Debate sobre artigo de Walter Feldman (PSDB-SP), publicado na Folha de São Paulo no dia 22 de fevereiro último
Ceci Juruá: Enquanto o PSDB não fizer uma autocrítica das privatizações escandalosas que promoveu no governo FHC, não tem o direito de ser escutado. Está jogando para a platéia com olho nas eleições. Quem entregou o Banespa ao Santander ?
As privatizações com desnacionalização têm um conteúdo político histórico, no Brasil e em qualquer país da periferia. Abre a porta à corrupção em grande escala e à captura dos quadros administrativos nacionais. E não é só com dinheiro não, que eles atuam. Observe as invasões imperiais. Veja Rosa Luxemburgo, por exemplo. Alain Touraine já dizia, há mais de uma década, que as empresas são os soldados da nação ! Quando as empresas, sobretudo as estratégicas, são desnacionalizadas, elas se tornam soldados de nações estrangeiras.
Roberto Araujo: Com todo o respeito, tenho uma visão mais simples e, talvez, um pouco mais ingênua, mas, até agora, não fui convencido do contrário. Depois da decepcionante experiência de convívio com o grupo dominante do governo, vendo como pensam de perto, continuo convencido que o tema PSDB x PT se resume a PODER. As análises na mídia e mesmo nas redes da internet querem dar um sentido que, a meu ver, é irrelevante. Estamos “presos” nessa questão da privatização x concessão, que, teoricamente, são realmente distintas. Mas, dada a total incapacidade do estado de estabelecer um padrão de regulação que proteja o interesse público, sob o ponto de vista do cidadão, dá no mesmo. Isso para não citar regulamentos aprovados no congresso que são explicitamente favoráveis aos interesses do capital! Ou seja, estamos lidando com instituições que praticam regras ilegítimas, mas totalmente legais!
Além disso, ter o governo FHC como paradigma para mensuração, classificação, comparação, aprovação ou seja o que for, é uma enorme vantagem. Eu tento não cair nessa armadilha, pois, sob essa lente, o Brasil é o da propaganda de governo. Não acho que não se deva “escutar” o PSDB. Depende o que se está dizendo. No texto em questão, há os previsíveis auto elogios, mas há verdades inquestionáveis. Pelo menos no meu ponto de vista.
Rodrigo Medeiros: Estamos presos na “armadilha do subdesenvolvimento”, como sugere Celso Furtado no documentário disponível no YouTube ‘O longo amanhecer’? Segundo o CAGED, cerca de 70% dos postos de trabalho gerados pelo setor formal do mercado de trabalho brasileiro se encontram na faixa de até dois salários mínimos.
http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/120216_comunicadoipea135.pdf
A informalidade é ainda colossal no Brasil. PT x PSDB, quais as grandes diferenças mesmo?
André Luiz Pinheiro de Almeida: O mundo atual está passando por um momento de estagnação não só econômica e social, mas também política. Veja o que está acontecendo nos países ricos (europa e Estados Unidos) vemos, infelizmente dois grupos que vem se revezando no poder, mesmo com as maiores calamidades que esses partidos trouxeram para seu país, que futuro um espanhol pode ter se a opção para os conservadores são os socialistas travestidos que impuseram o maior arrocho aos trabalhadores espanhois, ou o grego que terão que escolher entre os dois partidos que levaram o país a catástrofe.
Qual a diferença entre os trabalhistas e os conservadores britânicos? ou entre os socialistas franceses e os conservadores de Sarkozy?
Infelizmente o mundo precisa de uma reciclagem de ideias, o que ocorreu no século XIX e no século XX o que levou a criação do estado de bem estar social.
Precisa de uma reforma política de verdade que garanta novas ideias que arejem o mundo senão vamos corremos o risco de ficarmos nessa mediocridade ideológica por mais de 150 anos.
Fiz essa introdução para verificar que no Brasil está tendendo para o mesmo caminho. Será que teremos que aguentar esses dois partidos se revezando no poder por todo o século XXI? a reforma política que as elites querem empurrar goela abaixo dos eleitores fatalmente levará a isso. Principalmente se o voto em lista fechada for adotado no Brasil, aí teremos grupos legítimos que ora são representados no parlamento tendo que mendigar representação no congresso e os mesmos serão sempre eleitos, prejudicando a modernização das ideias e dos compromissos no país.
Paulo Timm: Amiga Ceci, não ia comentar sua observação sobre o PSDB. Mas como o assunto continua rolando, me decidi a fazer algum comentário. E até me justifico: Embora tenha sido comunista militante e depois fundador do PDT, numa trajetória já superior a 40 anos, não me sinto mais à vontade no esquema teórico da velha esquerda de inspiração marxista. As vivências das últimas décadas me afetaram decisivamente. Curiosamente, sinto grande afinidade com alguns intérpretes da esquerda mundial. Outro dia assisti a uma entrevista com Il. Wallerstein na Globonews e sintonizei muito com ele. Como aliás, há muito tempo sintonizo mais com o filósofo das ENCRUZILHADAS, o meta-marxista CASTORIADIS, do que com os Althusser(es). Mas sinto que no Brasil a esquerda, principalmente a que hoje se propóe crítica às políticas do Governo , continua aferrada ao que denomino de velha esquerda. Dou um exemplo, que tem a ver com o que o André Luiz fala: O mundo caminha , como dizia o velho Marx, inexoravelmente, para o socialismo, no formato em que o herdamos das Revoluções Comunistas do Seculo XX? Um Estado forte, centralmente planificado, com o controle total cultura e da vida política? Eu , honestamente, acho que não. Fecho com o Wallerstein: Náo queremos o que aí está mas não sabemos mais muito bem o que desejamos como alternativa. Provavelmente, até, as alternativas serão variadas. E alguns retrocessos, inevitáveis. Outro dia falei particularmente à Ceci – e também ao Flavio Lyra – que tenho sobre o Estado uma noção teórica e prática totalmente diferente da que tinha anos atrás. Até lhe disse que temo dizer tudo o que penso porque me falta estofo teórico-filosófico para levar esta CONFISSÁO às últimas consequências. Antes de respirar três vezes, terei sido abatido pela ortodoxia. A verdade é que descobri, tardiamente, que a noção de Estado , como o tomamos no marxismo, teve sua origem próxima em HEGEL, que o considerava a criação ética suprema do Homem. Descobri, também, que o ILUMINISMO enterrou a concepção de Deus como origem de todas as coisas pela secular idéia do Estado como fim último. Desde entáo, voltei-me para a Sociedade e a Comunidade. Decididamente, dou `a Sociedade – e náo se confunda com Sociedade Civil – tanta ou mais importância do que ao Estado. Nesse contexto, a grande briga no Brasil, náo é CONTRA O PSDB e a FAVOR DO PT. Como o André, acho este marco muito limitado às tarefas que temos para aprofundar a democracia, único caminho capaz de sustentar um novo modelo de desenvolvimento entre-nós, para-nós. Eu também náo vejo grande diferença entre os Governos do PT e do PSDB em termos de POLITICA ECONOMICA, embora veja muito maior densidade social e vocação democrática no Governo PT. Mas também maiores riscos, pela possiblidade que tem de atrelar movimentos sociais a interesses partidários eleitorais. Enfim, como um utópico socialista que acha a paz é a maior das revoluções, contrário às teses em voga do fortalecimento militar do país , ofereço minha cabeça em holocausto… Batam!!! Quem sabe eu comece a ver de novo coisas que já náo vejo mais no velho modelito que tanto me empolgou na juventude?