Rússia: Putin impõe sua hegemonia do Báltico ao Negro e ao Cáspio

Presidente russo utiliza exército, diplomacia, rublos e petróleo

Moscou – Se a posição geográfica é destino, os países da outrora União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) têm sido condenados, há três séculos agora, por suas fronteiras com a Rússia. Amigáveis ou não, as relações são fatais, alicerce da Doutrina Putin sobre a extensão de sua hegemonia no “exterior próximo”.

Latinoamericana de Notícias. Publicado no Monitor Mercantil
Leia mais: http://www.monitormercantil.com.br/index.php?pagina=Noticias&Noticia=121457

A exemplo dos czares e de Lenin e demais soviéticos no passado, o presidente Vladimir Putin também impõe a hegemonia de Moscou com esferas de influência do Mar Báltico ao Mar Negro e ao Mar Cáspio.

Com exército, diplomacia, rublos e petróleo, a ex-superpotência alinha, novamente, suas fronteiras na Eurásia, para eliminar ameaças dos EUA, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Européia (UE).

 

Ucrânia e Geórgia são as nações indispensáveis no tabuleiro de xadrez de Putin. O governo de Kiev (Ucrânia) oscila entre dois amores (EUA e Rússia), enquanto o de Tbilisi já cerrou fileiras com a Federação da Rússia. Os resultados das eleições realizadas há alguns dias na Geórgia foram uma vitória para Putin, que agora tem um “homem seu” no governo de Tbilisi.

 

“Peão do Ocidente” era elogiado, “pelego dos EUA” era depreciado. Seja lá o que for, Mikhail Saakasvili perdeu. O novo governo da Geórgia está com os olhos voltados a Moscou. Mais um pedaço do quebra-cabeça é posto onde, exatamente, quer Putin.

 

É a vingança que se come fria, após 20 anos. A derrocada da União Soviética reverteu um processo que havia sido iniciado no século XVII, com o nascimento do Império Russo, cujo objetivo final era a incorporação da Europa Oriental, da Ásia Central, do Cáucaso e da Sibéria. Núcleo, o eixo São Petersburgo-Moscou, com centro de gravidade a Rússia, a Bielorússia e a Ucrânia. Mas será que o Putin tem o mesmo sonho?

 

“Revolução Laranja”

 

“Suponho que alguém poderia caracterizar estes esforços para o controle dos fatos no “exterior próximo” como neoimperialismo. Mas, atenção: a lógica do imperialismo pressupõe uma metrópole e submissas satrápias. Se sem algo mais e apesar dos desejos da Rússia, os ex-Estados soviéticos têm provado que desejam independência na administração de seus interesses econômicos e da política de suas seguranças”, diz Carol Saivetz, do Programa de Estudos de Segurança do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e acrescenta:

 

- Isto não significa que não são vulneráveis às pressões russas. O governo de Moscou pode lançar mão em chantagens econômicas e, em caso extremo em guerra, como vimos na Geórgia, em 2008.

 

Ao que tudo indica, no século XXI a Rússia não deseja e sequer pode ocupar os territórios em sua periferia. Para a Rússia é suficiente exercer controle severo, nas alianças, nos recursos energéticos e nos assuntos internos dos Estados que integravam a ex-URSS. Dos 14 Estados que proclamaram sua independência após 1991, a Ucrânia é a mais necessária, sob os pontos de vista econômico e geográfico, para a segurança nacional da Rússia.

 

Para Putin a “Revolução Laranja” de 2004 era um pesadelo vivo. Atrás das manifestações da oposição, Putin enxergava o braço longo de Washington, que tentava instalar um governo filo-ocidental, de um país candidato a integrar-se à Otan, com alvo o cerco e o permanente enfraquecimento da Rússia.

 

Apesar disso, seis anos depois, nas eleições de 2010, os eleitores sufragaram nas urnas os partidos filo-ocidentais. O afastamento da esfera russa de influência e a guinada ao Ocidente foram marcadas por sucessivos conflitos com Moscou sobre o gás natural, a integração à Otan e o destino da esquadra da Marinha de Guerra da Rússia em Crimeia. Por uma vez mais, a Rússia conseguiu impor-se em seu espaço natural.

 

Alex Corsini

 

Sucursal da União Européia.

 

Eurásia: um nova área econômica comum

 

O mais grandioso plano de Putin é, de longe, a denominada União Eurasiática, um nova área econômica comum que deverá assemelhar-se, em algum momento, no futuro, com aquela da União Européia. Se tornar-se realidade, criará a terceira maior economia no mundo, a primeira em reservas energéticas, a primeira em poderio nuclear militar e uma das primeiras em forças militares convencionais.

 

Ocupará quase todos os territórios da antiga União Soviética e 1/6 da superfície terrestre do planeta. Com tanta riqueza de minérios e de matérias-primas, uma união assim poderá transformar-se, dentro de ambiente de economia aberta, em “império soviético” pela porta dos fundos e tornar-se temor permanente para os EUA e a China.

 

Com relação à população, o mercado interno terá cerca de 300 milhões de consumidores. Já com relação a geoestratégia, proporcionará à Rússia o controle sobre todos os itinerários energéticos do mundo.

 

Por ora, urgente é o controle sobre o gás natural da Ásia Central, porque existe problema com a produção da Rússia. Por falta de investimentos, a gigantesca empresa estatal russa Gazprom já advertiu que, em espaço de tempo relativamente curto, os fornecimentos de gás natural não serão suficientes sequer para as necessidades do próprio mercado consumidor russo.

 

Salvação

 

Os disponíveis gigantescos volumes de gás natural do Mar Cáspio (Turcomenistão, Casaquistão, Uzbequistão e Azerbaijão) são os parceiros privilegiados. Os vários gasodutos programados (North Stream, South Stream e Blue Stream, para a China) não serão viáveis, a não ser que a Rússia garanta os necessários volumes destes Estados.

 

Além disso, existe o projeto russo “Ártico 2020″. Este prevê investimentos de US$ 44 bilhões para extração de petróleo, gás natural e o envio de força-tarefa militar. O governo de Moscou já definiu sua posição na região onde nas próximas décadas será realizado o “grande jogo” para a energia mundial.

 

Ainda, o governo russo tem o Iraque, que há apenas uma semana formalizou um contrato para aquisição de um gigantesco pacote de armas russas, no valor de US$ 4,2 bilhões. Assim, a Rússia tornou-se o segundo maior fornecedor de armas do Iraque, após os EUA. Aliás, no Pentágono já começaram a preocupar-se em que, talvez, perca o controle absoluto do país, pelo qual (leia-se petróleo) estão em guerra desde 2003.

 

“No Ocidente, muitos dizem que Putin está em busca de objetivos neoimperiais ou neosoviéticos. Embora a saudade imperialista desempenhe papel na conformação do pensamento político russo, creio que tem sido atribuída ênfase desproporcional nisto”, observa Andrei Krakowitz, do Davis Center de Estudos Russos e Eurasiáticos, da Universidade de Harvard.

 

“A liderança da Rússia pensa em termos mundiais, mas isto não significa, necessariamente, que deseja vestir outra vez o uniforme de uma superpotência, como era a URSS. Diria que os alvos da política externa de Putin são mais razoáveis e corretos. Predomínio econômico e político sobre as ex-repúblicas socialistas soviéticas é elemento de vital importância para a estratégia da Rússia. E não está em desacordo com a modernização da economia nacional, muito menos com a busca de bem-estar para o povo russo.” E destaca:

 

- A Rússia olha outros países ricos e poderosos (China, EUA e países-líderes da União Européia) e vê que buscam unificação econômica periférica, a fim de predominarem em grandes mercados.

 

Controle total

 

Krakowitz prossegue: “Uma união assim com as ex-repúblicas socialistas soviéticas não será uma tarefa fácil, porque sob vários pontos de vista a Rússia é, ainda, uma potência egoísta. Em suas relações econômicas com os demais Estados pós-soviéticos, busca ter sempre o controle total. Por exemplo, interrompeu o fornecimento de gás natural para a Ucrânia há alguns anos, não em busca de preços mais caros, mas em demonstração de força para todos os antigos Estados soviéticos da Europa. A verdadeira pergunta é até que ponto tem o poder e as possibilidades para conseguir atingir seus alvos, particularmente se considerarmos o fato que é ainda um país autoritário, com uma economia que depende, quase absolutamente, de seus recursos naturais”.

 

Finalizando, Krakowitz avalia que “a Rússia precisará realizar uma reforma política e econômica desde os alicerces, nos anos imediatamente seguintes, se trata-se de adquirir a marca de poderio econômico suave, a fim de desempenhar o papel periférico e mundial que sonha. O mais provável é que, o petróleo e o gás natural continuarão sendo as ferramentas importantes de sua política externa. E sob este aspecto, a pesquisa e exploração das gigantescas jazidas do Ártico serão de vital importância para sua economia doméstica e seu contínuo predomínio nos mercados mundiais de energia”.

Esta entrada foi publicada em Falando (quase) sozinho e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>