Botequim Desenvolvimentista: entrevista com Fernando Siqueira

Entrevista de Rogério Lessa com Fernando Siqueira, Candidato a Prefeito do Rio pelo PPL

O engenheiro aposentado da Petrobras Fernando Siqueira, candidato a prefeito do Rio pelo Partido Pátria Livre (PPL), garante que não faltam recursos para fazer do Rio uma cidade desenvolvida, a começar pela saúde de seus cidadãos. Em entrevista exclusiva ao MM, ele lembra que o Tribunal de Contas do Município (TCM) detectou superfaturamento de até sete vezes nas Organizações Sociais (OSs): “Se eleito, irei desprivatizar a Saúde”, promete.

 

Na economia, Siqueira, vice-presidente da Associação de Engenheiro da Petrobras (Aepet), cita as receitas dos royalties do petróleo: “Além dos royalties, o pré-sal já está gerando uma grande demanda por equipamentos, que vai criar um amplo mercado para empresas de pequeno e médio porte. Nossa idéia é apoiar essas empresas, principalmente as de capital nacional, que geram empregos e renda no país”, afirma, acrescentando que seu programa de governo prevê a formação de um consórcio entre os grandes centros de pesquisa que funcionam na cidade, como o Cenpes (da Petrobras), Manguinhos (Fiocruz) ou Cepel (Telebras).

Por que se candidatar a prefeito do Rio?

 

Trabalhei 24 anos na Petrobras. Para chegarmos a encontrar petróleo a 7 mil metros de profundidade enfrentamos muitos desafios. Fui fiscal e projetista da primeira plataforma marítima. Aprendi a coordenar equipes, planejar. Tenho condição de trazer esse conhecimento para o Rio, que tem problemas muito sérios, porém soluções muito mais simples que explorar petróleo a 7 mil metros de profundidade.

 

Quais as principais propostas?

 

Priorizarei as questões mais graves. A Saúde, por exemplo, foi avaliada pelo Índice de Desenvolvimento do SUS como a pior entre as capitais brasileiras. É inaceitável. O Brasil é o país mais viável do planeta e o Rio é o município mais viável do Brasil.

 

Por que a Saúde vai mal no Rio?

 

Por que foi terceirizada e privatizada. Os hospitais herdados do tempo da capital federal foram sucateados. Os centros sociais de saúde estão desmobilizados e os postos de saúde, que ficam próximos das residências das pessoas, estão esvaziados, em favor da privatização. O atual perfeito, embora tenha mais que dobrado o investimento na área, gastou mal. Está contratando as Organizações Sociais, teoricamente sem fins lucrativos, para administrar as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e as Clínicas das Famílias e a população não está sendo bem atendida. Principalmente na periferia, as reclamações são constantes. Vimos agora nas Olimpíadas que a saúde na Inglaterra desde 1948 é de altíssima qualidade e gratuita, a ponto de ser homenageada no desfile. O carioca paga para ter saúde de qualidade e gratuita.

 

O que prevê o seu programa de governo?

 

Desprivatizar a Saúde e equipar hospitais e postos. Fazer concurso, oferecer treinamento e plano de carreira para funcionários, com remuneração compatível. Os médicos contratados pelas OSs estão ganhando até três vezes mais do que os profissionais concursados. Os postos de saúde não têm hoje, por exemplo, fisioterapeutas. As pessoas têm de fazer longos deslocamentos para serem atendidas.

 

Isso é factível?

 

Sim, pois o recurso já existe. O Tribunal de Contas do Município constatou superfaturamento em até sete vezes na compras das OSs . Isso faz com que parte dos recursos seja desviada para organizações que não têm fins lucrativos apenas na teoria. A Lei de Responsabilidade Fiscal induziu à terceirização, que gera nepotismo e, o pior, o trabalhador terceirizado é mal assistido, não tem proteção social. Só é bom para o dono da empresa. Isso está sendo renegado no mundo inteiro. O problema do neoliberalismo foi esse.

 

Outra prioridade em seu programa é a Educação. Quais os pontos a destacar?

 

O Programa Internacional de Avaliação de Alunos mostrou que os países que vão bem na Educação, como China, Finlância ou Coréia do Sul, não são os que investem mais, mas os que investem melhor.

 

Eles se destacam porque fazem três coisas simples e fundamentais: reforço para os alunos de menor capacitação, nivelando por cima; valorizam o professor, que é o veículo fundamental da Educação. Os professores do Brasil, ao contrário da China, são os mais mal pagos. É lamentável. Hoje muitos professores sofrem de depressão. Um terceiro ponto são as escolas de tempo integral.

 

Há também um quarto ponto, principalmente para as populações de baixa renda, que é oferecer uma educação auxiliar para os pais. Das 42 mil escolas brasileiras, as 82 que são de vanguarda praticam reforço dos alunos e oferecem auxílio às famílias.

 

E quanto aos transportes?

 

O domínio dos cartéis está levando o trânsito do Rio ao caos. Temos praticamente um século de atraso em relação às grandes metrópoles do mundo, nas quais 80% do transporte de pessoas são feito por metrô e trens. No Rio é o contrário: 75% viajam de ônibus, 15% por vans e apenas 10% por metrô.

 

Como temos a sexta pior distribuição urbana entre 180 cidades pesquisadas pela Universidade de São Paulo (USP), é tipicamente uma cidade para transporte subterrâno e sobre trilhos. A Super Via, que já transportou 1,2 milhão de passageiros por dia, hoje transporta menos da metade, enquanto a população cresceu.

 

Sérgio Magalhães, do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), defende a transformação dos trens em metrô de superfície. Outros reclamam a falta de barcas de São Gonçalo para o Rio. Qual a sua opinião?

 

A barca de São Gonçalo terá nosso apoio. Hoje as barcas de Niterói são ineficientes, mas em vez de revitalizá-las, estão planejando fazer uma linha 2 do metrô desde o Comperj. O transporte fluvial é o modal mais barato. É um absurdo o que está se fazendo no Comperj. O município é sócio do metrô. Hoje, o metrô de São Paulo, que começou a ser construído junto com o nosso, transporta 3,6 milhões de passageiros por dia. Ou seja, seis vezes mais que os 600 mil do metrô carioca. O de Seul, também nosso conteporâneo, hoje tem seis linhas e transporta 2 milhões de passageiros por dia. O Rio já está em terceiro lugar no Brasil, foi ultrapassado por Brasília.

 

Qual sua opinião sobre o BRT?

 

Foi concebido para Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs), mas, por força do cartel, hoje é operado por ônibus, que têm pouca capacidade. Uma linha de metrô transporta 60 mil passageiros por hora, com intervalo de 90 segundos. Dez vezes mais que o ônibus. O Rio ainda tem o agravante de que o metrô circula em intervalos de oito minutos. A cidade está estagnada e ainda vem o governo do Estado fazer a linha 4, em Ipanema, que é criminosa.

 

Por quê?

 

O Clube de Engenharia propõem que se faça uma malha, para que quem vem da Barra para a Tijuca não precise passar pelo Centro, por exemplo. O governador não deu sequer resposta ao clube e está implantando uma adaptação da linha 1, já apelidada de “tripa” de Ipanema para a Barra.

 

Haverá superlotação. Nossa idéia é forçar uma revisão disso para não transformar uma solução em problema. Há recursos porque o governo federal está injetando recursos. Pretendemos também aproveitar um excelente projeto da UFRJ, baseado na levitação magnética, já testado. É um trem muito leve, que funciona com magnetismo gerado por supercondutores, uma tecnologia adaptada dos trens de alta velocidade. Pode ser fabricado no Brasil. É um trem elevado, duotrilho, que pode estar integrado ao metrô. O trilho suspenso ocupa espaço irrisório em relação a outros veículos. Pode ser colocado inclusive na ponte Rio-Niterói.

 

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