Com PIB a 2%, Primeiro Mundo só em 2112

João Paulo de Almeida Magalhães, presidente do Corecon-RJ: mesmo com inflação de 20%, PIB per capita cresceu 75% no Pós-Guerra

Segundo o Banco Mundial (Bird), se a média do crescimento global se mantiver na casa dos 2% ao ano e o Brasil crescer a 3,5% anuais, levaria quase um século para superar o atraso do país em relação ao mundo desenvolvido. Já um crescimento anual médio de 7% reduziria esse hiato para 40 anos.

 

“Significa que crescer 7% ao ano é o mínimo”, observa o presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-RJ), João Paulo de Almeida Magalhães, para quem o governo é vítima de uma “visão curtoprazista”, que tem, segundo ele, apoio da mídia.

“Hoje o cidadão abre o jornal e parece que o governo Lula foi ótimo, enquanto o economista Reinaldo Gonçalves mostra, com a pesquisa Desenvolvimentismo às avessas, que o Brasil foi o sétimo pior desempenho do mundo no período Lula”, diz Magalhães. “Em 2011, o PIB cresceu 2,8%, a menor taxa da América do Sul. No entanto, os jornais seguem dizendo que continuamos bem.”

O economista critica o teto de 5% estabelecido para o crescimento do país sem causar pressão sobre os preços: “O próprio Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea) diz que o PAC garante esse patamar. Mas para um governo que, corretamente, dá prioridade à distribuição de renda, esse não é o melhor caminho. Se o Brasil crescer a 5% ao ano com inflação zero, durante 20 anos, teria crescimento de 46% no PIB per capta. Ora, no pós-guerra, crescemos, em média, 7%, com inflação de 20%, e o PIB per capita cresceu 75%”, compara Magalhães, que finaliza o livro Crescimento e desenvolvimento: o novo e necessário enfoque para as políticas de desenvolvimento, no qual defende a retomada do planejamento de longo prazo.

Atual política econômica é “curtoprazista”

O presidente do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro (Corecon-RJ), João Paulo de Almeida Magalhães, afirma que a visão otimista a respeito do desempenho da economia brasileira desde a primeira gestão de Lula só se justifica dentro de uma ótica que privilegia o curto prazo.

“A política econômica sofre de “curtoprazismo”. Há pouco tempo, o próprio Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea) publicou o estudo Trajetórias recentes do Desenvolvimento, mostrando que, entre 1995 e 2004, o Brasil teve o pior desempenho no grupo dos grandes emergentes, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (Brics). Enquanto a média anual de crescimento do país ficou em 2,7%, a China teve média de 9,4%, no mesmo período, enquanto a Índia chegou a 6,7% e a Rússia apresentou média de 3,5%”, compara, acrescentando que, apesar da proximidade com a Rússia, este país teve média de 6,8% no período 2001-2008, bem superior à do Brasil, que, nessa base de comparação, alcançou média de 4%.

“Esse otimismo só se justifica numa visão de curto prazo e tem conseqüências lamentáveis”, resume o presidente do Corecon-RJ, que em breve lançará o livro Crescimento e desenvolvimento: o novo e necessário enfoque para as políticas de desenvolvimento.

Como está sendo estruturado seu novo livro?

Entre outras coisas, procuro mostrar que, no caso dos países asiáticos, a demanda tem grande importância para o desenvolvimento, mas não a demanda monetária e, sim, a real. No caso brasileiro, é necessário certo protecionismo, pois a elevação do preço do produto importado favorece o nacional.

Por que a critica ao “curto-prazismo” da política econômica?

Ele é grave porque, num país subdesenvolvido como o Brasil, o longo prazo que leva ao desenvolvimento a taxas aceleradas de crescimento deve ser a maior preocupação. Hoje o cidadão abre o jornal e parece que o governo Lula foi ótimo, enquanto Reinaldo Gonçalves (economista da UFRJ) mostra que foi o sétimo pior desempenho do mundo. Ano passado, o PIB cresceu 2,8%, a menor taxa da América do Sul. No entanto, todos continuam dizendo que continuamos bem.

Quais as principais limitações do modelo que privilegia o curto prazo?

A principal delas é limitar o crescimento a um teto de 5%. O Ipea diz que o PAC garante esse patamar, mas para um governo que, corretamente, dá prioridade à distribuição de renda, esse não é o melhor caminho.

Por quê?

Neste livro que estou finalizando, mostro que, se o Brasil crescer ao ritmo de 5% ao ano com inflação zero, durante 20 anos, teria um crescimento de 46% no PIB per capta. Ora, no pós-guerra, crescemos a uma média de 7%, com inflação de 20%, e o PIB per capta cresceu 75%.

Qual sua visão a respeito do fenômeno da desindustrialização?

O Ipea, mais uma vez, já denuncia esse fenômeno há muito tempo. Há um texto para discussão produzido pelo instituto em 2011, intitulado Indústria enfrenta os maiores desafios da história: juros, impostos, infraestrutura e sobrevalorização cambial, que mostra claramente a desindustrialização. Temos de concorrer com países extremamente competitivos, com taxa de câmbio desvalorizada. O Brasil aceita porque está se beneficiando do preço das commodities. É, novamente, uma visão “curtoprazista”. A começar porque algumas commodities não são renováveis, e as que são têm o problema da elasticidade de renda. Ou seja, a demanda não acompanha o crescimento das economias. Estimativas apontam que essa onda vai durar até 2022.

Por que, na sua opinião, o pessimismo quanto à Argentina é outra característica da visão “curtoprazista”?

Há oito anos o país cresce acima de 7%. Está se reindustrializando. Tem visão desenvolvimentista e nacionalizou uma companhia de petróleo, que, além de não investir, remetia tudo o que podia para a matriz em dificuldades. O Brasil deveria reconhecer esse esforço da Argentina, pois se os dois países mantiverem seus respectivos ritmos de crescimento, daqui a 20 anos o salário mínimo dos argentinos será cinco vezes maior que o nosso. Costumo brincar com amigos que a Argentina terá de construir um muro para evitar que o Rio Grande do Sul se mude para lá

Mas o padrão de vida no Brasil não está melhorando?

Não se pode medir o padrão de vida em termos absolutos. Há que se comparar com os outros países. No Brasil, as classes D e C têm o maior eleitorado e o governo atende suas reivindicações. Diminui também a carga horária da classe média, mas a prioridade deveria ser a eliminação do atraso. Há dois anos, o Banco Mundial (Bird) publicou relatório elaborado por 18 economistas, dois deles ganhadores do Prêmio Nobel, que discutiram desenvolvimento econômico.

O trabalho calcula o que é preciso fazer para que os subdesenvolvidos superem o atraso. No caso do Brasil, supondo que o mundo cresça a 2% ao ano e o país a 3,5%, levaria quase um século para superarmos o atraso. Já um crescimento anual médio na casa dos 7% reduziria esse hiato de tempo para 40 anos. Significa que crescer 7% ao ano é o mínimo.

A presidente Dilma parece estar decidida a reduzir as taxas de juros absurdas praticadas no país. É um bom sinal?

Dilma tem uma certa visão de longo prazo, até por causa de sua formação. E baixar juros faz parte de uma visão de longo prazo. O Brasil tem de ter juros um pouco maiores que o mercado internacional porque é subdesenvolvido, mas nenhum vizinho nosso tem juros tão altos. Para crescer mais aceleradamente teria de baixar os juros para níveis internacionais e o câmbio ser mais competitivo. Para um governo desenvolvimentista, há pouca coragem.

Baixar muito as taxas de juros não inibe o ingresso de poupança externa?

Na verdade, é preciso parar de atrair esse capital. Há estudos da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), do Bresser-Pereira (ex-ministro da Fazenda) e outros mostrando que mesmo o capital de longo prazo que entra não está alavancando a taxa de investimento.

Reconheço que elevar o dólar de uma hora para outra para o nível de R$ 2,60, como quer o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ou para R$ 2,80, como defende o economista João Sicsú, ex-diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, seria uma temeridade. Muitas empresas daqui estão tomando empréstimos no exterior, a China pode querer retaliar. Então tudo isso tem de ser ponderado. Mas no governo Dilma creio que predomine a visão desenvolvimentista, ao contrário de Lula, que tinha Meirelles (Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central) e Palocci (Antonio Palocci, ex-chefe da Casa Civil). Hoje a desindustrialização já é admitida abertamente pelo próprio governo.

Então Dilma e Mantega têm visão desenvolvimentista?

Sim, mas temos de cobrar, como estão fazendo os europeus. Se eu fosse assessor da oposição recomendaria bater na desindustrialização, no baixo crescimento, usando documentos do próprio governo. Mas a oposição não lê. São estudos de mais de 500 páginas, publicados pelo Ipea.

Rogério Lessa

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