Botequim Desenvolvimentista: Entrevista com Samuel Pinheiro Guimarães

Golpe no Paraguai pode ser um tiro pela culatra

O golpe contra o governo do presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, que resultou na suspensão do país no Mercosul, pode ter sido um “tiro pela culatra”, na opinião do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Isto porque a suspensão dos paraguaios criou oportunidade para que os demais membros do bloco aprovassem o ingresso da Venezuela, fato que, segundo Guimarães, contraria os setores mais conservadores da região, além dos interesses dos Estados Unidos, que têm na Venezuela um importante fornecedor de petróleo e, não obstante, um governo empenhado na diversificação das vendas do combustível para reduzir sua dependência dos EUA.

Publicado originalmente no Monitor Mercantil> http://monitormercantil.com.br/2012/index.php?pagina=Noticias&Noticia=116029

O embaixador recentemente pediu desligamento do cargo de Alto Representante Geral do Mercosul, apontando uma série de medidas para criar um “esquema de desenvolvimento regional equilibrado e harmonioso” que, se não forem tomadas, poderá levar o bloco a “sobreviver de maneira claudicante e não se transformar em um bloco de países capaz de defender e promover, com êxito, seus interesses neste novo mundo que surgirá das transformações e crises que vivemos”.

Entre as medidas cobradas por Guimarães, que levam em consideração as assimetrias regionais, estão a garantia de condições institucionais que permitam políticas de promoção do desenvolvimento industrial de cada Estado; a celebração de acordos em setores industriais relevantes, levando-se em conta a presença das multinacionais; a criação de mecanismos de proteção à indústria regional; e o acesso das empresas de capital nacional sediadas nos Estados membros do Mercosul aos organismos nacionais de financiamento.

A negociação em bloco, junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), pode ser mais eficaz para proteger a indústria da região da concorrência européia, americana ou chinesa?

O Mercosul é um sistema que tem como princípio básico a idéia da preferência para as empresas instaladas no território, sejam estrangeiras ou não. Como as empresas estrangeiras são grandes, podem até se beneficiar das barreiras tarifárias, mas é melhor ter empresas fabricando aqui do que sermos obrigados a recorrer às importações. Mas os problemas são muitos. Mesmo com tarifa zero não estamos conseguindo competir, então os temos o direito de buscar outras defesas adicionais. Os países que hoje são desenvolvidos protegeram suas indústrias para desenvolvê-las, inclusive a Inglaterra, que usou o protecionismo em relação à Bélgica. E o Mercosul permite que haja proteção às indústrias de nossa região.

O senhor tem comentado que o ingresso da Venezuela no Mercosul tornou mais difícil a remoção do presidente Hugo Chávez através de um golpe de Estado e deixa o bloco mais atraente à adesão dos demais países da América do Sul. O golpe no Paraguai foi um tiro que saiu pela culatra dos críticos do Mercosul?

Creio que sim. E esta impressão surgiu da reação dos mais conservadores diante do ingresso da Venezuela. Não esperavam. Naturalmente, os setores mais reacionários têm vínculos entre si, tanto que os formuladores do PSDB, por exemplo, foram muito bem recebidos em Assunção. É natural, pois os partidos mais próximos ideologicamente procuram se coordenar. Não quer dizer que participaram do golpe, mas o apoiaram, e certamente a entrada da Venezuela é uma derrota.

Existe disputa dos EUA com a China pela economia e recursos naturais da América do Sul?

Existe uma disputa natural de mercado, mas não se pode desconsiderar que grande parte da produção chinesa é de multinacionais norte-americanas lá instaladas. Quando a Nike que produz na China, por exemplo, exporta para o Brasil, isto não preocupa sua matriz. Há, por outro lado, uma disputa permanente nos mercados por acesso a recursos naturais. No entanto, como os EUA estão em crise, com redução da produção industrial e, consequentemente, da demanda por recursos naturais, por enquanto a disputa não é muito grande.

Alguns analistas, como o economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, pensam que está sendo formado um bloco informal, que classificam como “G2″, formado pelos EUA e a China. O senhor concorda?

Acho que um bloco como o G2 seria insuficiente para expressar a complexidade das relações entre os dois países. De um lado, existe sim uma simbiose muito grande entre China e EUA. No comércio, por exemplo, grande parte das empresas que estão na China e exportam são multinacionais norte-americanas. Por outro lado, boa parte do saldo comercial chinês é aplicado em títulos do Tesouro norte-americano. Isto contribuiu para financiar o consumo nos EUA, daí o próprio Tesouro não querer problemas com a China. Ao mesmo tempo que existe esta simbiose, há também disputas em outras questões, ligadas a Taiwan, Japão, Austrália ou Nova Zelândia, por exemplo.

Nova Zelândia e Austrália não são tradicionais aliados dos EUA?

Sim, mas Austrália se tornou grande fornecedor de matérias-primas para a China. É uma mudança nada desprezível. Na medida que China se torna grande compradora de produtos primários, sua influência aumenta. É natural que seja assim. Veja a Argentina. Nosso vizinho quer reconstruir sua rede ferroviária e construir uma nova, ligando os oceanos Atlântico e Pacífico. Obviamente isto irá reduzir custos de produção e transporte, oferecendo ganhos de competitividade aos argentinos. A China vai financiar e melhorar o escoamento daquela produção. Eventualmente, esses interesses se refletem na área política, mas a China não compete, necessariamente, com os EUA. No entanto, a própria recente modificação da estratégia da política externa norte-americana, que dá foco à Ásia, demonstra a importância da região. E Ásia é, sobretudo, a China.

Os dois países parecem estar disputando as reservas de petróleo mundo afora, inclusive porque são os maiores consumidores.

Sim. O acesso ao petróleo é objeto de disputa. Por isso acho que a idéia de G2 não abarca todas as questões e sutilezas dessa complexa relação, nem a própria trajetória chinesa. Vale lembrar a interferência histórica dos EUA na China, que criou enormes ressentimentos nos chineses. A China é a civilização mais antiga do mundo e a sociedade local é bastante consciente do significado de sua importância relativa. Até o século XIX a China foi o maior país do mundo.

A Venezuela está realmente conseguindo modernizar e diversificar sua indústria? A evolução da produção industrial revela isso?

Não há a menor dúvida quanto ao progresso na Venezuela. Veja o caso do combate ao analfabetismo. A Unesco declarou a Venezuela território livre do analfabetismo. A redução da concentração de renda também tem sido grande, o mesmo valendo para a construção da infra-estrutura. Por sinal, esta reconstrução vem sendo feita por empresas brasileiras, que são pagas com recursos do petróleo. Daí a extraordinária popularidade do presidente Hugo Chavez. É muito difícil governar 14 anos, passar por sucessivos referendos revocatórios, eleições, e manter a popularidade alta. Por sinal, na Venezuela é possível revogar o mandato de políticos eleitos que não cumprem as promessas de campanha. Carlos Menem não teria governado a Argentina por tanto tempo, pois foi eleito com plataforma totalmente diferente do que efetivamente realizou. Então, o plebiscito revocatório é algo extremamente democrático, permite que o povo avalie o desempenho do governo antes do final do mandato. É um nível de democracia que talvez não exista nos outros países da região.

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