Botequim Desenvolvimentista: André Zabludowsky


O convidado de nosso Botequim Desenvolvimentista esta semana é o engenheiro André Zabludowsky, que trabalhou na coordenação do centro de imprensa do Fórum Global durante a Rio 92 e, portanto, possui experiência não desprezível para opinar sobre a Conferência Rio+20.

Zabludowsky tem opinião diferente de muitas lideranças da sociedade civil, que andam descrentes quanto aos resultados do encontro. Para o engenheiro, ao contrário de 1992, quando os países dominantes acabavam de derrotar o comunismo, hoje o fracasso do neoliberalismo e do Consenso de Washington oferece espaço para algum avanço dos países emergentes e da própria sociedade civil. Ele destaca também que, dos dois pilares da conferência (Desenvolvimento Sustentável e Governança Global) o segundo quase não produz notícias.

Então, com a palavra, André Zabludowsky.

Rogério Lessa

 

“A parte mais importante da Rio+20 talvez não esteja sendo discutida. A conferência tem dois eixos: Desenvolvimento Sustentável e Governança Global, que não está sendo discutida. Mas é preciso indicar como e por quem o mundo será governado. Se a Conferencia tivesse sido convocada em 2007, antes da crise, teríamos um quadro totalmente diferente. De lá para cá os emergentes se firmaram e querem uma parte do poder mundial. Por causa disso, a presidente Dilma Rousseff deve estar tomando todo tipo de cuidados, já que na visão de conjunto está a pergunta sobre como o mundo será governado.

Isto é extremamente positivo porque em 2007 não se sabia que a situação mundial era totalmente cambiante. Se pensarmos bem, a Rio 92 se reuniu já no final do comunismo. Os países dominantes não precisaram ceder nada, hoje é diferente. Se em 1992 houve reflexos importantes, porque não aconteceria nada na Rio+20?

Certas receitas consideradas infalíveis, como o Consenso de Washington, que é da década de 90, estão em baixa.

Como coordenar isso tudo? Qual o papel das Nações Unidas? E da sociedade civil?

A massa de atividades é tão grande que não se consegue definir uma posição a priori. Precisamos observar. Na área da cidadania não se tem noção de como as coisas foram feitas. Como aconteceu o final do comunismo, essas crises todas. Recentemente, a França virou socialista, a Primavera Árabe já aconteceu. Tudo isso seria impossível há poucos anos. O fim do comunismo também era. São modificações grandes. Estamos no meio de um turbilhão e é difícil enxergar.

A chamada Economia Verde, é, na verdade, uma forma de mercantilização da natureza?

Há outras alternativas para a Economia Verde. Na Rio 92, propuseram o imposto de US$ 1 por barril de petróleo equivalente extraído. Os recursos comporiam um fundo para a sustentabilidade. Hoje parece que a ideia está em andamento. Renderia US$ 100 milhões dia, US$ 3 bilhões por mês, US$ 36 bilhões a cada ano. Seria um fundo considerável. Está em discussão e faz parte do processo de governança mundial. Até porque não está definido quem vai administrar esse dinheiro. Além disso, o imposto pode ser cobrado apenas sobre o transporte aéreo internacional, que penalizaria apenas aqueles que viajam para o exterior. Há, então, uma “salada” de opções, mas a direção a ser tomada dependerá das forças relativas ao longo do processo.

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