Quando se trata de geopolítica, em geral a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), de um lado, e, de outro, China e Rússia costumam ser os atores mais lembrados. No entanto, a Índia, dona de uma população de mais de um bilhão de habitantes e possuidora da bomba atômica, desempenha papel cada vez mais importante no cenário mundial. O país, que na última semana sediou a 4ª Cúpula do Brics (bloco formado por África do Sul, Brasil, Rússia, Índia e China) se tornou o maior importador de armas do mundo e se aproxima dos Estados Unidos, que estão prestes a apoiar o ingresso da Índia no seleto grupo dos membros votantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em contrapartida, os indianos estão gradualmente abrindo suas contas financeiras e internacionalizando suas empresas, apesar do déficit estrutural em contra corrente.
“A Índia vem apresentando altas taxas de crescimento, em torno de 8% ao ano, particularmente a partir de 2000. A expansão de sua economia tem contribuído não apenas para criar oportunidades para os investimentos externos que ingressam no país quanto para estimular o investimento de suas empresas no exterior. Contribuem, neste último caso, tanto a experiência adquirida por essas empresas no mercado doméstico (caso das grandes corporações), associada a pressão competitiva a qual estiveram expostas nos anos 1990, quanto as políticas governamentais de remoção de barreiras para a saída de investimentos e a criação de instrumentos específicos para tal fim”, diz o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em estudo divulgado na última semana, intitulado “A internacionalização das empresas indianas”, apresentado pelo diretor-adjunto da Diretoria de Estudos Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset), Lucas Ferraz, que participou da elaboração do trabalho em parceria com a equipe da Assessoria Técnica da Presidência do Ipea.
Segundo Ferraz, em 2006 os fluxos de investimento direto externo (IDE) realizados pela Índia aumentaram em 380% em relação ao ano anterior, chegando a um total de mais de US$ 14 bilhões anuais, conforme o MM publicou na edição de 30 de março, sexta-feira.
Ativos estratégicos
Entre os principais países asiáticos em desenvolvimento realizadores de IDE, a Índia chegou à melhor posição do ranking em 2008, quando realizou US$ 19,4 bilhões e ficou em 4º lugar. Em 2000, sua posição havia sido 9º lugar (US$ 514 milhões), e em 2010, após sofrer os impactos da crise de 2008, ficou em 5º, tendo realizado US$ 14,6 bilhões.
Nos anos 90, 44% dos investimentos externos das empresas eram destinados às regiões desenvolvidas. Atualmente, essas regiões predominam, tendo esse percentual chegado a 53%. “O objetivo da Índia é entrar nesse mercado para obter ativos estratégicos, como na indústria farmacêutica, garantindo mercado para medicamentos genéricos, automobilística, para o acesso a componentes e automotivos, e de informática, com os serviços de software”, explica Ferraz.
Antes da década de 1990, a motivação básica para a internacionalização das empresas era a busca de novos mercados. Nos anos 1990, a estratégia mudou para trade supporting, que consiste na instalação de escritórios locais para apoiar a atividade exportadora. A partir dos anos 2000, essas empresas ganharam escala maior e procuraram mais mercado, acesso a marcas e clientes, e recursos naturais.
Paz e guerra
Apesar da imagem pacífica, herdada de Mahatma Gandhi, a Índia se tornou o maior importador de armas do mundo. O economista Adhemar Mineiro, da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip), lembra a influência indiana no fomento aos conflitos que colaboram com a divisão do Paquistão. “A Índia tem tradição na luta pela descolonização e acabou assumindo papel de liderança entre os não-alinhados. Mas tem uma relação conflituosa com o Paquistão e dificuldade de conviver com a desigualdade interna, tanto em termos materiais, quanto religiosos”, analisa, ponderando que a aproximação com Estados Unidos e Israel tenha, “talvez, o objetivo de frear o radicalismo, tanto islâmico, quanto hindu”.
Mineiro, integrante do Conselho Editorial do MM, lembra também a dificuldade do país para se expandir economicamente na Ásia. “Os indianos acabam não tendo muito essa alternativa, ao contrário do que ocorre na China, que tem capacidade de negociação e de montar cadeias produtivas na região. A Índia tem esse problema com o Paquistão, uma geopolítica bem complicada. Os dois países desenvolveram armas nucleares por conta disso”, argumenta, acrescentando que, do lado oposto ao Paquistão, a Índia tem a concorrência da própria China.
Quanto aos problemas com o radicalismo, Mineiro observa que, apesar da diversidade no bloco, entre os Brics não há países islâmicos. “Apenas o Brasil tentou aproximação com a Turquia. Todos os demais têm problemas com minorias islâmicas. Daí a dificuldade dos Brics em se posicionarem quanto à Síria. E a Índia, particularmente, tem processo de desenvolvimento de tecnologia militar”, analisa.
O economista lembra que os indianos dependeram por um tempo da tecnologia dos russos, e hoje não desfrutam de muita confiança dos norte-americanos, evitando transferir tecnologia militar. “A grande força da Índia é o tamanho da população. Andaram lançando foguetes, setor no qual haveria uma outra possibilidade de cooperação com os parceiros do Brics. A Rússia tem programa espacial antigo. China e Brasil, com menos eficiência, também desenvolvem os seus. Talvez por isso os membros do governo brasileiro ligados à ciência e tecnologia tenham acompanhado a presidente Dilma Rousseff no encontro dos Brics, ocorrido em Nova Delhi, semana passada”, pondera, lembrando que tanto do atual ministro de Ciência e Tecnologia, Fernando Pimentel, quanto seu antecessor, Aloízio Mercadante, faziam parte da comitiva.
Ceticismo
No entanto, Reginaldo Nasser, professor do Departamento de Plítica da PUC-SP, se diz cético em relação aos novos arranjos políticos em grupos como o G20 e Brics, através dos quais, teoricamente, os grandes países emergentes como a Índia poderiam ter plataformas de expansão da influência. “No plano governamental, não creio que G20 e outras siglas possam mudar o curso dos acontecimentos. São novos arranjos, mas em questões pontuais”, diz o cientista político. Para ele, os membros dos Brics “têm histórias e sociedades muito diferentes. Os pontos em comum são mais conjunturais”, argumenta, elencando, como questões do momento, as agrícolas e financeiras.
Economia
Diante desse cenário, o pragmatismo na economia se impõe à política, momentaneamente. E o estudo do Ipea mostra onde estão as prioridades dos investimentos indianos. “Em 2010, aceleraram os investimentos nos setores de serviços prestados às empresas (business services), metais, software e tecnologia da informação (TI) e lazer e entretenimento. O setor de metalurgia recebeu o maior aumento de investimento neste ano (43%), tornando-se o segundo maior recebedor de investimentos de capital no mundo. Já software e TI, formaram o setor líder de projetos de investimentos greenfield (investimentos em novas plantas) em 2010, com um crescimento de projetos da ordem de 5,4%”.
A mudança do padrão setorial, segundo o Ipea, foi acompanhada por transformações na distribuição geográfica dos investimentos, com a crescente participação dos países desenvolvidos como destino do IDE indiano. Note-se que na década de 1990, as regiões desenvolvidas atraíram quase 44% dos investimentos externos indianos, e na década de 2000 essa proporção cresceu para 53% dos fluxos de saída de IDE indiano.