Rodrigo Medeiros: Engasgando no crescimento e uma agenda para o curto prazo

Desde o dia primeiro deste mês, a economia brasileira vem desacelerando ao longo dos últimos trimestres. Essa não é uma notícia muito agradável e as incertezas do exterior não ajudam a elevar o otimismo. Pesquisas divulgadas pela Markit sobre o Brasil apontam estagnação nas manufaturas e contração marginal nos serviços em maio. Enquanto as primeiras encontram-se constrangidas por custos crescentes e concorrência externa, os segundos muito provavelmente sofrem os efeitos de encadeamentos à indústria de transformação. As pesquisas apontam queda do otimismo em relação ao futuro próximo. Deve-se destacar que esse estado de confiança poderá variar de acordo com as mudanças de circunstâncias nos próximos momentos.

As crises na eurozona e nos EUA não indicam que a solução está próxima. Eleições estão abalando a expansão da austeridade fiscal na Europa; nos EUA o embate entre liberais e conservadores está apenas recomeçando. Há quem diga que estaríamos repetindo o debate da década de 1930. Nesse sentido, Keynes ainda seria um ponto de passagem obrigatório: “em economia não se pode condenar o opositor por erros, só se pode convencê-lo de que os cometeu. E mesmo que estejamos certos não conseguimos convencê-lo se a cabeça dele já estiver cheia de noções erradas”.

Pode ser tarefa de Sísifo convencer quem tem interesse pecuniário direto no jogo econômico e deseja justificar suas propostas de austeridade fiscal como critérios de moralidade política e ciência positiva. Austeridade fiscal em um período longo de recessão (ou depressão) não é solução para a retomada do crescimento econômico e a redução do desemprego. Qual empresário manteria pesados planos de investimentos produtivos em um prolongado contexto adverso de estagnação e grandes incertezas? Sem poder contar com expressivos investimentos produtivos privados para a recuperação econômica, dificilmente se deveria contar também com a expansão ilimitada do consumo das famílias.

Incertezas crescentes e o estado de confiança em relação ao futuro imporiam limites à expansão do consumo pelas vias do crédito. Isso para não falar na restrição orçamentária doméstica. Deveríamos apostar no aumento das exportações, desde que o câmbio fosse competitivo? Esse seria um caminho interessante caso a crise não existisse no exterior. O governo poderia acelerar investimentos públicos, eliminando pontos de estrangulamento e reduzindo o custo-Brasil. Refiro-me a questões institucionais e de infraestrutura física. Segundo divulgado, valores empenhados do orçamento federal passaram de R$3,9 bilhões nos primeiro quadrimestre do ano passado para R$2,9 bilhões em igual período de 2012. A grande queda no ritmo do investimento público se deu nos transportes, 46,2%. Essa foi considerada área prioritária pelo governo federal, que inclusive sancionou em janeiro do ano corrente a Política Nacional de Mobilidade Urbana. A nova lei prioriza o transporte coletivo em vez do individual. Seria muito interessante pensar por um instante nos efeitos multiplicadores locais e/ou regionais na renda e no emprego dos investimentos em obras de infraestrutura que viabilizassem essa nova política de mobilidade nos espaços urbanos brasileiros. Ademais, deve-se considerar que tais investimentos trariam melhorias na qualidade de vida da população que circula de transporte coletivo nas principais metrópoles e um provável aumento de produtividade da economia porque se perderia menos tempo nos deslocamentos diários.

Essa agenda interessa aos postulantes a prefeitos em 2012? Por hora teremos que esperar um pouco mais pelos debates políticos e por propostas de governo para os municípios.

Rodrigo L. Medeiros (D.Sc.) é membro da World Economics Association (WEA).

Fonte: http://www.folhavitoria.com.br/economia/noticia/2012/06/livre-pensar-com-rodrigo-medeiros-engasgando-no-crescimento-e-uma-agenda-para-o-curto-prazo.html

Esta entrada foi publicada em Sem categoria e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>