Renascem esperanças turcas de ressurreição do Império Otomano

Síria, o Canal de Suez de Erdogan

Fonte: http://monitormercantil.com.br/2012/index.php?pagina=Noticias&Noticia=113787

Istambul – Em novembro de 1956, a Grã-Bretanha e a França invadiram o Canal de Suez, no Egito, alguns poucos meses após sua nacionalização por Gamal Abdel Nasser, uma operação que terminou em um ridículo fiasco e que encerrou a presença dos imperialistas de Londres e Paris no Grande Oriente Médio.

Hoje, a Turquia do premiê Retzep Tayyip Erdogan parece estar dominada pela psicose de uma intervenção armada na Síria, porque os gênios do establishment kemalista em Ancara consideram a Síria “chave” para a blindagem do papel periférico da Turquia.

Se a Turquia protagonizar a derrubada de Bashar El Assad e da minoria alawita que governa o país, acredita que pode controlar os multidispersos sunitas e se conformar uma liderança que será mais próxima ao Partido de Justiça e Desenvolvimento (AKP) de Erdogan do que a Irmandade Muçulmana do Egito ou muito mais do superconservador Vahabítico Sunita Islã da Arábia Saudita.

Assim, por um período de transição, o governo de Ancara garantirá a transformação da Síria – berço do nacionalismo árabe que desdenhou o domínio otomano – em protetorado turco.

Há longos meses, nos bastidores, a diplomacia turca tenta garantir o “sinal verde” de Washington e a tolerância de Israel. Promete arrancar pela raiz a influência iraniana sobre o governo de Damasco e do Líbano, e insiste que uma influência de governo sunita será muito mais positiva na perspectiva de uma negociação total com Israel.

Assim, Erdogan esforça-se em conjugar a grandiloquente política neo-otomana de liderança periférica no Grande Oriente Médio com a garantia do papel de fiador dos interesses vitais de Washington e, também, de Israel.

Questão curda

Tudo isso é bom demais para ser verdade e corre o risco de ser comprovado para Erdogan o que foi a invasão no Canal de Suez para os então líderes da Grã-Bretanha e França. Foi quando os governos de Londres e Paris, que aos olhos da opinião pública árabe eram os dinastas colonialistas no Grande Oriente Médio e na África do Norte, apresentaram-se como fiadores da legalidade internacional.

Hoje, os herdeiros do Império Otomano preparam-se para intervir em um país que já foi região otomana até 1918 e da qual o regime kemalista apoderou-se com a colaboração da França, em 1938, a região de Alexandreta.

Em outras palavras, a Turquia corre o risco de representar-se diante de uma grande parcela da opinião pública árabe como o conquistador que está retornando, para irritar o Irã, que verá perdidos seus apoios na Síria e no Líbano, assim como a Rússia, cujo governo já mandou avisar que, para abandonar o regime de Bashar El Assad, exige garantias de sua grandiloquente influência sobre qualquer governo de Damasco no dia seguinte.

Tudo isso terá, fatalmente, sérias consequências no interior da Turquia. Primeiro, o envolvimento militar fora das fronteiras atribuirá papel à liderança militar turca. Segundo, a submissão dos alawitas aos sunitas levantará os alevidas. Terceiro, um Curdistão independente no norte do Iraque junto com o levante dos curdos da Síria envolverá a questão curda dentro das fronteiras.

Georges Pezmatzoglu - Correspondente.

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