Carlos Lessa: “A favela me levou para a esquerda, não os discursos”

Rogério Lessa

O ex-presidente do BNDES Carlos Lessa se declara fascinado pelas favelas como solução criativa do povo brasileiro para a moradia e inserção no mercado de trabalho. No entanto, gostaria que essas comunidades carentes tivessem destino semelhante ao das antigas áreas pobres de Portugal, Espanha, Grécia ou mesmo Estados Unidos, onde bairros populares, assistidos pelo Estado, se tornaram locais valorizados.

“A favela é a mais visível demonstração de que o desenvolvimento das forças produtivas brasileiras é desigual e pouco eficiente do ponto de vista social. Foi a favela que me levou para a esquerda, não o discurso dos esquerdistas”, declara o economista, que foi reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acrescentando que a favela expressa também uma deficiência do modo de desenvolvimento brasileiro.

Ele informa que está escrevendo um livro com propostas para as favelas: “Nenhuma comunidade sobrevive sem valores próprios, que são uma espécie de constituição. Desse ponto de vista, cada favela é uma micronação”, define.

Somente a falta de programas habitacionais explica a proliferação das favelas no Brasil?

A favela é a mais visível demonstração de que o desenvolvimento das forças produtivas brasileiras é desigual e pouco eficiente do ponto de vista social. As famílias que não têm inserção estável no mundo do trabalho obtêm na favela, de maneira informal, uma renda monetária a partir da autoprodução, não do autoconsumo.

Poderia citar um exemplo?

A própria construção das moradias. Ela começa pela reciclagem de materiais. Depois, quando as famílias percebem que não serão removidas partem para a alvenaria. Na maioria das vezes o trabalho é feito de forma cooperada, em determinadas fases da obra, como na colocação da laje. Daí o meu fascínio.

A favela é uma saída para nossa incapacidade de incorporar grandes frações da população urbanizada, proveniente do campo e para a qual não se planejou nada, nem mesmo uma ocupação. Os métodos produtivos em geral eram semelhantes aos da zona rural. O paradigma inicial é a habitação rural. Ela tem de se ajustar ao terreno. Na zona rural, em geral, as casas ficavam próximas da água e dentro da fazenda. O proprietário permitia algum cultivo de subsistência. Já na cidade, o que sobre é o morro ou o terreno pantanoso, áreas que ninguém quer, mas que são próximas do local de trabalho, que nem sempre é ofertado. É uma deficiência do desenvolvimento brasileiro, pois na cidade só se sobrevive com renda monetária. Assim, cada favela reflete o modo como obtém renda monetária.

Como isso funciona?

Na Zona Sul do Rio, por exemplo, os chamados favelados são basicamente prestadores de serviços, lícitos ou ilícitos, para a classe média. Um “balanço de pagamentos” entre favela e asfalto revelaria exportação de serviços e compra de mercadorias. Dentro da favela existe ainda um arremedo de sistema comercial no qual a birosca é também a caricatura de um banco, pois é necessário vender a prazo, já que há intermitência na renda das pessoas.

Qual seria a garantia “bancária” nesse caso?

Em alguns casos, pode ser o próprio barraco. É uma reprodução caricaturada do que acontece na cidade, sem a presença do Estado. Na verdade, cada favela é uma micronação, pois nenhuma comunidade sobrevive sem renda monetária e valores próprios, que, juntos, formam uma espécie de constituição, que expressa também como a comunidade obtém a renda monetária. Em geral, são operários, que prestam serviços ocasionais. Se a favela for próxima de um “lixão”, por exemplo, terá uma mina renovável para obtenção de renda.

Mas essa não é uma forma ideal de sobrevivência…

Certamente não, o que estou dizendo é que é perfeitamente possível construir uma tipologia das favelas, inclusive pela localização e pela história. Há dentro delas uma heterogeneidade. Não é apenas a evidência de que o sistema é incapaz de oferecer desenvolvimento para todos, mas cada uma delas é também uma micronação porque possui história e território próprios, regidos por uma “constituição”.

Como os países desenvolvidos trataram essa questão?

Eles regularizaram suas favelas. Em Lisboa, Portugal, existe a Moraria, outrora uma região decadente, com extenso casario. O local recebia imigrantes. O tempo e a estabilidade criaram um bairro romântico e valorizado. Outros bons exemplos são a Juderia – bairro reservado aos judeus – em Sevilha, ou o Harlem – bairro de Manhattan, em Nova York. que se tornou conhecido por ser um grande centro cultural e comercial dos afro-americanos. O bairro se converteu num endereço de prestígio para a indústria de consumo e diversão. Essas comunidades podem ser encontradas em vários lugares do mundo, mas, na América Latina, nossas favelas não passaram por esse processo de incorporação sistêmica.

Por que em nosso continente essas comunidades continuam sendo micro-nações e não se transformam em bairros?

Quando uma favela é totalmente incorporada à cidade, geralmente acontece uma expulsão, configurada na mudança de propriedade. Um exemplo disso é o bairro de Brás de Pina, que foi urbanizado e em pouco tempo não sobrou ninguém da comunidade que historicamente ocupou aquela região, pois estes venderam suas casas, que valorizaram com a urbanização, e foram para outras favelas. Isso mostra o quanto nossa sociedade é desigual e ineficaz na incorporação social. Em outras palavras, nossas carências são demonstrações de incompetência.

Quais as conseqüências dessa incompetência?

O povo constrói sua própria residência. Se não tem polícia, constrói sua estrutura de comando. Se não há creche, o povo inventa a chamada “mãe crecheira”. A ausência do Estado leva a isso. São pessoas sem endereço, daí o fornecimento de energia ser tão importante. A conta de luz, por sinal, é usada como prova de propriedade. Significa que a própria coletividade cria substitutos para a formalização legal.

Então não existe o propalado “caos” nas comunidades carentes do país?

Não existe caos. É uma tolice acreditar em caos. Há ciclos de solidariedade nas favelas. Os fundadores convidam ou autorizam a entrada de novos membros.

Como fazer para que não se repita o exemplo de Brás de Pina? O programa Favela Bairro, no Rio, também produziu migração e verticalização…

O enfrentamento desse problema deve ser em conjunto. Sugeri a Ulysses Guimarães, quando foi candidato à Presidência da República, um projeto que convertesse as favelas em bairros populares, mas todas elas. Seria justo. A favela é uma saída criativa do povo.

As inovações singelas, porém vigorosas, produzidas pela população costumam ser incorporadas pelo capital. Há uma enorme perversidade nisso, mas, na outra ponta, o povão se apropria do capital e inventa meios de sobreviver, como é o caso do flanelinha, da reconstituição de peças de veículos usados ou o sorvete feito em casa. Há uma interatividade nisso. Assim o povo sobrevive.

 

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Uma resposta a Carlos Lessa: “A favela me levou para a esquerda, não os discursos”

  1. Gustavo disse:

    que maravilha de entrevista!!

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