peças e tomei um golpe na barriga e outro nas costas. A polícia reagiu de maneira absolutamente exagerada.”

A notícia mais triste pra muitos e útil pra alguns é a do cinegrafista da rede bandeirantes Santiago Ilídio Andrade que foi atingido por um artefato explosivo na cabeça, teve afundamento craniano e se encontra no hospital Souza Aguiar em estado grave onde já foi submetido a cirurgia.

O delegado Maurício Luciano declarou hoje em entrevista coletiva que tem convicção que o artefato que atingiu Santiago foi lançado por manifestantes. Já o técnico do Esquadrão Anti bombas Elington Cacella esclareceu que o explosivo é denominado rojão de vara, e que é vendido livremente em casas de fogos de artifício.

As investigações iniciadas estão colhendo depoimentos das testemunhas e possuem duas linhas de perícia, esclareceu Fernando Veloso, chefe de Polícia Civil.

Enquanto isto a agência senado noticia novamente que o senador Requião (PMDB-PR) solicitará aos partidos a indicação de representantes para a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o transporte público.

No caminho inverso está o governo federal, que pressiona a mesa do senado no sentido de inviabilizar a realização das investigações. A leitura do documento de requerimento que formaliza o início dos trabalhos já foi postergada várias vezes, e agora trabalham para declarar o inquérito inconstitucional.

Diante da falta de interesse da prefeitura carioca em cumprir a sugestão técnica do TCM de baixar a tarifa, do desastre lamentável ocorrido com o cinegrafista Santiago, das manobras de encobrimento governistas e diversas outras irregularidades já noticiadas no transporte público brasileiro fica a pergunta. A quem interessa o silêncio sobre este assunto?

Transportes e o congelamento de tarifas

7 de fevereiro de 2014 at 12:39

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Por Ceci Juruá

Em várias cidades e pontos do Brasil, a população trabalhadora se mobiliza para exigir o congelamento do preço das passagens de ônibus. Ao mesmo tempo protesta contra a má qualidade dos serviços. É necessário ter clareza de que se trata de uma LUTA JUSTA. Há três décadas os brasileiros estão sendo bombardeados pela propaganda e publicidade que exaltam a globalização que nos foi imposta goela abaixo, por medidas liberais, imprevidentes e tomadas de forma inopinada – o livre comércio e a livre circulação dos capitais. A publicidade dirigia-se particularmente aos meios de transporte e de circulação, de pessoas, cargas e valores mobiliários. Falava-se em redução das distâncias, diminuição dos custos de transação, aumento da velocidade de circulação. Na verdade isto ficou restrito ao capital e aos endinheirados do mundo, que aplicam suas massas crescentes de liquidez nas bolsas de valores do mundo inteiro, comunicam-se com sócios e comparsas em tempo zero, movimentam-se nas cidades em jatinhos e dispõem de aviões particulares para seus deslocamentos internacionais. Para eles, e apenas para eles, a globalização apresentou vantagens em matéria de qualidade e tempo dispendido na circulação.

Para os trabalhadores do mundo inteiro, e particularmente do Brasil, estas vantagens anunciadas não se realizaram. Por um lado eles não tem poupança para aplicar nas bolsas e nas distintas formas de especulação, e tampouco sabem especular para se tornar captores de rendas. Mas poderiam esperar melhoria nas suas condições de deslocamento diário, tanto para fins de esforço produtivo quanto de lazer e contatos sociais. No Brasil tais avanços tem sido castrados pelas privatizações, pela ausência de planejamento urbano e pela captura dos espaços sociais mais atrativos pelo capital especulativo aplicado no setor imobiliário.   Formas tradicionais de redução do peso dos gastos de transporte nos orçamentos familiares, como é o caso do vale transporte, estão se tornando inócuas frente à redução relativa do emprego com carteira assinada e direitos trabalhistas, caso do vale transporte.

O resultado aí está, impossível de ser contestado : aumento das horas perdidas em ônibus e trens urbanos alocados aos deslocamentos, obrigatórios, entre local de residencia e local de emprego, tarifas incompatíveis com a renda real dos trabalhadores. Somam-se, nos dias atuais, a insegurança derivada da má qualidade e sucateamento dos meios de transporte, decorrentes da insuficiência, da falta de manutenção e dos riscos diários de paralisação por defeitos técnicos. Sem falar na crueldade que significa expor os trabalhadores à obrigatoriedade de viajar em ônibus superlotados sem ar condicionado, no momento em que se sentem os efeitos do aquecimento global

Não se pode responsabilizar apenas aos empresários particulares que operam nossos sistemas de transportes. Mas quem não enriqueceria ao movimentar cerca de 90 milhões de pessoas diariamente (que fazem parte da população ocupada no Brasil) . O lucro de R$ 0,10 por viagem garante, por exemplo, uma renda de R$ 9  milhões por dia útil, mais de R$ 2 bilhões por ano. Renda mínima considerável, repartida entre fabricantes de equipamentos de transportes, concessionários do serviço e outros. Não por outra razão, o transporte público está em vias de desnacionalização – é uma fonte inesgotável de lucros garantidos, tendo em vista a inelasticidade da demanda por serviços de transporte e a falta de regulação e até de fiscalização por parte do poder público. Além disto, a falta de progressividade na tributação direta favorece a busca pelo enriquecimento sem limites. Houvesse limites civilizados à renda das pessoas físicas e jurídicas, a realidade poderia ser bem diferente. Além do mais há a questão ideológica, o capitalismo é bem mais do que a busca de lucro, o capitalismo requer a voracidade da busca permanente, insaciável, pelo lucro máximo. E é isto que eles, fabricantes e concessionários e outros,  fazem : seguem a bíblia do sistema – captação do LUCRO MÁXIMO no menor prazo possível. Enfim, são capitalistas ! Sem expectativa de suporte político – nos partidos, nos sindicatos – os trabalhadores vão a luta, como sempre o fizeram nos momentos graves de sua história. Vão à luta por meio de greves, quebra-quebras de ônibus e trens, passeatas cada vez mais explosivas e sujeitas a conflitos violentos. Não é mais possível suportar o preço da passagem de ônibus. A0 custo de R$ 3,00 por viagem, o trabalhador e sua família de mulher e dois filhos gastariam por mês R$ 720,00 – UM SALÁRIO MINIMO – para ter direito a uma viagem diária de ida-e-volta. Assim não dá. Há soluções, muitas, alternativas várias. Pessoalmente defendo a contratação do serviço pelo Estado, e uma tarifa máxima de R$ 2,00 por viagem redonda, com bilhetes vendidos pelos órgãos públicos, sem qualquer gratuidade. Um preço à altura das necessidades da população trabalhadora dispensa gratuidades e segmentos privilegiados por favores nem sempre justos nem equitativos.

Ceci Juruá, economista, doutora em políticas públicas, membro do Conselho Consultivo da CNTU

GREVE EM PORTO ALEGRE CHEGA AO 11º DIA

6 de fevereiro de 2014 at 13:18

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Todas as atenções voltam-se a Porto Alegre esta semana quando o assunto é transporte público. Os rodoviários chegaram hoje a 11 dias de greve, os quais 10 de paralisação total. Os efeitos sobre a cidade já se manifestam e as vendas no varejo diminuíram em 15%, com alguns estabelecimentos fechando portas por não haver compradores.

O sindicato dos rodoviários declarou em entrevista ao midiatize que manteria 100% da frota nas ruas durante a greve, sob a condição da tarifa zero.

Nesse ínterim, hoje a tarde haverá nova reunião de mediação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) entre empresários e empregados, e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) realizará a Inspeção Especial do transporte público de Porto Alegre que analisará possíveis irregularidades nas tarifas, o último parecer do Ministério Público de Contas (MPC) aponta falhas na metodologia do cálculo de reajustes.

As irregularidades e “falhas” nas metodologias de cálculo nada mais são que a caixa preta da tarifa, trocando em miúdos.

Por determinação do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), o primeiro edital de licitação do transporte público da história da capital gaúcha deve sair até dia 5 de março. A multa diária de R$ 5 mil pelo não cumprimento porém torna fácil ao prefeito postergar a publicação. Enquanto isso, a multa diária ao sindicato dos rodoviários é de R$ 100 mil.

As negociações seguem difíceis entre os sindicatos das empresas e dos funcionários. Os empresários oferecem 7,5% de aumento, subsídio de 75% no plano de saúde e aumento de R$ 3,00 no vale alimentação, enquanto os rodoviários demandam 14% de aumento sem alteração da tarifa, subsídio integral ao plano de saúde e redução da carga horária a 6 horas diárias.

Neste ponto é oportuno lembrar da nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que no ano passado constatou aumento de 67% acima da inflação da tarifa no período entre 2000 e 2012, como já publicado aqui anteriormente. Pra onde está indo todo esse aumento na tarifa?

A cidade tem funcionado por meio de lotações, vans escolares e táxis cuja passagem é R$ 4,00. Estas lotações estão autorizadas a levar passageiros em pé e o sistema está em sobrecarga de 40 mil pessoas.

As forças políticas e econômicas continuam fazendo pressão mesmo diante desta crise no setor. A despeito da licitação ter sido prometida até 2013, o próprio prefeito José Fortunati (PDT) já expos “dificuldades” na elaboração do edital, por meio do twitter lamentou a falta de tempo para “buscar elementos técnicos”.

Considerando que a licitação é esperada há mais de duas décadas em Porto Alegre, realmente deve ser incomensurável o trabalho a frente da prefeitura.

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