Diálogos Desenvolvimentistas: Que linha editorial seguir?

Caros leitores, esta edição de nossos Diálogos procura aprimorar nossa linha editorial.

Ceci Juruá – Atendendo ao convite de Rogério, para enviarmos sugestões sobre nossa linha editorial, proponho:

 

- Dar ênfase aos grandes intelectuais da América Latina, aqueles que pensam grande e além do cotidiano e das vaidades pessoais; No meu entendimento temos três grandes intelectuais: o comandante Fidel Castro, em primeiríssimo lugar, é o único que faz reflexões de peso sobre a geopolítica, o panorama mundial; em seguida Solanas, o grande cineastra argentino, autor das principais obras cinematográficas sobre os efeitos perversos do neoliberalismo na América Latina; e last but not the least Eduardo Galeano, autor de tantas obras magníficas, como o recente Delírio dos Loucos.

 

- No Brasil, um país dos pragmáticos, temos uma plêiade de estadistas e brasileiros ilustres, como Getúlio, Lula e, lá atrás, Alves Branco e Paraná. Na atualidade, as maiores contribuições têm vindo de Bresser e de Belluzzo, mas também de Nakano. Este é o trio que nos merece atenção, minha proposta é que orientemos os debates a partir das contribuições desse trio.

 

 

Rodrigo Medeiros – É uma opinião pessoal, mas não sei se Fidel se encaixa no que entendemos por desenvolvimentismo. Che Guevara foi mais desenvolvimentista porque lutou pela diversificação da economia cubana e perdeu! Acabou lutando contra moinhos na Bolívia, pensando que eram gigantes. Um D. Quixote latino-americano… E Fidel se fossilizou no poder.

 

Adriano Benayon – Em minha avaliação, Fidel não deve ser descartado porque divide mais que soma. Não há quem, se tiver alguma substância, não seja polêmico, e quem não o for é politicamente correto, ou seja: nada acrescenta à embromação tão do agrado dos donos do statu quo. Reconheço que o modelo que ficou em Cuba, seja lá por que razão, não serve de exemplo, mas aceitaria o nome de Fidel, em função de suas apreciações bem fundamentadas, como uma recente transmitida ao grupo pela Ceci, acerca do quadro de poder mundial.

 

Mas aí, estamos na área dos teóricos. Ficam faltando estadistas, pois, dos sugeridos por Ceci, só restou Getúlio Vargas. Lula, sinceramente, não é exemplo, como JK tampouco o é, pois crescimento real menos medíocre que o usual não implica pontos positivos para o desenvolvimento.

 

Vocês são fãs de Celso Furtado. Então, lembrem-se que ele era considerado estruturalista. Ora, Lula, como JK, não mexeu, se não muito pouco e superficialmente, para alguma transformação positiva na estrutura dos mercados, na industrial, na agrária, na tecnológica. Em suma, em coisa alguma que leve ao desenvolvimento real.

 

Quais estadistas seriam, a meu ver, cotados para entrar na lista? Talvez Hipólito Irigoyen, presidente da Argentina nos anos 30. Não descartaria Chávez, pois a Venezuela tinha a estrutura econômica mais atrasada da América do Sul, viciada nas exportações de petróleo e totalmente dependente das importações que aquelas pagavam, um zero em matéria de tecnologia industrial.

 

Exemplos mais recentes à esquerda e à direita (não estou nem aí, para essas classificações) devem ser buscados principalmente na Ásia, na Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e, claro, na China, tanto Mao como Deng.

 

Nos teóricos brasileiros só faltou falarem no Delfim. Roberto Campos é o palavrão, como também FHC na área dos ex-presidentes. São a antítese do desenvolvimento, da subordinação absoluta ao poder da oligarquia anglo-americana, do permanente atraso estrutural.

 

Bresser, Beluzzo e Nakano? Nenhum desses vai fundo na questão fundamental: como abrir o espaço do mercado brasileiro às transnacionais (e ainda por cima as cumular de subsídios e vantagens de todo tipo) e esperar que tecnologias sejam desenvolvidas no País e sejam a base da força da indústria nacional.

 

Japão, Coréia do Sul e Taiwan obtiveram notáveis progressos evitando, com habilidade (dificuldades burocráticas exasperantes para as ETNs), e até agora a China atual, com progressos ainda mais espetaculares, é o único país que conseguiu receber as ETNs e impor-lhes condições e absorver suas tecnologias e, claro, melhorá-las.

 

Só os países que desenvolvem estruturas em suas empresas privadas e públicas para absorver tecnologia estrangeira é que conseguem fazê-lo, além de, é claro, ter estadistas e modelo político capaz de assegurar que as ETNs não façam do hospedeiro uma casa da sogra.

 

O resto não me parece prático. A propósito, em outra polêmica que creio estar suscitando, pretendo desenvolver a idéia de que Keynes tampouco representa muita coisa para os reais desenvolvimentistas.

 

É uma “opção”, em lugar dos neoclássicos mais conservadores, dos monetaristas e outros enfants gâtés da direita para fazer de conta que os grandes desastres resultantes do capitalismo concentrador possam ser resolvidos por meio de políticas macro-econômicas, sem promover a desconcentração da economia, sem restabelecer o poder do Estado sobre os banqueiros e demais concentradores.

 

O mesmo que, na política, os socialistas de araque da França, Espanha e tantos outros países, os trabalhistas britânicos, os democratas nos EUA etc. etc., inclusive praticamente todos os partidos que compõem o atual espectro político no Brasil.

 

Rodrigo Medeiros – Ideias são mais importantes do que nomes. Vargas e JK fizeram o que podiam dadas as circunstâncias e correlações de forças vigentes. Pelo menos souberam trazer bons quadros para o governo e impulsionaram políticas desenvolvimentistas.

 

No período JK não se deve esquecer que o tripé desenvolvimentista era formado por Estado, capital privado nacional e investimento estrangeiro. Qual foi mesmo a “pata fraca” do desenvolvimentismo? O capital privado nacional! Daí que para acelerar as transformações econômicas aceitou-se a maior presença do capital estrangeiro. Eram tempos de Guerra Fria e a América Latina não teve o mesmo tratamento dos europeus pós-1945, ou seja, não tivemos um Plano Marshall, mas uma tal Aliança para o Progresso. Esta, como todos sabem, acabou no colo dos conservadores.

 

Há um ótimo texto da Maria da Conceição Tavares sobre esse assunto: “Império, território e dinheiro”. Este artigo pertence ao livro Estados e moedas no desenvolvimento das nações, organizado por José L. Fiori (1999).

 

Quanto à Keynes, penso que foi uma influência importante onde o capitalismo foi civilizado. A experiência social-democrata inicia-se antes da revolução keynesiana de 1936. No entanto, a Teoria Geral foi fundamental para respaldar conquistas progressistas e a intervenção do Estado na economia. Destaco as passagens que tratam da socialização dos investimentos, da propensão marginal ao consumo, do entesouramento como atitude antissocial, das convenções do mercado e da onipresença da incerteza.

 

Robert Skidelsky, biógrafo de Keynes, conta que pouca antes da morte o mestre teria feito um brinde aos economistas: “guardiões não da civilização, mas das possibilidades de civilização”. rsss!!!! Enfim, seria melhor debatermos ideias…

 

Adriano Benayon – Faço breves comentários a esta mensagem de Rodrigo, muito proficiente debatedor do Desenvolvimentistas. Meu objetivo é centrar-me na idéia ou questão: afinal o que significa desenvolvimento?

 

Em função disso, não posso adotar como axiomas certas associações como “JK e políticas desenvolvimentistas” só porque se tornaram lugares comuns. JK falou muito em desenvolvimento, e houve altas taxas de crescimento econômico (algo, como vocês sabem, muito diferente de desenvolvimento).

 

Quanto ao tripé de que Rodrigo fala, ele foi mais explicitamente assumido (sempre no discurso) por Geisel. Então, é preciso explicar o ponto levantado por Rodrigo: o da pata fraca.

 

Eu diria o seguinte a respeito: é claro que o capital privado nacional tinha que ser a pata fraca. Como não ser assim, se a indústria de capital privado nacional, embora promissora, foi sendo matada a partir de 1954 pelas políticas governamentais que passaram a subsidiar as transnacionais, como comentei no recente artigo “Brasil privatizado” e como expus em detalhe no livro “Globalização versus Desenvolvimento”, publicado em 1998 e com segunda edição de 2005?

 

Parêntese: o que importa é o seguinte. Se um país quer mesmo desenvolver-se, tem de tratar de que o capital nacional, inclusive o privado, não seja pata fraca. Pois, do contrário, seus planos autodenominados de desenvolvimento nunca passarão de conversa fiada.

 

Vocês queriam que as transnacionais vendendo em quase todos os países do mundo, com mercado total neles equivalente a cerca de 50 vezes o mercado das indústrias brasileiras de capital nacional, não as fossem alijar de nosso mercado, que lhe teria de ser reservado, como em qualquer país que resolveu encetar o desenvolvimento?

 

Ora, isso teria toda a chance de acontecer, mesmo que fossem dadas a uma perna e a outra perna igualdade de condições. Mas nem isso foi assim: a política governamental de 1954, controlada por gente fã do capital mundial e da abertura total de nosso país, resolveu atraí-lo com subsídios, começando com o de permitir a importação de máquinas e equipamentos usados, com qualquer idade da respectiva tecnologia (tudo mais que amortizado em dezenas de anos de vendas nos mercados do exterior), e ainda por cima permitindo que esses bens de capital fossem registrados como investimento em moeda (a preço declarado pela transnacional, embora o preço real fosse zero, pois eram bens de capital sucatados, substituídos por outros de tecnologia mais recente).

 

Trocando em miúdos, ETN vinha assumir o mercado brasileiro com a vantagem de capital e de tecnologia a custo zero. Quem é que poderia “competir” com isso?

 

Ora, o capital estrangeiro já deitava e rolava mesmo sob Getúlio, que começou a tentar fiscalizar as remessas de lucros disfarçadas e outras fraudes dela. O que não fez, portanto, depois de Vargas, com políticas totalmente favorecedoras daquele capital?

 

Voltando a JK, que fez ele? Eleito, antes de tomar posse, foi rodar a bolsinha em missão de atração de investimentos estrangeiros, que percorreu o circuito Elisabeth Arden (Nova York, Londres, Paris), e adjacências do hemisfério norte.

 

Fez alguma coisa para reverter as desvantagens da perna do capital privado nacional? Não. Não só manteve as políticas que o inviabilizavam, salvo temporariamente em setores em que as transnacionais ainda não estavam entrando à época, como também acrescentou outros favores para estas e até criou grupos especiais para coordenar a implantação dos investimentos estrangeiros, com fast track, desburocratização e demais expressões de ardor pela entrada deles.

 

Não deixou sequer de salientar sua total ignorância de como um país cresce em tecnologia e desenvolvimento, ao afirmar: “não se deve reinventar a roda”. Reinventando-a ou não, os que se desenvolveram cuidaram de que a tecnologia fosse formada sob controle nacional, público ou privado, capacitando-se para criá-la, condição necessária também para absorver a estrangeira (no caso, sem reinventar a roda, mas aprendendo a construí-la e a melhorá-la).

 

A mesma ignorância persistiu ao longo dos governos ditos militares, que, como JK, tiveram alguns falsos milagres (taxas elevadas de crescimento do PIB), com semelhante agravamento das causas estruturais e mesmas consequências desastrosas: déficits acumulados de transações correntes, dívida em crescimento a caminho da inadimplência, como no final dos anos 70 e a própria inadimplência em 1982, inflação em alta etc.

 

Moral: quem não avalia seus erros, está condenado a repeti-los em condições cada vez mais lastimáveis. Por isso, penso que já é mais que tempo para o Brasil aprender com sua própria experiência. Um bom começo é alijar as ilusões, os lugares comuns e os mitos. Outra coisa nessa linha: nunca houve para o Brasil, para desenvolver-se, necessidade de ajuda externa. Plano Marshall é outra coisa que tento desmitificar no meu livro citado.

 

Houve, sim, e há, necessidade de autonomia política, autodeterminação real. Do exterior, a principal ajuda de que se precisa é ser menos sugado, e isso só é possível desenvolvendo indústrias e tecnologias sob controle nacional. E, como disse, para fazer como a China é preciso de um regime politicamente livre da grana dos concentradores privados e da mídia 5ª Coluna, nas eleições.

 

Fazer como a China é acelerar o processo de desenvolvimento, aproveitando também capital e tecnologia estrangeira, sabendo lidar com as ETNs, algo impossível em países obrigados a fazer média com a “democracia” de estilo ocidental, nos quais o principal desenvolvimento possível é o da corrupção (não só a que se costuma expor de muitos políticos, mas principalmente a de muitos que aparecem na mídia como honestos, simplesmente por servirem aos concentradores estrangeiros e receberem suas pagas em contas no exterior. Motto: Maluf e Quércia são muito preferíveis a Covas, FHC e outros do gênero, tucanos e não tucanos.

 

Quanto a Keynes seu prestígio na academia é enorme. Mas isso se deve, em parte, ao fato de as lições provenientes de sua inteligência e criatividade não questionarem o sistema capitalista (concentrador por definição) e, ao contrário, serem consideradas a fonte das principais ferramentas supostamente capazes de preservá-lo. Também, a idéia que não haveria alternativa senão a keynesiana, para os Hayek, Milton Friedman e companhia.

 

De certo modo, se poderia até estimar que, de certo modo, o prestígio acadêmico está na razão inversa da riqueza em lições suscetíveis de abrir o caminho a melhor destino para a humanidade. Isso também é verdade para a filosofia, para a medicina e muitas outras áreas.

 

Rodrigo diz: “… a Teoria Geral foi fundamental para respaldar conquistas progressistas e a intervenção do Estado na economia”.

 

Gostaria de assinalar sobre isso: Carey e todos os norte-americanos do Século XIX elaboradores dos programas de Lincoln e dos demais presidentes desenvolvimentistas dos EUA (todos assassinados: ele, Garfield e McKinley), já tinham recomendado e feito adotar investimentos e intervenção do Estado, de maneira decisiva para o desenvolvimento dos EUA, onde tais políticas estiveram presentes nos níveis federal, estadual e das localidades (condados e cidades).

 

Bismarck e muitos dos que o antecederam na Alemanha tampouco precisaram de Keynes para tornar a Alemanha, através de muita intervenção estatal, um país desenvolvido, em poucos decênios, não obstante estar sua economia, ainda na primeira metade do Século XIX, atrasadíssima em relação à da Inglaterra.

 

Do ponto de vista teórico, em antiga correspondência já me referi aos economistas Lautenbach e Woytinski cujas análises recomendações no início dos anos 30 eram excelentes e só não foram adotadas na Alemanha, porque os concentradores financeiros do eixo Londres/Nova York não o permitiram, pois, do contrário, a economia alemã ter-se-ia libertado da camisa-de-força que lhe foi imposta pelo Tratado de Versailles (1919). Preferiram jogar a carta de Hitler, obtendo, ao final da 2ª Guerra Mundial, o êxito de um de seus planos seculares: eliminar a Alemanha como potência mundial, sobre tudo do ponto de vista militar, que acarreta o político.

 

Rodrigo Medeiros – A análise ex post facto é beneficiada pelo distanciamento e pelo volume crescente de material que se produz sobre um período histórico. Se formos lamentar as oportunidades perdidas, teríamos que voltar aos textos de Celso Furtado:

 

http://youtu.be/2CLR6E6mCLs

 

Concordo com o mestre Furtado de que nossos problemas são de formação histórica.

 

Quanto à não necessidade de Keynes, penso que Hamilton, List e Bismarck podem ser citados. No entanto, precisamos refletir se a formação econômica brasileira é compatível com uma via prussiana? As ideias de Hamilton, que influenciaram List, só venceriam mesmo após a Guerra de Secessão (1861-5). Vejamos a posição de José L. Fiori em 1990 sobre um prussianismo tupiniquim:

 

http://revistas.fee.tche.br/index.php/ensaios/article/viewFile/743/997

 

Tendo a concordar com ele nessa questão. O sistema político brasileiro é isso aí que estamos assistindo e não vejo condições para uma revolução nos costumes. A mídia pode até exagerar e ocultar, mas existem problemas básicos da formação da nacionalidade entre nós:

 

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/03/empresas-flagradas-receberam-mais-de-r-150-milhoes-em-contratos-com-governo.html

 

Enfim, precisamos render homenagem ao Chico Anysio: http://youtu.be/v5Hcf3eSA6w rssss!!!! Claro que precisamos evitar o udenismo… É a política!

 

Alpa – Existem textos do Keynes que ele critica ferozmente a teoria marxista, chegando em um dos textos dele a se referir ao marxismo como bobagem.

 

Rodrigo Medeiros – Ok, mas pode-se compreender a posição social dele na época. Ele estudou em Eton, depois na Universidade de Cambridge e seu pai fora acadêmico nesta última instituição e amigo de Alfred Marshall. Keynes nasceu em 1883, ano da morte de Marx.

 

Há passagens muito interessantes de Keynes antes da Teoria Geral (1936):

 

The disposition towards public affairs, which we conveniently sum up as individualism and laissez-faire,drew its sustenance from many different rivulets of thought and springs of feeling. For more than a hundred years our philosophers ruled us because, by a miracle, they nearly all agreed or seem to agree on this one thing. We do not dance even yet to a new tune. But a change is in the air.

 

E…

 

Some of the most important work of Alfred Marshall – to take one instance – was directed to the elucidation of the leading cases in which private interest and social interest are not harmonious (…) Many of the greatest economic evils of our time are the fruits of risk, uncertainty, and ignorance. It is because particular individuals, fortunate in situation or in abilities, are able to take advantage of uncertainty and ignorance, and also because for the same reason big business is often a lottery, that great inequalities of wealth come about; and these same factors are also the cause of the unemployment of labour, or the disappointment of reasonable business expectations, and of the impairment of efficiency and production.

 

A sugestão…

 

I believe that some coordinated act of intelligent judgement is required as to the scale on which it is desirable that the community as a whole should save, the scale on which these savings should go abroad in the form of foreign investments, and whether the present organisation of the investment market distributes savings along the most nationally productive channels. I do not think that these matters should be left entirely to the chances of private judgement and private profits, as they are at present.

For my part I think that capitalism, wisely managed, can probably be made more efficient for attaining economic ends than any alternative system yet in sight, but that in itself it is in many ways extremely objectionable. Our problem is to work out a social organisation which shall be as efficient as possible without offending our notions of a satisfactory way of life.

 

O texto é The end of laissez-faire (1926).

 

Márcio Oliveira: Gostaria de saber como avaliam o que é dito nas matérias abaixo. Claro que em se tratando do Estadão o viés é neoliberal-entreguista. O que quero chamar atenção é que desde o final de 2008 algumas medidas pontuais estão sendo adotadas para proteger a indústria nacional. Provavelmente são tímidas e insuficientes. Mas será que cabe apenas a governos lidar com os problemas da desindustrialização e da desnacionalização? O pouco que conheço de história sugere que os países que se desenvolveram atraíram cientistas e especialistas diversos para seus territórios, oferendo-os condições de trabalho adequadas. Não seria o caso de darmos mais atenção à importação de talentos? Não para dar ordens, mas para compartilhar e multiplicar seus conhecimentos junto às novas gerações. Nacionalismo não pode ser confundido com xenofobia (não estou dizendo que alguém aqui pensa assim), ainda mais num país como o Brasil que tem na diversidade e tolerância cultural/social/religiosa um grande diferencial. Claro que essa tolerância frequentemente beira a subserviência, comodismo etc. Mas entendo que defender a indústria e os empregos nacionais poderá gerar melhores resultados se não nos atermos aos interesses dos atuais líderes empresariais.

Sobre Keynes, minha visão é a seguinte: as escolas ocidentais de economia difundem teorias abstratas e irreais que atendem interesses do eixo israel-inglaterra-eua-frança. Quem se incomoda com isso encontra em Marx e Keynes alternativas. O primeiro atende quem se preocupa com a superação do capitalismo, o segundo quem quer se dar bem dentro deste sistema. E aí por comodismo, necessidade de trabalhar ou limitações de idiomas a imensa maioria se contenta em escolher um desses dois caminhos, desconsiderando o estudo mais a fundo da História e das experiências nacionais. Creio que existe amplo espaço para se tratar de desenvolvimentismo como a arte de destravar obstáculos à plena realização das potencialidades humanas. Isso para mim é socialismo, ou nacional-socialismo, no sentido de que é em cada circunstância específica no tempo e no espaço que se encontram os meios para atender às aspirações humanas. Se o crescimento do PIB será x ou y não me parece ser o ponto fundamental, ainda que eu seja mais simpático a ideia de crescimento com distribuição do bolo do que a noção de crescimento zero tão em voga entre os conservacionistas ambientais desde o Clube de Roma. Então, Gustavo, se os desenvolvimentistas querem ser atores políticos relevantes precisam abrir mão de algumas certezas teóricas e submeter à construção coletiva a definição de prioridades e estratégias de promoção do desenvolvimento.

 

26/03/2012 Brasil é o país mais fechado do G-20

 

Em meio à crise mundial, País passou a ser líder na adoção de medidas protecionistas

 

JAMIL CHADE/GENEBRA, FERNANDO DANTAS/RIO – O Estado de S.Paulo

 

De campeão do liberalismo ao posto de país mais fechado do G-20. Em quatro anos de crise internacional, o Brasil revolucionou sua política comercial, abandonou o discurso de defesa da abertura de mercados, suspendeu acordos e passou a ser um dos líderes na aplicação de tarifas e medidas protecionistas.

 

De 2008 a junho de 2011, o Brasil foi o segundo país que mais iniciou ações antidumping contra importações, com um total de 80, só sendo superado pela Índia, com 137. Naquele período, o Brasil iniciou mais ações antidumping do que Estados Unidos (48), União Europeia (57) e até a Argentina (65), conhecida por sua postura protecionista.

 

Além disso, dados obtidos pelo Estado apontam que, desde o início da crise em 2008, o Brasil é o quinto país a adotar o maior número de barreiras no mundo. Em termos de impacto, porém, essas medidas colocam o Brasil na liderança entre os países mais protecionista hoje do G-20.

 

No total, o Brasil já adotou ou anunciou pelo menos 85 medidas claramente protecionistas desde o início da crise. Em média, uma nova barreira é criada a cada 15 dias no país desde 2008. Só Rússia, China, Índia e Estados Unidos adotaram em números absolutos um volume maior de medidas protecionistas. Mas a realidade é que o impacto das novas barreiras brasileiras tem ido além de qualquer outro país.

 

Segundo um levantamento do Centro para a Pesquisa de Políticas Econômicas, financiado pelo Banco Mundial, as ações brasileiras já atingiram as exportações de 131 países. O grande foco é a China, com mais de um quarto de todas as medidas, 25, seguida pelas barreiras contra produtos americanos (22), alemães (14), italianos (11) e japoneses (10).

 

No total, as medidas brasileiras já afetam 254 produtos e a constatação de especialistas é de que as barreiras são as mais básicas, como a elevação de tarifas, e sem qualquer elaboração para dar maior competitividade às indústrias nacionais que estejam sofrendo. Tais medidas, segundo funcionários da OMC, são típicas dos países mais pobres do mundo, que não têm outro instrumento senão a criação de muros contra o comércio.

 

A proliferação de medidas é uma reviravolta em comparação à situação do País nos primeiros meses após o colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Naquele momento, o ex-presidente Lula apelava para que países não recorressem a barreiras e chegou a ser considerado publicamente pelo diretor da OMC, Pascal Lamy, como o “campeão na resistência contra o protecionismo”.

 

“Logo depois da crise, a reação brasileira não foi protecionista, e o diagnóstico era mais ligado ao acesso a crédito”, analisa a economista Sandra Rios, do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes, “think tank” de comércio internacional no Rio).

 

Mas Sandra acrescenta que, a partir de 2010, e principalmente após o lançamento pelo governo do “pacote de competitividade” naquele ano, começou a ênfase em medidas protecionistas, incluindo uma série de iniciativas para incentivar o conteúdo nacional nas cadeias produtivas.

 

Em 2010, o Brasil iniciou 37 ações antidumping, novamente só perdendo para a Índia, com 41. A União Europeia, a terceira colocada, deu entrada a apenas 15 ações.

 

Em 2011, até junho, houve uma aparente desaceleração, com a abertura de 11 ações antidumping pelo Brasil. Mas, no final do ano passado, a escalada protecionista ganhou força, e o Brasil recusou-se a fazer parte de uma iniciativa que estabelecia que países congelariam suas tarifas e não aumentariam suas barreiras.

 

Em setembro, foi anunciado o aumento de 30 pontos porcentuais no IPI de veículos importados de países fora do Mercosul ou fabricados no bloco, mas com índice insuficiente de nacionalização de componentes e etapas de produção. “Essa medida claramente fere as regras da OMC, porque atrela um subsídio a conteúdo nacional, o que é proibido”, diz Sandra, acrescentando que já houve pedido de consultas de alguns países orientais.

 

No final de 2011, o Mercosul decidiu que cada país poderia criar uma lista de 100 novos produtos que poderiam ter suas tarifas elevadas, mesmo não estando na lista de exceções à tarifa externa comum (TEC).

 

A gota d”água, para Sandra, é a tentativa de o Brasil renegociar o acordo automotivo com o México, depois de ter usufruído de superávits comerciais com o parceiro por quatro ou cinco anos. “Quando o negócio começa a virar, dizemos que não estamos mais de acordo e queremos impor uma cota de importação que é a metade do valor exportado por eles no ano passado – não tem o menor cabimento, como é que o Brasil pode querer ter credibilidade desse jeito?”, critica.

 

Dessa forma, não é surpresa que um levantamento realizado pela Câmara Internacional de Comércio tenha indicado que o Brasil chegou ao final de 2011 como a economia mais fechada do G-20, apesar das promessas realizadas em cada uma das cúpulas de que iria manter aberto seu mercado. O ranking avalia a abertura dos mercados a produtos importados, nível tarifário, regras internas, exigências de conteúdo local, as políticas comerciais, infraestrutura ao comércio e a abertura do país a investimentos estrangeiros.

 

 

Entre as 75 maiores economias do mundo, só sete são mais protecionistas que o Brasil. O País tem praticamente a mesma abertura de mercado que a Venezuela, do presidente Hugo Chávez, e está próximo dos níveis do Paquistão, Argélia e Sudão.

 

 

Dilma baixa 40 medidas protecionistas e os empresários querem bem mais

 

RAQUEL LANDIM – O Estado de S.Paulo

 

A presidente Dilma Rousseff já adotou uma avalanche de iniciativas para proteger a indústria nacional da invasão dos importados. Levantamento feito pelo “Estado” identificou 40 medidas aplicadas ou em análise. O protecionismo brasileiro provoca apreensão nos parceiros comerciais, mas os empresários reclamam que as medidas são pontuais e não resolvem o problema.

 

O esforço engloba desde medidas abrangentes como intervenção no câmbio, maior fiscalização nos portos e preferência a produtos nacionais em licitações, até sobretaxas para produtos específicos, elevação de impostos só para importados e a renegociação do acordo automotivo com o México.

 

Desde o início da crise em 2008, o ministério da Fazenda já alterou 13 vezes a alíquota e/ou o prazo do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para frear a entrada de dólares – seis só no governo Dilma. O Banco Central também intervém rotineiramente no mercado de câmbio para impedir a alta do real.

 

A equipe do ministro Guido Mantega adotou medidas heterodoxas no comércio exterior como a alta de 30 pontos porcentuais do IPI dos carros importados ou a transformação do imposto de importação do vestuário em valor fixo (a medida já é lei, mas não foi regulamentada).

 

A Receita Federal se tornou protagonista no esforço de defender a indústria. Na semana passada, deflagrou a operação Maré Vermelha, que torna mais rigorosa a importação de vários bens de consumo. “Com 200 servidores envolvidos, a mobilização da operação é histórica”, disse Ernani Argolo Checcucci Filho, subsecretário de aduanas e relações internacionais.

 

O órgão discute convênio com o Inmetro para verificar se os produtos importados respeitam normas de qualidade e segurança. Importadores temem que fiscalização vire barreira técnica.

 

Reforço. Os mecanismos de defesa comercial tradicionais foram reforçados. O governo Dilma aplicou 14 taxas antidumping e outras 11 investigações estão em curso. Também retomou a utilização das salvaguardas e implementou novos instrumentos, como combate a triangulação e investigação de subsídios.

 

Para Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da Unctad, “o Brasil segue o caminho da Argentina” – país criticado pelo protecionismo. Ele diz que a desindustrialização é grave e que as medidas seriam aceitáveis se fossem temporárias e acompanhadas de reformas estruturais.

 

Vera Thorstensen, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), argumenta que o Brasil não é protecionista, porque utiliza mecanismos previstos nas regras internacionais. Além disso, a valorização do real anula as tarifas de importação. “A não ser que se discuta a manipulação do câmbio na OMC, o País vai ter que inventar medidas cinzentas para se defender”.

 

Gustavo Santos – Marcio, “a arte de destravar obstáculos à plena realização das potencialidades humanas” implicará necessariamente e matematicamente em mais crescimentoeconômico quando o IBGE fizer o cálculo anual do PIB, a menos enquanto existir um negócio chamado dinheiro (Mas mesmo quando o dinheiro acabar, acredito que minha proposição pode continuar válida por um bom tempo).

Como estamos falando no mundo real atual, se estamos falando de política governamental e vc está particularmente preocupado com o dia a dia do governo atual, desenvolvimentismo para efeitos práticos (ao menos) implica necessariamente em crescimento econômico, mesmo na sua definição.

Porém, em um país pobre, crescimento igual ou menor à média mundial não é desenvolvimento, é subdesenvolvimento, pois não é capaz de fazer esse país e seu povo sair da posição de pobreza relativa. Não podemos ir direto do super abstrato para o concreto sem uma boa teoria. Há muitas boas teorias dentro do guarda chuva genérico do keynesianismo e do marxismo. A teoria econômica não é um besteirol geral. Tem muito besteirol, mas não é tudo.

 

 

 

Rodrigo Medeiros – A matéria do Estadão deveria considerar que o câmbio no Brasil é flutuante, ou seja, ao sabor do “mercado” e que as grandes empresas transnacionais operam no País sem nenhuma grande restrição chinesa. Não temos lei de remessa de lucros, tampouco obrigamos as transnacionais estrangeiras a se associarem a um parceiro local-nacional para aprofundar o conteúdo nacional da produção e ainda concedemos crédito público e incentivos fiscais para algumas dessas empresas. Isso não é uma economia fechada e dirigida.

 

Representantes europeus ou norte-americano na OMC não podem nos dar lições de moral depois das rodadas recentes de facilitação monetária.

 

Bem, tampouco o que temos é “Estado desenvolvimentista”. Já o tivemos em outros momentos, mas o presente é o de um Estado que busca distribuir renda a partir de políticas sociais e que negocia com o capital alguns pontos da agenda econômica, fazendo concessões que podem ser questionáveis por muitos de nós.

 

Li um artigo interessante do Dani Rodrik que diz: “The political trilemma of the global economy is that the nation-state system, democratic politics, and full economic integration are mutually incompatible. We can have at most two out of the three”. Rodrik é um neoclássico heterodoxo.

 

http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=349021

 

Márcio Oliveira – Gustavo, respeito as tradições marxista e keynesiana.

Mas não concordo quando diz que “desenvolvimento é crescimento significativamente acima da média mundial por um longo período.” E tenho certeza que muita gente também não concorda. Se o desenvolvimentismo exclui quem não concorda com essa assertiva precisamos rever a assertiva ou o uso do termo. Como disse, entendo o desenvolvimentismo como a arte de destravar obstáculos à plena realização das potencialidades humanas. Tratar-se-ia então de co-laborar na identificação de que obstáculos são esses e como superá-los. Outras pessoas entendem de forma distinta. Seria interessante se cada um tentasse explicitar como enxerga hoje o que significa desenvolvimento e desenvolvimentismo…

 

Gustavo Santos – Este é um espaço livre para tratar de qualquer teoria, visão ou questionamento em relação ao desenvolvimento. Acho também que uma boa pergunta vale mais do que uma velha resposta. Mas acho que não basta anunciar que temos que acabar com nossas velhas certezas, sem explicar como e porquê.

Keynesianismo e Marxismo tem seus problemas são colchas de retalhos onde se cabe de tudo um pouco, até coisas contraditórias entre si, fazendo que sejam muitas vezes de simulacro para intenções ocultas, porém, dentro desses guarda chuvas há também boas teorias bem fundamentadas e sólidas. Sua insistência de criticá-las em termos genéricos e não teóricos e nem empíricos (incluindo dizendo genericamente que são simplesmente manipulações de uma superconspiração internacional) e ao mesmo defender as políticas do governo atual que são o remendo do remendo improvisado e cheio de medo do grande capital financeiro deixa sua posição quase incompreensível e muito frágil. é uma posição altamente paradoxal. Virou um mantra dizer que crescimento é diferente de desenvolvimento.

Não é assim. Desenvolvimento é crescimento significativamente acima da média mundial por um longo período. Gostaria que alguém provasse que essa proposição está errada. Não acredito que alguém seja capaz, porque simplesmente não acho possível que esteja errada.

Caso eu esteja certo, resolver o problema do desenvolvimento é resolver o problema do alto crescimento por um longo período. Agora, há muitos tipos de desenvolvimento, há o americano, japonês, coreano, sueco, alemão, inglês, italiano etc. mas em todos há um ponto em comum: renda per capita acima de 20 ou 25 mil dólares anuais. de forma simplória posso dizer que é uma questão matemática.

O Clube de Roma, os neomaltusianos e o ecoxiitas dizem que o crescimento é ruim, que desenvolvimento é outra coisa. mas isso é só propaganda ideológica da elite mundial para fazer com que os pobres continuem pobres e não consumam os recursos que eles vêem como direito único e exclusivo do ricos e (de preferência) brancos. para mim nada é mais conservador e anti terceiro mundo do que dizer que desenvolvimento é diferente de crescimento. não é. desenvolvimento é um tipo de crescimento. o crescimento bem acima da média.nada mais, nada menos.

 

Márcio Oliveira – Gustavo, claro que teorias são importantes. Inclusive as de economia.

O que não concordo é que desenvolvimento se restrinja a crescimento significativamente acima da média mundial por um longo período. A sugestão da Ceci a partir de Furtado me parece mais apropriada. Outras pessoas entendem de outras formas.

É uma boa discussão, não vejo porque a fecharmos de partida.

 

Gustavo Santos – Não sou defensor das posições políticas de Keynes, mas das posições teóricas, que concordo que não sejam de um ponto de vista intelectual tão originais quando muitos pensam, e nem foi aquele que mais avançou nessas mesmas posições teóricas. Porém, apesar do desenvolvimentismo ter pelo menos 400 anos, antes da segunda guerra mundial a taxa média de crescimento mundial raramente ultrapassava 1,5% a média era abaixo de 1%. depois da segunda guerra ela passou a alcançar uma média entre 5% e 2%, mais do que triplicou, o que é incrível, e a principal razão disso foi a derrota parcial das ortodoxias monetárias depois do Keynes. que aliás nunca mais recuperaram a posição prática que tinham apesar de terem recuperado o prestígio acadêmico a partir dos anos 80. não ser monetariamente e nem fiscalmente conservador é o que defendemos aqui neste grupo, por acaso, no mundo moderno chamam isso de keynesianismo de forma genérica, podemos chamar de outro nome, se preferirem, mas será um pouco mais demorado se fazer entender. bater no keynesianismo é irrelevante, pois é voltar à ortodoxia monetária e fiscal, bater nas posições políticas do Keynes e no reformismo capitalista supostamente decorrente do keynesianismo tudo bem, mas tem que ser muito qualificado, por que tende também à irrelevância se não for bem feito.

 

Rodrigo Medeiros – Essa foi uma boa discussão! Há um livro do Celso Furtado chamado Teoria e política do desenvolvimento econômico (Paz e Terra). Nesta obra, Furtado passeia com grande maestria pelas escolas do pensamento econômico – dos clássicos, passando pelos neoclássicos e keynesianos e chegando ao estruturalismo.

Um ótimo trabalho de reflexão… Penso, entretanto, que existem questões que serão resolvidas no campo das lutas políticas. Algo do tipo “guerra de guerrilha” no Congresso ou uma estratégia à la socialismo fabiano. Bem, John M. Keynes e Bertrand Russell discutiram muito nesse último campo. rsssss!!!!!

 

Ceci Juruá – Concordo contigo, Rodrigo. Desde o início deste século a minha tese é que estamos em retrocesso histórico. Em 2002 fiz uma palestra sobre este possível cenário (possível naquele momento). Com o neoliberalismo voltamos aos principios ideológicos do liberalismo do século XIX. A política das potências imperiais é sempre muito similar às anteriores – espoliar, exportar o excedente, garantir o controle sobre minas e sobre terras estratégicas, garantir o controle do sistema de transportes, apreciar a moeda, endividar o Estado, aumentar os juros, baixar salários (salário como preço relativo macroeconômico).

 

O desenvolvimento como estratégia e como utopia durou de Getúlio a Geisel.

 

A rota atual é de subdesenvolvimento e de anulação das anteriores conquistas históricas. O modelo de desenvolvimento brasileiro, que não veio nem de keynes nem de marx nem de nenhum outro, o desenvolvimento nacional com base na indústria e no mercado interno, foi interrompido por um golpe de estado , político, tramado no centro do império, com a frota deles na nossa costa, em 1964. Aquele modelo nacional-desenvolvimentista e industrializante, de Vargas, foi obra das elites empresariais, culturais e políticas do Brasil. Foi uma arquitetura econômica, política e social. Dos avanços que conseguimos com aquele nosso modelo, está sobrando pouco,. A ideologia que nos derruba é sempre a mesma: o livre comércio a globalização a prevalência do mercado externo sobre o mercado interno.

 

A grande conquista de Lula foi reconquistar a supremacia da política sobre o econômico. É a reversão de que precisávamos para, democraticamente, resistir até a elaboração de um outro caminho, outra estratégia.

 

Neste ponto a atual presidente recuou. Ela está governando de acordo com a receita – da teoria da administração – do Banco Mundial. Há uma racionalidade técnica e principios morais que podem governar uma nação, sem uso da política.

 

Na atualidade, nem nos financiamos, nem nos governamos. Aliás, corrijo, a expressão usada por Furtado é capacidade de autofinanciamento e de autotransformação. Brilhante. Nada o substitui até hoje. Sem que a nação resgate essa capacidade, não há desenvolvimento.

 

O livro indicado por Rodrigo é um pouco ‘maçante’. Os dois melhores livros onde Furtado expõe sua teoria – sua, dele – é em Desenvolvimento e Subdesenvolvimento e Dialética do Desenvolvimento. Os conceitos são apresentados 10 anos depois em Prefácio à Nova Economia Política. Ele é um autor original, um teórico, um pensador acima de qualquer outro, em matéria de interpretação do desenvolvimento latino-americano. Ninguém se lhe compara.

 

Márcio Oliveira: É a partir de teorias que a ciência avança. Quem quer se especializar em uma ou outra linha teórica sempre terá trabalho árduo pela frente. Neste sentido, respeito as controvérsias que permeiam as tradições marxista e keynesiana.Agora, quando falamos em ação política, acredito que é preciso flexibizar dogmas para possibilitar acordos mínimos de ação coletiva. Se partirmos do pressuposto que crescimento do PIB é a razão maior (ou mesmo meta síntese) da ação política desenvolvimentista não contemplamos sequer as visões de mundo de grande parte dos membros dessa lista. Concepções mais abrangentes, como essa que Ceci citou a partir de Furtado, são potencialmente mais agregadoras. Remete mais à ideia de soberania e aos conflitos sociais e jogos de interesses associados do que a mera constatação estatística de quanto foi o crescimento da produção. Ainda que teoricamente seja possível argumentar que o crescimento contínuo acima da média possa prover meios materiais que se bem utilizados contribuirão para a soberania e a melhoria da qualidade de vida de determinada sociedade.

 

Daniel Conceição – não creio que seja possível o debate com neoclássicos de todas as tradições, posto que estes não querem compreender como funciona o capitalismo, mas como teria que funcionar para que a eficiência macroeconômica fosse obtida sem intromissão dos Estados. Nesta lista acredito que sejamos todos intelectualmente honestos e, portanto, seja possível avançar nossos entendimentos na direção apontada pelos fatos e pela lógica. Por isso o debate é promissor.

É claro que é importante estarmos abertos para a possibilidade dos pensadores que admiramos terem errado. Keynes, Marx, Furtado e até mesmo eu e você podemos cometer erros aqui e ali que façam chegar a conclusões errôneas. Neste caso, temos a vantagem sobre os mais famosos pelo fato de estarem mortos e incapazes de rever suas posições, enquanto nós podemos seguir melhorando nossas ideias enquanto funcionarem nossas máquinas de pensar.

Lembremos então que os rótulos que costumamos dar a nós mesmos são normalmente insuficientes para guiar o debate entre ditos os desenvolvimentistas, dado o nível de complexidade e especificidade em que nossas disputas acontecem. Ao ouvir de um colega “sou monetarista”, sei de cara que sua compreensão do sistema capitalista é demonstravelmente errônea, posto que o rótulo revela uma concepção monetária em que a oferta de moeda tem como ser criada ex nihilo sem que haja demanda pela mesma, entre outras atrocidades lógicas. Porém, no caso de colegas que declaram ser marxistas, keynesianos, furtadianos, costumo perguntar o que ele ou ela quer dizer com isso, pois aprendi que, assim como o capitalismo e os picles da Heins, há pelo menos 57 variedades de cada um destes tipos de economistas. Assim, é um pouco frustrante perceber que há certa rejeição na lista ao rótulo “Keynesiano” sem que se pergunte o que querem dizer com isso os que assim se rotulam. O estimado professor Benayon, por exemplo, sugeriu que o Keynesianismo não passa de “uma “opção”, em lugar dos neoclássicos mais conservadores, dos monetaristas e outros enfants gâtés da direita para fazer de conta que os grandes desastres resultantes do capitalismo concentrador possam ser resolvidos por meio de políticas macro-econômicas, sem promover a desconcentração da economia, sem restabelecer o poder do Estado sobre os banqueiros e demais concentradores.”

Possivelmente se refere ao keynesianismo bastardo da síntese neoclássica e outras deturpações “malcriadas” da direita. Afinal, refrescando a memória através da releitura da obra de Keynes veremos que este sugeriu que a eliminação (ou atenuação) das contradições do capitalismo passa exatamente pela “desconcentração da economia” e do restabelecimento do “poder do Estado sobre os banqueiros e demais concentradores.” Mas mesmo que o próprio Keynes não tivesse proposto a eutanásia da classe rentista e a necessidade de combater causas e feitos da concentração do poder econômico, os autoidentificados Keynesianos da lista sempre deixaram evidente que estão de acordo com a posição do professor.

Garanto aqui que os declarados keynesianos da lista não são seguidores cegos do lorde inglês. Também não creio que nossa visão critica do capitalismo tenha sido amansada pela globalização? Na verdade é que, embora menos experientes, passamos muito tempo avaliando diferentes descrições de como funciona uma economia monetária (onde a produção depende da realização do circuito M-C-M’) e, amparados pela lógica e pelos atos, chegamos a conclusões similares às de Keynes. No meu caso, o rótulo Pós Keynesiano é usado para anunciar uma concepção de capitalismo em que a demanda por bens não produzidos faz com que as oportunidades de prover para a vida humana não sejam aproveitadas de forma macroeficiente. Neste caso, a solução para tal ineficiência macroeconômica é a utilização da capacidade de pagamento ilimitada de Estados soberanos para eliminar a escassez de gastos responsável pela escassez de bens e serviços e a escassez de empregos. Se há algum colega que não partilha desta concepção sobre o capitalismo, convido que apresente contra-argumentos lógicos e empíricos justificando a sua posição.

Finalmente, acho importante que tenhamos claro para todos os que participam do debate os significados de cada conceito chave empregado. Impediremos assim que digamos algo sobre alhos e algum colega entenda que dissemos algo dos bugalhos. Entretanto, é preciso que não percamos de vista o papel de uma definição. Definição é um conceito arbitrariamente construído por nós mesmos porque desejamos organizar pensamentos sobre uma coisa qualquer que ainda não foi batizada. Desta forma, criar definições é um exercício que só esbarra na nossa própria imaginação. Mas no que se refere ao debate socioeconômico, a definição deve atender à necessidade específica de organizar pensamentos sobre questões relevantes nesta esfera dos fenômenos sociais. Neste caso, acho útil chamar de desenvolvimento a expansão da capacidade de provisão material para a vida humana, como costumam fazer os apreciadores da escola institucionalista fundada por Veblen. Neste caso, a definição que creio ser mais útil é bem diferente da definição oferecida pela colega Ceci, pois a definição dela trata de capacidades e potencialidades, enquanto a sugerida aqui trata de resultados concretamente observados. Acho ainda mais problemática a suposta definição Furtadiana, pois parece sugerir que o problema do desenvolvimento está em dar capacidade de autofinanciamento e autogoverno a economias nacionais. Ora, acho sensato reconhecer que o problema do desenvolvimento está justamente em fazer uso das capacidades de autofinanciamento e autogoverno que já existem em economias em cuja moeda é obrigação nominal do Estado e onde os governos são reconhecidamente soberanos. Ou seja, o desafio de promover o desenvolvimento não termina quando está garantida a capacidade de autofinanciamento e autogoverno. De certa forma, ele começa exatamente aí: uma vez existentes as capacidades de financiar e governar, como garantir que estas capacidades sejam plenamente aproveitadas?

Para fechar, compartilho aqui a síntese de um debate semelhante travado em um simpósio sobre Hyman Minsky com colegas ambientalistas. A critica foi exatamente que o conceito Pós Keynesiano de desenvolvimento econômico baseado em aumento do produto e renda agregados não levava em conta questões importantes: no caso a sustentabilidade ambiental. Substitua-se aqui sustentabilidade ambiental por qualquer outra questão específica colocada como incompatível com a visão do desenvolvimento como expansão econômica e perceberemos que o princípio tocado é a possibilidade de adequação em nível microeconômico do macro-objetivo crescimento da renda e produto agregados a outras demandas sociais e econômicas importantes. A resposta é: Isto é possível e absolutamente desejável. Explico. Quando defendemos eu e o Gustavo que desenvolvimento econômico é inevitavelmente expansão econômica, estamos focando apenas na questão macroeconômica (geral). Significa que antes de definirmos a composição do produto em expansão, precisamos que o produto possa ser expandido ao invés de ficar comprimido por insuficiência de demanda efetiva. Significa garantir que, qualquer que seja a estratégia de desenvolvimento escolhida, a atividade econômica será mantida em plena capacidade. A mesma política que estimula o aumento do produto material pode incorporar inúmeros outros objetivos como substituição da matriz energética, defesa de indústrias nascentes, desenvolvimento tecnológico, bastando para isso que o Estado saiba usar seu poder regulatório e fiscal de modo a garantir o sucesso econômico do que é socialmente desejável. Desenvolver é melhorar a provisão material para a vida das sociedades humanas tanto quantitativamente como qualitativamente. Como diz o sábio, “uma coisa é uma coisa, a outra coisa é outra coisa”, mas não quer dizer que não devamos nos preocupar com as duas coisas.

 

Márcio Oliveira – Perfeito, Daniel. Acrescentaria “espiritual” na definição de Veblen. No mais é uma bela defesa enquanto análise da parte material do sistema. A questão é que muita gente não está satisfeita com o sistema. Não quer melhorá-lo, e sim superá-lo.

 

Daniel Conceição – Eh um belo adendo, Marcio. Apesar de ser materialista convicto, entendo a sua preocupacao de deixar claro que a provisao da vida humana saudavel requer bem mais que apenas a satisfacao de necessidades materiais. Ha necessidades psicologicas tao ou mais importantes…

Acho que chegamos aqui ao ponto fundamental: Eh possivel administrar economias capitalistas de modo a atenuar satisfatoriamente as contradicoes internas do sistema? Sinceramente nao sei. Do ponto de vista puramente economico, a saida eh irritantemente simples. Basta administrar a demanda agregada da economia por meio de instrumentos fiscais e monetarios. O desafio maior parece ser convencer a sociedade de que a solucao eh essa. Aih sim precisamos entender bem a politica e ideologia vigentes e que se pinta o Estado envolvido na economia como um mal, taxa deficits publicos de irresponsabilidade fiscal, equipara governos soberanos a usuarios da moeda estatal, etc. Enfim, a possibilidade de fazer coincidir resultados macroeconomicos sob o capitalismo com o que eh socialmente desejavel depende que seja derrotado o mito da mao invisivel, defendido por credulos e desonestos que lucram com a manutencao da mentira.

 

Gustavo Santos – Marcio, desculpe-me por ser tão enfático, mas acho que vale para baixar o grau de tecnicidade para os não economistas. obviamente um PIB de X trilhões de dólares pode ser composto de forma muito diferente. com maior ou melhor distribuição de renda, como maior ou menor liberdade, democracia, com maior ou menor qualidade ambiental ou de meio ambiente. só um louco diria o contrário. mas só um cínico cara de pau pode dizer que um PIB per capita de 40 mil pode ser menos desenvolvido do que um PIB per capita de 2 mil dólares no mundo contemporâneo e real onde vivemos (em um mundo utópico vale tudo). com a possível exceção (o que não estou certo) de alguns países supericos e idiosincráticos como os Emirados Árabes, só um cínico pode dizer que existe algum país com renda per capital de 40 mil dólares que é desenvolvido ou algum com renda per capita de 2 mil dólares que seja desenvolvido. o termo desenvolvido e subdesenvolvido tem claras conotações materiais e econômicas. e isso tem muito haver com a posição dos povos envolvidos na hierarquia de poder mundial, como povos mais explorados e menos explorados.

Certamente sonhamos com desenvolvimento como a expansão das capacidades de realização humanas em sua busca por felicidade. Porém, na realidade prática do mundo real contemporâneo isso significa mais capacidade de consumo, de educação, de lazer, de cultura, de realização social, de diversificação de experiências, de liberdade de experimentação e de qualidade de vida e isso certamente tem haver com mais PIB porque no mundo contemporâneo todos querem consumir e experienciar coisas muito parecidas, o que implica necessariamente em PIB per capital maior significa mais desenvolvimento ao menos quando essas diferenças de PIB seja relativamente significativas.

Além disso, mais PIB significa mais poder estatal, mais soberania, mais autonomia social, mais liberdade social e política deste povo, mais capacidade de realização social, mais capacidade de realização de consensos, de diminuição de pobreza, de oferta de serviços sociais e culturais. necessariamente.

Se, em países subdesenvolvidos, as políticas de desenvolvimento não focam prioritariamente em alto crescimento do PIB são irrelevantes. Como é irrelevante a grande maioria das coisas que faz o governo Dilma. mera distribuidora de “sanduíches”, mera reprodutora do status quo, como foi o governo Lula (FHC nem distribuiu sanduíches, e ainda os tirou da boca das crianças, mérito do Lula… pequeno, mas temos que reconhecer) crescer o PIB acima da média mundial em democracias é coisa para Grandes Estadistas

Na mais incomoda o Grande Capital e as potências hegemônicas do que um

país populoso do que crescer acima da média mundial, por muito tempo, isso significa necessariamente a alteração da hierarquia mundial e aumento de soberania nacional e uma autonomia daquele povo frente ao capital financeiro. ao menos no capitalismo, crescer acima da média mundial é necessariamente é se desenvolver. pode ser pior ou melhor se for de um jeito ou de outro, mas será necessariamente se desenvolver. a incapacidade do Lula ou da Dilma de dar a mínima esperança de realmente acabar com a terrível miséria que vive nosso povo em favelas sem assistência e sem vida digna decorre da idiota resi$tência da cúpula PT paulista e do PT dilmista em querer que o Brasil cresça (seguindo exigência dos banqueiros. quem duvida que banqueiros não gostam de crescimento na democracia, clique aqui para entender o porquê:

http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/03/os-aspectos-politicos-do-pleno-emprego/ esses são os mais básicos princípios de geopolítica, economia e política e está em todos os clássicos, de List a Marx, de Keynes a Weber. Dos cameralistas a Veblen. mas os banqueiros e seus capachos não gostam de nenhum clássico. o Brasil precisa de um revolução. quem gosta de evolução a conta gotas é o status quo. nosso povo merece algo melhor do que isso. Já tivemos um operário no poder a serviço do poder. precisamos agora do poder a serviço do povo e de preferência do povo no poder. menos do que isso é reproduzir o passado. não vale à pena lutar por esse status quo que está aí. melhor esquecer a política. crescer significativamente acima da média mundial por muito tempo em uma democracia é absolutamente revolucionário e absolutamente popular. é fazer aos pobres comemorar as alegrias de um bom emprego, os sem esperanças brilharem pelo sucesso repentino, as crianças sorrir, as mães agradecer. revolucionário demais para um intelectualista sentir, revolucionário demais para utopista compartilhar, revolucionário demais para um classe mediano aceitar o cheiro do povo em seu lugar, alegre demais para um pessimista autorizar. para quem come lixo, pão fresquinho com manteiga é o paraíso da classe operária. para quem dorme sujo na rua, banho quente é andar nas nuvens da sapiência. desenvolvimento e desenvolvimentismo é algo muito simples e ao alcance das mãos de uma sociedade não quer mais do que viver o seu direito de ser feliz agora. em um país em desenvolvimento, é crescer significativamente acima da média mundial já neste ano e em todos os anos e continuar por um longo tempo. o governo que não dá nem isso, não merece nenhum respeito, qualquer que seja a justificativa. quantos bilhões de sorrisos as crianças do Brasil deixaram de dar no ano passado por causa que a Dilma quis mostrar obediência aos banqueiros à uma meta imbecil de inflação e fez a façanha de fazer um crescimento de 7,5% ficar 2,x% e manter isso por mais alguns anos. um líder quer nega dezenas de bilhões de sorrisos de criança por meta abstrata e sem significado é o que? menos que um rato. um usurpador, um traidor da mais alta e sagrada posição de um povo.

 

Rodrigo Medeiros – Concordo com a argumentação do amigo Daniel de que há diversos estilos de keynesianismo – neo, novo e pós, por exemplo. Podemos incluir o pré também, como sugere Robert Skidelsky. rssss!!!!! As teorias são interpretações da realidade e cada um acaba escolhendo aquela que se encaixa melhor nos seus anseios e projetos de vida.

 

O povo brasileiro não tem o projeto furtadiano na cabeça. Daí a importância da política e das lideranças na condução de um processo de conquistas sociais e democratizantes. Sem crescimento não há desenvolvimento econômico. O quanto seria o suficiente? Bem, essa é uma questão que diz respeito à sociedade que se deseja. Se o projeto for crescer abaixo da média mundial, então dificilmente se poderá esperar atingir o status de país desenvolvido.

 

Existem outras dimensões do desenvolvimento – cultural, institucional, saúde, educação, tecnológica e científica. Trata-se de um processo… Qual o seu fim? O tal estado estacionário? Essa é outra questão….

 

Márcio Oliveira – Pois é, Daniel. Esse é o ponto fundamental. Eu e muita gente não acreditamos ser possível administrar economias capitalistas de modo a atenuar satisfatoriamente as contradições internas do sistema. Mesmo abstraindo a política, a psicologia e todas as outras dimensões da vida, ainda assim vc e tantos outros trabalham arduamente para identificar quais as doses adequadas dos remédios disponíveis para administrar a demanda agregada da economia por meio de instrumentos fiscais e monetários. Só que na hora de ministrar os remédios é simplesmente impossível abstrair a política, a psicologia etc. Geralmente os remédios serão ministrados em doses inadequadas do ponto de vista teórico. Isso quer dizer que o esforço de teorização é irrelevante? Claro que não. Apenas ressalto que na hora de tomar decisões quem tem a caneta tende a buscar soluções intermediárias entre as prescrições que se impõem com maior ênfase e apoio social na disputa pela hegemonia no campo das ideias.

Gustavo, tentando dialogar com suas ponderações, entendo que vc defende ações mais enfáticas (especialmente nas políticas monetária, cambial e fiscal) que favoreçam crescimento do PIB acima da média internacional, certo? O pessoal que parte de premissas teóricas (distintas da sua e) ainda hegemônicas no Brasil tem a convicção de que, visando crescimento mais robusto do PIB, Dilma está interferindo indevidamente na condução da política monetária, forçando o Banco Central a baixar a Selic mais rapidamente do que as condições macroeconômicas permitem. Estão apenas aguardando o primeiro repique inflacionário para voltarem a carga na propaganda. A atual diretoria do Banco Central tem contrariado sistematicamente as “previsões do mercado”, o que tem valido ao seu presidente o apelido pejorativo de “pomba”, em contraponto ao termo “falcão” atribuído a quem enfrenta os políticos zelando pelo que seria, supostamente, a técnica adequada de condução macroeconômica. O ministro da Fazenda, por sua vez, anuncia quase toda semana medidas que contrariam os conselhos dos “agentes de mercado”, além de resistir com paciência impressionante as inúmeras pegadinhas de jornalistas. A percepção majoritária na sociedade, ao menos entre os que se fazem ouvir sobre macroeconomia, é que Dilma-Nélson Barbosa-Mantega-Tombine são “desenvolvimentistas” em vias de estragar as conquistas recentes em termos de controle da inflação e credibilidade no zelo pela estabilidade econômica. Por outro lado, a percepção majoritária nesta lista, ao menos entre os que se pronunciam sobre macroeconomia, é que essas figuras são no mínimo pouco qualificadas para tocar a macroeconomia, para não dizer entreguistas travestidos de “desenvolvimentistas”. Percebe a complexidade política e psicológica envolvida? Em outras palavras, ainda que alguém dessa lista fosse presidente da república, teria que formar equipes. E equipes, por mais que partam de visões de mundo parecidas, envolvem negociações, persuasão, paciência no trato da diferença com interlocutores internos e externos. Nessa caminhada o rigor teórico necessariamente precisa abrir espaço para acomodações que permitam um mínimo de convívio harmônico. Senão as próprias equipes entram em colapso, com acusações mútuas de intransigência e estreiteza de raciocínio entre seus partícipes. E dependendo da “crise” as expectativas e nível de confiança dos agentes privados acaba levando ao retardamento de gastos e investimentos, afetando negativamente o PIB que tanto se queria aumentar. Como simultaneamente ao enfrentamento macroeconômico existem inúmeras outras disputas em curso tão ou mais importantes (como a relação com parlamentares, partidos, latifundiários, industriais, barões da mídia, forças armadas, empresas transnacionais, relações diplomáticas etc.), qualquer marola pode ganhar proporções difíceis de administrar. Não estou fazendo terrorismo, apenas enfatizando que variáveis outras existem para além da administração da demanda agregada da economia por meio de instrumentos fiscais e monetários. É natural que economistas confiram à condução macroeconômica relevância que outros profissionais conferem à outras atividades. Quem está com a caneta tem que administrar esses conflitos de interesses sabendo que a resultante nunca será teoricamente próxima do ótimo.

 

Sérgio Botinha – E por isso a economia (aquela com vistas a resultados práticos) não deve se dissociar da política e da sociologia.

Flávio Lyra – Em relação ao desenvolvimento econômico cabe distinguir tres campos de estudo: teoria; doutrina.e historia econômica. No campo da teoria os três grandes nomes são: Marx, Schumpeter e Celso Furtado. Marx, no Capital apresenta uma teoria do desenvolvimento capitalista, portanto a visão teórica mais completa existente para o entendimento do processo de desenvolvimento econômico. Cabe destacar as seguintes partes: Acumulação e Reprodução Ampliada, na qual é explicada a dinâmica interna da acumulação de capital; A Transformação do Capital-Mercadoria e do Capital-Dinheiro em Capital Comercial e emCapital Financeiro, em que é examinada a transformação histórica dasformas do capital; e A Tendência Decrescente da Taxa de Lucro, em queé examinada a lei geral do desenvolvimento capitalista. Schumpeter em Teoria do Desenvolvimento Econômico, obra máster de um jovem prodígio, publicada inicialmente em 1919,. concentra a atenção em explicar a dinâmica do capitalismo, em oposição à teoria econômica ortodoxa que estava inteiramente voltada para o estudo do equilíbrio0, estático, do sistema econômico. Nesse texto, o autor defende a tese de que a essência do desenvolvimento econômico é a questão qualitativa da introdução de novas combinações nos fatores produtivos existentes, para o que são decisivos o empreendedor e o crédito como criador de dinheiro. Schumpeter e Marx, ainda que com visões diferentes do mundo, o primeiro um fiel defensor do captialismo e o segundo seu crítico mais feroz e contundente, desenvolveram téorias com fundamentação histórica e voltadas para o entendimento da dinâmica da acumulação de capital. Por último, o grande Celso Furtado, que partindo de concepção semelhante aos dois autores mencionados no que toca a fundamentação histórica e a preocupação dinâmica, formula sua teoria do desenvolvimento econômica voltada para o entendimento da realidade dos países retardatários no processo de desenvolvimento capitalista. Sua ênfase está na busca do entendimento dos fatores que explicam a incapacidade dos países para os quais a divisão internacional do trabalho, comandada pelos países centrais, representava um obstáculo ao avanço de seus processos de desenvolvimento capitalista. Vale ainda a pena conhecer a obras de Paul Sweezy , Teoria do Desenvolvimento Capitalista e Capitalismo Monopolista de Estado, uma tentativa séria de atualização da teoria marxista do desenvolvimento capitalista.

Por seu turno, Keynes é um grande teórico do equilíbriio, em seu livro ” A Teoria Geral do Emprego do Juro e da Moeda” , porém nada tem a dizer sobre a teoria do desenvolvimento econômico, à qual não dedicou maior atenção. Seu aparato conceitual é fundamental para entender o sistema econômico do ponto de vista estático. Celso Furtado, utiliza as categorias keynesianas para o entendimento do processo histórico em seu ” Formação Econômico do Brasil”., mas as limitações dessas categorias são notórias, pois deixam de lado as transformações que ocorrem em função da acumulação de capital e do progressivo técnico. No campo das doutrinas é fundamental conhecer o desenvolvimentismo da CEPAL, que se opõe a visão neoliberal, com a defesa de uma forte participação estatal na promoção do desenvolvimento, seja como realizador de investimentos, seja como condutor do processo, em complementação ao papel do livre mercado. Bresser Pereira, também tem uma contribuição interessante no que ele denomina de “novo desenvolvimentistmo” , especialmente em seu texto Structuralist Macroeconomics of New Developmentalism. Também vale a pena conhecer a obra do alémão Friedrich List, inspirada no esforço da Alemanha para desenvolver o capitalismo em seu território.

No campo da História Econômica cabe duas referências:: a obra de Lenin ” O Desenvolvimento do Capitalismo na Russía” e a obra mestra de Celso Furtado ” Formação Econômica do Brasíl”.

Daniel Conceição – Breves considerações sobre a necessidade de aplicar elementos básicos da teoria Keynesiana ao estudo do desenvolvimento. Sim: Keynes não deixou muitos registros de sua visão de longo prazo além do Capítulo 22, parcialmente porque deve ter justamente considerado um tanto quanto óbvia a relação entre a versão mais simples de sua teoria do emprego e do nível de atividade medidos durante um período analítico (na verdade o modelo com que todos estão familiarizados é o modelo estacionário e não estático, pois tem ajustes de renda como resposta a investimento involuntário) e os resultados observados ao longo de vários desses períodos.

Não há, porém, como ignorar o impacto da tradição Keynesiana nos estudos sobre desenvolvimento a começar pelos colegas Harrod, Kaldor e Joan Robinson e Evsey Domar, admirador declarado de Marx.

Infelizmente, a interpretação mais conhecida das teorias Keynesianas do longo prazo é tão estúpida quanto a IS-LM e o novo Keynesianismo (Aliás, Krugman acaba de declarar em seu blog que não acredita no fato indisputável de que empréstimos criam depósitos e não o contrário.

Declarou também confiar na teoria dos fundos emprestáveis para a determinação do juro de longo prazo. Em minha opinião, passou de aliado confuso a parte do problema.).

Claro que as respostas para o que estamos tentando compreender não estão todas no que Keynes e os Pós Keynesianos escreveram, mas há coisas reveladas pela teoria geral que não podem ser esquecidas.

Primeiramente a confusão extrema que economistas fazem entre poupança (estoque) e poupança (fluxo). É logicamente impossível para a poupança (fluxo) existir antes de um gasto, uma vez que poupança é porção residual de renda e renda é sempre gerada por gasto (o pagamento para quem recebe a renda). Logo, a relação causal só pode ser investimento, déficit público e saldo positivo nas TC geram a poupança agregada (fluxo) e não o contrário. Segue disso que qualquer teoria que prega que deva ser aumentada a poupança (fluxo) para incentivar o investimento cometeu erro contábil grosseiro.

 

Mesmo que tivessem se referido à poupança (estoque) como pré-requisito

para o investimento, que deveríamos chamar de fundos poupados ou

riqueza acumulada, o argumento não faria muito mais sentido. Se é

verdade que o investimento em capital necessário para o

desenvolvimento pode ser financiado por fundos acumulados (poupanças fluxo acumuladas), estes fundos não desaparecem quando são usados para o investimento, mas são devolvidos como poupança retidos ao final do período. E se o objetivo é aumentar a acumulação de fundos pelo setor privado, a estratégia é criar incentivos para o investimento e aumentar o déficit do governo. Ademais, investimentos promissores sempre contarão com a oferta de fundos novos sem pressionar a taxa de juros em sistemas com juros interbancários administrados pela autoridade monetária (lembrem que empréstimos criam moeda). NÃO HÁ

ESCASSEZ DE FUNDOS PARA FINANCIAMENTO. O QUE HÁ SEMPRE É ESCASSEZ DE

OPORTUNIDADES DE INVESTIMENTO LUCRATIVAS. Por isso achei tão infeliz a definição de desenvolvimento como criação da capacidade de se financiar.

E se o problema é a falta de moeda estrangeira para comprar capital e tecnologia estrangeira, que busquemos formas de acumular moeda estrangeira. Neste caso, a formação de poupança (estoque) doméstica não ajuda em nada, visto que é acumulação de moeda doméstica a não ser que esta seja resultado de saldos positivos de TC (não esqueçam que formar poupança domestica requer períodos seguidos de alto

investimento privado, déficits públicos e saldos positivos em transação corrente). Moeda desvalorizada, barreiras à entrada, etc. são instrumentos que podem ser usados. Mas lembremos que acumular moeda estrangeira por acumular significa transferir bens materiais (riqueza consumível e investível) em troca de obrigações nominais para fins de entesouramento… Só faz sentido se houver uma razão para querermos moeda estrangeira.

Em resumo: da teoria geral aprendemos não somente o que determina o emprego e o produto no curto prazo. (Não entrei nesta questão, mas a teoria geral não é somente estática como a interpretação de Samuelson e a ilógica IS-LM sugerem. Lembrem que o livro vai aos poucos complicando o sistema analítico até que no capítulo 17 a base para uma visão mais dinâmica aparece.) Para que mantenhamos taxas de investimento saudáveis, e para que nossos capitalistas criem novas tecnologias, para que nossas indústrias possam se desenvolver e tornem-se mais competitivas, é necessário que a demanda agregada da economia justifique estas decisões. Por isso manter a demanda agregada em nível saudável é sim estratégia de desenvolvimento.

Mudando de assunto: Marcio, lembre-me de te enviar, uma vez terminado, material demonstrando a ineficácia de usar taxas de juros para controlar a demanda agregada.

O efeito de reduzir a Selic pode ser o oposto do desejado: ao reduzir taxa básica, reduz-se o preço de obter reservas para instituições financeiras, mas esperando-se subsequente aumento no juro, aumenta-se o premio de liquidez da moeda, tornando menos atraentes ativos de menor liquidez… O ideal seria manter estável a Selic e usar a política fiscal pra administrar a demanda agregada.

 

 

Rodrigo Medeiros – Boas colocações. A questão do ovo ou a galinha não é nova: I –> S ou S –> I? rssss… Concordo com seus argumentos! Tem questão que fere a lógica. Mas você também ponderou em relação às relações externas da economia. Bem, aí a coisa complica um pouco porque estamos vivendo uma desindustrialização prematura e desnecessária:

 

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19522

 

http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/3/29/desprotecionismo-e-desindustrializacao

 

Não é similar ao caso norte-americano. É fruto das opções de política econômica da década de 1990, mais especificamente da macroeconomia do Plano Real. Lula não fez muito para mexer no Real II, ou seja, após a maxi-desvalorização de 1999. Continuou com a tradição acomodatícia de entregar as finanças para o mercado e tentar contrabalançar com desenvolvimentistas em outras áreas do governo. Ele teve uma boa oportunidade em 2008, mas preferiu não confrontar os grandes interesses estabelecidos nas finanças.

 

O resultado é similar ao que Albert Hirschman já identificara; um pouco de cada coisa dificilmente forma um todo coerente. Pode agradar aos membros da coalização de governo vigente. É difícil para muitos admitir que o governo Lula (2003-2010) deu sorte porque os preços das commodities que exportamos foi favorável ao distributivismo petista. Bom, e ainda é duro para alguns aceitar que o Brasil “melhorou” porque os outros pioraram a partir de 2008.

 

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