RETOMADA DO CRESCIMENTO – É URGENTE A REDUÇÃO DO ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS E DAS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS – BB e CEF podem praticar Minsky.

Cézar Manoel de Medeiros
Doutor em Economia – IE/UFRJ
Setembro/2013
Os lucros crescentes do BB a cada ano e superior a R$10 bi somente no primeiro semestre de 2013, e também da CEF, que apresentou expansão superior a 40%, no mesmo período, os quais têm sido acompanhados de reduções da inadimplência nos últimos anos, comprovam que, quanto mais eficazes como instrumentos de Governo na condução da política macroeconômica e da regulação do Sistema Financeiro, mais eficientes e lucrativas serão o BB e a CEF como empresas que objetivam elevar lucros e distribuição de dividendos para seus acionistas.
A população brasileira de um modo geral, mas particularmente, as classes E, D e % da C, assim como as micro e pequenas empresas, têm o crédito como seu principal ativo, o que indica a negociação como melhor caminho para solução do endividamento oneroso.
Pesquisas sobre o endividamento e a inadimplência do consumidor, elaboradas pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostram que o comprometimento de famílias endividadas está, atualmente, na casa de 60%, 10% maior do que em 2011. Revelam, também, que ainda é bastante elevado o percentual de famílias com dívidas em cheque pré datado, em cartão de crédito, em cheque especial, em crediário, e em crédito pessoal. O cartão de crédito pratica taxa média superior a 76%, as prestações de carro e seguro alcançaram 64,3% em maio de 2013, avançando em relação aos 62,9% observados em abril. Somente no que tange à inadimplência, as famílias inadimplentes alcançaram 20,6% em maio de 2013.
A tabela abaixo resume taxas praticadas, atualmente, pelos maiores bancos do país.

Banco                                         Juros ao mês               Juros ao ano
Bradesco                                            4,75%                                74,54%
Itaú Unibanco                                   4,39%                                67,51%
Santander                                          4,00%                               60,17%
Banco do Brasil                                  3,15%                               45,14%
Caixa Econômica                               3,08%                               43,85%
Fonte: Banco Central

Alguns exercícios mostram que, no caso das pessoas físicas, as mudanças de prazos de um financiamento de 12 meses para 60 meses reduzem em mais de 15% o custo da dívida e que, a diminuição de 1% na taxa de juros resulta em uma redução de aproximadamente 6% o custo da dívida de mutuários. Particularmente no cheque especial, cartões de créditos, com encargos de 8% ao mês, na medida em que são renegociados para 2,5% ao mês, podem aumentar em mais de três vezes a capacidade de pagamento dos devedores.
A queda do índice de confiança do consumidor e também das empresas do setor produtivo, explicam o baixo crescimento, de apenas 0,3%, do consumo no último trimestre de 2013 em relação ao mesmo período de 2012, podem ser observados no quadro a seguir.

Jun/Jun      Jul 2013/Jul 2012    Acumulado Jan-Jul
Bens de Capital                                         -3,3                  15,2                               14,2
Bens Intermediários                                -0,7                   0,2                                 0,4
Bens de Consumo duráveis                      -7,2                 -1,6                                 3,9
Semiduráveis e não duráveis                   -1,5                  2,9                                 0,1
Indústria Total                                           -2,0                 2,0                                 2,0
Fonte: IBGE * Dado com ajuste Sazonal.

O descompasso entre consumo e a produção industrial: a queda de vendas do comércio varejista tem resultado na elevação de estoques e da capacidade ociosa das instalações industriais, recomenda.
Uma nova agenda positiva para retomar a confiança das famílias e das empresas é pré-requisito para garantir a continuidade do virtuoso modelo de desenvolvimento em curso no Brasil baseado na inclusão e na ascensão social.
O crédito restrito, juros elevados e prazos inadequados para amortizações dos crediários, dos cartões de crédito, dos cheques especiais, dos empréstimos pessoais e das contas garantidas empresariais, modalidades bem mais acessíveis do que empréstimos bancários, comprometem a renda disponível para consumo de bens essenciais e aquisições de bens duráveis, inclusive de veículos e de moradia, particularmente das classes E, D e parcela da C.
O Banco do Brasil e a CEF, como conglomerados que atuam em todos os segmentos do mercado financeiro, reúnem condições necessárias e suficientes para colaborar com o Governo na solução de um grave problema social que diz respeito ao elevado nível de endividamento das famílias, e das micro e pequenas empresas.
Ao solucionar o grave problema do endividamento excessivo, o BB e a CEF também aumentarão suas participações no mercado financeiro através de ganhos de escala de suas operações.
O cadastro positivo, a busca ativa junto ao Banco Central, à rede varejista, aos CDL’s, ao Serasa, ao SPC e a outras fontes de informações, possibilitarão ao BB e à CEF, identificar potenciais clientes e oferecer linhas de crédito adequadas quanto a juros e prazos, não apenas para inadimplentes, mas também para devedores de crediários, de cartões de crédito, de cheques especiais, de créditos pessoais e de contas garantidas, e cartões empresariais, como são os casos de micro empreendedores individuais e das micro e pequenas empresas, de modo a substituir dívidas onerosas por novos empréstimos segundo a capacidade de pagamento dos tomadores ou beneficiários (mutuários), o que proporcionará importante mudança no perfil do endividamento.
Redução do endividamento das famílias e principalmente de micro e pequenas empresas, poderá ser bem sucedido na medida em que o BB e a CEF ofereçam linhas de créditos adequadas quanto a encargos e a prazos, de acordo com a capacidade de pagamento dos beneficiados, em substituição aos compromissos com cartões de crédito, cheques especiais, crediário, contas garantidas das micro e pequenas empresas, de inadimplentes e, até mesmo, de devedores da rede bancária privada.
No que tange à inadimplência, o BB e a CEF podem tomar a iniciativa de negociarem, tanto junto aos seus clientes, quanto, via portabilidade, junto a clientes de outros bancos, para analisar, com maior profundidade, as razões que provocaram a fragilidade financeira, seja das pessoas físicas, seja de empresas, especialmente de micro, pequenas e médias empresas.
Neste contexto, o BB e a CEF devem assumir uma nova tarefa da maior importância: praticar a proposta de Minsky* para solucionar grave problema social do endividamento e, ao mesmo tempo, aproveitar a oportunidade de conquista de novas fatias de mercado. Em suma, o BB e CEF podem criar linhas de crédito adequadas quanto a prazos e juros visando reduzir as dívidas de famílias e de micro e pequenas empresas, em um processo que deve ser acompanhado de educação financeira. Para ilustrar: famílias com renda de até dez salários mínimos poderão comprometer até 20% da renda disponível e terão prazo de sessenta meses ou mais; famílias com rendimentos entre dez e vinte salários mínimos poderão comprometer 30% da renda disponível e prazos até sessenta meses; famílias com rendimentos acima de vinte salários mínimos poderão comprometer até 40% da renda disponível e terão prazos entre trinta e seis e sessenta meses
Enfim, além de elevar a capacidade de consumo, estimular a elevação da produção e diminuir a capacidade ociosa da indústria e do comércio, a agressiva atuação do BB e da CEF proporcionará maior regulação do Sistema Financeiro através de um novo teto para a taxa de juros a ser praticada para a produção, para o capital de giro de empresas e para os consumidores.
Ao adotarem a estratégia sugerida, o BB e a CEF estarão se diferenciando dos seus concorrentes bancos privados em um setor altamente oligopolizado, não homogêneo. A diferenciação constitui a principal estratégia empresarial para conquistar maior participação no mercado. O sucesso de estratégias de diferenciação exige, inclusive, qualificação profissional, envolvimento e comprometimento de seus recursos humanos. Cabe enfatizar que no Brasil os bancos já auferem as maiores taxas de lucros comparadas à maioria de outros setores, o que mostra a necessidade de maior regulação do Sistema Financeiro.
Logo, os bancos privados, serão sem dúvida, induzidos a praticar os mesmos procedimentos para não perderem participações no mercado financeiro.

 

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Os Brasileiros exigem: “Dilma, cancele o leilão de Libra!”

Em 2010, enquanto candidata, a senhora afirmava:

“O pré-sal é o nosso passaporte para o futuro e entregá-lo é jogar dinheiro fora. O país precisa desse recurso.”

Então, por que, mesmo depois das denúncias de espionagem, da senhora e da Petrobrás, seu governo insiste em tirar o poço de Libra, que dobra nossas atuais reservas para 29 bilhões de barris, e que por direito natural e legal é da Petrobrás, para entregar para os espiões?

Diante de sua mudança, que ameaça está sofrendo?

Nós sabemos que:

1- O Brasil, antes de 1982, junto com o Japão, era um Campeão de Crescimento (média de 7% ao ano) que foi abatido, em pleno vôo, pela falta do Petróleo!

2- O Brasil, em 1982, quebra por não ter Petróleo e passa a ter baixo crescimento, até 2012 – média de 2,7% ao ano!

3- Em 1974, um ano após a crise do petróleo, a Petrobras acha o poço de Namorado, em mar aberto, na Bacia de Campos!

4- A Petrobrás, em 1984, produz 500 mil barris/dia, antecipando em um ano a meta de produção!

5- A Petrobrás, já nos anos 1990, era a detentora da tecnologia de perfuração em águas profundas até 2.000 metros!

6 – A Petrobrás, em 2007, descobre o Pré-Sal – extensas formações geológicas a 7.000 metros de profundidade, no litoral brasileiro – possivelmente com potencial de mais de 100 bilhões de barris. Agora o Brasil tem Petróleo!

7- A Petrobrás, em 2013, Campeã de exploração de águas profundas, já mapeou cerca de 60 bilhões de barris, que somados às nossas atuais reservas, de 14 bilhões de barris, já garantem, pelo que consumimos, autossuficiência para mais de 50 anos!

8- Até aqui a Petrobrás, com o seu trabalho, já garantiu ao povo brasileiro e às próximas gerações, uma quantidade de petróleo que assegura uma proteção às nossas necessidades financeiras externas!

9- A Petrobrás, por sua eficiência, garantirá às nossa reservas mais petróleo, um mineral que ainda será, por algumas décadas, considerado divisa líquida!

10 – No entanto, o Brasil de 2013, é o paraíso das oportunidades financeiras de curto prazo e, ainda, um campeão de desigualdade social!

Os Brasileiros perguntam: Presidenta Dilma, qual o motivo para não cancelar o leilão de Libra?

 

 

 

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Porque o Petróleo tem que ser nosso

“O pré-sal é o nosso passaporte para o futuro e entregá-lo é jogar dinheiro fora. O país precisa desse recurso” – Candidata Dilma Rousseff, no 2º turno da eleição para presidente, em 2010.
I – A Grande Crise
O dia 16 de setembro de 2013 marcou exatos cinco anos da maior crise mundial desde 1929, que teve como estopim a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, levando praticamente todos os países a amargarem sensível redução de crescimento.
O Brasil, se crescer 2,5% em 2013, como espera o governo (previsões do mercado indicam 2%), terá apresentado neste período a mesma média de 2,7% a.a. verificada nos últimos 30 anos.

Nesse contexto, contrasta o desempenho da China, que a exemplo de Japão e Coreia do Sul, adotou políticas soberanas próprias, protegeu sua indústria, manteve rígidas regras para aceitação do capital externo, contrariando as recomendações ultraliberais conhecidas como o “Consenso de Washington”, segundo a qual os países deveriam ter mercado aberto e Estado mínimo – cortando gastos e políticas públicas – para receber os capitais dos investidores mundiais e, supostamente, acelerar o crescimento.
No entanto, enquanto os chineses só recentemente desaceleraram seu ritmo dos tradicionais 10% para cerca de 7% a.a., Japão e Coreia, respectivamente a partir de 1985 (“acordo do Hotel Plaza”, em New York) e 1997, se encantaram com os “ares liberais” e deixaram valorizar suas moedas, pagando alto preço por isso.
Já o Brasil, que entre 2004 e 2008 se beneficiara do “boom” dos preços das matérias primas e alimentos, denominadas de “commodities”, não aproveitou o período de superávit em transações correntes para mudar as regras do jogo e praticar políticas fiscais e cambiais soberanas. Agora que os preços caíram e voltou a dependência de capitais externos para fechar o balanço de pagamentos, seguimos amargando desindustrialização e maus resultados em nosso comércio exterior.
II- Campeão abatido pela falta do Petróleo
Este desequilíbrio externo brasileiro não começou com a última crise. Nosso país, de 1932 até 1982, crescia à velocidade média de 7% a.a. À época, só o Japão “voava” próximo. Entretanto, com a subida do preço do petróleo em 1973 – e nós não tínhamos o “ouro negro” – recorremos mais fortemente ao endividamento externo para o financiamento da compras desse recurso estratégico.
A subida dos juros internacionais, em 1979, e a quebra do México, em 1982, nos obrigaram a recorrer ao FMI, cuja recomendação era cortar gastos públicos, reduzir salários e, o pior, aumentar os juros internos. Resultado: o Brasil, entre 1932 e 1982, cresceu 30 vezes (mais precisamente 29,5 vezes) a sua produção de bens e serviços. Para crescer 30 vezes a sua produção atual ao ritmo de 2,7% a.a. precisaríamos de 1,5 século (exatos 146 anos).
Significa que se tivesse petróleo e não fosse obrigado a se curvar aos ditames do FMI, o país manteria o crescimento de 7% a.a. e seu PIB de 2012 alcançaria cerca de US$ 7 trilhões, em vez dos atuais US$ 2,3 trilhões. Seria menor do que o da China, de US$ 8,2 trilhões, porém maior do que o do Japão, de US$ 6 trilhões.
Além disso, a trajetória dos altos juros internos nos transformou num país controverso: paraíso dos grandes aplicadores financeiros nacionais e estrangeiros, e campeão de desigualdade social.
Assim, enquanto a China se torna a “fábrica do mundo”, produzindo para grandes marcas, mas também investindo em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), o Brasil retrocede, correndo o risco de se especializar na produção de “commodities” e se tornar apenas a “fazenda do mundo”.
III – Para virar o jogo
Diante das agruras da Grande Crise é que nós brasileiros temos que seguir o exemplo dos países vencedores, ou seja, formular um Plano Estratégico de Desenvolvimento autônomo e soberano.
Isto significa determinar, ao longo de um determinado tempo, o resgate do passivo social. Significa dimensionar, levantar e atacar as carências de nosso desenvolvimento. O simples trabalho na construção de suas próprias necessidades físicas e estruturais garante ao trabalhador menos qualificado emprego e renda, com reflexo direto no desenvolvimento municipal e regional.
Um segundo nível desse resgate social resultará no fortalecimento dos setores industrial e comercial, aproveitando o enorme território e recursos naturais, sobretudo energéticos sustentáveis, em detrimento do modelo agrárioexportador. Além disso, é necessário prover toda a logística dos diversos modais de transporte, que provocaria um ciclo de desenvolvimento virtuoso, alavancando a integração comercial e social com nossos vizinhos na América Latina, nosso principal mercado para produtos de maior valor agregado.
Sem essa estratégia, estaremos fadados, na nova divisão internacional do trabalho, a sermos meros fornecedores de “commodities” e insumos de baixo valor agregado, além de continuarmos a ser um bom local para apostas especulativas de curto prazo e de baixo risco.
Déficit externo, o “Calcanhar de Aquiles”

Ao enunciarmos um Plano Estratégico de Desenvolvimento, temos que deixar claro que o déficit em transações correntes é o verdadeiro “Calcanhar de Aquiles”. Um país, principalmente em desenvolvimento, não quebra por dívida ou por ter suas contas deficitárias internas em moeda nacional. Mas fica indefeso quando se torna devedor no exterior sem reservas internacionais e sem financiador externo. Um país só adquire moeda externa de forma sustentável no médio prazo se tiver saldo positivo ou equilíbrio entre suas exportações e importações de mercadorias e serviços.
O resultado líquido disso é o Saldo da Conta de Transações Correntes. O Risco Soberano de um país é fundamentalmente expresso pelo saldo dessa conta. Novamente nos encontramos em alerta de Risco Soberano. Desde 2009, os déficits em Conta de Transações Correntes foram: US$24 bilhões, ou 1,5% do PIB (2009); US$ 47 bilhões, ou 2,2% do PIB (2010); US$52 bilhões, ou 2,1% do PIB (2011) e US$ 54 bilhões, ou 2,4% do PIB (2012). A previsão para 2013, conforme dados do Boletim Focus do BC, de 06-09-2013, é de um déficit de US$ 78 bilhões. Para 2014, US$ 79 bilhões
No entanto, é natural que surjam algumas perguntas clássicas a respeito das nossas condições internas:
1. De onde virão os recursos?
Recursos para o desenvolvimento interno o Brasil tem de sobra: terra abundante; trabalho (bônus demográfico); máquinas e tecnologia disponível (capital físico e humano); além de água abundante (recurso raro mundialmente, mantenedor de vida e produtor de hidroeletricidade) e exposição solar ótima (produção de recursos agrícolas, biomassa, biodiversidade).
E se alguém pensou no real como meio de pagamento, esclarecemos que diante de todas as riquezas enumeradas, o dinheiro, ou melhor, moeda e crédito, são apenas a representação convencional e oficial (Moeda Cartal – impresso na Casa da Moeda) das riquezas.
Então, o dinheiro é questão de gestão econômica responsável fornecido pelas autoridades governamentais (monetárias e fiscais) de acordo com a necessidade da economia (ver http://www.afbndes.org.br/seriebndes/circulo/circulo2.htm, tese antecipada por nós, antes de 16 de setembro e coincidentemente utilizada pelo governo Lula, em janeiro de 2009, nos primeiros momentos da crise).
Enquanto Presidente do BNDES (2003 a 2005), o grande brasileiro Carlos Lessa mostrou que quando há atitude e ação os recursos aparecem. Mesmo com orçamento limitado, Lessa abriu linhas de crédito para financiamento à Petrobras, reduzindo seu custo de financiamento. Sua ação obrigou bancos privados a reduzirem os juros cobrados à estatal petroleira.
Ainda como Presidente do BNDES, ele comprou um lote de ações da Vale do Rio Doce que recuperou o controle acionário para o Estado Brasileiro. Como “reconhecimento” por suas atitudes, Lessa, perdeu seu cargo.
2 – Teremos que aumentar impostos?
A carga tributária, em torno de 35% do PIB, está até exagerada para o baixo crescimento da economia. Trinta anos de baixo giro econômico não gera impostos, obrigando as autoridades a aumentarem as taxas e até inventarem novos impostos. Se PIB tivesse crescido à taxa potencial dos 50 anos de desenvolvimento industrial e alcançado patamares acima do nível atual e próximo aos US$ 7 trilhões, seguramente a carga tributária seria menor em termos percentuais e maior em valores absolutos.

3- A dívida interna elevada não limita o investimento público?
A dívida interna brasileira tinha inicialmente a função de reduzir o crescimento econômico e produzir excedentes para a exportação. De fato, em 1983, os juros foram aumentados de forma que os capitais de giro dos negócios tivessem uma alternativa de aplicação. Já os trabalhadores amargaram o desemprego.
Mas este foi apenas o início. A partir daí o endividamento do governo passou a ser uma ótima alternativa de aplicação restringindo o giro da atividade econômica. Nos atuais patamares em relação ao PIB, a dívida não apresenta restrições. Ela pode ser reduzida naturalmente, nos vencimentos e sendo administrada com juros menores, para desgosto dos agentes financeiros.
4- Reduzir os juros não provoca inflação?
Os 30 anos de crescimento abaixo do potencial criaram naturalmente uma capacidade produtiva restrita que força os preços subirem, então existe sim uma inflação reprimida por conta da baixa capacidade produtiva. Por outro lado, o baixo crescimento formou uma casta produtiva concentrada e uma parte relevante dela por empresas multinacionais que têm poder para ditar preços. Portanto só o atendimento da demanda reprimida pelo aumento da oferta poderá fazer que os preços se acomodem no médio prazo.

5- Uma subida do dólar não poderá provocar inflação?Sim, a política de juros elevados, por tanto tempo, e nenhum controle de entrada de capitais de curto prazo, valorizaram artificialmente nossa moeda de forma a provocar o atendimento da demanda por produção externa. Isso provocou um processo de desindustrialização que acaba desestimulando nossas exportações. Portanto, existe uma inflação reprimida que será liberada quando o câmbio se corrigir, mas infelizmente é uma das correções a serem feitas por conta da artificialidade dos juros mantidos acima do razoável.


“Dilma, cancele o leilão de Libra!”


O petróleo continua a ser o primeiro produto em importância estratégica, e tão fundamental que sem ele não se movem os próprios exércitos que lutam pela sua conquista.
Se o choque do petróleo, em 1973, estourou a Conta de Transações Correntes do Brasil e tivemos que recorrer a um endividamento externo que explodiria em 1982, a partir de 2007 passamos a contar com o pré-sal, um mega-campo há 7 mil metros de profundidade, que pode variar de 30 bilhões, 100 bilhões a até 300 bilhões de barris de petróleo.
Já em 1974 a Petrobras começou a descobrir petróleo, no poço de Namorado, na plataforma marítima, em Campos e começa a exploração em mar aberto. Em fins de 1984, a estatal brasileira do petróleo anunciava a produção de 500 mil barris, antecipando em um ano aquela meta. A partir de 1985, a Petrobras continua suas descobertas em lâminas d’agua cada vez mais profundas até que, em 2006, atingimos a auto-suficiência.
Hoje, com o pré-sal, é evidente que despertamos a cobiça do mundo. Além do combustível, o petróleo ainda é o insumo mais viável para de mais de 3 mil produtos, em várias áreas de consumo. Somadas aos 14 bilhões de barris que o Brasil possui em reservas, o pré-sal já tem garantidos outros 60 bilhões de barris, que, segundo Fernando Siqueira – Vice Presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás – AEPET, um brasileiro incansável pela luta de nosso petróleo para os brasileiros, nos garantem autossuficiência para mais de 50 anos.
Já Ildo Sauer, outro nacionalista ilustre, ex-diretor da Petrobras, defende inventimentos para auferir com exatidão o montante das reservas do pré-sal, que podem ser muito maiores que as já descobertas. No entanto, mesmo trabalhando com os números já confirmados, o déficit em conta corrente pode ser financiado por pelo menos duas décadas, garantindo um crescimento sustentado, em ritmo acelerado, que pode chegar até próximo aos padrões chineses, em torno de 7% a.a.
Considerando, por hipótese, que haverá déficits em todos os 20 anos do período, que o preço do barril permaneça fixo, em US$ 100, e partindo do déficit em transações correntes de US$ 80 bilhões, projetados para 2014, o déficit de Transações Correntes crescendo a 10% a. a. atingirá, em média, US$ 229 bilhões/ ano ou um “déficit” acumulado de US$ 4,6 trilhões no período de 20 anos – esse valor exagerado inclui todos os bens importados ainda necessários ao nosso desenvolvimento.
Já a reserva líquida (após retirada a necessidade de consumo interno, crescendo à 10% a.a.), em petróleo cru – sem nenhum beneficiamento – distribuída pelos 20 anos, resulta na média de US$ 235 bilhões. Por tudo isso, temos razões de sobra para concluir que o pré-sal da Petrobras pode blindar a Conta de Transações Correntes e financiar um Plano Estratégico de Desenvolvimento.
Significa, ainda, seguindo os preceitos das Finanças Funcionais, reduzir nossa taxa de juros totalmente desnecessária, que provoca uma disfuncional apreciação do real. Deveríamos, também, impor controles aos capitais de curto prazo. A aceitação do investimento estrangeiro poderia ficar restrita apenas aos que trouxessem efetivamente inovação de última geração e, mesmo assim, com total repasse da tecnologia – como exige a China e exigiriam, na consolidação dos seus desenvolvimentos, o Japão e a Coréia do Sul.


A má notícia

Todo o potencial projetado se desfaz quando se tira o Poço de Libra que é, por direito natural, da Petrobrás, que o achou, e também por direito comercial, já que o pagou como cessão onerosa em seu último aumento de capital. Não é possível aceitar que um único poço, que com sua capacidade de 15 bilhões de barris, dobra o nível das reservas brasileiras, para 29 bilhões de barris, seja colocado à leilão.
Imaginem o que aconteceria se todo o pré-sal fosse descoberto por uma multinacional do setor e que o governo brasileiro, por direito constitucional, desapropriasse, em nome da nação brasileira, e indenizasse a multinacional em reais.
Entendemos que qualquer invento inovador tem pelo menos 20 anos de direito internacional de patente para a empresa que o desenvolveu. Então, acreditamos, até por analogia, que todo o petróleo do pré-sal tem que ser explorado, por mérito, pela Petrobras.
Aceitaríamos, no limite, a contratação de serviços pela Petrobras de empresas nacionais e ou internacionais de acordo com a necessidade para ajudar no processo, como ocorre hoje.
Iniciativas para suspender o leilão já existem. Os senadores Pedro Simon (PMDB-RS), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Roberto Requião (PMDB-PR) apresentaram projeto de decreto legislativo para sustar o edital do leilão do Campo de Libra, sob justificativa de que a Petrobras teria sido alvo de espionagem do governo norte-americano e em supostas irregularidades no leilão, marcado para o dia 21 de outubro.
Já o ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobrás, Guilherme Estrella, sugere devolver Libra à Petrobrás para exploração, preservando o interesse nacional, conforme determina o art. 12 da Lei 12351/2010.
Aproveitamos para parabenizar, hoje, 03 de outubro de 2013, os 60 anos da nossa PETROBRÁS. Desejamos bastante sucesso em suas vitoriosas empreitadas!
Helio Pires da Silveira – economista aposentado do BNDES
Gustavo Galvão dos Santos – economista do BNDES e doutor em Economia pela UFRJ
Rogério Lessa – jornalista

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Prof. Antonio Cândido, aos 93 anos, diz que o socialismo é uma doutrina triunfante.

“O socialismo é o Cavalo de Tróia do capitalismo”

“O socialismo só não deu certo na Rússia”

Para colocar ainda mais lenha no aceso debate político-ideológico que se trava no Blog da Tribuna, vamos publicar os principais trechos de uma instigante entrevista concedida à jornalista Joana Tavares, do Brasil de Fato, pelo crítico literário, professor, sociólogo, militante Antonio Candido. Com extraordinária lucidez e precisão, ele explica a sua concepção de socialismo, que diz ser uma doutrina trunfante, partindo para uma tese surpreendente e inovadora. A entrevista nos foi enviada por Sergio Caldieri, diretor do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.

Leia mais>> http://heliofernandes.com.br/?p=42288

Brasil de Fato – O que o senhor lê hoje em dia?

Antonio Candido – Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

Brasil de Fato – O senhor é socialista?

Antonio Candido – Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “O senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia. Continue lendo

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Foguete palestino pode ter matado bebê de Gaza em novembro, indica ONU

Filho de jornalista da BBC, criança de 11 meses se tornou poderoso símbolo de confronto entre Israel e Hamas; antes se acreditava que ataque israelense havia causado sua morte

NYT | 

NYT

Um relatório da ONU sugeriu que um bebê palestino que morreu durante combates em Gaza em novembro pode ter sido vítima de um foguete palestino em vez de um ataque aéreo israelense, como se acreditava na época. A morte da criança tornou-se rapidamente um símbolo poderoso do conflito.

Editor da BBC em Gaza:  ‘Por que meu filho teve de morrer assim?’

 


BBC

Jornalista da BBC Jehad Mashhrawi chora durante entrevista sobre ataque que matou seu filho em Gaza (nov/ 2013)
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Países se reúnem para negociação final sobre tratado de armas da ONU

Acordo poderá ser o primeiro tratado global a regulamentar o comércio de armas convencionais no mundo

Fonte: Reuters | 18/03/2013 09:33:55
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2013-03-18/paises-se-reunem-para-negociacao-final-sobre-tratado-de-armas-da-onu.html

Negociadores de cerca de 150 países se reúnem nesta segunda-feira (18) em Nova York para uma última tentativa de concluir um tratado internacional contra o tráfico de armas convencionais, que enfrenta resistência de um poderoso lobby pró-armas dos EUA.

Ativistas do controle de armas e dos direitos humanos dizem que uma pessoa morre por minuto no mundo em decorrência de armas de fogo, e que o tratado seria útil para conter o fluxo descontrolado de armas e munições que alimentam guerras, atrocidades e abusos.

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Estado palestino, prioridade sionista

Fonte: http://www.conexaoisrael.org/estado-palestino-prioridade-sionista2/2013-01-20/claudiodaylac

Paremos de falar sobre paz. Falemos sobre o fim da ocupação.

A ocupação dos territórios já passa de 45 anos. Mais do que um punhado de terras, ocupamos a vida de quase quatro milhões de palestinos há quatro décadas e meia.

Na Guerra dos Seis Dias, que ocupa no imaginário nostálgico nacionalista israelense o lugar do qual a Copa do Mundo de 1970 dispõe na memória coletiva brasileira, o pequeno Estado de Israel triplicou sua área. Das mãos egípcias, tomamos a Península do Sinai e a Faixa de Gaza, consideradas duas entidades distintas para ambos os lados. O Sinai, desocupamos e devolvemos aos nossos vizinhos na virada das décadas de 1970 para 1980. Gaza, recusada pelos egípcios por sua população palestina, desocupamos em 2005, ainda que não a tenhamos devolvido a ninguém especificamente. O Golã, sob domínio sírio anteriormente, anexamos e à sua população concedemos status de residentes permanentes com direito à cidadania, caso queiram. O mesmo foi feito com Jerusalém Oriental: o antigo município jordaniano e uma série de vilarejos à sua volta, foram anexados à Jerusalém israelense. Os palestinos que ali viviam ganharam a “residência” e o direito à cidadania, ainda que poucos a tenham solicitado.

De certa maneira, Israel teve a coragem de tomar decisões difíceis quanto a quatro dos cincos “espólios” da guerra. Ainda que Jerusalém Oriental e as Colinas do Golã não tenham a soberania israelense reconhecida internacionalmente, o país estabeleceu sua posição através de legislação. A Cisjordânia não teve a mesma sorte. Se, de início, o estabelecimento de população israelense era comum aos cinco “territórios”, a indefinição legal sobre o Sinai e Gaza levou ao desmantelamento de suas respectivas colônias. No Golã e em Jerusalém Oriental, ao menos, a presença judaica se justifica através do reconhecimento de que se trata de territórios israelenses – mesmo que de uma flexibilização destas posições dependam acordos futuros. A Cisjordânia não goza de status tão claro. Construímos colônias em um territórios que nem admitimos fazer parte do país. Embriagamo-nos a ponto de que, hoje, vivem cerca de 350 mil israelenses em territórios palestinos. E esse número sequer inclui os novos bairros de Jerusalém Oriental.

A ocupação se dá através da mescla entre assentamentos israelenses e palestinos, de forma a inviabilizar uma indolor re-divisão da terra. Mais do que a simples (se é que pode-se chama-la da “simples”) colonização de terra estrangeira, a ocupação é um vírus que está matando o sionismo por dentro. É tolo todo aquele que não quer entender que, acima de educação, saúde, estabilização da inflação ou cuidados com os idosos, a criação do Estado palestino é a prioridade mais urgente do Estado de Israel na atualidade. E isso afeta qualquer aspecto a ser analisado:

Consciência moral: Não faz parte de nenhum valor judaico a opressão de um povo inteiro. Mesmo que os cerca de 1,5 milhão de habitantes de Gaza não estejam sob ocupação militar israelense, o bloqueio terrestre, naval e aéreo limita sua real independência e os soma aos 2,5 milhões na Cisjordânia, cujos destinos afetamos diariamente. Não há mecanismo de dissimulação capaz de encontrar justificativas para esse fato, nem para o mal que ele exerce sobre o próprio caráter da população israelense.

Relações Internacionais: Cada passo que tomamos para nos distanciar da solução de “dois Estados para dois povos” é um passo em direção ao isolamento internacional. Se antes de 1967, éramos vistos como um país heroico, de existência quase-milagrosa diante das dificuldades econômicas e militares impostas por nossos vizinhos, hoje somos encarados como potência ocupadora e repressora de quase 4 milhões de vítimas. Durante a maior parte da história do sionismo, enchemos o peito para afirmar que sempre estivemos do lado de uma solução que dividisse a terra entre os dois povos mas nossos vizinhos árabes e palestinos sempre a recusaram. Desde novembro último, como brilhantemente explica meu amigo Michel Gherman em seu blog, oficialmente optamos por trocar de papéis.

Israel deve se apressar em retornar às negociações se tem interesse que estas sejam feitas sob os seus termos, por exemplo: apresentar-se disposta a negociar um divisão de Jerusalém Oriental nos levará a um acerto muitos mais benéfico do que ignorar que haja uma questão a ser definida e, futuramente, caia sobre nossas cabeças um modelo consensual internacional, segundo o qual poderemos perder o livre acesso que temos a áreas além das fronteiras de 1949-1967, como o Muro das Lamentações e a Universidade Hebraica. O mundo desistirá em breve de sua insistência na criação do Estado palestino e passará a exigir que tenhamos a dignidade de assumir que anexamos a Cisjordânia. Se isso acontecer, por mais que muitos finjam ser possível outro caminho, nos será imposto o dilema entre conceder cidadania aos palestinos ou viver em um Estado de apartheid. Em ambos os casos – ainda que no segundo isso possa levar alguns anos – daremos adeus ao sonho do Estado Judeu. Qualquer governo que se recuse a admitir este simples fato não é um governo sionista de verdade

Economia: No mundo globalizado em que vivemos, os países organizam-se em blocos regionais para enfrentar a concorrência econômica internacional. Apenas um acordo definitivo com os palestinos nos permitirá o reconhecimento mútuo e completo com nossos vizinhos e nossa inserção no crescente mercado consumidor do Oriente Médio. Poderíamos sonhar, inclusive, com um mercado comum, que derrubasse barreiras alfandegárias e nos permitisse aproveitar o crescimento econômico dos países petrolíferos do Golfo Pérsico. A paz duradoura representaria também uma redução no custo de vida, através da compra de mercadorias que nossos vizinhos podem nos oferecer a preços inferiores aos que pagamos atualmente a exportadores mais distantes. Inclusive água e petróleo. Laços comerciais gerariam uma interdependência bastante saudável para a criação da consciência de que partilhamos de um futuro comum. Contribuiriam para a criação de laços pessoais.

Turismo: Ainda no âmbito dos ganhos financeiros, a indústria do turismo poderia passar por uma revolução. Milhões de cidadãos dos países árabes poderiam se livrar dos tabus sociais e visitar Israel. O velho hábito de conhecer diversos países em uma única viagem poderia também ser aplicado à nossa região, que se livraria dos boicotes a determinados passaportes, carimbos e vistos. O cidadão israelense também usufruiria, logicamente, de uma série de destinos a nossa volta, onde poderia desfrutar de férias sem ter que encarar vôos mais longos. Sem mencionar o fato de que o vôos de Israel para diversas partes do mundo seriam encurtados (em até 90 minutos), se os países árabes e muçulmanos à nossa volta concedessem às aeronaves israelenses autorização para sobrevoar seus espaços aéreos.

Trabalhadores estrangeiros: Assunto na moda entre a direita racista, o crescimento do número de trabalhadores africanos presentes no mercado de trabalho israelense poderia ser facilmente revertido à situação anterior, em que as fronteiras eram abertas para os palestinos que queriam vir trabalhar em Israel. Morando aqui do lado, os trabalhadores palestinos não precisariam mudar-se para Israel e ainda contribuiríamos para a redução da alta taxa de desemprego nos territórios. Poderíamos seguir acolhendo refugiados das guerras civis locais, mas sem a necessidade de atração proposital de uma mão-de-obra que já foi europeia-oriental e hoje é asiática e africana.

Orçamento e investimento: O fim da ocupação representaria o fim imediato de todo um custoso aparato militar dentro dos territórios. Posteriormente, a normalização das relações entre Israel e os demais países da região poderia contribuir para mais cortes no orçamento da defesa. Um país cheio de desigualdades sociais (as maiores do mundo desenvolvido) não pode seguir gastando mais de 6% de seu Produto Interno Bruto (PIB) – e 16% de todos os gastos governamentais – no orçamento de defesa. Adicionalmente, cada centavo gasto em infraestrutura nos territórios é um centavo investido em terras que, provavelmente não ficarão sob autoridade israelense em um acordo futuro e, consequentemente, é um centavo a menos investido no futuro de Israel. Todo esse dinheiro, tanto do orçamento militar quanto dos investimentos em infraestrutura nos territórios, poderia estar sendo gasto dentro de Israel, não apenas em infraestrutura – ainda que esta também seja uma necessidade – mas também em saúde, serviços para a população e educação de nossa próxima geração, além de poder ser parcialmente revertido em cortes nos impostos que pressionam nossa cada vez mais empobrecida classe média.

Estes são apenas alguns exemplos de como usufruiríamos do estabelecimento de um Estado palestino independente, ao nosso lado. Sequer falamos de assuntos menos urgentes, como intercâmbios culturais e esportivos, ou da maior boa vontade que o resto do mundo teria para conosco em termos de comércio e cooperação. Tampouco pode ser ignorada a triste realidade da juventude israelense, automaticamente convocada ao serviço militar após o Ensino Médio. Dezenas de milhares de rapazes e moças que anualmente interrompem suas vidas por, respectivamente, três e dois anos e submetem-se a uma experiência que sem dúvida molda sua personalidade. São incontáveis as áreas a serem beneficiadas por um acerto definitivo com os palestinos, e a consequente estabilidade regional que ele nos traria. A normalização da vida em Israel só ocorrerá com o fim da ocupação, que deveria ser a nossa prioridade nacional.

Naturalmente, não venho exigir de ninguém um comportamento ingênuo. O Estado deve seguir capaz de defender-se, e muito bem. Mas parte deste esforço de defesa também passa por não criar razões de inimizade regionais. Como afirmei no início, não devemos almejar a paz a curto prazo, mas sim o fim da ocupação, dos desafios morais que ela nos impõe e do mal que nos causa. São inúmeros os casos de povos vizinhos que, por séculos, muitos mais tempo do que o conflito aqui já dura, se odiaram e se enfrentaram. Mas suas lideranças foram corajosas o suficiente para emergir em meio ao ódio e à desconfiança e estabelecer acordos. A paz, que só é verdadeira se entre os povos, vem com o tempo, após algumas gerações. Devemos desocupar a Cisjordânia por que os palestinos e os judeus merecem ser um povo livre em sua terra e atualmente não o somos. Ambos os povos somos reféns da ocupação.

Só não enxerga quem não quer.

 

Fonte dos dados sobre o orçamento e os gastos militares:

http://www.tradingeconomics.com/israel/military-expenditure-percent-of-gdp-wb-data.html

Foto de destaque:

http://media.cmgdigital.com/shared/lt/lt_cache/thumbnail/960/img/photos/2013/01/07/39/1a/e0abf0d98e764041bcd222c21cbc83cf-27dd86811c9e429aabfa45fda9011577-0.jpg

 

Tags:árabe, árabes, cisjordânia, conflito, futuro, gaza, Golã, Israel, Jerusalém, judeus, negociações, ocupação, palestina, palestinos, paz, slider, territórios

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ONU dá status de ‘Estado observador’ a palestinos

Abbas: “Última chance para a solução de dois Estados”

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) modificou nesta quinta-feira (29) o status dos territórios palestinos, de “entidade observadora” para “estado observador não-membro” na organização, no que significa um reconhecimento implícito da existência do Estado Palestino.

O pedido palestino foi aprovado por vasta maioria, de 138 votos a 9.

Abstiveram-se da votação 41 países.

Leia mais: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/11/assembleia-geral-da-onu-da-status-de-estado-observador-palestinos.html

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FSM Palestina Livre divulga atividades

Organização divulga mensagem de boas-vindas, programa de conferências e eventos auto-gestionados. http://www.ciranda.net/article6684.html

O Documento de Referência faz uma análise básica da situação na Palestina, identifica claramente as principais demandas e indica estratégias de solidariedade para uma paz justa, baseada em direitos humanos e no direito internacional.

Chegou a hora e, depois de dois anos de debates e trabalho coletivo, milhares de ativistas e organizações de 36 países estão se reunindo em Porto Alegre para fazer deste Fórum Social Mundial Palestina Livre um evento histórico. Continue lendo

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O conflito não começou com foguetes lançados contra Israel

18/11/2012, Phyllis Bennis , The Real News Network, TRNN

“The Roots of Israeli Attack on Gaza ”

Vídeo-entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

JESSICA DESVARIEUX, produtora, TRNN: Bem-vindos à The Real News Network. Sou Jessica Desvarieux, em Baltimore.

Dia 14/11, o governo de Israel atacou Gaza, matando um dos comandantes militares do Hamás. Para falar sobre isso, temos conosco Phyllis Bennis. Phyllis é diretora do Novo Projeto Internacionalismo, do Instituto para Estudos Políticos em Washington, D.C. É autora de Before and After: U.S. Foreign Policy and the September 11th Crisis, de Ending the U.S. War in Afghanistan: A Primer,Understanding the U.S.-Iran Crisis: A Primer e de Understanding the Palestinian-Israeli Conflict: A Primer. Obrigada por nos receber, Phyllis.

PHYLLIS BENNIS: Ótimo. Obrigada pelo convite, Jessica.

DESVARIEUX: Por favor, Phyllis, qual sua opinião sobre o que acaba de acontecer em Gaza?

BENNIS: Acho que estamos assistindo a uma grande escalada de Israel contra Gaza, em tudo semelhante à Operação Chumbo Derretido, de 2008-9, que também começou imediatamente depois – então, foi a primeira eleição – do presidente Obama, e antes de o presidente eleito tomar posse, nos dois casos. Continue lendo

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