Raimundo Antonio da Silva *
Ainda que seja um inviolável direito de uma boa imprensa noticiar os fatos e sempre associada a verdade deles, aliás o que é da sua gênese numa sociedade democrática, confesso uma certa perplexidade com o desproporcional destaque dado pela grande mídia nacional a dois fatos e que vêm sendo objeto de acalorados debates na opinião pública brasileira.
Os fatos: o que já passou a denominar-se de “espetacularização do julgamento da Ação Penal 470″ cunhada por esta mesma imprensa, com a clara finalidade de cooptar a “fulminante opinião pública, de Mensalão, e a observada “ideologização” da nossa Suprema Corte (STF), resvalando, no meu entender e salvo melhor juízo, para uma perigosa promiscuidade entre setores revanchistas desta mídia e o Judiciário. Permito-me a tecer algumas considerações a respeito do tema em discussão.
Inicialmente, quero afirmar com convicção que não defendo corrupção de qualquer espécie, inclusive dos políticos, sejam os da oposição ou sejam do PT e da base aliada. Se os supostos ilícitos a estes imputados, objeto da Ação 470 sob julgamento do STF, forem efetivamente comprovados, ou seja, tendo por base provas cabais conforme previsto na Constituição, eles merecem as penas previstas no Código Penal. Quero afirmar, todavia, que o rigor da lei deveria ser aplicado a todos, e que ela, a justiça, deveria condenar todos os envolvidos em corrupção, sob pena de ela perder o seu postulado básico que é o de aplicar a lei com equilíbrio, transparência e imparcialidade.
E no que diz respeito ao denominado Mensalão, tem tido o nosso STF este comportamento? Ele está se atendo às regras basilares e consagradas em nosso estado de direito, ou de forma subliminar está julgando sob forte influência de uma mídia que se revela cada vez mais raivosa e rancorosa contra o projeto político e popular encarnado na figura do ex-presidente Lula, e que extrapola, na minha opinião, os limites da ética jornalista? Fico com esta última hipótese, e aí é onde mora o perigo que ronda a nossa democracia.
Para nós democratas fica o dever de ficarmos vigilantes para que não viceje em nosso país o dissimulado revisionismo conduzido por certos políticos, notadamente os do partido do “príncipe dos sociólogos” que não contavam com a grande aliança firmada entre a grande maioria do povo brasileiro e o ex-torneiro mecânico. E vale observar que, numa sociedade democrática, é incompatível este contubérnio entre o Judiciário, em especial sua maior Corte, e uma mídia que não segue a maior das lições de Hannah Arendt, que dizia: “o que existe, em jornalismo, é a verdade factual”. Urge que o STF não se afaste da sua autonomia de julgar e não se deixe influenciar pela “fulminante opinião pública” reverberada por setores poderosos da mídia nacional.
A propósito, reproduzo o sábio pensamento do consagrado economista Luiz Belluzo, quando ele afirma que ” a democracia não sobrevive quando os procedimentos formais são substituídos pela opinião fulminante da chamada “opinião pública”.
E o que eu tenho visto, no julgamento em questão, é uma clara intenção da grande imprensa, excetuada a Carta Capital, de influir no resultado do processo em análise no Supremo. A não ser isto qual seria outro interesse? Estaria o nosso tribunal pleno vendo neste episódio uma oportunidade histórica de sanear os costumes políticos brasileiros?
Não creio. Prefiro ficar com a opinião do renomado cientista social Wanderley Guilherme dos Santos, mencionado num artigo de um outro renomado pensador, Leonardo Boff, neste sentido: “Revela-se aí certo preconceito contra políticos vindos do campo popular. Mais ainda: visa-se aniquilar toda a possível credibilidade do PT, como partido que vem de fora da tradição elitista de nossa política; procura-se indiretamente atingir seu líder carismático maior, Lula, sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro e o primeiro presidente operário, com uma inteligência assombrosa e habilidade política inegável.”
No que concordo em gênero, número e grau. Por que senão vejamos:
Por que a justiça brasileira não dá o mesmo tratamento ao “mensalão” mineiro que conta, segundo denúncias, com a participação de políticos de alto calibre do PSDB, e sempre com o silêncio cúmplice da grande mídia? E as operações da Polícia Federal Satiagraha, Castelo de Areia, apenas para ficar nestas, até hoje sem desdobramentos judiciais? E as denúncias da compra de votos por ocasião da Emenda da Reeleição do ex-presidente FHC, contando até hoje com o obsequioso silêncio da grande Mídia?
Por fim, pergunto: e o modelo de privatização do Sistema Telebrás, com empresas estatais privatizadas por preços muito baixo no período FHC, objeto de farta documentação exibida no livro Privataria Tucana, recebendo o solene desprezo desta mesma Mídia?
Todos nós cidadãos de bem sonhamos com um país exemplar para os nossos filhos e nossas futuras gerações. E livre, acrescento desse “cancro” que é a corrupção. Que todos aqueles que malversam com o dinheiro público sejam exemplarmente punidos pela justiça brasileira, mas enfatizo: todos, rigorosamente todos! E quem tem que decidir isto é ela, sempre baseada em provas, e não orientada por uma imprensa sem o menor compromisso com a verdade dos fatos.
Pulitzer (Joseph Pulitzer, 1847-1911), do alto de sua inesgotável sabedoria, já falava que uma imprensa cínica, mercenária e corrupta seria também responsável pela criação de uma sociedade tão vil quanto ela. Que fique aqui o alerta.
* Raimundo Antonio da Silva é aposentado do BNDES.