Botequim Desenvolvimentista: Existe declínio do império americano?

Fonte: Rogério Lessa, para a revista Desafios do Desenvolvimento (IPEA) – Os Estados Unidos são um império em declínio? Apesar da maior crise estrutural do capitalismo desde 1929, iniciada naquele país, e problemas diplomáticos em diversas regiões do planeta, esta não é uma pergunta fácil de responder. Os Estados Unidos mantêm incomparável poderio militar, que ganhou peso relativo desde a queda do Muro de Berlim, e o dólar, em vez de perder o papel de moeda padrão, tornou-se porto seguro para investidores com elevada aversão ao risco.

Outro aspecto a ser relevado é a dialética resposta dos setores mais progressistas ao crescimento dos ultraconservadores instalados, sobretudo, no Partido Republicano, que procuram engessar o governo democrata de Barack Obama, tido como “excessivamente tímido” por boa parte dos analistas.

Apesar das ressalvas, a crescente influência de grupos privados sobre os Estados nacionais, fenômeno já batizado como “fatiamento do Estado” ou “privatização da República”, impõe um risco à soberania de todas as nações, inclusive a da mais poderosa delas. Tal cenário, ligado a uma concentração de capital jamais vista, traz apreensão quanto ao que virá no pós-crise: o fortalecimento da extrema-direita ou espaço maior para quem valoriza a paz e do bem estar social.

 

Declínio relativo

 

Para Cristina Pecequilo, doutoraem Ciência Políticapela USP e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), o declínio do império americano começou ainda na década de 70 do século passado, mas ele não é generalizado e sempre apresenta fases de recuperação. “Um declínio efetivo não acontecerá no curto prazo. Há tendências preocupantes, como no caso do comércio, já que as exportações dependem de uma indústria que trabalha sobre base antiga e enfrenta problemas de produtividade, que eles tentam compensar através de um engajamento maior com países asiáticos e sul-americanos, como o Brasil”, analisa, acrescentando que o presidente Obama procura corrigir rumos e investir em tecnologia. “Ele fez novos acordos, identificou os pontos de estrangulamento. Mas haverá eleições e não sabemos se haverá solução de continuidade”, ressalva.

No plano militar, é praticamente consenso que não há declínio. No entanto, Tullo Vigevani, doutorem História Socialpela USP e professor titular de Ciência Política na Universidade Estadual Paulista (UNESP), pondera que, quando se fala em império americano, estão envolvidos o Estado americano e suas ramificações, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), por exemplo, e que não há submissão total nessas ramificações. “Pensar sobre um possível declínio da hegemonia americana é uma discussão que consome o pensamento universal há pelo menos 50 anos. Não se pode dizer com certeza que há um declínio, mas indícios de problemas, alguns evidentes, como o fato de que, em1945, aeconomia dos Estados Unidos representava aproximadamente 40% da mundial e hoje caiu para menos de 20%. Faz 65 anos, é muito tempo, mas está evidente que o peso relativo sofreu uma contração”.

Se este é um dado importante, Vigevani aponta outros que também devem ser considerados, como a capacidade política e o fato de o país ser um centro de referência para muitos outros, inclusive para a China. “Há uma interdependência, não apenas pelas questões comerciais, mas também financeiras”, sublinha. Quanto ao peso militar, o professor da UNESP pondera que todos os outros países que concorreram com os Estados Unidos sofreram perda relativa de peso. “Desde a Grã-Betanha, que é aliada, até a desafiadora União Soviética. Hoje a Rússia ainda detém poderio, mas sua capacidade de contrastar é menor. E a China está longe de poder concorrer, ainda que seu potencial esteja em crescimento.”

O professor do Programa de Pós-Graduaçãoem Relações Internacionais(Unesp, Unicamp e PUC) Reginaldo Mattar Nasser também recomenda cautela antes de se afirmar que os Estados Unidos são um império em decadência, ou mesmo que detenha a hegemonia total. Segundo Nasser, que é doutorem Ciências Sociaispela PUC-SP, o poderio dos ingleses no Século XIX era maior. “Outro elemento, que vem do plano interno, é a relutância de alguns segmentos em exercer o poder imperial. Ou seja, parte da opinião pública tem vergonha de ser império e fica com receio quando o Estado começa a agir como tal”. Além disso, destaca o cientista social, é preciso considerar todos os aspectos, como o tema e a região.

“Uma coisa é avaliar a atuação dos Estados Unidos  na América Central, Caribe e América do Sul. Outra é no Oriente Médio. Neste, é complicado falar em hegemonia, principalmente após as revoluções árabes. Somente no Golfo Pérsico ela existe, mesmo assim  a Turquia se afastou nos últimos anos. Caiu o grande aliado Egito. Na África, há uma disputa palmo a palmo com a China”, lista. Segundo Nasser, atualmente está ocorrendo mais uma “troca de competidor” do que de potência hegemônica. Se na década de 70 do século passado o contraponto dos Estados Unidos na área econômica era a Europa, no geral, e a Alemanha, em particular, na década seguinte esse papel passou a ser representado pelo Japão. “Hoje, a China dá sequência a essa troca de competidores, por isso nunca existiu uma predominância absoluta”.

 

Globalização e descontrole

 

Quanto às questões transnacionais, que também incluem a economia, há o fato de que a mundialização ou globalização determinou uma dificuldade maior de controle, pelos Estados nacionais e não apenas para os norte-americanos, sobre os fluxos financeiros, o meio ambiente ou o terrorismo. Neste sentido, Cristina aponta para o conceito de “Privatização da República” segundo o qual o Estado americano estaria sendo “fatiado” por grupos privados -  entre eles o complexo industrial militar, que incita guerras para lucrar; os lobbies dos agricultores da soja, do milho e outras commodities; da indústria farmacêutica.

“Tudo isso corresponde à terceirização de algumas funções do Estado. Eisenhower (Dwight David Eisenhower, ex-presidente dos Estados Unidos) já alertara, nos anos 60, sobre o complexo industrial militar. Na Europa e nos Estados Unidos estão também os grandes bancos e conglomerados empresariais. Os políticos precisam dar atenção a eles, caso contrário não financiam as campanhas”.

A professora da UNIFESP acrescenta que há interdependência cada vez mais profunda entre os grupos de interesse privado, mas existe também uma reação da sociedade. “A Europa está mostrando que tudo isso precisa de um limite. O cenário certamente contribui para a perda do sentido do que é público.  Obama tem um programa de saúde pública que não consegue tirar do papel. É uma disputa por hegemonia interna, num enfrentamento constante, em detrimento de um projeto nacional. É um conflito semelhante ao da Guerra de Secessão”, opina.

Vigevani, no entanto, vê nessa abordagem uma certa dose de “teoria conspiratória”, já que, segundo ele, supõe a existência de uma capacidade de direcionamento político “não muito realista” nos diversos lobbies. Ele concorda que algumas agências, como o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano)  por exemplo, têm fortes vínculos com os grupos banqueiros. “Vários livros discutem relação entre o Fed e Wall Street, mas, ainda assim, o Fed não pode desconsiderar a política do Estado e as necessidades do conjunto da economia do país”, ratifica.

O cientista político também reconhece o peso dos grupos de interesse no segmento militar ou do petróleo, mas “não seria tão pessimista” em dizer que eles conduzem a política norte-americana. “Ao analisar as guerras do Iraque e Afeganistão, verificamos que havia grupos com interesses particulares. Por exemplo, dirigentes militares pressionaram bastante para o aumento do contingente no Afeganistão e dificultaram uma melhor análise política americana para a região. No caso da política ambiental, há pressões, particularmente, dos grupos ligados à indústria do petróleo. Essas pressões são muito fortes e limitam a adesão dos Estados Unidos a acordos sobre meio ambiente. Os fundamentalistas neoliberais, o Tea Party, enfim, as forças mais conservadoras de direita jogam papel muito importante, mas há outras análises que vêem nisto uma grande oportunidade de fortalecimento também dos liberais, que nos Estados Unidos equivalem à centro-esquerda, aos segmentos mais progressistas.”

 

Movimento pendular

 

O poder dos grupos privados, mesmo que não determinante, influencia, segundo Cristina, um “movimento pendular” na diplomacia americana. “Obama está procurando atrair os Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. É uma tendência positiva, mas acaba sendo anulada pela reação dos movimentos contrários, tanto da parte dos republicanos, quanto dos democratas mais conservadores, num movimento pendular que prejudica a diplomacia americana”, exemplifica, citando também a negociação sobre a questão nuclear, envolvendo Turquia, Brasil e Irã, ou o caso do golpe militar em Honduras como exemplos do “movimento pendular” das relações exteriores dos Estados Unidos. “Nos dois casos, os Estados Unidos inicialmente apoiaram o Brasil. Obama falou contra o golpe, mas o Departamento de Estado, que não é eleito, emitiu posição contrária dez dias depois. O secretário de Defesa, Robert Gates, é o mesmo de Bush. São problemas conjunturais que revelam polarização”.

Por sua vez, Nasser destaca que o movimento pendular mostra o quanto é difícil falar em predominância absoluta dos Estados Unidos, mas admite que as decisões militares são cada vez mais conduzidas pelo Pentágono. “Há setores de lobby no Congresso, que é quem decide em última instância. Os interesses da área de finanças unem democratas e republicanos. O que separa mais são as questões internas, como saúde e impostos. Porém cada vez aumenta mais o consenso em relação às questões internacionais. Irã, Iraque, Israel, Afeganistão”, analisa.  O professor de Relações Internacionais observa que empresas de petróleo não comprometidas com políticas de Estado ou com a diplomacia voltaram, por exemplo, a se instalar na Líbia após 2004. Na área militar, segundo ele, existe hoje um controle parcial das empresas de segurança.

“São os chamados ‘novos mercenários’. É segurança privada, não os fuzileiros navais. No Iraque, entre 80 mil e 100 mil homens trabalham para essas empresas”, observa, lembrando que a guerra é uma atividade quase tão lucrativa quanto o petróleo.  “E os dois setores começam a caminhar juntos na África, por exemplo. É uma privatização grande que passa ao largo das grandes organizações políticas e econômicas. O serviço sujo é feito por eles, como a tortura. Atuações predatórias que passam ao largo de regulamentações da Organização Mundial do Comércio (OMC), também. Trata-se de um tema novo: a privatização da autoridade internacional.”

Já Vigevani, embora concorde quanto à falta de capacidade das elites norte-americanas e do governo para estabelecer diretrizes consequentes, como no caso do Iraque e Afeganistão, não afirmaria que está surgindo no mundo uma coalizão anti-americana. “Mesmo os países que fazem críticas importantes, nos mais diversos campos, inclusive de direitos humanos, ambiental, financeiro ou comercial, não estão orientando suas ações para uma coalizão. Deste ponto de vista, nas décadas de 50 e 60 o anti-americanismo era mais forte. Há inclusive estudos sobre isso. Hoje esse sentimento está presente em diversos países, mas não se traduz em coalizão”.

 

Depois da crise

 

Numa crise estrutural de proporções mundiais, não chega a surpreender que o dólar, em vez de perder força, venha se firmando como reserva de valor. Inclusive por causa do enfraquecimento da Zona do Euro. Vigevani acaba de chegar dos Estados Unidos, onde participou de seminário na Universidade da Califórnia, que teve a participação de asiáticos e discutiu o papel do dólar, do iuan chinês e o ien japonês. “O papel do dólar continua altamente significativo porque as outras moedas que poderiam ter papel de caráter universal não reúnem todas as condições para desempenhá-lo. Ainda que o dólar se debilite e tenha perda de centralidade como moeda de reserva, não há possibilidade de substituição no curto ou médio prazos. Isso dá muita força aos Estados Unidos, único país que ainda tem  o poder de emitir uma moeda internacional”.

No entanto, o dólar e a liderança em segmentos como o de tecnologia não são suficientes para garantir para os americanos um cenário harmonioso no pós-crise. Nasser vê a democracia muito fragilizada. “Democracia está se tornando algo cada vez mais teórico. Obama condena a forma pela qual tem sido conduzida a guerra contra o terror. Por outro lado, aumentaram as chamadas ações encobertas. Falta controle do próprio governo sobre a ação do Pentágono. Obama utilizou mais aviões não tripulados e aumentou a morte de civis sobre o período Bush. Isto nada tem a ver com as declarações dele na ONU”, diz, acrescentando que esta leitura vale não apenas para os EUA.

No plano da governança mundial, o professor de Relações Internacionais se diz cético quanto ao G20 e outras articulações. “Há alternâncias, mas não vejo substituição da ordenação mundial, ou seja, apostar em países substituindo outros. O que vejo são problemas internos cada vez maiores, movimentos de rua na Espanha, na França, ou o velho fantasma europeu, a extrema direita, que reaparece principalmente nos períodos entre guerras. Mobilização de militares em Portugal e Grécia. Nos Estados Unidos, republicanos radicais são ameaça na mesma proporção. Entram na esfera da educação, dos costumes. Na Europa a coisa é mais voltada contra os imigrantes”, resume Nasser.

Já Cristina vê a continuação de um “processo de gradual acomodação entre quem cresce e quem está em decadência”. Ela sublinha que tal processo ainda está no começo, enquanto Vigevani não acha provável que aconteçam mudanças extremamente radicais. “Claro que o processo histórico está sujeito a surpresas. Não excluo mudanças importantes no cenário internacional e de muitos países, mas no caso de Estados Unidos e Europa o que vemos é dificuldade de dar sequência às políticas. Na Europa, os Estados tem sofrido mudanças nas quais a oposição parece crescer, mas não em determinada direção. Onde há governos conservadores, social-democratas ficam mais fortes e vice versa. É resultado do descontamento popular, mas na prática não há uma direção única.”

No caso dos Estados Unidos, o professor da UNESP vê um quadro semelhante, no qual a “extrema radicalização” de alguns grupos importantes do Partido do Republicano acabam por fortalecer as posições do presidente Obama. “Portanto, pensar que o mundo vai numa direção seria precipitado, ainda que mudanças possam acontecer. Se a crise perdurar por, por exemplo, 20 anos, claro que fortalecerá algumas tendências, tanto à direita, quanto à esquerda. O campo está aberto”, finaliza.

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