Cézar Manoel de Medeiros-Doutor em Economia – IE/UFRJ-Janeiro/2012
Países que conseguiram crescimento econômico prolongado (EUA, Alemanha, Japão, Coréia do Sul, Brasil, China, entre outros) reuniram convergências entre o Estado indutor do desenvolvimento, programas governamentais prioritários, e a implementação de estratégias empresariais de investimentos.
Durante um longo período, de 1930 a 1980, o Brasil experimentou um ciclo de crescimento (com destaque para o “milagre econômico” entre 1967/84) baseado nos processos de substituições de importações e na estruturação de um sistema produtivo bastante diversificado e integrado, sob a liderança de empresas do tripé: setor produtivo estatal, multinacionais e empresas privadas nacionais. As taxas anuais de investimentos atingiram 28% em relação ao PIB, o qual registrou crescimento médio de 7% a.a. durante o período.
Ao contrário, no período entre 1985 e 2004, as taxas de investimentos em relação ao PIB oscilaram bastante e chegaram a atingir níveis inferiores a 15%. O crescimento médio do PIB, ao ano, foi inferior a 3% e oscilou bastante durante o período.
Desde 2004/2005, está em andamento, no Brasil, um novo ciclo virtuoso de desenvolvimento baseado na estruturação de um amplo mercado de massas via inclusão e ascensão social e redução de desigualdades sociais e regionais, cujo sucesso a longo-prazo depende de aumentos da produtividade, que exigem elevados investimentos.
Desde 2005/2006, o Governo vem adotando medidas que visam estimular investimentos. A meta atual é alcançar 21% em relação ao PIB já em 2012. Depois de ter superado 19% em 2008, caiu para 16,9% em 2009 e recuperou para 18,5% em 2010, ou próximo a 19% em 2011.
Puga e Borça (2011) , destacaram a elevação da produtividade de máquinas e equipamentos no Brasil em relação a vários países. Concluíram que a produtividade do investimento no Brasil não é inferior à dos países selecionados, inclusive China e EUA, devido a crescentes disponibilidades de novos processos tecnológicos de gestão e, de modernas máquinas e equipamentos, vem contribuindo para elevar, ainda mais, a produtividade de investimentos no Brasil.
Entre outras razões que permitem supor menores necessidades de formação bruta de capital fixo, para elevar taxas de crescimento do PIB, nos próximos anos, cabe enfatizar:
- declínio dos preços de bens de capital em relação aos preços de commodities, de produtos e de serviços finais . De acordo com o IEDI (2011) , o preço relativo do investimento fixo em termos de bens de consumo final (consumo das famílias e consumo do governo) também tem recuado quase que em igual grandeza;
- utilização intensiva de máquinas e equipamentos que já incorporam TIC (Tecnologia da Informação e da Comunicação), proporcionando diminuição de custos de uso e aumentos da produtividade de bens de capital;
- diminuição da divisibilidade técnica de máquinas e equipamentos que reduzem descompassos entre oferta e demanda, minimizando ociosidades da capacidade instalada;
- emparelhamento tecnológico (cathing-up) via absorção de tecnologias já dominadas, em vários ramos industriais e de serviços, pode ser estimulados pela nova política industrial, o que resultará em menores custos de produção e de dispêndios com pesquisa, desenvolvimento e inovações das empresas contempladas;
- dados recentes do comércio exterior brasileiro registram significativas mudanças nas relações de trocas e de preços relativos favoráveis a commodities em relação aos produtos industrializados. Aumentos de preços de componentes de máquinas e equipamentos para produzir várias commodities têm sido inferiores aos aumentos de preços das próprias commodities;
- ganhos de escala e de eficiência no uso de processos modernos de gestão (Kanban, Just-In-Time);
- adoção de processos tecnológicos avançados capazes de reduzir tempos, movimentos e custos de transação em setores intensivos em capital, tais como: mineração e siderurgia, obras de construção pesada, logística, portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, aquavias, grandes instalações industriais e exploração de cada fonte da matriz energética;
- utilização, nos casos de edificações e pavimentações, tanto de modernos equipamentos, quanto de melhor aproveitamento de resíduos sólidos, de materiais mais eficientes e mais baratos, que também minimizam tempos e movimentos e custos de produção;
- diferentemente de décadas anteriores, o crescente uso de máquinas e equipamentos de empresas especializadas do país e do exterior, vem permitindo diminuir investimentos em aquisições pelas construtoras responsáveis pelas grandes obras, e assim possibilitam evitar depreciações;
As hipóteses elencadas sintetizam possibilidades de importantes inovações que poderão proporcionar menores necessidades de capital por produto e de maior formação bruta de capital fixo em relação ao PIB, nos próximos anos no Brasil, mas devem ser objeto de ampla pesquisa para confirmá-las.
Se confirmadas, será plenamente factível estimular investimentos e continuar incentivando o consumo, como estratégias para garantir a expansão da produção e do emprego nos próximos anos.
Em poucas palavras: é provável, que cerca de 21% de investimentos em relação ao PIB possa proporcionar crescimentos anuais médios do PIB em torno de 5% a.a durante o período previsto para implementação do PAC, do MCMV e de obras de infraestrutura prioritárias para Governos Estaduais e Municipais.
Tão importante quanto às considerações elencadas, cabe tecer alguns comentários sobre o setor de serviços. Embora existam significativas contribuições do setor para aumentar a produtividade dos agronegócios devido, principalmente, a atuação da EMBRAPA, e para modernização de vários ramos industriais, do setor comercial e do próprio setor serviços, a produtividade média do setor serviços, como um todo, não vem acompanhando o crescimento da demanda, o que provoca pressões inflacionárias.
A conclusão do PAC, a implementação do Brasil Maior, bem como os novos programas de saúde e educação contribuirão, com certeza, para elevar a produtividade sistêmica. Além disso, não são nada desprezíveis os avanços no processo de modernização do comércio, das atividades de lazer, de cultura e de esportes. Cabe sublinhar também que vem crescendo, significativamente, a construção de shoppings e de centros de lojas, inclusive em cidades médias e até em algumas cidades pequenas consideradas pólos, o que tem aumentado a produtividade do setor comercial.
Incentivos fiscais, tais como redução do ISS e do ICMS, assim como linhas de créditos especiais, para adoção de TIC e novos modelos de gestão poderão acelerar aumentos da produtividade dos setores de serviços e do comércio.
No que diz respeito, ao financiamento de longo prazo, imprescindível para viabilizar investimentos capazes de elevar a PME através de maior envolvimento do sistema financeiro cabem algumas colaborações. A configuração atual do sistema financeiro brasileiro em grandes conglomerados financeiros ou verdadeiros Bancos Universais Contemporâneos (BUCs) modernos e sólidos, reúne condições necessárias e suficientes para estruturar novo modelo de financiamento de longo prazo complementar ao BNDES, tanto via novas linhas de crédito adequadas, quanto a prazos e encargos financeiros em combinação com a diversificação do mercado de capitais.
Como atuam em diversos segmentos , os BUCs poderão acelerar o movimento virtuoso de mão dupla observado já há alguns anos. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal poderão induzir os grandes conglomerados financeiros privados a promover parcerias fundos de previdência complementar, com investidores institucionais, com as médias e as grandes empresas, privadas e estatais, com as entidades de classes empresariais representativas de vários setores, de modo a mobilizar excedentes financeiros gerados pelos aumentos sucessivos de lucros, tanto dos próprios bancos, quanto das empresas.
Neste contexto, os grandes BUCs, além de reduzir spreads e juros nominais, e também de taxas de administração pela captação de recursos podem criar e/ou dinamizar instrumentos e financiamento de longo prazo (fundos de investimentos em participações, fundos de investimentos de direitos creditórios, fundos de investimentos imobiliários, fundos de investimentos baseados em recebíveis, letras financeiras, fundos de private equity, etc.) e, ao mesmo tempo, grandes corporações, a exemplo da Cia Vale, do grupo Votorantin, das principais montadoras de veículos podem gerar fundos de investimentos corporativos para financiar clientes e, principalmente, fornecedores e prestadores de serviços, tais como o fundo PROGREDIR da Petrobrás em parceria com o BB e outros bancos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O texto pretende provocar o debate sobre a importância da produtividade para sustentar o modelo de desenvolvimento em curso que visa transformar o Brasil em um país de classe média nos próximos 20 anos. Algumas instigantes hipóteses sobre as tendências do comportamento da produtividade devem merecer análise mais aprofundadas envolvendo pesquisas especializadas, cuja comprovação poderá resultar em políticas públicas para viabilizar evolução da formação bruta de capital fixo em relação a taxas de crescimento do PIB e do nível de emprego. A esse respeito, com base em um movimento de mão dupla entre os conglomerados financeiros ou banco universais contemporâneos e as grandes corporações foram sugeridas algumas alternativas para promover um novo padrão de financiamento de longo-prazo complementar ao BNDES.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- Ver Puga, Fernando e Borça, Gilberto em BNDES – Visão do Desenvolvimento – Nº95
- Castro, Antônio Barros – O Inconformista – Tendências Pesadas – IPEA, 2011 (Homenagem ao Mestre)
- IEDI – Carta IEDI nº 500 de 30/12/2011