Em artigo denominado Saquaremas e Luzias, a sociologia do desgosto com o Brasil, o advogado e cientista político Christian Edward Cyril Lynch mostra as principais correntes de pensamento político que se consolidaram na sociedade brasileira desde o segundo império ainda se fazem presentes. Segundo Lynch, as duas visões oferecem distintos diagnósticos para explicar o retardo da sociedade brasileira e, por conseguinte, prescrevem dois diferentes remédios.
Para os “saquaremas”, grupo originário da burocracia estatal instalada por D. João VI, um país de grande extensão territorial e com comunicação deficiente não se tornaria uma nação sem um Estado forte. Já os “luzias”, ligados aos grandes proprietários rurais, são federalistas e vêem o Estado como uma ameaça à “liberdade”. Segundo eles, existia, sim, sociedade civil, composta por eles próprios – a elite.
Os saquaremas seriam um embrião do que hoje se costuma chamar de “desenvolvimentistas”?
A expressão “desenvolvimentismo” é um pouco uma invenção intelectual da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). O Brasil não precisou da Cepal para ter desenvolvimentismo, apenas para formular a teoria. Note que quem sustentou o Barão de Mauá foram os saquaremas. A visão de que Mauá quebrou porque o Estado o sufocou com a burocracia é uma visão tucana. Na verdade, Mauá quebra nos governo Luzias.
Então os saquaremas estariam à esquerda dos luzias?
Naquele tempo, a esquerda eram os liberais e a luta política era travada no campo do liberalismo pré-democrático, até porque não há como ser muito conservador em países novos, onde tudo está por construir. A direita naquele tempo são os saquaremas, comprometidos com a defesa da ordem e autoridade (palavras mágicas na época) para consolidar o Estado, já que, sem ele, não há como garantir a liberdade. Por sua vez, os luzias tinham como tema a liberdade e o progresso. O Barão do Rio Branco é saquarema, cujo núcleo duro era ligado ao Estado, mas eles foram se afastando da política no final do segundo reinado e a lavoura passa a dominar os dois partidos (conservador e liberal). A primeira República é só liberal.
Quais as conseqüências desse novo cenário?
No momento da democratização, liberais vão para a direita. Depois cresce a idéia de um Estado nacional contra a oligarquia, contra os novos senhores feudais. Na década de 30 os tenentes são “neosaquaremas”. Ou seja, o povo é soberano para combater as oligarquias. Recorre-se de novo à ideia de soberania, centralização, unidade do Estado, do povo.
É a primeira vez que o “povo” aparece em seu discurso...
No século XIX, a idéia de povo é no sentido romano, a elite culta, que possui posses. P “povo” romano não é o mendigo ou o mercador, mas uma elite, semelhante aos “patrícios” aqui no Brasil. Luzias e saquaremas precisam construir o país de cima para baixo porque não tem povo, no sentido de plebe, a não ser os fazendeiros. Por causa da miscigenação, variedades de raças, na primeira República só se via “povo” no Rio. Olhava-se para a Europa, com sua homogeneidade cultural, e não se via isso aqui no Brasil. Mesmo depois da abolição, os escravos são quase nômades, não sentem identidade com a oligarquia. A própria oligarquia não é unida.
Qual o impacto da Revolução de 30 na relação entre saquaremas e luzias?
Há uma reconformação. Para os “neoluzias”, o povo é a classe média, enquanto para os “neosaquaremas” o povo é o trabalhador. Todas as democracias modernas tiveram que passar por três momentos distintos: construção do Estado, fortalecimento da sociedade e, por fim, a construção da democracia. Ou seja, primeiro um Estado autoritário, que entra em crise por causa do monopólio do poder, que forja um movimento de liberação e faz surgir o Estado de direito. No entanto, a elite continua no comando. É uma rebelião contra o poder do alto, mas também contra o povo embaixo. Este segundo momento é a República Velha: prevalência do econômico sobre o político e da idéia de que a sociedade tem que dirigir o Estado. Época individualista, liberal pré-democrática por excelência, pois os próprios êxitos da criação do Estado acabam por alimentar a demanda por abertura. A Velha República é o arranjo das oligarquias estaduais. A idéia de federação é oligárquica, com as famílias pensando se devem obedecer ao Estado.
Há relação entre Getúlio Vargas e Pedro II?
A política trabalhista do Getúlio tem inspiração no segundo reinado. Pedro II via o Estado com papel ativo de intervenção no espaço público e no mercado para desenvolver a economia. Os luzias também acham que o Estado tem que ter um papel, mas como agente da sociedade, que são os fazendeiros, industriais. O Estado pode intervir apenas como na primeira República, na política do café, para atender aos interesses do setor. Criaram uma infra-estrutura para o mercado. É uma lógica diferente. Para os liberais o Estado não tem uma pauta própria.
Neste sentido, para os saquaremas cabe ao Estado, em nome do interesse coletivo, intervir na sociedade. Isto precede a concepção da Cepal de desenvolvimentismo. Essa ideia tem raízes no segundo reinado e começou a percebida na década de 20. É a idéia do nacionalismo (pátria forte, governo federal forte), que tinha enfraquecido na primeira República. Por isso é difícil haver nacionalismo em São Paulo. Para a oligarquia local, nacionalismo é populismo e autoritarismo, porque tira poder dos entes federativos. Lêem os saquaremas como autoritários.
Como vê a esquerda que é moralista e critica o populismo?
Se Getúlio era “neosaquarema”, a UDN herdou os luzias, que perseguem o ideal de uma República governada pelos mais cultos, estudados, teoricamente honestos, daí o moralismo. No Pós-Guerra, passamos a ter saquaremas e luzías de direita e de esquerda. O PT era a “UDN de macacão”, como dizia Brizola, antes de virar governo. Era de esquerda, mas luzia. Marxistas puros são luzias de esquerda, acham que o Estado é capturado por uma classe social, que não tem vida própria. Fazem discurso contra o populismo. Quando Brizola morre, o PT vira governo e, intuitivamente, a herança saquarema cai no colo deles. Lula, tal como Getúlio, aparece com a mão preta do petróleo do pré-sal. Critica o lado autoritário do governo militar, mas elogia o desenvolvimentismo de Geisel.
Qual tem sido o papel da imprensa nesse processo?
O moralismo da classe média é manipulado pela grande imprensa sempre que seus interesses são ameaçados por um governo mais progressista. Esse esquema da manipulação costuma se dar via moralismo. Mas o “mar de lama” que atacou Getúlio hoje é diferente. O país se democratizou, as instituições são mais estáveis. Mesmo assim somos torturados todos os dias com essa conversa de corrupção.
Hoje o povo é menos vulnerável ao discurso moralista?
Não estamos no melhor dos mundos, mas melhoramos. O povo não cai mais nessa, se não Lula não teria sido reeleito na seqüência do “mensalão”. A idéia de liberdade de imprensa é liberdade do monopólio de meia dúzia. A idéia de opinião pública é um conceito liberal. Mas o modelo político-econômico que Lula desenvolveu no segundo mandato está esgotando e há pessoas de diferentes segmentos criticando o governo. O país precisa elevar a taxa de investimento para sair desse impasse.